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O fluxo trazido pela globalização e pelo capitalismo glorificou as conquistas sociais económicas dos finais do séc. XX, em particular com a consolidação de uma classe média robusta, cada vez mais empoderada em resultado de uma estabilidade e crescimento económico que permitiu a elevação profissional através do boom educacional universitário. O número de licenciados disparou em flecha, e os primeiros dessa vaga conquistaram o mercado laboral de forma decisiva. Os empréstimos bancários à rédea solta, os cartões de crédito, a americanização do mundo através do modelo social baseado no consumo, glorificou um tempo que fez crer que viveríamos modernidades absolutas, nas quais as sucessivas gerações viveriam melhor do que as anteriores, e o espetro dos fascismos estaria, decisivamente, acometido a um canto da História. 

O problema é que como todas as glórias, também esta se baseou em saltos de fé, incapaz de prever efeitos micro que afetariam o macrossistema. Os chamados «descamisados» da globalização foram aumentando à medida em que o modelo capitalista perdeu a regulação e o mercado passou a ditar as regras, regras essas que foram teceladas sem fios de ética. Por baixo do aparente apogeu da sociedade de consumo como supressão de assimetrias, foi sendo escavado um fosso social em silêncio. Os efeitos europeus da moeda única rapidamente se fizeram sentir, num continente que só na cabeça dos economistas sem um olhar sociológico poderia parecer uniforme. O monstro capitalista, alimentado pela especulação e pelo crédito, não ficou saciado, e mesmo com o estourar da crise de 2008 jamais perdeu o seu apetite. A austeridade como caminho gerou uma profunda tensão social, porque aos descamisados da globalização, franjas sociais historicamente silenciosas, se juntou a classe média violentada pelos efeitos colaterais dos paradigmas político-financeiros. O "aguenta, aguenta" como modelo de governação, baseado no saque à classe média para financiar diretamente os bancos, num processo evidente de transferência de ativos, foi a gota de água para o ressurgimento dos populismos de extrema-direta. Ao mesmo tempo, o fluxo migratório contínuo, com populações dispostas a receber salários bem mais baixos, e a crise civilizacional gerada pelo avanço do sharia nas sociedades ocidentais, contribuíram, determinantemente, para um caldo sociológico perigoso, o qual permanece ignorado pela oligarquia política sediada em Bruxelas, que continua a olhar para a Europa pela lente da dívida pública e muito pouco pela lente da saúde da Democracia. Neste caldo a vapor, os discursos populistas anti-europeístas, protecionistas e nacionalistas, ganharam e ganham margem de manobra brutal, sem que Bruxelas se disponha a intervir. A receita da troika permanece prescrita, e assim irá ficar no obituário do projeto Europeu. 

Em segundo lugar, contribuindo para o agudizar do problema, está a descrença generalizada face à classe política. O distanciamento entre eleitorado e partidos clássicos é gritante, gerando um esvaziamento do centro moderado e comprometido com o projeto comum e com um modelo de sociedade liberal e progressista. A perceção de que os partidos estão comprometidos com interesses económicos, os escândalos de corrupção, e a própria perceção de que os políticos não representam os vários setores e clusters das sociedades, mas antes são selecionados por favorecimento, compadrio e corrupção interna, gera um clima de descrença e suspeição que ajuda a eleger políticos populistas. Com efeito, discursos inflamados, capazes de pegar nos mais banais silogismos para compor uma narrativa aparente, são sonantes aos ouvidos de um eleitorado descrente. 

Chegámos a um ponto em que as pessoas sacrificam a Democracia em nome de uma coisa nova, que na verdade nada mais é que uma ideia velha ressignificada. A classe política precisa compreender que tanto fez que para a população agora tanto faz. E tanto faz que arrisca eleger fascistas de forma triunfante. E o futuro não é nada risonho. 

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 We hope to see a Europe where men of every country will think of being a European as of belonging to their native land, and...wherever they go in this wide domain...will truly feel, ‘Here I am at home.” Winston Churchill


As crises financeiras são oportunidades para repensar modelos ideológicos e rumos coletivos. A uma boa dose de esperança é preciso aliar uma forte dose de coragem e perseverança para romper com o status quo e apontar a um horizonte mais risonho. Para que tal seja possível requerem-se homens e mulheres que não estejam presos ao poder, amarrados a acordos silenciosos ou a ideologias fixas e casmurras. São precisas pessoas como Varoufakis, que preferem o quebrar a torcer, que é como quem diz, preferem sair a ver o que crêem fortemente ser distorcido. 

