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A eleição de Bolsonaro é, nesse sentido, a vitória de um modelo civilizacional cristão, conservador, racializado, de fronteiras sociais bem demarcadas, onde o lugar da mulher permanece subalternizado, o homossexual (a menos que membro das elites) é representante do demónio na terra, e por isso deve ser erradicado.

O BRASIL ELEGEU COMO PRESIDENTE sob uma áurea de candidato antissistema, alguém que passou quase 30 anos dentro do congresso, fazendo uso-fruto máximo do erário público. Debaixo da capa de herói nacional, vive um político comprometido com os interesses económicos dos madeireiros, da indústria do armamento, dos grandes produtores agrícolas e de gado. Um político que na sua carreira favoreceu familiares e recebeu subornos indiretos, por via partidária. Nem o discurso claramente homofóbico, racista e misógino chegou para acautelar a onda bolsonarista que varreu o país. Em nome do rigor, foi, precisamente, esse discurso que lhe valeu a eleição.

 

O Brasil jamais foi capaz de acertar contas com a história, e a Democracia Racial prevaleceu, somente, como mito. O forte incentivo à imigração europeia, com o intuito de embranquecer a população, foi bem alavancado num ideal civilizacional que não combinava com o caráter multiétnico e plurirreligioso do país. O Brasil das elites políticas, económicas e socialmente favorecidas era o Brasil deles, onde caberia ao pobre e ao negro, geralmente e idealmente associados, o papel de vozes subalternas ad eternum. Quando o PT, à margem da corrupção gritante, foi capaz de produzir medidas sociais que possibilitaram estreitar as fronteiras sociais e permitiram verdadeiros saltos sociais a negros e pobres – como as quotas raciais e a ProUni, só para citar dois exemplos na área da educação –, as elites sociais torceram o nariz. Como se costuma dizer, o antipetismo nasceu quando a família da doméstica se encontrou com a família da patroa no aeroporto. E isto não é metáfora, é um facto.

 

Em segundo lugar, no doce embalo do elitismo social, cresceu, desde a década de 1960, a corrente neopentecostal, um agregado de igrejas evangélicas, que reconhecendo as caraterísticas do campo religioso brasileiro popular, com os processos de cura e de consultas de entidades religiosas, que vai do espiritismo de influência europeia, à muito brasileira Umbanda e ao mais africano Candomblé, foi capaz de produzir uma teologia da prosperidade e uma guerra santa, oferecendo outras curas para os mesmos males. Nesse quadro, vigorou uma moralidade cristã, historicamente presente, mas agora extremada, com um controlo absoluto sobre a vida dos fiéis, demonizando tudo o quanto signifique lazer e maior compreensão do mundo. As potencialidades económicas e eleitorais de tais igrejas rapidamente chamaram à atenção das elites políticas conservadoras, formando alianças poderosas que levaram à constituição de uma musculada bancada evangélica no Senado e a um controlo da informação por via da detenção dos órgãos de comunicação social.

 

Para que o Brasil fosse definitivamente controlado era preciso exorcizar o PT. Demonizar a sua existência, marcada pela abertura religiosa, pela defesa das minorias étnicas e sexuais, pelas medidas de empoderamento feminino e das classes mais pobres. A corrupção deu a oportunidade única para o golpe muito pouco misericordioso, em que o malabarismo da informação permitiu branquear a história e fazer crer que fora o PT que criara a corrupção sistémica, ao mesmo tempo que a ditadura militar começava a ser suavizada, na esteira psicológica da nostalgia e na oportunidade política da tomada de poder.

