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Dias Assim

20
Fev21

A Extrema-Direita e a Polícia

Segundo avança o Expresso, nasceu um grupo de extrema-direita, designado UNIR, com apoio de membros da PSP. Nas últimas eleições (presidenciais) um dos dados que me foi transmitido, de fonte segura, é que as forças de segurança pública em Portugal votaram expressivamente no Chega. Se esta notícia for verídica o Chega poderá ficar ameaçado. O que em rigor seria bom, pois a fragmentação da extrema-direita favorece o seu enfraquecimento. Por outro lado, alerta para a urgência da revisão da carreira profissional de força de segurança, a começar pelos salários. Sem uma política salarial adequada continuaremos a ter desajustados sociais nas forças de segurança pública, fragilizando uma das funções essenciais do Estado: a segurança.

12
Fev21

Ao que vem a Bastonária dos Enfermeiros

Ana Rita Cavaco é o paradigma perfeito do que há uns anos a esta parte as Ordens profissionais se tornaram. Longe do princípio da subsidiaridade do Estado, enquanto instituições a quem o Estado delega poderes de regulamentação da atividade dos seus membros, muitas ordens profissionais tornaram-se em verdadeiros sindicatos e, sobretudo, plataformas para-partidárias, permitindo o lançamento de carreiras políticas dos seus mais relevantes membros e bastonários. É o que sucede, de forma gritante, com Ana Rita Cavaco. A bastonária da Ordem dos Enfermeiros tem aproveitado o seu mandato para auto-promoção, aparecendo de forma quixotesca como antissistémica e politicamente incorreta, revelando-se uma excelente réplica feminina do seu amigo André Ventura. Com efeito, Ana Rita Cavaco encaixa no perfil traçado por vários autores do outsider político populista, que fala contra a elite corrupta em nome das “pessoas de bem”, trazendo “verdades” que são politicamente incorretas. Aqui, uma vez mais, assemelha-se em tudo a André Ventura. Aliás, a amizade entre ambos vem do tempo da Juventude Social-Democrata (JSD), do qual ambos fizeram parte. Percebe-se, pois, que nenhum deles é um verdadeiro outsider, sendo mais bem caracterizado como oportunista. Precisamente por isso é facilmente intuível que Ana Rita Cavaco esteja a aproveitar a Ordem dos Enfermeiros como rampa de lançamento para as próximas autárquicas, muito possivelmente com um candidatura à Câmara Municipal de Lisboa pelo Chega.

04
Fev21

Não ajudem o Chega

Segundo noticia o Expresso, Ana Gomes avança com uma participação à Procuradoria-Geral da República para a extinção do Chega. Nas últimas eleições, votei em Ana Gomes por razões estratégicas, antevendo um forte eleitorado venturista, não por me rever in terminis nas suas posições. Aqui estou totalmente contra, porque se há coisa que sabemos é que i) o Tribunal Constitucional deu o seu aval à formalização do Chega, ii) que o populismo não se combate de outra forma que não pelo reforço da democracia, pela estabilidade e consenso dos partidos democráticos, pela desmontagem das narrativas simplistas e promotoras do antagonismo social. É ler Levitsky e Ziblatt, sobre a morte da democracia.

23
Jan21

A "questão cigana" na política portuguesa

A chamada “questão cigana” sempre esteve presente na sociedade portuguesa, desde, pelo menos, o século XVI, tendo estes sido usados, inclusive, no povoamento do Brasil no processo penal de degredo. A inclusão/exclusão dos ciganos sempre foi um processo dúbio, multiverso e difícil, com um histórico de autoexclusão cigana e uma forte ostracização social que forçava essa condição de autoexclusão. Uma comunidade colocada à margem da sociedade tende a ver aquela como “inimiga”, fator que motiva uma posição de conflito e retira qualquer dimensão culposa aos atos levados a cabo contra aquela.

O desenvolvimento de políticas de inclusão social em Portugal data do último quartel do século XX, depois de séculos de exclusão que tiveram no Estado Novo forte expressão persecutória. A partir do princípio constitucional da Igualdade e de uma ideia de Estado Social, após o 25 de Abril de 1974, a inclusão foi sendo feita através de políticas públicas concentradas, sobretudo, em matéria de habitação e de correção económica, por via dos apoios sociais como o rendimento social de inserção (RSI).

Nesse quadro do Estado Social, a “questão cigana” nunca foi, de forma evidente, uma matéria de agenda política, mas sempre esteve presente na sociedade portuguesa, particularmente nas zonas urbanas onde se localizam os bairros sociais que ao acantonar grupos étnicos promovem uma psicologia de gueto e reproduzem as tensões sociais, ao invés de resolverem problemas de convivência. O conflito, a insegurança, o desconforto e a perceção de favorecimento alimentaram sentimentos de ansiedade por políticos que lhes dessem voz. André Ventura, um jovem Professor de Direito ambicioso, ávido de protagonismo político, pegou nessa questão e fez dela bandeira política na sua corrida à autarquia de Loures, pela mão de Pedro Passos Coelho, então líder do PSD.

Ao transformar esta questão num tema político, André Ventura foi capaz de catapultar os sentimentos de insegurança e insatisfação vividos na sociedade portuguesa, percebendo que a Esquerda intelectual não era capaz de ir além da análise científica do problema. Os temas da corrupção e dos “tachos” vieram a reboque, aproveitando a receita populista francesa, italiana, espanhola, norte-americana e brasileira, de onde foi, ainda, beber a ideia de luta social entre “gente de bem” e os malfeitores dos “subsídio-dependentes”, numa estratégia que encobre um programa ultraliberal. Também aqui nada de novo, copiando o modelo trumpista e bolsonarista.

