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A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

E as manifs, têm vírus?

Junho 07, 2020

Há muita gente revoltada com as manifestações antirracistas ocorridas ontem em Portugal. Uns porque julgam que o combate ao racismo é só um golpe político anti-trump (prováveis eleitores, portanto, de Ventura, que vivem na paranoia da espuma dos dias), outros por motivos de saúde pública. Estes últimos compreendo. Em parte. Em parte porque não vejo revolta contra os aglomerados nas praias, contra aqueles que desrespeitam as regras de distância social em período de desconfinamento. Há quem invoque as críticas endereçadas ao 1º de Maio para criticar estas manifestações, na lógica do "olha, agora já pode!?". Sim, agora já pode e não é pelo racismo, mas pelo desconfinamento. Com efeito, foram cometidos erros de cautela pública segundo as normas da DGS, não muito diferente das filas de supermercados em que não se respeita a distância, daquelas pessoas que usam máscara mas deixam o nariz destapado, ou das que não respeitam quaisquer medidas de segurança porque é uma "mariquice" de "alfacinhas", porque macho que é macho agarra o vírus pelos cornos. E, por favor, não digam que o que se passou nos EUA não teve nada que com Portugal. O racismo estrutural é uma realidade da maioria das sociedades ocidentais, porque é invisível e silencioso. Sim, poderíamos ter levado a cabo tais manifestações noutras ocasiões, mas vivemos o tempo das redes sociais, das trends, dos hashtags e das correntes. Porque só neste assunto haveríamos de não importar tendências?

Micropost [44] O país COVIDizer

Maio 25, 2020

O desconfinamento levou os portugueses a considerarem o vírus um sonho mau do qual se acordou. Povo valente e munido de uma ignorância triunfante, enfrenta o calor em apinhamentos, porque isso da distância social e dos cuidados de higiene é chão que já deu uvas, uma mariquice lisboeta. Quando vier o caos dos seus atos não terão espelho em casa. Apontarão o dedo ao governo e benzendo-se sem fé votarão no messias que a poeira do Estado Novo pariu.

Micropost [43] Efeito Desconfinamento

Maio 11, 2020

Aumento do contágio e, assim, do número de casos. Como havia escrito, deu-se o relaxamento e a confusão entre desconfinamento e fim do vírus. Por aí tem-se visto pessoas a circularem sem máscaras, sem qualquer cuidado, e ajuntamentos vários. Vamos voltar ao confinamento obrigatório e com isso aumentar os efeitos devastadores na economia. Não se esqueçam da responsabilidade que tiveram nisso quando apontarem o dedo ao governo e pegarem na bandeira populista dos Venturas.

Micropost [41] Infetados políticos

Abril 24, 2020

Inflação e aumento exponencial do desemprego é uma realidade em grande parte dos países. Portugal mantém-se, para já, numa situação controlada. É, portanto, incompreensível os ataques ao governo. Da parte de determinados políticos é expectável, tal o ímpeto populista. Da parte dos empresários também, pois em tempos de crise o biberão do Estado calha sempre bem. Da parte dos cidadãos, particularmente em determinados termos pouco lúcidos, é sinal de que o confinamento já está a gerar efeitos psicológicos, levando as pessoas a acreditarem em soluções não democráticas. Desconfiança e medo sempre parem autoritarismos. 

Micropost [40]

Abril 24, 2020

Quando olhamos os números de casos e mortes por Covid-19 em Portugal tendemos a fazê-lo em termos absolutos. Mas é preciso colocar na balança a população portuguesa quando comparada com Espanha. 10 milhões contra quase 47. Nessa equação realista os números não são tão simpáticos.

O vírus do estigma saiu à rua, novamente

Abril 17, 2020

Somos confrontados com as mensagens deixadas a profissionais de saúde e de superfícies comerciais pelos seus vizinhos, pedindo que encontrem outro lugar para morar. Sim, de facto, há uma questão sanitária neste assunto, mas não é apenas a do vírus, é a da decência. A partir da ótica do medo e do estigma, toda esta situação é excessivamente similar com a dos negros em bairros de classe média e alta dos EUA, ou com os judeus na antecâmara do nazismo. Todos eram pessoas indesejáveis, vista como transportando com elas uma toxicidade qualquer, um vírus que infectaria os lugares onde moravam.

A libertação de presos

Abril 13, 2020

Ao contrário do político André Ventura, diz o académico André Ventura que em Portugal temos um problema de "populismo judiciário". Sendo um país com uma taxa de criminalidade das mais baixas da Europa, é um dos países que mais prende e por mais tempo. Isto porque o objetivo não é a reinserção social, mas a demonstração do poder dos tribunais. Ou seja, a máxima força diante dos mais fracos. Acresce que muitos dos presos até 2 anos não o deveriam estar, pois são cidadãos que não conseguiram pagar multas.

