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A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

Maléfica II: Mestre do Mal

Novembro 09, 2019

Maléfica está para Angelina Jolie como o Chapeleiro Louco está para Johnny Depp. Neste segundo capítulo de Maléfica encontramos uma versão Disney do imaginário pagão nórdico-germano, um elogio ao paganismo, recuperando o romantismo literário alemão e a nova vaga celta e viking, ao mesmo tempo que recorda o mito do bom-selvagem, já presente em Avatar.
Em Aurora temos uma elfa do bosque e, ao mesmo tempo, a Primavera de Botticelli, enquanto Maléfica e os seus personificam o imaginário das deusas fortes e selvagens, passadas na peneira da literatura noir. Se para as crianças temos uma clássica narrativa de amor e heroísmo, para os mais velhos temos um apelo ao retorno à Natureza pela via das religiosidades pré-cristãs.

para a ideologia de género e mais além

Agosto 15, 2019

No filme de animação Toy Story 4, a dada altura, aparece um casal de duas mulheres no cumprimento do tradicional primeiro dia de aulas norte-americano, altura em que os adultos do agregado familiar levam os filhos à escola. O facto de no meio de casais heterossexuais aparecer um casal homossexual motivou queixas por parte de associações de defesa da família dita tradicional, alegado uma normatização da homossexualidade e da “ideologia de género". Esta reação explica bem o que é, na verdade, ideologia de género: a assunção da exclusiva legitimidade de uma forma de identificação de género, de base binária, e de um modo único de composição de agregado familiar.

O Renascido (The Revenant)

Janeiro 22, 2016

 

Três curtas horas de um filme absolutamente arrebatador. Inspirado na história de Hugh Glass, um americano natural do Pennsylvania, em meados de 1780, de ascendência escocesa-irlandesa, exímio caçador de peles e fronteiriço, que sobreviveu de forma heróica ao ataque de um urso. Não há dúvidas que num país de história escrita recente, e profundamente marcado pela memória das primeiras colónias, dos confrontos com as tribos indígenas e pela caça, quer a animais, quer ao ouro, a história de Hugh Glass preenche o imaginário do "pioneiro-herói" que inspiraria gerações e parte do ideal americano de uma época, eternamente revisitados. 

      Com uma fotografia que nos recorda o génio de Terrence Malick com os seus planos de A Árvore da Vida ou a atmosfera, fotografia e roteiro de Novo Mundo, estranhamente ignorado como bem denota o Francisco, este O Renascido é um filme impactante, vibrante, que nos mantém presos à tela, colados à cadeira, e que deixa absolutamente claro que Leonardo di Caprio é um ator brilhante, arrancando uma interpretação intensa e total, num papel extremamente exigente, digna do Oscar.  

Happy Golden Days.

Outubro 10, 2013

«...Here were are as in olden days, happy golden days of yore...»


Woody Allen com "Meia Noite em Paris" recorda-nos com encanto que seja qual for a geração tem num qualquer momento e lugar do passado os seus happy golden days. Insatisfeito e nostálgico, o ser humano constrói uma perceção do tempo baseado num idealismo do passado, seja a nossa infância seja ainda um período que concebemos como idílico: a Paris de 1920, da belle époque, descobrimentos, construção da América, a Florença dos Medici, enfim, lugares e momentos da História que fornecem condimentos à imaginação.

Não é fácil compreender se tal nostalgia resulta apenas do desencanto face ao presente que nos proteja num passado idílico se, em alternativa, tal cimento psicológico advém da narrativa mitológica bíblica do Jardim do Éden e da queda da humanidade. Narrativa depois transformada em composições idílicas de períodos históricos anteriores.

Seja como for, os happy golden days são apenas referenciais. Afinal, cada época que é para nós horizonte tem outra anterior como ideal. O importante neste discurso nostálgico é a motivação artística, poética, etc., que nos pode trazer. Vivermos presos ao passado não nos ajuda no presente, alheia-nos deste, o que pode ser bom durante um tempo mas o acordar do sonho pode gerar uma sensação de ressaca ainda pior. Todavia, se esse idealismo se traduzir numa vivência revivalista estética, cultural, musical, artística, etc., aí temos o passado a exercer a sua função ideal, como catalisador de mudança e renovação, requalificação e transformação.

A Gaiola Dourada de Paulo Branco.

Setembro 11, 2013

Ouvi por estes dias o realizador Paulo Branco a falar sobre o filme A Gaiola Dourada. Confesso que não concordei em nada com as suas críticas. Diz Paulo Branco que este filme estereotipa os emigrantes portugueses num jeito próprio do cinema francês em relação às minorias. Sem desmérito para o profundo conhecimento que o realizador português tem do cinema francês, não vejo onde o filme tem um olhar estereotipado sobre os emigrantes portugueses em terras de Robespierre. Qualquer pessoa que conheça minimamente a realidade sociocultural dos emigrantes do avec e do alors reconhece os traços essenciais das personalidades-padrão neste filme, por sinal de um luso-francês. Em segundo lugar, os estereótipos são comuns ao cinema, desde o americano cowboy ao judeu avarento, nos casos mais exacerbados, mas também nos traços centrais de personalidade coletiva e cultural nos casos mais amenos. O estereótipo é a própria produção da personagem. Certamente que Paulo Branco não pretende exigir que estejam centenas de empregadas domésticas em cena para que haja uma definição mais elástica de personalidade. Ademais, quer ele queira quer não, as personagens do filme retratam muito bem um vasto número de emigrantes portugueses, de várias gerações. Não é por haver o estereótipo do português de farto bigode e com a careca tapada com os cabelos bem puxados das orelhas que não significa que não seja uma imagem real. À qualquer coisa de "dor de cotovelo" nas críticas passim

 

[adenda: um post sobre o filme]

Rever Sleepers.

Agosto 30, 2013

No canal de cinema da Fox, um destes dias, revi o filme Sleepers. O filme é de 1996, embora narre factos dos anos de 1960 e 1980. Apesar dos anos continua a ser um filme fabuloso e simples, estando na minha lista de favoritos. Teria em torno dos meus treze anos quando vi este marcante filme. Antes do "caso Casa Pia", Sleepers trouxe-nos o drama dos jovens em colégios correcionais, vítimas de um sistema silencioso. Tenho ideia de o ter visto na escola, já não sei em que disciplina, mas recordo que me marcou bastante, e que serviu para nos lembrarmos da felicidade do ambiente que, melhor ou pior, crescíamos, bem longe do retrato de Sleepers. Isso por si só servia de pedagogia melhor que palavras dos professores.

A Gaiola Dourada

Agosto 05, 2013

A emigração portuguesa, um tema tão nosso e ao mesmo tempo tão esquecido pela categorização como dado popularucho, num misto de substrato social e repulsa ideológica, é o tema deste magnífico filme. A Gaiola Dourada (La Cage Dorée, título original) retrata com primor, humor e particular detalhe, a vida de uma família de portugueses emigrados em França, e os dos seus filhos luso-franceses. As especificidades culturais dos emigrantes, com os detalhes linguísticos, com a mescla cultural luso-francesa, com os constrangimentos e complexos em matéria de estatuto social, ou os almoços barulhentos em mesas fartas, tudo está ali deliciosamente retratado. O "agosto". O futebol. O fado. A Gaiola Dourada é o filme que faltava ao cinema português, um elogio à qualidade do cinema europeu. Altamente recomendado.