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Não se compreende a indignação generalizada perante o veto presidencial em relação à adoção por casais homossexuais bem como em relação às alterações à lei da interrupção voluntária da gravidez. Cavaco Silva fez questão, neste seu último ato político como Presidente da República, de vincar todo o seu manual ideológico, reforçando a trave-mestra da sua vida política. Cavaco sai como entrou: policia e defensor da moral e dos bons costumes, o homem que não há muitos anos chamou ao Dia de Portugal o "dia da raça". Ao menos sempre fiel a si mesmo e aos seus princípios, mesmo que sejam de antes do 25 de Abril. 

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Cavaco Silva, sempre muito imbuído de espírito natalício quando os governos são das suas cores, optou pelo status quo e por não incomodar o Tribunal Constitucional, não vá este continuar a fazer pautar a Constituição. Trata-se de uma decisão que nos endereça ao problema da necessária independência do exercício presidencial para que se cumpra um regular funcionamento das instituições e a salvaguarda da Constituição. Mas o cavaquismo sempre nos habitou que a prudência e a ação andam de braço dado com as cores governativas. Cavaco Silva é um homem comprometido com o PSD, mais do que um símbolo do conservadorismo quase-salazarista. Tudo isto para constatar que, a meu entender, o Presidente da República jamais deveria emergir dos partidos políticos. A lógica partidária serve a ideologia e assim os programas de governo que se cumprem nas autarquias e nos ministérios, mas não deveria influir na função presidencial a bem da independência. Teria Cavaco Silva enviado o Orçamento de Estados para fiscalização caso este fosse apresentado pelo PS? É uma pergunta que fica oportunamente. Nesse sentido, a independência presidencial estaria garantida se os candidatos fossem oriundos de setores ligados à vida pública para além dos partidos, como ONGs, movimentos cívicos, e ilustres figuras da sociedade. É uma ideia problemática, claro, pois toda ela mexe nos alicerces da política portuguesa, mas entre os pesos da balança o que seria mais favorável a independência do exercício presidencial? Hoje temos um presidente amarrado ao governo pelas cordas do partidarismo.

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CAVACO SILVA, será, creio, um apreciador de José Hermano Saraiva, levando em conta a tentativa de narrar a história recente da democracia portuguesa. Depois de largos minutos de demagogia absoluta, de valorização da sua figura no meio da cena política atual, Cavaco traz-nos exatamente o esperado - o modelo de governação proposto pelo PSD e CDS irá avançar. Paulo Portas será o real primeiro-ministro enquanto Cavaco assegura a preservação do universo laranja no poder, ao mesmo tempo que alicerça o seu legado: presidente sempre ao lado do governo, desde que o governo seja do PSD. Os argumentos podem ser expostos da maneira mais eloquente, no final tudo se resumo a uma ideia: Cavaco Silva é um presidente medíocre que permitiu uma encenação política que endossa Paulo Portas como real governante, e que mantém Passos Coelho como PM formal. 

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CAVACO SILVA procurou ser Presidente da República dos consensos, do status quo e da sobrevivência pessoal e do PSD. Ao governo PSD-CDS junta-se o PS, que de livre vontade caminha para a forca numa situação em que reconhece que será "preso por ter cão e preso por não ter" - a convergência com o governo é conivência com o rumo, a não convergência é procura desesperada pelo poder. O CDS, com ou sem a boa disposição de Paulo Portas (que viu fugir as rédeas do governo acordado com PPC), está empenhado na salvação nacional de iniciativa presidencial

Os excluídos - porque a Cavaco Silva a esquerda faz comichão e nada tem a oferecer ao país - pretendem um alinhamento próprio e alternativo. O BE quer convergir as forças canhotas, enquanto o PCP como tradicionalmente o faz, exclui o PS. Será neste jogo entre iniciativa presidencial e convergência maior ou menor à esquerda - que ficará responsável por fazer oposição - que se encontra depositado o rumo do país. Não é bom o horizonte.

