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A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

14
Out20

A Carta de Amor de André a Rui

André Ventura escreveu uma carta a Rui Rio, defendendo que a queda do governo socialista, que ele entende que virá, trará a oportunidade de governo a uma coligação "inevitável" entre o PSD e o Chega. Ventura é um tipo da área política do PSD que tinha pressa de chegar ao Parlamento e muita sede de protagonismo. Criou o Chega para atrair os votos das franjas sociais mais descontentes, com teorias da conspiração, com voz nas caixas de comentários. Mas ele não quer estar preso a estas amarras eternamente, a menos que tenha de ser. Por isso, tanto joga no campo da extrema-direita europeia, quanto tenta aproximações ao centro. Aquilo que ele mais quer é aquilo que ele mais acusa os outros de quererem: poleiro.

08
Out20

Um Achega

Em referência ao meu post sobre a expulsão do autor da moção de remoção de ovários, uma militante do Chega fez um post onde me tece algumas críticas. É uma das vantagens da Democracia, princípio pelo qual não temos a certeza de que o Chega tenha assim tanto afeto. A forma como André Ventura ataca os opositores políticos, a forma como as redes sociais do partido atuam distorcendo os factos e fazendo uso de chavões, estereótipos e ideias nacionalistas do começo do século XX, não deixam dúvidas sobre a forma como pretendem jogar o jogo político. É interessante ler no texto referido que o Chega é um partido "de cidadãos decentes, honestos, trabalhadores, pais de família, patriotas, cristãos e ateus, que não querem ver Portugal transformado numa Venezuela ainda mais pobre." Isto é ipsis verbis a narrativa dos apoiantes de Bolsonaro, quando na verdade por baixo desse belo véu está o racismo, a homofobia, o ódio de classe, o fanatismo evangélico e as saudades da ditadura militar. O que terá a dita senhora a dizer sobre os inúmeros militantes do Chega oriundos do PNR? E dos saudosistas do Salazarismo? Enfim, percebe-se que o combate cultural inventado por esta nova-velha-direita, reciclada dos anos de 1920 e 1930, espalhou-se pelo Ocidente. Por fim e já agora, quanto à castração química não há provas inquestionáveis de que seja uma solução segura, já que o estímulo sexual pedófilo é de natureza cerebral e pode ser satisfeito com objetos. 

05
Out20

AconChegados

Já tive a oportunidade de ver alguns momentos do Congresso do Chega. O partido padece dos mesmos problemas dos grandes partidos, mas a triplicar. É um conjunto de fações radicalizadas, que se odeiam, com objetivos e ideias diferentes para o país, a que se junta um grupo de sujeitos mais articulados com rancor ao sistema porque não fazem parte dele, e por isso estão ansiosos porque lá chegar. São pessoas que vociferam contra os tachos, mas que desesperam por um. Quanto a Ventura, personifica o líder carismático weberiano, mas no Chega, tal como nas Igrejas evangélicas, o líder não é amado por todos, notando-se a presença de desejosos de tomar o poder. Para compor o espetáculo, lá estava o homem que odeia as mulheres e o excitado com o partido que desdiz o líder - enquanto Ventura tentou transformar o ataque ao Estado Social num mito urbano, o voluntarioso sujeito afirmava o modelo ultraliberal de 100% privatizações.

30
Set20

Os Ovários de Ventura

A Direção do Chega quer a expulsão do autor da moção, rejeitada, para a remoção dos ovários às mulheres que pratiquem aborto fora do regime previsto pela lei anterior, ou seja em casos que não de má formação fetal ou violação. Não tivesse existido uma comoção nacional e a coisa passaria. No entanto, um partido que atrai todo o tipo de desajustados sociais, com as mais variadas soluções para "problemas" que assolam a sociedade, sujeita-se a ser um melting pot de delírios e fanatismos. Se a castração física de pedófilos atraia uma massa significativa de pessoas que acredita no modelo de justiça popular, a remoção de ovários representou um salto que o Chega só daria não havendo uma rejeição dentro do seu eleitorado. Perante a reação pública, Ventura quer ver essa nódoa rapidamente removida, não vá fazer estragos ao naperon que anda a costurar.

25
Set20

Micropost [57]

O que André Ventura disse de Paulo Pedroso e Ana Gomes é grave. Quem se revê nesta forma de fazer política não se revê na Democracia. Um Professor de Direito não deveria mencionar um processo arquivado colocando suspeitas sobre o sistema. Mais, não deveria falar em corrupção quando recebe vencimento para ajudar empresas a colocar dinheiro em offshores. Ele não quer mudar o sistema, ele quer tomar o sistema de assalto e controlá-lo.