 

Por tudo isto, não é possível menosprezar o impacto decisivo da religião. Quem não entender que esta eleição foi veiculada pela histeria de fé não entende, efetivamente, o que se passou. O discurso de vitória de Bolsonaro, em que mais se veiculou Deus do que política, é reflexo desse clima teocrático que governa já o país. É no quadro da religião que se que fabrica o messianismo – com o herói que salvará o país –, o nacionalismo enquanto devoção à pátria (terra dos pais fundadores), a moralidade conservadora onde não cabe o empoderamento feminino, a comunidade LGBT ou o negro enquanto representação da baixa moralidade, com as suas macumbas, o seu sexo sem laços afetivos e matrimoniais, a promiscuidade que atenta contra o quadro cristão. Não basta a Jair Bolsonaro se fazer acompanhar de um negro para todo o lado para parecer que não é racista. As elites históricas sempre o fizeram como sinal diacrítico de poder económico. O negro amestrado é símbolo da sua posição social. A eleição de Bolsonaro é, nesse sentido, a vitória de um modelo civilizacional cristão, conservador, racializado, de fronteiras sociais bem demarcadas, onde o lugar da mulher permanece subalternizado, o homossexual (a menos que membro das elites) é representante do demónio na terra, e por isso deve ser erradicado. Por fim, o desapego à Democracia e o amor à tomada de poder estão revigorados, bem evidente nas batidas policiais às universidades nos últimos dias. Esses ataques não surgem por acaso. A universidade sempre representou o espaço da consciência cívica e da resistência à ditadura. Os próximos alvos serão os sindicatos, as sedes do PT, os movimentos negros e LGBT, os templos (terreiros) afro-brasileiros. O seu eleitorado bem alertou: é melhor jair se acostumando.

 

A culpa não morre solteira, no país que já foi do PT

 

            O PT foi, com efeito, o segundo grande derrotado da noite. O primeiro, claro está, foi a democracia. É, pois, tempo do Partido dos Trabalhadores se reconciliar com o seu histórico, ao mesmo tempo que precisa reconhecer que o seu eleitorado, sendo de largo espetro, não se compadece com falhas de tamanha envergadura. A arrogância governativa que foi veiculada pelo desprezo pelas instâncias judiciais foi paga caro, com uma fatura pesadíssima para o país. Ter insistido em Lula da Silva – mesmo que eventualmente inocente – foi um erro atroz. Fruto dessa arrogância de quem se toma por garantido no poder. O PT não aprendeu nada com as eleições americanas. Trump não se elegeu, apenas, à custa do eleitorado redneck, mas muito à custa do eleitorado volátil que, em circunstância normal, teria votado no Partido Democrata, mas que castigou a arrogância do aparelho partidário, que insistiu em não ouvir a preferência geral por Bernie Sanders. O que o PT, portanto, deveria ter feito, era ter apresentado, ab initio, Fernando Haddad como candidato, aproveitando a oportunidade para romper com o modelo vigente do partido e, descolando o seu candidato – alguém longe da corrupção, vencedor do prémio ONU de empreendedorismo em 2016, enquanto prefeito de São Paulo, e que enquanto Ministro da Educação foi responsável por projeto como ProUni, a reforma do vestibular, a criação de dezenas de universidades públicas, entre outras medidas – de Lula e Dilma. Não tendo tido a audácia, a clarividência e a coragem políticas de o fazer, o PT é, agora, obrigado a uma profunda reforma, se quiser voltar a posicionar-se como alternativa a Bolsonaro, recuperando credibilidade. Para tanto, precisa limpar as suas trincheiras, fazer mea culpa junto dos eleitores, valorizar as suas conquistas, e entregar a Haddad a reorganização estratégica do partido. Sem isso, será melhor jair se acostumando a ficar para trás, hipotecando a democracia brasileira, num contexto em que Ciro Gomes mais do que comprometido com a democracia fez desta segunda volta palco para o seu objetivo de tomar o lugar do PT como alternativa à esquerda. Esperemos que o eleitorado brasileiro se lembre de tamanho ato de egoísmo. Tão grave quanto a elevada abstenção. Como disse Martim Luther King, “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”.

 

(texto também ali)

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A poucas horas de vermos o Brasil se tornar um país que elegeu um presidente assumidamente homofóbico, racista, misógino e fascista, uma última consideração sobre o processo de suicídio do PT. Quando o Partido Democrata decidiu ignorar o apelo do seu eleitorado e de importantes figuras do partido, varrendo Bernie Sanders para debaixo do tapete, para apresentar Hillary Clinton como candidata a Presidente dos Estados Unidos, partiu do erróneo princípio de que o eleitorado democrata seguiria em massa a escolha. Não tomou em conta a perceção generalizada de que Hillary se apresentava como a candidata dos interesses de Wall Street, dos vícios do poder político e das suas promiscuidades com o poder económico. Em consequência disso, levou uma valente tareia, pois uma parte do seu eleitorado, confiante que uma figura como Trump jamais seria eleito, votou no atual presidente dos EUA como protesto contra o autismo do Partido Democrata. As consequências políticas foram as que conhecemos. 