Arrastados por um programa político-ideológico edificado em favor dos bancos e outras instituições financeiras, os países europeus, em particular os intervencionados, recuperam velhos estigmas regionais e das sombras voltam a emergir as desconfianças que conduziram a Europa a duas guerras no séc. XX. Essa desconfiança que se deita no areal europeu fixa um "nós e eles" tão inoportuno quanto perigoso. Corre de boca em boca, cada vez mais sem rodeios, a proclamação de um IV Reich. O imperialismo alemão, agora pela via do capital, tem sob o seu jugo uma Europa do sul como espaço vital, entre as praias quentes e a mão-de-obra qualificada a preços de saldo, exportada por governos subservientes como o português que faz "heil" convicto a Berlim. "Orgulhosamente militantes" poderia ser o lema de Passos Coelho e Paulo Portas. 

É urgente dar um passo atrás para podermos dar dois em frente. É preciso rever os ideais que nos moveram após a segunda guerra mundial. É fundamental recriar o sentimento de pertença em cada cidadão, afastar a desconfiança, impedir uma guerra fria, evitar a edificação de muros ideológicos em torno de Berlim, e voltar a ver nos termos "cooperação", "desenvolvimento", "integração", "paz", "convivência", "rumo coletivo", palavras de ordem. A velha Europa precisa tomar a nostalgia de assalto e refazer-se, reinventar-se buscando o seus ideais mais antigos. Precisamos de um novo amanhã, nem que para isso voltemos a um maio de '68. 

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 Um dos principais problemas da chamada "zona euro" foi ter concebido, tragicamente diga-se, os seus membros a partir da ideia de equidade económica. À boleia de um projeto unificador foi-se alimentando uma utopia que não tardaria a desmoronar-se e a traduzir-se num caos que é hoje o pano de fundo da região. Ao nivelarem-se os países pela principal potência económica e assim política, a Alemanha, criou-se a perceção de que se caminhava em igual ritmo. Que terrível engano! Ora, não só se deterioraram os ideais europeus gerados desde o pós-segunda guerra, a reboque de uma situação económica e financeira insustentável derivada, como sabemos, de uma política de austeridade cujo principal objetivo é o enriquecimento do sistema bancário alemão, como se abriu uma nova ferida sob cicatriz há muito fechada. Há dias, a propósito do referendo grego, dizia um cidadão helénico que "a Europa tem medo do referendo". Este discurso "nós, eles" encontramos, igualmente, em Portugal:  "Na Europa...". Isto é sinal de que o projeto europeu está ainda por ser realizado. É sinal, ainda, de que é impensável manter a Europa unida, sem um clima de desconfiança que conduziu às duas grandes guerras do nosso tempo, sem uma política de integração, cooperação e diálogo reais, onde os ganhos da "mão invisível" não sejam o motor da interlocução. O horizonte é que "nós, os europeus" se torne "Nós e os europeus". 

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Vamos lá ver: uma coisa são as exigências de garantias de pagamento de empréstimo, coisa que de resto o fazem bancos e instituições que conferem crédito, outra coisa é imposição de regras quanto à gestão interna. Quando vamos ao banco pedir um empréstimo para comprar uma casa, por exemplo, o banco não exige que deixemos de ir de férias, que coloquemos um filho na escola pública ou que dispensemos a senhora que vem limpar a casa uma vez por semana. Exige, sim, garantia de pagamento. A forma como o vamos conseguir é conosco. Ora, é exatamente isto que Tsipras quer - autonomia na gestão da dívida. O que Portugal fez foi entregar a soberania a Berlim, o que é diferente.

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 Enquanto Cavaco Silva faz contas de subtrair, considerando (mal, diga-se) que a saída da Grécia não seria uma fila de dominó, no plano da realidade o futuro da Europa é jogado por estes dias. Em equação estão a firmeza de Tsipras e o medo e a perseverança do povo grego. O referendo de domingo precisa de se traduzir num rotundo "Não", a bem da Grécia e da Europa. O fim deste programa louco de austeridade está dependente da capacidade de inverter os efeitos da mesma, e tal só é possível criando instabilidade nos mercados. É fundamental que a banca alemã comece a perder em resultado da persistência grega, da perseverança de um povo e de um governo que sabe que a austeridade não é o caminho, que foi eleito por um programa de governação que quer cumprir. A ética e a moralidade não são temas menores para Tsipras, como o são para Paulo Portas e Passos Coelho. 

