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A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

22
Out20

Do voto obrigatório

O Chega pretende inserir a obrigatoriedade do voto. Este é um tema com o qual me tenha debatido algumas vezes. Enquanto conquista recente e democrática, o sufrágio universal pressupõe tanto o direito ao voto quanto o direito a não votar, no quadro das liberdades constitucionais. No entanto, as taxas de abstenção são altíssimas, revelando mais do que um protesto, um problema de desinteresse e desconfiança no sistema. Sucede que no caso brasileiro, apesar da obrigatoriedade do voto sob pena de pagamento de coima, a abstenção tende a prevalecer. Rui Rio propôs que a abstenção fosse convertida em lugares vazios no plenário da República. O problema da proposta é que não resolve a questão da abstenção, apenas tem um valor de lembrete sobre os deputados, significando a incapacidade de se comunicarem com os eleitores. O caminho parece passar pelo longo trajeto de educação para a cidadania, questão que, como visto, tende a obter alguma oposição social.

27
Ago19

Beatas, Verão e Cidadania

O cenário é uma belíssima barragem, na região de Guimarães, que se acompanha de uma cascata e uma verdejante área de lazer, onde é possível fazer um piquenique à coberta do fresco das árvores. Tudo convida ao recolhimento e ao prazer de integração na natureza. Tudo, menos o que se passa nas águas. De pneus a fogareiros descartados depois de usados. Pelo chão, pacotes de batatas fritas, de sumos, beatas, latas de cerveja. Marcas nefastas da presença humana. Mais a sul, pela costa portuguesa abaixo, pelo areal que namora com o mar, apesar dos cinzeiros oferecidos por uma empresa de telecomunicações, há uma desoladora presença de garrafas de plástico, beatas incontáveis, paus e invólucros de gelados, guardanapos de bolas-de-berlim, e infindáveis contributos humanos à degradação da paisagem. É o verão em todo o seu esplendor: a violência gratuita sobre a paisagem. Quando o inverno chegar, veremos as correntes urbanas das chuvas a arrastarem latas, garrafas de plástico, beatas. [continuar a ler]

19
Jun13

Um Outro Samba nas Ruas do Brasil e a Lição a Portugal.

CHAMAM-LHE o gigante acordado. A verdade é que bastaram uma mão cheia de anos de recuperação e crescimento económico a traduzirem o renascimento da classe média e do acesso à educação para que o Brasil levasse de vencida a letargia deixada pela ditadura. O Brasil por estes dias não é o país do Carnaval, do Samba, do futebol-arte, das praias e das paisagens, da corrupção e criminalidade quotidianas. Hoje há outro Brasil em marcha que envergonha a apatia portuguesa. 

Desenganem-se os que julgam que as manifestações têm que ver com 0,20reais de aumento dos transportes públicos. No fundo, tal serviu apenas de rastilho para que a praça pública fosse aquilo que deve ser: espaço de cidadania. Os brasileiros cansaram-se da corrupção, de um sistema de saúde de terceiro mundo, de um sistema de educação decrépito. Eles querem um Brasil à medida do crescimento económico. Uma geração consciente está nas ruas, e cria uma nova que se liga a Istambul, e que seria ideal para reacordar Madrid e Lisboa, por exemplo. E se a lição para os portugueses está estampada na dinâmica continuada das manifestações, ela está também na atitude dos governantes. Enquanto Passos Coelho não governa para as ruas e não tem medo dos portugueses (a porra do "povo é sereno"), Dilma Rousseff elogia os manifestantes e considera fundamental ouvir o que têm para dizer. 

Pelas ruas do Brasil leem-se palavras de ordem claras e inequívocas como "desculpem o transtorno, estamos mudando o país". E hoje a vergonha da apatia é toda ela lusitana. Desculpem a expressão mas "badamerda" a apatia, a serenidade, e o que valha português, que hoje sou brasileiro e turco; a Democracia e a Liberdade ainda são valores que merecem o nosso esforço.