Similar erro cometeu o PT. Mergulhado num clima de suspeição -- com uma imprensa que gritou os escândalos de corrupção do seus deputados e outros membros e que falou baixo da corrupção dos demais partidos --, o PT, em toda a sua arrogância de quem está no poder, insistiu em manter como candidato presidencial Lula da Silva. Ainda que esteja inocente, não é democraticamente saudável nem politicamente sustentável apresentar um candidato nestas circunstâncias. No estado atual, caberia ao PT ter apresentado desde logo Fernando Haddad como candidato e ter defendido, de forma clara e transparente, a investigação interna e a reforma partidária. Construir um novo PT em torno de Haddad, valorizando os méritos do passado e apontando o dedo e punindo os erros também, teria valido ao partido uma outra confiança popular. Os erros estratégicos pagam-se caro. E o PT sacrificou a Democracia em nome de uma dinâmica interna típica dos partidos comunistas. 

 

{originalmente em O Coletivo}

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UM DOS FENÓMENOS SOCIAIS mais interessantes da ascensão de Bolsonaro, encontra-se na conquista quase absoluta do eleitorado emigrado para Portugal. Foram 89% dos votos. Em primeiro lugar, é preciso levar em consideração que esse eleitorado não compartilha um mesmo perfil sócio-económico, mas partilha, pelo menos, um aspeto central desencadeador do fenómeno migratório: a insegurança. Na sua esmagadora maioria, os brasileiros em Portugal realizaram a travessia do atlântico escapando ao clima de violência brutal que assola o país. Quando se leva em consideração as motivações eleitorais sabemos, até por experiência da geografia política europeia, que o fator segurança é determinante na forma como se constrói um eleitorado em torno de movimentos extremados, que manipulam o desejo quotidiano e primário por uma vida sem crime. Perante uma liberdade que é tomada como dado adquirido, a segurança torna-se o principal fator eleitoral. Um candidato que prometa acabar com o crime, num país atolado de cadáveres, é altamente sedutor. Esta narrativa ganha um contorno particular diante de uma população que vê uma brecha de possibilidade de regresso ao seu país. Aspetos ligados à perseguição política, aos abusos de poder policial, e a violenta inversão de políticas sociais não aparecem, em primeira mão, equacionados. 

Em segundo lugar, temos um eleitorado que se auto-percecionada como tendo ascendido socialmente. Tratam-se de pessoas de baixa renda, pobres, que pela experiência de emigração conseguem obter renda maior, pelo que no conjunto de tais fatores não se reconhecessem mais como parte do eleitorado tradicional petista, em contraste com familiares, amigos e vizinhos que foram deixados para trás. Eles já não são pobres, são brasileiros da europa, são "europeus" no olhar do seu grupo social de origem, e assim se reconhecem. Ao mesmo tempo, muitos deles são colhidos pelo movimento de fake news via whatsapp. 

Em terceiro lugar, temos um eleitorado recém-emigrado, uma elite económica brasileira que chega a Portugal fugida da violência. Uma elite historicamente construída no ideal da «casa grande e senzala», do fosso e da estratificação sociais, e assim ultra-conservadora que se revê numa parte significativa do discurso de Bolsonaro. Essa elite que culpa o PT pelos males do Brasil, olha para Bolsonaro como uma janela de oportunidade de regresso ao seu país, sabendo, ainda para mais, que aquele será um presidente que protegerá os interesses desse eleitorado. 