Em segundo lugar, muitas das pessoas que se revoltam contra a libertação de presos, são as mesmas que não admitem melhorias nas condições das prisões, defendendo que a prisão não é um hotel, não percebendo que há uma relação direta entre tudo isto. O facto de se prender demais e por demasiado tempo, leva a um excesso populacional nas prisões. Diante disso, com más condições e uma população prisional envelhecida, não há outra solução senão soltar muitos dos que lá não deveriam estar, porque de contrário, as prisões arriscam-se a ser focos epidémicos, com perigo real, inclusive, para quem lá trabalha.

Covid-19 e o fim da Europa

Abril 08, 2020

A ESTRATÉGIA EUROPEIA DE ENFRENTAR ESTA CRISE  com a segunda receita (a primeira foi o incentivo à despesa por parte dos Estados em risco) aplicada à crise de 2008, isto é, de austeridade, repetindo, assim, a guerra Norte-Sul, a partir de uma narrativa ideológica de "Estados responsáveis versus Estados irresponsáveis", é uma catástrofe maior do que a devastação humana, social e económica resultante da pandemia. Isto porque se a narrativa dos "Estados irresponsáveis" conquistava, à época, algum eleitorado, fazendo respaldo, em parte, na gestão dos países do Sul da Europa, presentemente, tal narrativa responsabiliza os países mais afetados pelo vírus do Covid-19 pelos efeitos sociais e económicos do mesmo. Não é de estranhar que António Costa tenha reagido de forma tão veemente às declarações do ministro das Finanças holandês. 

Este tipo de raciocínio assume uma aura de "pretexto" que alavanca  a dissolução do projeto europeu. Isto porque, a Holanda, a Finlândia, a Alemanha e a Áustria, são países de identidade isolacionista ou com governos que expressam uma ideologia anti-comunitária. A xenofobia e a desconfiança face aos países economicamente periféricos passaram a incorporar a ideologia de governo. Uma ideologia que desconsidera o desnível entre Estados-membros como fator de risco, desnível esse presente nas dificuldades geradas pela política monetária comum. 

Assim, a ausência de uma estratégia de recuperação de natureza conjunta e elaborada tendo em vista as circunstâncias particulares dos eventos, livre de um neocolonialismo doméstico europeu concretizado em procedimentos de resgate, trará duas saídas à Europa: um ressentimento e deterioração das relações multilaterais, em resultado da implementação do modelo de intervenção-austeridade, que ao desconsiderar a circunstância da crise assume a tal feição neocolonial doméstica; ou o fim do projeto comum, com o encerramento das fronteiras, dissolução de acordos e extinção da moeda única. Este cenário servirá para pensar a lógica multilateral e a cooperação  como fruta da época do fim do muro de Berlim. Uma expectativa pueril de uma Europa conjunta.

As sombras sobre Bruxelas começam a notar-se. É tempo de líderes fortes, não apenas na Europa, mas nos países decisores. Num contexto de crescimento de soluções populistas e nacionalismos, ideologias xenófobas e racistas, onde estão esses líderes que colocarão a lanterna no final do túnel? 

O regresso do tal Portugal

Abril 06, 2020

NUMA ALTURA EM QUE ANTÓNIO COSTA defende que Portugal terá de voltar a produzir aquilo que se acostumou a importar da China, convém lembrar que Portugal foi durante mais de duas décadas a melhor fábrica têxtil e do calçado do mundo. Antes do 25 de Abril tinha a Fábrica de Braço de Prata, uma cidade fabril dedicada à produção de armamento, mas que poderia ter sido convertida numa imensa fábrica de produção de frigoríficos, esquentadores e outros equipamentos. Não houve capacidade política para tal. Para sermos um país "moderno" e europeu abandonámos as pescas, comprometemos a sustentabilidade agrícola e quisemos ser um país de serviços. Mais tarde de turismo. Vicissitudes da globalização, não tivemos como competir com a indústria asiática, baseada na exploração da mão de obra. Hoje, o covid-19 pariu o saudosismo. Gostava de saber como iremos recuperar o Portugal produtor sem comprometer acordos comerciais.

Os restos do COVID-19

Abril 03, 2020

O alerta do FMI, de que poderemos ter no horizonte uma crise superior à de 2008, não é extemporâneo. A possibilidade de recessão tem de ser encarada de forma séria e antecipada no quadro das possibilidades. Os Estados não têm bolsos sem fim. Isto vai doer quando a poeira assentar. E com os Estados financeiramente mais sólidos a terem de enfrentar a ameaça da extrema-direita internamente, acabarão por faltar ao dever humanitário de auxílio desinteressado, receosos da revolta popular. Ninguém quer ajudar outrem se tal lhe parecer lesar direta ou indiretamente. Ao mesmo tempo, a prisão à moeda única impede os Estados de aplicarem políticas monetárias próprias, capazes de responder às suas vicissitudes internas. Se a União Europeia aplicar a receita de 2010 em diante, que conhecemos como «austeridade» o fim do projeto europeu avizinha-se, com o ressentimento dos países resgatados, ao caso não por gestão danosa, mas antes por maior fustigação do COVID-19.

Cólofon

A Morada dos Dias é um blogue de João Ferreira Dias, escrito segundo o Acordo Ortográfico, de publicação avulsa e temática livre. Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.