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A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

Do Cartaz do Bloco de Esquerda

Fevereiro 26, 2016

Não poderemos ler este cartaz do Bloco de Esquerda (BE) a partir de uma lente teológica ou científica da religião. Nem que seja porque o mesmo não cumpre tal função. Não pretende, sabe-se, ser um convite à reflexão sobre a divindade ou essência de Jesus Cristo. Isto porque o debate poderia ser estendido ao ponto de se afirmar que Jesus seria, ele mesmo, o pai e o filho, ou filho de três homens - Deus-Pai, Anjo Anunciador e José, o pai de criação, e tantos outros desdobramentos. Não obstante o propósito do BE ser abrir a consciência para a diversidade que compõe o conceito de família -- e que os estudos de longo-termo da Antropologia comprovam definitivamente --, o recurso quase provocatório a Jesus como elemento-chave para o "sacudir" de consciências permite que as condenações se multipliquem e as críticas de natureza teológica possuam propriedade. É sempre perigoso transformar referenciais religiosos em alegorias políticas. 

Por seu turno, as críticas do CDS, que consideram o cartaz uma afronta à, cite-se, "sensibilidade dos portugueses", inscrevem-se numa leitura apressada da sociedade portuguesa, tomada pela sua uniformidade religiosa, a partir dos padrões ideológicos do partido, retirando qualquer força ou legitimidade às condenações, pois conferem ao cristianismo uma dimensão normativa no seio da sociedade portuguesa. Um erro. 

Portugal: Uma Sociedade de Direita?

Novembro 30, 2015

Não se pode negar que José Sócrates contribuiu para o desgaste do PS e, com isso, para a consolidação de um "benefício da dúvida" perante a coligação PSD-CDS. A mnemónica da herança socialista, da herança dos tempos do despesismo, para o qual as orientações europeias muito contribuíram, num período em que se acreditou que contrair mais despesa seria o ideal para ultrapassar a crise, serviu durante quatro anos como narrativa de legitimação governativa. Durante uma legislatura inteira a coligação encabeçada por Passos Coelho e Paulo Portas, jamais foi responsável pelas suas decisões. A mentira compulsiva surtiu os seus efeitos. 

Tudo isso é quase de somenos importância se levarmos em conta os efeitos sociológicos da coligação de esquerda liderada por António Costa. "Coligação negativa", "bota-abaixismo", "ilegítima", são inúmeros os adjetivos. Por todo o lado, da imprensa às ruas, se sentem as críticas a uma coligação em que o rosa se mistura aos vermelhos numa espécie de magenta. As pessoas habituaram-se a uma rotatividade entre PS, PSD e CDS, num eterno bailado dos mesmos, a qual passaram a ver como porto seguro. O "todos iguais" figurou como uma espécie de lamento costumeiro, algo que é mau mas que é bom porque que sempre tem sido assim. Quer isto dizer que os cravos empunhados, as "abriladas", foram gestos espontâneos de saudosismo, um reviver do espírito de Abril mas cujo horizonte de solução não era objetivado. Era desejar algo novo, uma solução mais social, mais humana, mais "de esquerda" mas sem a esquerda existente. É a sociedade dos mitos sebastianistas.

Todo este momento tem posto a nu a realidade ideológica nacional: um país de Direita marinada pela religião, pelas heranças dos brandos costumes, pelos medos dos "vermelhos" que trarão o comunismo. Nessa lógica, os velhos que vêm a política nacional como uma eterna luta de classes estão perdidos no tempo. Acima de tudo porque a "classe" tornou-se numa categoria sem operatividade. A noção de operariado foi dissolvida pela mobilidade social, mesmo que aparente, colocada em jogo pela sociedade de consumo. Entre o ter e o haver, ainda bem. Mas isto traduz-se numa sociedade em que cada qual se considera parte de um cluster economicamente distinto. A classe média vive o mito de classe alta. Ninguém lê o "Avante!" em público, ninguém votou no BE ou no PCP. É um eleitorado mais do que volátil - é temeroso. Usa o cravo como imagem, vota à esquerda para reforçar a oposição, mas quando tal produz um governo retrai-se e teme, como se dos pesadelos da infância voltasse o "papão". 