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As eleições presidenciais brasileiras traçaram um novo mapa sócio-político no país. A intensa campanha anti-petista, baseada não apenas nos escândalos de corrupção, mas igualmente num elevado número do que hoje se designa por fake news, associada a um clima de medo permanente derivado do elevado crime que assola o país, permitiram a emergência de Jair Bolsonaro, um candidato cuja campanha eleitoral se baseia num discurso misógino, racista, anti-LGBT e pró-ditadura militar. O apoio declarado das principais Igrejas neopentecostais -- gerando uma onda messiânica em torno do mártir Bolsonaro -- e uma nostalgia nebulosa do período da ditadura militar, cozinharam o caldo sociológico para que Bolsonaro surgisse envolto na aura de "salvador da Pátria". O seu discurso militarizado serviu para alimentar clusters sociais tendencialmente extremistas e perigosos, que encontraram uma figura que personifica o seu ideal fascista. Ao mesmo tempo, as elites brasileiras, que viram as classes mais desfavorecidas conquistarem direitos sociais que lhes pesaram nos bolsos, equilibrando ligeiramente a balança social e permitindo uma brisa de mobilidade social, encontraram em Bolsonaro a narrativa ideal, ao anunciar o fim do 13º mês, da bolsa família, dos direitos das domésticas, do direito a férias, das cotas raciais nas universidades públicas, e outras iniciativas do governo do PT que permitiram colocar uma tábua sobre o fosso entre ricos e pobres, brancos e negros no Brasil. Todas essas iniciativas sociais foram essenciais no enfatizar de um sentimento anti-PT enquanto pretexto para uma nova velha ordenação social brasileira, historicamente demarcada entre a Casa Grande e a Senzala. Todavia, a insatisfação anti-petista é uma estratégia, uma oportunidade política que permite revitalizar aspirações ditatoriais. Isto porque, Bolsonaro não era a única alternativa a Fernando Haddad -- que estaria, por exemplo, em Ciro Gomes ou na menos popular Marina Silva --, mas era, sem dúvida, a única alternativa anti-democrática.

Portanto, não restam dúvidas do que está, efetivamente, em causa nestas eleições, as quais vêm sendo marcadas pelo histerismo que, em alguns lugares, descambou em violência, tendo ocorrido, no dia de ontem, o homicídio de um mestre de capoeira, de 63 anos, em Salvador da Bahia, depois de declarar, num bar, ter votado em Fernando Haddad. No Rio de Janeiro, em alguns locais de voto, foi montada uma coação, perfeitamente ilegal, com vista à obtenção de votos em favor de Bolsonaro. As fake news, em torno do candidato do PT multiplicaram-se. Tratam-se de casos que evidenciam um clima que faz pano de fundo de uma nova ordenação político-social brasileira. Seja qual for o próximo presidente do Brasil, o mapa ideológico brasileiro estará fortemente bipolarizado. Está, novamente, em frenética ascensão um cenário de fronteiras traçadas a linhas espessas. 

O Brasil está, hoje, dividido, não entre anti-petistas e petistas, mas entre pró-regime militar e anti-regime militar. Acautelo-me ao uso do termo fascistas, por considerar que, e em cuidada análise, uma larga maioria dos eleitores de Bolsonaro não possui o manual de informação capaz de compreender o que está em jogo com o fascismo, nem é exatamente isso que esse eleitorado deseja, mas antes um regime onde sacrifiquem a sua liberdade (da qual têm pouca consciência) para poderem usufruir de uma (falsa) sensação de segurança. 

 