Ao permitirem que André Ventura tivesse tomado a “questão cigana” como bandeira do Chega, os partidos democráticos abdicaram de abordar o tema de forma séria, explicativa, dialogante. Agora é, manifestamente, tarde demais, porque tal como na Alemanha que Hitler estava a construir a “questão judaica” foi um fator aglutinador da sociedade alemã, no Portugal de Ventura a “questão cigana” é o cimento de unificação social. E isto é extraordinariamente perigoso, porque na expetativa de resolução de um problema que só se resolve com mais políticas públicas e mais investimento, os apoiantes do Chega abdicam do Estado de Direito Democrático.

18
Jan21

micropost [68] "não nos lixem"

Há quem diga que o Chega é um partido conservador, eurocético e nacionalista. Não, não é. É um partido autoritarista e racista. É um partido idealizado por Pacheco de Amorim, um ex-monárquico, convicto fascista e colonialista. Um partido conservador, eurocético e nacionalista é o CDS, que é pela democracia. O Chega não. O Chega quer usar a democracia para recuperar o regime do Estado Novo. Como o Vox, a Frente Nacional, e a Liga Norte de Salvini.

23
Dez20

Até ver afinal não Chega

Segundo sondagem da Intercampus, o Chega passou a terceira força política em Portugal. Quem não percebe porquê recomenda-se sair da bolha sociológica em que se encontra e ir ao quotidiano das populações, para entender como aqui, tal como em França, e noutros países, discursos nacionais-populistas têm tal adesão. A insegurança laboral e económica dos descamisados da globalização, aliada à perceção do "outro" como usurpador dos bens comunitários, produz uma insatisfação politicamente instrumentalizável. Como em Portugal não temos um problema de inserção dos imigrantes como em França, o discurso volta-se à comunidade cigana, à suposta subsídio-dependência, à ideia de que "anda tudo a gamar", tudo menos o Chega, que vem cumprir a missão sebastianista de salvar a pátria.

11
Nov20

Micropost [66] BE e Chega

As propostas do PCP e do BE podem não ser coincidentes com uma noção liberal de sociedade que se instituiu. Mas não são ataques diretos ao Estado de Direito e ao chão comum civilizacional. E é esse consenso que não está presente no Chega. Por isso não são a mesma coisa. Quem afirma o contrário geralmente afirma também que Trump é um homem que respeita esses princípios universais, não percebendo que já bebeu de um trago do messianismo da Nova Era política.

04
Nov20

A Caranguejola Açoreana

A caranguejola açoreana é bastante legítima, e o precedente foi aberto com a geringonça. A questão não é essa. A questão é que para governar o PSD tem de fazer concessões ao Chega. Isto é válido nos Açores e pode vir a ser válido nas legislativas. Ora, André Ventura sabe que não pode dar um salto fora dos compromissos com o seu eleitorado, pelo se vai manter fiel ao homem-elástico que encarnou. Ao contrário de João Miguel Tavares, eu não acho nada boa ideia o PSD se dar a estas danças para chegar ao poder. E não, o BE não é a mesma coisa que o Chega. É por isso que é tão urgente revitalizar o CDS, tirando de lá o Chiquinho e colocando alguém capaz. Atendendo à idade de Adriano Moreira, diria Manuel Monteiro, Adolfo Mesquita Nunes ou mesmo Paulo Portas.

adenda: agradeço à equipa de blogs do Sapo pelo destaque deste post.

14
Out20

A Carta de Amor de André a Rui

André Ventura escreveu uma carta a Rui Rio, defendendo que a queda do governo socialista, que ele entende que virá, trará a oportunidade de governo a uma coligação "inevitável" entre o PSD e o Chega. Ventura é um tipo da área política do PSD que tinha pressa de chegar ao Parlamento e muita sede de protagonismo. Criou o Chega para atrair os votos das franjas sociais mais descontentes, com teorias da conspiração, com voz nas caixas de comentários. Mas ele não quer estar preso a estas amarras eternamente, a menos que tenha de ser. Por isso, tanto joga no campo da extrema-direita europeia, quanto tenta aproximações ao centro. Aquilo que ele mais quer é aquilo que ele mais acusa os outros de quererem: poleiro.

08
Out20

Um Achega

Em referência ao meu post sobre a expulsão do autor da moção de remoção de ovários, uma militante do Chega fez um post onde me tece algumas críticas. É uma das vantagens da Democracia, princípio pelo qual não temos a certeza de que o Chega tenha assim tanto afeto. A forma como André Ventura ataca os opositores políticos, a forma como as redes sociais do partido atuam distorcendo os factos e fazendo uso de chavões, estereótipos e ideias nacionalistas do começo do século XX, não deixam dúvidas sobre a forma como pretendem jogar o jogo político. É interessante ler no texto referido que o Chega é um partido "de cidadãos decentes, honestos, trabalhadores, pais de família, patriotas, cristãos e ateus, que não querem ver Portugal transformado numa Venezuela ainda mais pobre." Isto é ipsis verbis a narrativa dos apoiantes de Bolsonaro, quando na verdade por baixo desse belo véu está o racismo, a homofobia, o ódio de classe, o fanatismo evangélico e as saudades da ditadura militar. O que terá a dita senhora a dizer sobre os inúmeros militantes do Chega oriundos do PNR? E dos saudosistas do Salazarismo? Enfim, percebe-se que o combate cultural inventado por esta nova-velha-direita, reciclada dos anos de 1920 e 1930, espalhou-se pelo Ocidente. Por fim e já agora, quanto à castração química não há provas inquestionáveis de que seja uma solução segura, já que o estímulo sexual pedófilo é de natureza cerebral e pode ser satisfeito com objetos. 

Cólofon

Dias Assim é um blogue de João Ferreira Dias, escrito segundo o Acordo Ortográfico, de publicação avulsa e temática livre. Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

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