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A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

O Guarda Abel

Fevereiro 01, 2020

As declarações de Abel Matos Santos não tiveram um contexto, como se defende. Elas não foram uma referência casual, são retrato das suas crenças. Da apologia do Salazarismo ao antissemitismo, sem esquecer que, na qualidade de Psicólogo sexologista, é um combatente da homossexualidade. É alguém que se revê mais no Chega do que na Democracia cristã. Aliás, ele mesmo já afirmou que o partido de André Ventura é um aliado. Trata-se, portanto, da contextualização portuguesa do bolsonarismo, com a apologia do regime autoritário, com o apreço por uma autoridade pública repressiva, de forte pendor anti-pluralista, de arreigada moralidade religiosa, marcada pela homofobia, a que só falta a profunda desconsideração pela cultura, mas que certamente não faltará uma ideologia de cultura estreita e unidimensional. Em suma, é o arquétipo do católico conservador, elitista, saudosista do Estado Novo, defensor da cura da homossexualidade. O grave nisto não são as suas crenças, em última análise há sempre espaço para que elas existam dentro de um limite democrático. O problema é fazer crer que a Direita é isto, e que este é o caminho da Direita, sendo que tudo o que não seja isto é tudo esquerda, é tudo nefasto.

Micropost [26] | "Uma Vergonha"

Dezembro 12, 2019

As intervenções de André Ventura são uma aula sobre o populismo. Mesmo na Assembleia da República o homem que é o partido jamais fala para os seus colegas deputados ou para o governo. Fala para o Correio da Manhã, para as manchetes, sabendo que dizer "uma vergonha" tem uma ressonância social muito maior do que qualquer afirmação com conteúdo. Quando se une "uma vergonha" ao nome do partido temos o manual da narrativa que é suficiente (porque não dizer, que chega) para eleger um deputado.

Chega a agulha, afasta o dedal

Dezembro 06, 2019

O Chega tinha no seu programa político acabar com o SNS, com a escola pública e o favorecimento das grandes fortunas, numa sedução ao apoio dos setores ultraliberais da sociedade portuguesa, ao mesmo tempo que afagava os ódios primários do seu eleitorado mais alargado, através de soundbites racistas. Na hora de se confrontar com esse programa de destruição do Estado Social, ou seja, onde iria doer no seu eleitorado, o Chega retira o programa do ar e prepara uma profunda revisão. Ventura é a personificação da frase de Groucho Marx, "Estes são os meus princípios. Se você não gosta deles, eu tenho outros."

O novo velho eleitorado

Novembro 11, 2019

De Bolsonaro ao Chega, de Trump ao Vox, o que procuram as pessoas que neles votam? Considerando as diferenças próprias de contexto, a verdade é que há elementos comuns entre tais eleitores que formam um continuum, um conjunto agregado de motivações partilhadas. Tratam-se de pessoas ressentidas com a marcha dos tempos, descamisados da globalização e do multiculturalismo. São pessoas arreigadas a valores morais que reclamam ser socialmente inquestionáveis. Pessoas que procuram uma materialização política dos seus próprios preconceitos, galvanizados por discursos feitos de chavões que não precisam refletir factos, basta, apenas, que se colem ao que pensam para serem elevados a proclamadores de "verdades incómodas", não se importando que para ver os seus preconceitos ampliados na esfera pública legitimem revisionismos e atropelos à Democracia.

Micropost [16]

Combater o Chega

Novembro 03, 2019

O discurso do Chega não se combate com gritaria nem posições puritanas de ofendido, mas pela confrontação dos factos. Uma das medidas a tomar para combater a narrativa da impunidade dos ciganos passaria por um levantamento do número de presos de etnia de cigana. Facto a facto, sem invisibilidade em favor de um "politicamente correto", contra o populismo.

Se cabe num tweet é política

Outubro 30, 2019

A nova composição da AR é a prova da existência de uma renovação total de velhas crenças e da revigoração de nostalgias. Se o Chega trouxe a fala dos reformados saudosistas de velhos regimes e dos frequentadores de tabernas acerca dos "ciganos, pretos e paneleiros", a IL recupera a crença na «mão invisível» como modelo económico-financeiro, que depois de ter resultado mal da primeira vez, há sempre a hipótese de correr pior da segunda, como no Chile. Por sua vez, o Livre viu-se deslocado do seu europeísmo de Esquerda para uma agenda de causas, que embora importantes, não deveriam resumir o programa do partido. Por fim, o PAN é a vitória da solidão e desconfianca humana. Com prejuízos para a Democracia, temos uma AR marcada pela utopia do mercado, dos homens de saia, dos pet lovers, dos anti-ciganos. Em suma, a política da simplificação que caiba num Tweet.

Joacine e a Bandeira

Outubro 10, 2019

Esta montagem explica muito bem porque o CHEGA chegou lá. Quem a fez, pretende bipolarizar o cenário político nacional, catapultando a ideia do "nós" contra "eles", fazendo uso da ideia de que existe uma agenda africana de destruição da Portugalidade. Esta narrativa não é desconhecida e tem enorme força em França, por exemplo, em relação às comunidades islâmicas. Todas as demais ideias do CHEGA são esquecidas. O que conta, aqui, é a imagem do homem da Pátria. Mal acabam de ser eleitas três deputadas negras e o racismo que não há vem à tona. Será que haveria problema se ao invés de uma negra e uma bandeira da Guiné fosse uma loira e a bandeira inglesa? Evidentemente que não, afinal o nosso espírito Zezé Camarinha tem os seus padrões.

 

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