Nem o PT é o Demónio, nem Haddad é Lula

A demonização do Partido dos Trabalhadores (PT) resulta de uma estratégia de concertação de forças políticas, religiosas e imprensa conservadora com vista a restauração de uma sociedade cavada num fosso étnico-cultural. Num plano das utopias políticas, o Messias Bolsonaro foi apresentado como o homem que restauraria a ordem, o progresso e a moral cristã num país onde a franja religiosa evangélica é, cada vez mais, o próprio couro cabeludo. A coincidência das agendas políticas e religiosas fecundou uma oportunidade perfeita. Justapôs-se o perigo vermelho do comunismo ao vermelho do demónio. O problema é que o PT não é o demónio. Efetivamente marcado pela corrupção e por uma ineficiente gestão de Dilma Rousseff, a era do PT foi, também, caraterizada por enormes avanços sociais e por políticas educacionais tremendas, como a bolsa família, as cotas raciais, o ensino da cultura afro-brasileira e ameríndia nas escolas, entre inúmeras outras, que permitiram o surgimento de uma geração escolarizada entre as classes historicamente desfavorecidas e um ajuste com a história brasileira varrida para debaixo do tapete sob o epíteto do branqueamento social e cultural. Evidentemente fracassado em algumas matérias, os governos do PT foram determinantes num virar de página de um Brasil economica e culturalmente racializado, em particular ao nível das instituições. Enquanto isso, nos lares mais favorecidos crescia um sentimento de insatisfação. Os episódios de manifestações nas universidades pedindo o fim das cotas raciais, sob o lema "não queremos negros aqui", foram prova declarada do que estaria em marcha. 

Ora, além da demonização do PT, a campanha pró-Bolsonaro é marcada pela coincidência entre Lula da Silva e Fernando Haddad, o candidato indicado após a exclusão do histórico líder dos Trabalhadores. Essa campanha, todavia, encontra respaldo na própria campanha do PT. Com Lula afastado judicialmente das eleições, o PT fez saber que «Haddad é Lula, e Lula é Haddad», enfatizando uma continuidade entre políticos e políticas. Aqui residiu, com efeito, uma falha por parte do PT. É que o descontentamento anti-petista figurava na figura desgastada (ainda que parcialmente de forma injusta) de Lula da Silva. O afastamento judicial do seu líder representava uma oportunidade para novas aspirações político-ideológicas. No entanto, o PT caiu nas mesmas falhas de históricos partidos da mesma natureza ideológica. Ao enfatizar as continuidades, perdeu-se a oportunidade de chamar à atenção do perfil particular de Fernando Haddad, cujo currículo científico e político são de uma evergadura moralizadora para o país: licenciado em Direito, Mestre em Economia, Doutorado em Filosofia, Professor de Ciência Política na USP. Enquanto ministro da Educação, de 2005 a 2012, foi responsável pelo FIES (Fundo de Investimento Estudantil), pelo ProUni (Programa Universidade para Todos), um programa de bolsas para os mais carenciados, e pelo reformular do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio). Entre 2013 e 2016 foi prefeito de São Paulo, tendo sido distinguido pela ONU como o melhor prefeito da América Latina. Portanto, se o PT tivesse sabido planear a sua campanha, descolando Haddad de Lula, e apresentando-o como o candidato de uma nova era do PT, neste momento estaríamos numa campanha eleitoral entre um político e académico com uma carreira invejável e um político que em 30 anos só aprovou leis que beneficiaram os deputados e propagou o ódio, sem apresentar qualquer ideia de governo. 

 

{texto originalmente publicado no blog do Centro de Estudos Internacionais (CEI-IUL) do ISCTE}

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Bolsonaro é produto de um grande esquema político-económico-mediático que constitui fraude eleitoral. A manipulação do eleitorado em grupos e mensagens do whatsapp é um crime gravíssimo que atenta contra o Estado de Direito. O ato eleitoral deveria ser impugnado e Bolsonaro deveria ser judicialmente impelido a comparecer aos debates que se esquiva por nada ter a dizer. Sem capacidade de debater com Haddad, Bolsonaro conta ser eleito com base em informações forjadas.

 

 

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O MOTOR DESTAS ELEIÇÕES TEM SIDO, efetivamente, o sentimento anti-PT. Trata-se daquilo que o teórico Triaud chama de «memórias instituídas» que resultam de intencionalidades político-ideológicas que visam reforçar a identidade ou ideologia de um grupo. Se à primeira vista poderemos tender a não encontrar nestas eleições brasileiras respaldo desse quadro teórico, a verdade é que um mergulho mais cuidado na realidade sociológica e política brasileira revela, precisamente, o contrário. A forma como corrupção e PT foram associados, varrendo para longe o historial de corrupção como parte estruturante da política brasileira ab initio, revela a intencionalidade política dos seus difusores. O processo conhecido como Lava-Jato serviu de pano de fundo para uma campanha de desgaste da imagem do Partido dos Trabalhadores, tendo por climax o impeachment de Dilma Rousseff e a prisão de Lula da Silva. Mais uma vez é varrido o contexto para debaixo do tapete. É preciso recordar que o impeachment de Dilma se baseou numa caça-às-bruxas, em suspeitas infundadas de corrupção por parte da então presidente do Brasil, suspeitas que nunca se vieram a revelar verdadeiras. Em abono da verdade, o que se sucedeu foi um estancar do processo, à medida em que o Lava Jato ia arrastando cada vez mais membros da teia golpista, envolvendo muito mais políticos do PSDB do que do PT. 