 

Se há medo nas ruas de Atenas há, certamente, uma inversa confiança em Tsipras. A confiança de quem sabe que Bruxelas teme o grexit, não por amor a Santorini mas pelo amor à moeda única e ao projeto imperial dos bancos alemães. Há, portanto, um braço-de-ferro a decorrer. Bruxelas quer fazer vergar essa coisa hedionda que é a esquerda grega no poder, e Atenas quer fazer valer o seu direito à barganha e autodeterminação. 

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 1. O governo português está entusiasmado com a austeridade, dela fazendo bandeira e lema. A pertença à família ideológica de onde ela emerge tolda a visão, e na mistura com slogans vai parecendo que o programa de intervenção está a funcionar. Sabemos que não é bem assim. O grande programa do governo PSD-CDS era: controlo do défice e redução da dívida pública. Resultado: défice pseudo-controlado e uma dívida pública nos píncaros. Redução do desemprego? Sim, exportando a mão-de-obra ativa. 

2. Mas o que tem isto a ver com a Grécia? Bom, não teria nada não fosse lema de campanha da coligação o "não somos a Grécia". O que há, de facto, de diferente entre Portugal e a Grécia, é que a) não estivemos envolvidos numa mentira com a Goldman & Sachs envolvendo uma falsificação das contas públicas, b) o governo grego está nos antípodas do mainstream ideológico europeu. Ora, se o primeiro ponto diz respeito às dificuldades na recuperação económica, o segundo diz diretamente à aplicação de uma receita que vem provando toda a sua ineficácia. O problema da troika com os gregos é que o Syriza é o monstro debaixo da cama do liberalismo bancário que nos governa - há que o matar e colocar no seu lugar um fantoche, de preferência um clone do primeiro-ministro português, alguém que entenda que não há vida para além da troika, que não há amor maior do que o dos bancos, alguém que queira uma cadeira confortável num escritório escolhido a dedo, depois de ter cumprido o papel que lhe foi dado a desempenhar, e o qual levou a bom porto com tanto esmero. 

3. É claro que o Grexit será um problema para a Europa. É claro que a Grécia deverá passar um mau bocado, a menos que se vire para oriente e se torne um protetorado chino-russo. Mas não é isso que vai acontecer. Não é isso que a troika quer. O que a dita deseja, isso sim, é fazer vergar Tsipras, fazendo da Grécia um exemplo do que acontece a quem afronta o status quo, a quem não se verga perante o poder imperial da nova Roma. 

4. No entanto, devemos olhar outros horizontes. Qual foi o país que resolveu a sua falência em tempo recorde? A Islândia. E como? Recusando a troika e desenvolvendo um projeto alternativo que passava pelo reforço das relações em eixo com a Noruega, Dinamarca e Suécia. Trata-se, claro, de uma realidade geográfica, política, económica e cultural diferente, mas não deixa de servir de estudo-de-caso para um novo amanhã, mais humano, de preferência. 

5. Por fim, recordemos que um grande defensor da aplicação da austeridade, Jean-Claude Juncker, foi, enquanto primeiro-ministro luxemburguês, um ativo agente do capital, desenvolvendo estratégicas que permitiram às grandes empresas brutais fugas aos impostos. Ora, o que temos aqui é, sem dúvida, uma batalha ideológica entre um programa designado por austeridade que vai favorecendo as grandes empresas e em particular os bancos e penalizando os cidadãos como elos frágeis amarrados à impossibilidade de fugas limpas aos impostos, e um governo grego que anseia por um programa alternativo, que penalize menos os cidadãos e que traga as empresas ao cumprimento do seu dever, mesmo que se governe por ideias, em aspetos certos, radicais.