02
Set20

Micropost [54] | ai meu rico Chega

Cinha Jardim foi ao jantar-comício do Chega em Setúbal, facto que André Ventura fez questão de enfatizar nas redes sociais. Enquanto ato político-simbólico, estamos diante de um sinal claro da transferência eleitoral do CDS para o Chega. Isto revela que uma enorme fatia do eleitorado daquele partido não era apenas católico-conservador, mas preconceituoso (étnico-racial, social, sexual, religioso, etc.), e estava ali na falta de um partido que desse real expressão aos seus valores e modelo de sociedade: segregadora, sem mobilidade social e diversidade cultural. O espírito do Estado Novo não desapareceu com o 25 de Abril, esteve apenas à espera de oportunidade de regressar. Quando os pobres perceberem que o programa do Chega não os representa já será tarde.

16
Ago20

Ai chega, chega, o meu D. Sebastião

Dá que pensar sobre como chegámos aqui. Creio que em grande parte porque o Estado Novo deixou uma ideologia de nacionalismo branco, lusotropicalista e colonialista. A História portuguesa nunca foi objeto de reflexão crítica. Simplesmente se manteve o país do Minho a Goa, a glória dos Descobrimentos e o serviço à humanidade da civilização cristã. Os povos não foram conquistados, foram civilizados. Não foram escravizados, foram realocados. Uma memória de ser português que passa por Fátima, pelo Ultramar como um direito natural roubado, pelo paternalismo com os povos mais pobres e o serventilismo com os mais ricos. E essa memória não aceita ser beliscada. É o ethos nacional. Essa memória produziu uma nostalgia do Estado Novo. A isto junta-se um cansaço face a uma classe política sucessivamente seduzida pela corrupção. Ora, o ar do tempo trouxe a nostalgia dos anos de 1920 e a ressurreição dos ideias do fascismo reciclado. Em Portugal, o sebastianismo torna-se fator de sedução pública - a ânsia pelo Messias que conduzirá a nação. É o salvacionismo político. Assim, o refugado do Chega faz-se com a glória dos Descobrimentos que não pode ter uma versão dos povos dominados, com o messianismo de um líder ungido na Santa Fé, e da ilusão de que a corrupção não faz parte do quotidiano nacional, do mais pequeno cidadão ao mais alto dirigente. E eis que temos Ventura, o católico fervoroso, defensor da memória pátria, e jovem puro. Um mito, claro, mas o mais profundo mito sebastiânico.

08
Ago20

Micropost [50] | Poder, a quanto obrigas

A disponibilidade de Miguel Albuquerque para dialogar com o Chega, depois de Rui Rio, diz mais do Estado de espírito do PSD do que sobre uma estratégia da Direita para formar um bloco. O que se passa, verdadeiramente, é que o PSD temendo não chegar ao poder e vendo o PS mais próximo de reavivar a geringonça, sentiu o chão fugir-lhe e, assim, opta por vender a alma ao ar do tempo ao invés de ser o bastião democrata à direita. Poder, a quanto obrigas.

07
Ago20

A Encruzilhada do CDS

Pedro Borges de Lemos, líder da corrente não formalizada do CDS, "CDS XXI", desfiliou-se do partido e mostra-se disponível para integrar o Chega. A notícia permite duas leituras justapostas: por um lado, é prova de que o CDS albergava muitos indivíduos com um pensamento pouco dado à democracia, herdeiro das elites conservadoras do Estado Novo, e que o surgimento do Chega tornou-se fator de cisão dentro do partido classicamente definido como "democrata-cristão"; por outro, esta situação poderia representar uma oportunidade de recentrar o partido, recuperando a sua feição democrática e de identidade forte, ao invés de se avizinhar como sintoma de fim de vida do partido. Mas para que este momento fosse, efetivamente, uma oportunidade política para o CDS, era preciso uma liderança experiente e forte. Ora, Francisco Rodrigues dos Santos, vulgo "chicão", é um erro de casting, uma ilusão de jovialidade besuntada com populismo a la Ventura e muita manteiga bolsonarista. O CDS que foi um partido vital na democracia portuguesa arrisca-se a desaparecer nos escombros de uma associação de estudantes. Chiquitito I tell you, you're what's wrong

01
Fev20

O Guarda Abel

As declarações de Abel Matos Santos não tiveram um contexto, como se defende. Elas não foram uma referência casual, são retrato das suas crenças. Da apologia do Salazarismo ao antissemitismo, sem esquecer que, na qualidade de Psicólogo sexologista, é um combatente da homossexualidade. É alguém que se revê mais no Chega do que na Democracia cristã. Aliás, ele mesmo já afirmou que o partido de André Ventura é um aliado. Trata-se, portanto, da contextualização portuguesa do bolsonarismo, com a apologia do regime autoritário, com o apreço por uma autoridade pública repressiva, de forte pendor anti-pluralista, de arreigada moralidade religiosa, marcada pela homofobia, a que só falta a profunda desconsideração pela cultura, mas que certamente não faltará uma ideologia de cultura estreita e unidimensional. Em suma, é o arquétipo do católico conservador, elitista, saudosista do Estado Novo, defensor da cura da homossexualidade. O grave nisto não são as suas crenças, em última análise há sempre espaço para que elas existam dentro de um limite democrático. O problema é fazer crer que a Direita é isto, e que este é o caminho da Direita, sendo que tudo o que não seja isto é tudo esquerda, é tudo nefasto.