 

No entanto, é preciso ter presente que as atuais eleições nada têm a ver com verdadeA forma como as redes sociais têm sido usadas no sentido de propagação de fake news merece urgente e profunda investigação, quer científica, quer político-judicial. Por ordem inversa de prioridades, inclusive. Esse caldeirão tem fermentado uma onda anti-petista como não há memória. A reboque da teoria da corrupção, a sociedade brasileira tem tirado do armário a sua homofobia, o seu racismo, a sua misoginia, jogando nas ruas e viralizando as tensões mais determinantes da sua história, cavando o fosso e fazendo eclodir um clima de violência. A militarização dos apoiantes de Bolsonaro é um fenómeno que se inscreve na longa tradição fascista-militar sul-americana, que se alimenta de uma lavagem da história dos regimes fascistas europeus. É, então, neste palco de um país conservador, homofóbico, racista, misógino e fortemente apoiado pelas agendas políticas das emergentes igrejas evangélicas, que o sentimento anti-PT descamba num apoio a Bolsonaro. Porque do anti-petismo a Bolsonaro não vai um passo. Não vai mesmo. Pelo meio, o centro-direita esvaziou-se, ficando o seu eleitorado convidado a escolher entre a esquerda reunida num PT para todos os gostos (do centro-esquerda à extrema-esquerda), mal ou bem, como bastião da Democracia, e a extrema-direita de Jair Bolsonaro, um movimento que visa a restauração da ditadura militar. A partir do momento em que o centro-direita não foi capaz de contrariar a onda fascizante de Bolsonaro, mantendo o país dentro de uma esquadria democrática, resta-lhe poucas opções: ou é conivente com o fascismo ou abandona o seu perfil político e segura a democracia que resta no país. Pelo meio disto caiu a opção mais segura, Ciro Gomes, o candidato do centro-esquerda, o qual seria a escolha mais óbvia para aqueles que considerando que o tempo do PT acabou, ainda acreditavam em soluções sociais justas e na Democracia. Por isso, não, isto não era entre o PT ou Bolsonaro. Só se tornou tal graças à falência do centro-direita, do centro-esquerda e à histeria gerada em torno de Bolsonaro. Caso se venha a confirmar a eleição do candidato fascista o Brasil vai acordar já tarde. Porque a história ensina que as ditaduras só aprofundam os problemas do país. 

 

{adenda: obrigado à equipa dos Blogs do Sapo pelo destaque deste texto}

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A ASCENSÃO DE JAIR BOLSONARO, um político sem programa de governo, e que por golpe mediático e onda popular aparece como Salvador da Pátria, não é novidade no Brasil, um país caraterizado por fortes assimetrias sociais e económicas, com uma forte densidade populacional de baixíssima renda e escolarização mínima ou má escolarização. Este cenário é agudizado pela forte alienação religiosa e pelo altíssimo índice de criminalidade, gerando um caldo sociológico propício ao surgimento de messias políticos, alguém que pareça reunir os predicados capazes de restaurar a ordem e os bons costumes, num país de fortes tensões entre conservadorismo extremo e significativa presença da comunidade LGBT, diversidade étnica, cultural e religiosa. O franco crescimento das igrejas neopentecostais, capazes de galvanizar milhares de fiéis e com propensões para alianças políticas -- tendo gerado uma bancada evangélica no Senado brasileiro --, impulsiona a dimensão messiânica da população brasileira. Esta onda popular já havia elegido Fernando Collor de Mello (na imagem), sob os mesmos epítetos: mito, herói, salvador. Os resultados da governação de Collor de Mello foram desastrosos. Com efeito, ao contrário de Bolsonaro, Collor vinha provido de um programa de governo liberal, fortemente marcado pelas privatizações e pela abertura às importações -- o conhecido programa Collor --, que conduziu o país a uma violenta recessão económica. 