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Provavelmente a palavra mais utilizada ao longo do ano, seguida bem de perto por "troika", entrou nas nossas vidas como um velho conhecido que nos fazia de vítima nos tempos de escola ou como uma capa pastosa que se nos cola à pele e que não somos capazes de tirar com um prolongado duche. Mas o que vem a ser a austeridade? Programa político-económico levado a cabo pela troika nos países intervencionados, é fruto de um modelo ideológico de longue durée alicerçado numa conceção de sociedade hermética e bem definida, que no período da Idade Média se definia em Clero, Nobreza e Povo, e que ao longo da história foi sendo articulada em Nobreza, Burguesia e Operariado, e em Detentores do Capital e Proletariado. A burguesia, em rigor, representa uma variação do modelo, ao expressar as possibilidades da ascensão e mobilidade social simbolizadas no selfmade-man


Com o advento da industrialização, com a globalização, com a produção em massa, o crescimento económico e a emergência das possibilidades de consumo, as sociedades ocidentais viram o seu paradigma social alterado, com o surgimento de uma classe média que permitiu aos filhos, através dos estudos e de bens de consumo, a ascensão social. Ora, quando o capitalismo se tornou selvagem e as famílias se tornaram "chão que já deu uvas" -- endividadas até ao tutano graças a um programa bancário que as seduziu ao super-endividamento -- resurgiu a possibilidade de novo reajustamento social, em que o fosso económico se re-acentua e os remediados deixam o estado provisório de classe média. 

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Por toda a história de vida de Indira Ghandi o Prémio da Paz que leva o seu nome acarreta um peso simbólico tremendo e jamais deveria ser utilizado indiscriminadamente. No entanto, a crise chegou também aos valores e vemos o prémio ser entregue, este ano, a Angela Merkel, chanceler alemã. Os argumentos para tal não poderiam ser mais dispares. Se é um facto que Merkel teve importante papel no crescimento económico alemão, não é menos verdade que o fez à custa da crise, à custa do plano de estrangulamento e empobrecimento dos países da Europa do Sul. Portanto, o segundo argumento, que fala na "liderança exemplar na Europa" só pode ser recebido com firme pé atrás. A situação europeia não tem melhoras porque a Alemanha não quer, é um dado comummente aceite. São 41 mil milhões de euros de receita com os juros dos planos de resgate. A Alemanha, a história ensina-nos, sempre teve um plano para a liderança da Europa, plano esse que invariavelmente acabou mal. A arma é outra: chama-se economia. Enquanto Merkel ergue o copo e faz-nos um brinde, vamos curvados entregando a soberania aos desígnios de Berlim. 

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Constando ao espaço religioso africano o uso ritual de imagens/estátuas sempre foi tomado como idolatria, não obstante na margem Ocidental o uso longue durée como objetos de adoração católica. Balizações erróneas à parte, a estatutária permanece como referencial de imortalidade, como processo de valorização cultual de determinada figura, seja religiosa seja laica. Não obstante, apesar de discordar da intervenção do FC Porto, subscrevo as críticas à participação da Câmara Municipal de Lisboa na construção de uma estátua ao fundador do SL Benfica. Não é aceitável que o erário público - provindo da totalidade dos cidadãos - seja utilizado na edificação de uma estátua que representa uma tomada de atitude pública da autarquia de Lisboa. Não apenas a CML se está a imiscuir declaradamente no futebol, como o faz tomando uma atitude de favorecimento. Que António Costa seja adepto do Benfica, enquanto cidadão, na sua individualidade, em nada temos a ver com isso; que a sua preferência se expresse no exercício de funções políticas é assunto para torcer o nariz. Por uma questão de equidade a CML deverá fazer o mesmo para o Sporting, para o Belenenses, para o Atlético, etc. 50 mil euros não fazem moça no orçamento da autarquia, mas a utilização de tais fundos - que poderiam ser afetados para ações sociais ou de outra natureza lúdico-cultural - para a construção em questão é, sem dúvida, um ato de violência simbólica e de promiscuidade. O clube em causa tem de fazer uso do seu orçamento para a construção de objetos que se identificam com a memória e a identidade próprias. Manobra perigosa de um autarca em crescendo nacional. 

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Uma significativa fatia da crise que estourou em 2008 adveio da falência da Lehman Brothers. Foi um golpe nas ilusões da invencibilidade dos bancos e nas ilusões do capitalismo sem eira nem beira. A sede de lucros dos gestores levou à distribuição louca de crédito, ainda na onda selvagem de incentivo ao endividamento. Ora, sabendo que o modelo político-financeiro atual é herdeiro de um ideal de mercado e dos ganhos da banca e dos bancos, é sempre importante que os bancos tenham prejuízo, nem que seja por os manter à tona da vida, junto das pessoas que lutam pela sobrevivência em países cujos governos as engolem. 

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