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Dias Assim

25
Jan21

A manhã depois das eleições

Estas eleições tornaram evidente a recomposição do mapa político nacional, ainda que de modo parcial, tendo em conta que a eleição presidencial é sempre um fenómeno indissociável do carisma dos candidatos. Em todo o caso, é percetível que Portugal vive, hoje, um fenómeno de fragmentação social, por força da importação do modelo reciclado da “guerra fria”, decorrente da incapacidade da globalização – por razões inerentes à ideologia liberal – chegar a todas as franjas da sociedade. Os chamados “descamisados da globalização”, aqui, como um pouco por todos os países onde a baixa escolaridade e a baixa renda andam associadas (a que se juntam sentimentos patrióticos), procuraram vozes com aura antissistémica que ampliassem as suas visões do mundo, dizendo pós-verdades que formam uma narrativa política poderosa. Os “verdadeiros americanos”, os “cidadãos do bem” do Brasil, ou os “portugueses de bem”, alinham-se contra um “perigo vermelho” que é preciso derrotar. Em consequência dessa polarização muito bem orquestrada, o pacto social tem dado lugar à tensão social.

Quanto à noite eleitoral, o discurso de vitória de Marcelo Rebelo de Sousa serviu para mostrar ao Partido Social Democrata que a social-democracia contida na sua designação não é meramente operatória, mas antes um rumo num país onde a extrema-direita é, na verdade, mais perigosa do que qualquer partido de esquerda radical. O chamado presidencial à pacificação e unificação nacionais, em linha, de resto, com o discurso de posse de Joe Biden, dificilmente sortirá o efeito desejado. A locomotiva do autoritarismo está em marcha, e cabe aos partidos democráticos atuarem na esteira da integridade, da ética e do compromisso com a sociedade, em defesa do Estado de Direito democrático, se querem impedir que o Chega chegue ao governo.

Apesar dos bons discursos de João Ferreira e Catarina Martins (Marisa Matias mostrou, uma vez mais, que não possui o perfil para as funções que desempenhou), a esquerda vermelha em Portugal enfrenta uma brutal crise perante a hecatombe dos resultados. Muito provavelmente, terão dificuldade em tirar elações políticas dos resultados que não de natureza exógena. Se assim for, nas próximas eleições legislativas correm o risco de se juntarem ao CDS e alugar uma pequena carrinha de 10 lugar para deslocações ao Parlamento. Nos termos que a situação política em Portugal aparenta, a refundação da esquerda tornar-se-á um imperativo, seja através de uma aliança (difícil) entre o BE e a CDU, seja com o surgimento de um partido capaz de apresentar uma mensagem de esquerda moderna, tarefa que o Livre foi incapaz de cumprir. Talvez ainda vá a tempo.

À direita, o CDS tentou colar-se à vitória de Marcelo Rebelo de Sousa de tal forma megalómana que saiu a perder com o discurso de Francisco Rodrigues dos Santos. A bolha de oxigénio que “Chicão” procurava era manifestamente ilusória. Exigia-se uma mensagem positiva, mas mais comedida. Rui Rio aproveitou bem a oportunidade para se demarcar do Chega, entendendo as mensagens de Marcelo Rebelo de Sousa ao longo da campanha, mas terá errado ao atacar o PS naquele momento, procurando, também ele, empolar os resultados eleitorais em favor do PSD. Quando à IL, apesar dos satisfatórios resultados de Tiago Mayan Gonçalves, o candidato liberal mostrou-se particularmente impreparado para o discurso, tendo uma atuação sofrível.

Os dados da política nacional estão lançados. O futuro será de batalha política, muitos confrontos ideológicos, pós-verdades, acusações, numa tentativa de instrumentalizar a crise sanitária, crise económica e a crise social que se avizinham.