A mesma propensão salvacionista levou à eleição de Luís Inácio Lula da Silva, um herói advindo do povo, da classe operária, um herói ao estilo da literatura de Jorge Amado, coincidente com o grosso populacional brasileiro. O seu programa de governo produziu mudanças profundas na sociedade brasileira, com inúmeras medidas sociais, educacionais e culturais. O descontrolo sobre a gestão do erário público e a incapacidade de controlar a corrupção, aliada a uma pressão dos setores conservadores sobre os media, durante o período de Dilma Rousseff, foram responsáveis por um golpe político aclamado pelas elites, saturadas do peso de tais medidas sociais sobre a sua renda. 

Contrariando o esperado pelas elites políticas conservadoras brasileiras, Jair Bolsonaro, um político sem trabalho realizado, pró-ditadura militar, homofóbico, misógino e racista, sem qualquer projeto político ou programa de governo para o país, foi capaz -- precisamente fazendo uso desse vazio de ideias para disseminar apenas um sentimento anti-petista e de radicalização discursiva -- de colar-se ao papel do messias. Contudo, ao contrário de Collor de Melo, como visto, Bolsonaro é um candidato sem ideia de governo, alguém que se esquiva dos debates políticos por não ter nada a apresentar como programa para economia, saúde, educação, finanças ou relações internacionais. Bolsonaro personifica o messias do pós-I Guerra Mundial na Europa, capaz de se alimentar e alimentar a histeria pública, sem propor outra coisa que não a demonização de uma franja social e política. O herói das elites e das massas evangélicas fanáticas é o messias do ódio, o Salvador pelo armamento popular, o candidato das fake news, sobre o qual não se possui qualquer informação sobre o que fará como presidente, precisamente porque o cenário não foi, com efeito, equacionado. O Brasil procura a Salvação no penhasco. 

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Quem teve a oportunidade de ouvir Paulo Portas e Manuela Moura Guedes comentarem as presidenciais brasileiras com alguma atenção, terá notado pontos comuns entre os dois comentadores. Em primeiro lugar um conhecimento superficial do Brasil, resultante, acima de tudo, de leituras rápidas de jornais e do contacto com pessoas das classes sociais historicamente favorecidas. Por exemplo, a associação que Paulo Portas faz entre o crescimento do número de evangélicos no Brasil e o facto do atual Papa ser católico é de uma ignorância profunda, não coibindo de disparatar em causa própria. Em segundo lugar, ocorre um fenómeno de branqueamento ideológico de Bolsonaro, em que os principais elementos da sua personalidade política são suprimidos. Portanto, as inúmeras razões que justificam a ascensão meteórica de Bolsonaro, ligadas ao discurso de ódio, mas também ao apoio da imprensa conservadora e do eleitorado evangélico, numa perigosa aliança entre religião, política e media, não são invocadas. Bolsonaro é apresentado como um Salvador da Pátria, um herói anti-sistémico, o militar impoluto (o que não é, de todo verdade), comandante do povo na luta contra o malvado PT. A história desta eleição não é essa. É de lamentar tamanho desconhecimento da realidade. Mais grave será se ambos se revirem, como de alguma forma parece acontecer, no discurso do candidato presidencial. A oportunidade revela os bolsominions*.

 

* designação corrente para os apoiantes de  Jair Bolsonaro

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A poucas horas de termos dados novos, não posso deixar de lembrar Alexis de Tocqueville, quando este dizia que as pessoas sacrificam bem a sua liberdade em troca de segurança. Para a classe média brasileira este é o argumento mais "clean" para votar em Bolsonaro. É uma justificativa bonita, bem engomadinha, que esconde o problema de fundo: o ódio face à mobilidade social e tudo o que esta encerra.

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O meu artigo no Público, hoje. 

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Dossier Presidenciais Brasileiras 2018


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