Esse mito de não-pertencimento a uma determinada "classe" está patente no estereótipo do eleitor de esquerda como pobre. Ninguém que vá de férias, trabalhe em serviços, vista fato e tenha um bom telemóvel pode ser de esquerda. O problema é que entre as camadas mais baixas da sociedade a esquerda foi desaparecendo, dando lutar a uma direita difusa. É a direita paternalista e referencial que Passos Coelho soube encerrar sobre si no tom calmo, humildade e paternal. Calhou bem em contraste com o anterior primeiro-ministro seguro de si, com roupas caras e um ar de "bon vivant". E a esquerda foi ficando nos velhos comunistas anti-PS e nos jovens abaixo dos 40 anos, numa lógica americana de que quem é republicano antes dos 30 anos não tem coração, acima dos 30 não tem cérebro. 

O PS passou a figurar, então, na cosmovisão portuguesa, como uma versão mais suave do PSD, mas jamais com tendências esquerdistas que o aproximem do BE e, "graças a deus!" longe do PCP. E isto faz-me regressar aos reflexos sociais. Não há dúvida de que o conservadorismo provinciano ainda produz os seus efeitos, particularmente quando mesclado ao capitalismo e à sociedade de consumo. Almejar ter a vida do patrão, fazer as suas férias, ter o que este tem, passa pela socialização terciária, pela modelagem comportamental em que os sujeitos copiam os gostos e tendências daqueles. Querer "ser como" é "agir como", e isso produz efeitos na intenção de voto, no voto real e na disposição ideológica. 

Portugal é, sim, uma sociedade de direita, moderada, marinada, e que teme a esquerda como a antítese da sociedade atual, jamais concebendo que a esquerda também se transforma. Felizmente na soma dos que acreditam na esquerda foi possível construir um amanhã novo, porque António Costa soube ousar. Mesmo que falhe ao menos tentou. Seja como for, os últimos quatro anos foram um mar de fingidos sucessos. 

A Parcial Democracia do Velho Continente

Novembro 06, 2015

Parcialidades. É exatamente assim que vai Portugal e a Europa, depreende-se dos comentários de determinados analistas políticos, do Presidente da República ou do líder do Partido Popular Europeu. A toda esta onda de histeria coletiva que varre o Velho Continente, junta-se a corrente humana em torno da Assembleia da República pedindo um compromisso alargado entre PSD, CDS e PS, pedindo, em fim, que o Partido Socialista dê a mão ao governo, que se mantenha dentro do status quo, que faça o contrário do que os outros fizeram para que a troika entrasse em Portugal. Percebe-se, claramente, que há na Europa ainda muitas fantasmas. Resquícios de um outro tempo. Sebastianismo e messianismos barrocos. Exaltações amnésicas. São os mercados temerosos, o capitalismo sem rosto que segue esbaforido, é a Democracia de cristal construída após a Guerra a vacilar. A caça às bruxas nunca desapareceu. O eminente acordo entre o PS, BE e CDU reaviva os estereótipos do "perigo vermelho". É um mal que vem ao mundo, é o fim dos tempos, é o Apocalipse bíblico. É como se não tivesse sido um acordo entre tais partidos a permitir, décadas atrás, por exemplo, a criação do Serviço Nacional de Saúde. Pior. É como se a Democracia só fosse possível, na Velha Europa, através dos partidos engravatados. Partidos, aliás, que vão em na linha do que escreveu Alexandre O'Neill, «País engravatado todo o ano, e a assoar-se na gravata por engano». Não há Democracia, portanto, em Portugal, que não passe pelo PSD e/ou CDS no poder. Somente eles assumem o papel de estabelecer a ordem e a moral. Tudo o mais são vozes da oposição, vozes que deveriam ter ficado silenciadas no tempo. Porque a Democracia é para pessoas "às direitas".