© Foto Mário Cruz - Lusa 

04
Jan21

A Morte do CDS

Sondagem dá 0,3% ao CDS. Chicão não foi capaz de revitalizar um partido em franco desaparecimento. Em todo o caso, a responsabilidade não é exclusiva ou nem se quer é do líder do partido. O CDS foi um partido de agregação de democratas-conservadores, de democratas-cristãos, de conservadores mais ou menos democratas e de órfãos do Estado Novo. Com o surgimento do Chega, uma grande parte deles reviu-se em André Ventura, um político saído de dentro do sistema, mas com um discurso antissistémico, conservador-cristão se assim convier, antiparlamentarista para os saudosistas de Salazar, populista para as massas, e académico para as elites que votavam CDS pela distinção social. Não sobra nada ao histórico partido de ilustres figuras como Freitas do Amaral, Amaro da Costa, Lucas Pires, Adriano Moreira ou Manuel Monteiro. É precisamente por isso que o partido foi entregue a Francisco Rodrigues dos Santos. 

02
Set20

Micropost [54] | ai meu rico Chega

Cinha Jardim foi ao jantar-comício do Chega em Setúbal, facto que André Ventura fez questão de enfatizar nas redes sociais. Enquanto ato político-simbólico, estamos diante de um sinal claro da transferência eleitoral do CDS para o Chega. Isto revela que uma enorme fatia do eleitorado daquele partido não era apenas católico-conservador, mas preconceituoso (étnico-racial, social, sexual, religioso, etc.), e estava ali na falta de um partido que desse real expressão aos seus valores e modelo de sociedade: segregadora, sem mobilidade social e diversidade cultural. O espírito do Estado Novo não desapareceu com o 25 de Abril, esteve apenas à espera de oportunidade de regressar. Quando os pobres perceberem que o programa do Chega não os representa já será tarde.

08
Ago20

Micropost [50] | Poder, a quanto obrigas

A disponibilidade de Miguel Albuquerque para dialogar com o Chega, depois de Rui Rio, diz mais do Estado de espírito do PSD do que sobre uma estratégia da Direita para formar um bloco. O que se passa, verdadeiramente, é que o PSD temendo não chegar ao poder e vendo o PS mais próximo de reavivar a geringonça, sentiu o chão fugir-lhe e, assim, opta por vender a alma ao ar do tempo ao invés de ser o bastião democrata à direita. Poder, a quanto obrigas.

01
Fev20

O Guarda Abel

As declarações de Abel Matos Santos não tiveram um contexto, como se defende. Elas não foram uma referência casual, são retrato das suas crenças. Da apologia do Salazarismo ao antissemitismo, sem esquecer que, na qualidade de Psicólogo sexologista, é um combatente da homossexualidade. É alguém que se revê mais no Chega do que na Democracia cristã. Aliás, ele mesmo já afirmou que o partido de André Ventura é um aliado. Trata-se, portanto, da contextualização portuguesa do bolsonarismo, com a apologia do regime autoritário, com o apreço por uma autoridade pública repressiva, de forte pendor anti-pluralista, de arreigada moralidade religiosa, marcada pela homofobia, a que só falta a profunda desconsideração pela cultura, mas que certamente não faltará uma ideologia de cultura estreita e unidimensional. Em suma, é o arquétipo do católico conservador, elitista, saudosista do Estado Novo, defensor da cura da homossexualidade. O grave nisto não são as suas crenças, em última análise há sempre espaço para que elas existam dentro de um limite democrático. O problema é fazer crer que a Direita é isto, e que este é o caminho da Direita, sendo que tudo o que não seja isto é tudo esquerda, é tudo nefasto.

27
Set19

O tal mundo rural e quem fala em seu nome

A emergência do PAN, de um discurso ambientalista e de defesa dos direitos dos animais (animalista na versão radicalizada do PAN), trouxe de volta a narrativa política do «mundo rural». Idealizado pelo Estado Novo enquanto memória identitária, esse «mundo rural» marcaria o compasso da «portugalidade». Com o advento da Democracia e a consequente litoralização, o «mundo rural» foi progressivamente desaparecendo, não enquanto realidade, mas enquanto ideologia e enquanto espaço primário de sociabilidades e construção de identidade, dando lugar à cidade como paradigma moderno de geografia humana. Ora, com o regresso de uma polarização política, com os blocos a se radicalizarem, a defesa do «mundo rural» como modo de vida entrou no discurso da Direita portuguesa. O problema é que esse mundo rural é visto, não na sua diversidade, mas antes na sua uniformização identitária ideológica. Para mais, a maioria daqueles que falam em seu nome são pessoas com pouca ou nenhuma ligação ao tal «mundo rural», fazendo dele uso para combate político. 

Cólofon

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