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Dias Assim

04
Jan21

A Morte do CDS

Sondagem dá 0,3% ao CDS. Chicão não foi capaz de revitalizar um partido em franco desaparecimento. Em todo o caso, a responsabilidade não é exclusiva ou nem se quer é do líder do partido. O CDS foi um partido de agregação de democratas-conservadores, de democratas-cristãos, de conservadores mais ou menos democratas e de órfãos do Estado Novo. Com o surgimento do Chega, uma grande parte deles reviu-se em André Ventura, um político saído de dentro do sistema, mas com um discurso antissistémico, conservador-cristão se assim convier, antiparlamentarista para os saudosistas de Salazar, populista para as massas, e académico para as elites que votavam CDS pela distinção social. Não sobra nada ao histórico partido de ilustres figuras como Freitas do Amaral, Amaro da Costa, Lucas Pires, Adriano Moreira ou Manuel Monteiro. É precisamente por isso que o partido foi entregue a Francisco Rodrigues dos Santos. 

02
Set20

Micropost [54] | ai meu rico Chega

Cinha Jardim foi ao jantar-comício do Chega em Setúbal, facto que André Ventura fez questão de enfatizar nas redes sociais. Enquanto ato político-simbólico, estamos diante de um sinal claro da transferência eleitoral do CDS para o Chega. Isto revela que uma enorme fatia do eleitorado daquele partido não era apenas católico-conservador, mas preconceituoso (étnico-racial, social, sexual, religioso, etc.), e estava ali na falta de um partido que desse real expressão aos seus valores e modelo de sociedade: segregadora, sem mobilidade social e diversidade cultural. O espírito do Estado Novo não desapareceu com o 25 de Abril, esteve apenas à espera de oportunidade de regressar. Quando os pobres perceberem que o programa do Chega não os representa já será tarde.

20
Ago20

Esquerdofobia

Na década de 1970 Archie Bunker surgia para mostrar, de forma cómica, o absurdo dos preconceitos da sociedade americana. Na época era um sinal de coragem tratar de homofobia, racismo, misoginia. Hoje isso tornou-se num tal de politicamente correto e Bunker passou de paródia a herói. Não é por acaso que Trump foi comparado à personagem de All in the Family, tanto como crítica como por elogio. Ora, o que temos hoje é pequenos Archie Bunker por todo o lado, gente para quem tudo o que não seja pensamento igual ao seu é marxismo cultural (uma paranóia), perigo comunista, esquerdopatia. Isto não significa que à esquerda não existam pessoas com ideias radicais e desligadas da realidade, mas o archiebunkerismo manifesta-se na paranóia da ditadura da esquerda e no ódio por todas as pessoas do outro lado da fronteira ideológica, sejam moderadas ou radicais.

01
Fev20

O Guarda Abel

As declarações de Abel Matos Santos não tiveram um contexto, como se defende. Elas não foram uma referência casual, são retrato das suas crenças. Da apologia do Salazarismo ao antissemitismo, sem esquecer que, na qualidade de Psicólogo sexologista, é um combatente da homossexualidade. É alguém que se revê mais no Chega do que na Democracia cristã. Aliás, ele mesmo já afirmou que o partido de André Ventura é um aliado. Trata-se, portanto, da contextualização portuguesa do bolsonarismo, com a apologia do regime autoritário, com o apreço por uma autoridade pública repressiva, de forte pendor anti-pluralista, de arreigada moralidade religiosa, marcada pela homofobia, a que só falta a profunda desconsideração pela cultura, mas que certamente não faltará uma ideologia de cultura estreita e unidimensional. Em suma, é o arquétipo do católico conservador, elitista, saudosista do Estado Novo, defensor da cura da homossexualidade. O grave nisto não são as suas crenças, em última análise há sempre espaço para que elas existam dentro de um limite democrático. O problema é fazer crer que a Direita é isto, e que este é o caminho da Direita, sendo que tudo o que não seja isto é tudo esquerda, é tudo nefasto.

27
Set19

O tal mundo rural e quem fala em seu nome

A emergência do PAN, de um discurso ambientalista e de defesa dos direitos dos animais (animalista na versão radicalizada do PAN), trouxe de volta a narrativa política do «mundo rural». Idealizado pelo Estado Novo enquanto memória identitária, esse «mundo rural» marcaria o compasso da «portugalidade». Com o advento da Democracia e a consequente litoralização, o «mundo rural» foi progressivamente desaparecendo, não enquanto realidade, mas enquanto ideologia e enquanto espaço primário de sociabilidades e construção de identidade, dando lugar à cidade como paradigma moderno de geografia humana. Ora, com o regresso de uma polarização política, com os blocos a se radicalizarem, a defesa do «mundo rural» como modo de vida entrou no discurso da Direita portuguesa. O problema é que esse mundo rural é visto, não na sua diversidade, mas antes na sua uniformização identitária ideológica. Para mais, a maioria daqueles que falam em seu nome são pessoas com pouca ou nenhuma ligação ao tal «mundo rural», fazendo dele uso para combate político. 