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CAVACO SILVA tomou, finalmente, uma atitude. É claro que a proposta de Cavaco Silva jamais traria desordem política, pelo contrário, levando a sério o seu papel de pacificador do espectro político nacional, o PR procurou por um lado garantir a sobrevivência do PSD na governação e por outro amarrar o PS, silenciando a oposição-candidata, deixando à esquerda vermelha o exercício de oposição, um barulho que tende a afetar pouco o PSD ou o PR, himself. A verdade é que procurando um bloco central, um governo de consenso entre os "três grandes" Cavaco Silva arrisca o caos político absoluto. O PS dificilmente dará a mão a um governo em queda - hipotecando assim as aspirações futuras - e o acordo entre Passos Coelho e Paulo Portas fica em banho-maria. Cavaco é, concordo, o pior político português da história da Democracia portuguesa.

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A MISSA no Mosteiro dos Jerónimos foi um importante comício do PSD, com aplausos para o Primeiro-Ministro e para o Presidente da República. Sem as expensas e o cansaço de um congresso extraordinário do partido, o mundo 'laranja' reuniu todos os seus apoiantes numa missa que pareceu mais para esse fim do que para D. Manuel Clemente. O eleitorado conservador do PSD, e apoiante do PM e do PR, esteve ali todo reunido, não faltou um. E porque as missas são momentos de perdão e comunhão nada como fazer do ato um lavar de pecados e distâncias na governação, com um aperto de mão abençoado entre Portas e Passos.

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PASSOS COELHO não se demite porque, sabemos, levou uma vida inteira à espera da oportunidade de chegar onde chegou. São os perigos da dependência do carreirismo político - não se compadece com a dignidade institucional. De Cavaco Silva já se sabe que não é possível esperar mais, o comprometimento com o governo, em nome da laranja cor que pinta o horizonte, é total, o país e os deveres presidenciais que se danem. A precipitada, infundada e pouco legítima escolha de Maria Luís Albuquerque para ministra das Finanças foi o gota de água num governo já em cuidados paliativos, acelerados com a saída de Vítor Gaspar, grande ideólogo do governo de PPC. Paulo Portas, que até então segurava o governo e coligação, faz o jogo que lhe convém, saindo a tempo de deixar a imagem de que abandonou o barco quando ele estava já inavegável, quando o rumo era já absurdo, desesperado e com o qual não poderia pactuar. Numa manobra muito própria garante a credibilidade mínima para ir às eleições e regressar ao governo.

Infelizmente para os portugueses foram dois anos a viver a loucura absoluta, o desnorte político, o falhanço orçamental. Infelizmente para todos nós, o pós-isto-que-vivemos não será melhor. O PS, mais sério candidato a governar, avança com um PPC de feições mais à esquerda, mas não menos carreirista e candidato do acaso. Os nomes fortes retraem-se diante de tempos loucos, tempos de uma Europa germanizada, de uma Europa presa ao capitalismo selvagem, de uma Europa que teima em não ser por si, diante dos mercados incontrolados e desumanos da China ou Índia, por exemplo. 

Enquanto formos governados pelas jotas partidárias e não pelos competentes estaremos condenados. Militância e antiguidade não devem ser sinónimos de poder fácil. Isto ainda é uma Democracia e não um regime hereditário.

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Cavaco Silva planta árvore no jardim botânico e fala na importância económica da terra. Este Cavaco é irmão do que foi primeiro-ministro na década de 1990 e que assassinou a indústria nacional? Uma versão Miguel de Paulo Portas?

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COMEMORANDO o 10 de Junho Cavaco Silva fez questão de marcar a sua posição. Nada de novo, portanto, que o status quo existe para ser preservado. Sob a desculpa de que não entra em protagonismos, Cavaco desmarca-se das suas responsabilidades, atirando com a necessidade de uma atitude positiva como magistratura presidencial, esquecendo-se todavia de acrescentar: exceção feita nos casos em que o governo seja do PS. E depois de ter conduzido mal o país como primeiro-ministro é um vazio absoluto como presidente da República. Quadro exemplar de que a política portuguesa é um jogo com insondáveis regras e atores medíocres.  

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EM TEMPOS de crise o recurso à religião é um dado sociológico conhecido. No entanto não era comum em Portugal desde que Salazar se fazia acompanhar do Cardeal Cerejeira. Cavaco Silva faz-se, por estes dias, habitar de nostalgia e recupera a política mística. Depois de ter considerado que a sétima avaliação da troika teve inspiração da Senhora de Fátima, agora invoca São Jorge na luta por dias melhores, reproduzindo a simbologia dos santos invocativos que subjaz ao catolicismo popular português. 

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