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A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

Da Questão Cigana

Junho 30, 2020

Chamar à atenção do racismo estrutural não significa tornar as minorias agentes passivos da história, significa, isso sim, salientar que as suas circunstâncias sociais e económicas são condicionadas por forças invisíveis que agem ab initio, desde o seu nascimento. Quando alguém, numa empresa, coloca um CV para o lado a partir da classificação étnica de um candidato está a) a ser racista, b) a contribuir silenciosamente para o racismo estrutural.

No caso dos indivíduos de etnia cigana, chamar à atenção da necessidade de políticas públicas de inserção social e fomento escolar, cujos efeitos são lentos em virtude de um histórico de perseguição e segregação, não significa negar os problemas correntes derivados das falhas de inserção. Os casos de violência, como o mais recente registado em Benavente, provam a urgência tanto de políticas públicas quanto da ação judicial. Nada fazer é abrir terreno para o Chega e outros movimentos radicais, e com eles para as soluções de segregação e genocídio utilizadas no passado. Este problema em particular (a questão cigana) não se resolve nem pela via da justiça popular ou da justiça populista, nem pela negação da necessidade de ação judicial e desresponsabilização total dos agressores. É de tal natureza minuciosa que precisa de reforço democrático, não do contrário.

Micropost [45] Ventura e a Rixa

Maio 26, 2020

Nas redes sociais André Ventura aproveita uma rixa envolvendo indivíduos ciganos para fazer política, afirmando que não quer contribuir com os seus impostos para esta comunidade. O deslize discursivo óbvio. Se A então B. Não há contexto, só apropriação de atos com fins racistas. Na dúvida sobre a intenção de Ventura, pense: porque uma rixa de ciganos merece um comentário político e uma rixa entre vizinhos por causa de um pedaço de terra não? Porque há um caldo racial que convém aproveitar. Já agora, nós também pagamos o salário do Sr. Deputado e pagámos o seu doutoramento na Irlanda, com os nossos impostos. Chama-se Democracia, senhor.

Micropost [16]

Combater o Chega

Novembro 03, 2019

O discurso do Chega não se combate com gritaria nem posições puritanas de ofendido, mas pela confrontação dos factos. Uma das medidas a tomar para combater a narrativa da impunidade dos ciganos passaria por um levantamento do número de presos de etnia de cigana. Facto a facto, sem invisibilidade em favor de um "politicamente correto", contra o populismo.

O pedido de desculpas à comunidade cigana

Junho 24, 2019

A propósito desta opinião de José Pereira Bastos, recordo-me que um dos problemas da análise antropológica surge quando o investigador mergulha de tal forma na realidade estudada que perde a condição de pesquisador e adquire a de «nativo», tornando a sua presença não numa condição de pesquisa de campo, mas antes na de engajamento militante. Com efeito, na análise estrutural da condição da comunidade cigano torna-se exigente conjugar o falhanço brutal das políticas de integração, o longo historial de segregação e racismo e uma identidade contrastativa e combativa por parte da comunidade cigana. A pesquisa que permite dar conta das condições sociais, económicas, habitacionais, educacionais, dos ciganos, é de extrema relevância na produção de políticas de empoderamento. No entanto, é preciso inscrever as circunstâncias sociais numa dinâmica de segregação e conflito, que embora desnivelada, i.e., contendo uma maior carga de descriminação do que conflito, esta última não é ausente e é, em rigor, uma estratégia adotada pela comunidade rom de sobrevivência, mas também de afirmação identitária. No rescaldo da alteridade, i.e., da tensão "nós" vs "eles" foi produzida uma cultura de mérito baseada na capacidade de enganar os "senhores", uma resposta que permite, de forma inconsciente, nivelar a balança social. 

Ciganos, Sapos e Descriminação.

Fevereiro 25, 2016

Todos os fenómenos sociais podem e devem ser lidos de diferentes ângulos. A atribuição do Urso de Ouro na Bienal de Berlim à curta-metragem Balada de um Batráquio, da realizadora portuguesa Leonor Teles, trouxe novamente ao plano da discussão a questão da comunidade cigana portuguesa e da xenofobia. O problema exige um tratamento cauteloso. Em primeiro lugar porque a descriminação é um facto social português. Expressões correntes de "pareces um cigano", que SP menciona, fazem parte do imaginário popular, cristalizando uma narrativa em torno da comunidade cigana. O planeamento urbano desenvolvido por autarquias, que ao invés de distribuir os sujeitos de etnia cigana por diferentes bairros os guetizam, serve apenas para perpetuar a segregação e fornecer o caldo sociológico para a auto-exclusão social, que é um dado importante dentro do contexto da comunidade em questão. Este facto conduz-nos à leitura complementar - a de uma comunidade que se encerra sobre si mesma, e que por tal, é, na larga maioria, socialmente descomprometida, ausente de princípios de cidadania e democracia. Em virtude de tal, os portugueses de etnia cigana desenvolvem práticas marginais, partindo de uma conceção social de "nós contra eles", nós os ciganos, eles os "senhores". Por essa razão, são inúmeros os relatos de coação e ameaça junto de funcionários da segurança social para a atribuição de rendimentos mínimos e habitações, pois pese embora o programa seja meritório é impossível uma coerente vigilância dos reais necessitados quando em equação se encontram ameaças. A ameaça e o medo tornaram-se processos de garante de mais-valias sociais de uma comunidade que é mal integrada mas que também valoriza a sua guetização. Esta leitura plural é muitas vezes esquecida em favor de narrativas raciais ou de perceções erróneos de que minoriais étnicas não podem ser ativas na exclusão e portadoras de narrativas de preconceito. 

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