20
Set19

Lendo Blogs

Quase compreendo o argumento de Helena F. Matos a propósito das máscaras étnicas. E digo quase porque à primeira vista não ocorre nenhum mal em nos mascararmos de outras identidades étnicas. Até porque a máscara opera no sentido de permitir experimentar uma personagem, uma identidade que é diferenciada daquela que assumimos no quotidiano. Ela pode ser, inclusive, uma exaltação (uma personagem histórica), uma tara (no caso das performances BDSM) ou reflexo heróico (um super-herói). Então qual é o problema das máscaras étnico-raciais? Coloquemos um cenário: um homem negro mascarado de homem branco representado como um nerd. A primeira reacção é a do racismo invertido que pretende estereotipar os homens brancos, explicitando uma visão distorcida da realidade. Certo. Ora, não só é o caso das máscaras étnicas de chineses, ameríndios, etc., como é importante adicionar a essas estereotipias a herança histórica do darwinismo cultural e do determinismo racial para compreender que existe ali uma carga de violência simbólica que poderíamos não notar à primeira. É verdade que não havendo dolo o cenário se dilui. Todavia, numa altura em que se regressa uma forte representatividade social dos radicalismos de extrema-direita, é importante voltar a olhar com zelo para os significados dos gestos, esperando que a humanidade regresse a um estágio de desenvolvimento e democratização tal que permita a visibilidade positiva das vozes silenciadas, tornando obsoletas preocupações sobre preconceito, racismo e xenofobia. 

07
Jul19

O Crescimento Económico

João Miguel Tavares, e outros comentadores de direita, refugiam-se no crescimento económico médio, face a países como a Roménia e a Polónia, para criticar o governo. Os dados estão aí, é um facto. Mas seria importante reconhecer que esses países precisam, efetivamente, de crescer muito acima do que cresce Portugal. É que se achamos que temos um país assimétrico, com clivagens sociais e económicas, vejam-se as condições desses países. Os níveis de conforto social são baixíssimos, assim como a mobilidade social. Se achamos que o nosso meio rural está subdesenvolvido, o melhor é ir ver o que se passa nesses países. Por isso, ainda bem que crescem mais do que nós, e que transformem rapidamente esse crescimento em welfare.

05
Fev19

A Venezuela e Henrique Raposo

Henrique Raposo é um cronista conservador. Nada contra. O problema é quando se confunde a posição de conservador com o apego aos extremismos moralistas e ideológicos. Na sua última crónica no Expresso, para poder atacar Maduro, confunde socialismo com regimes autoritários que derivaram do socialismo. Para ele, existe uma relação direta entre socialismo e ditadura. O problema é que este tipo de argumento populista é incapaz de explicar as ditaduras de direita, para além de ser incapaz de perceber o socialismo nas suas dimensões democráticas. Para este pilantra do raciocínio, só existe um modelo de sociedade possível e funcional: o do liberalismo, modelo esse que, aliás, tem feito maravilhas pela inclusão social e pela paridade. O maniqueísmo é tão decadente que virou kitsch. 

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[para que não sobrem dúvidas: não apoio Maduro]

31
Out18

Dos Bolsonaros do nosso Portugal

Como escrevi ali, «Portugal não é um paraíso democrático anti-fascista, é um país onde o fascismo está no armário, como estava no Brasil». É verdade que existe um histórico social bem distinto entre Portugal e o Brasil. Não temos, felizmente, um passado mal-resolvido como aquele que marina no outro lado do Atlântico, e que abordei no post abaixo. Não o temos, não daquela envergadura, mas temos o nosso próprio passado mal-resolvido, um banho-maria salazarista, um sobretudo que tem estado bem engomado no armário, à espera de ser vestido na ocasião certa. Portanto, apesar de chocante, não pode surpreender que Assunção Cristas optasse por se abster a votar em Haddad. Ou que Paulo Portas não veja nada de "eticamente reprovável" em Bolsonaro e que Santana Lopes considere que o regime democrático sairá reforçado com Bolsonaro. É claro que o apoio destes três ilustres direitistas não é eufórico nem estampado, é cauteloso q.b., com a devida distância institucional que se deve para sobreviver politicamente, até à altura de aparecer em força, atrelada ao populista certo. 

 

→ a propósito ver o texto do Flávio Gonçalves sobre o assunto.

15
Out18

Bolsonaro e a Direita Portuguesa

Em Portugal a desinformação sobre Bolsonaro é ainda tão grande, em resultado da forma como ela é filtrada, do outro lado do Atlântico, pelos órgãos de comunicação social detidos, maioritariamente, por grupos económicos conservadores, que a Direita portuguesa apoia-o sem saber exatamente qual o seu programa ideológico. Acredita que o PT é o demónio porque assim ouviu na Record, e acha que isto nada tem a ver com a sobrevivência da Democracia. A ignorância não é uma bênção, ela pode ser estupidez mesmo. Uma estupidez que se paga caro, como a história tem mostrado. 

Cólofon

Dias Assim é um blogue de João Ferreira Dias, escrito segundo o Acordo Ortográfico, de publicação avulsa e temática livre. Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

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