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A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

Micropost [23] | Pós-Democracia

Novembro 29, 2019

O processo de impeachment de Donald Trump revela de forma clara e evidente a extensão e a gravidade das ações de um homem que acredita ter comprado o país como quem compra uma empresa cotada na bolsa. Aquilo que outrora seria matéria mais do que suficiente para a destituição e a vergonha de uma nação, não conduzirá a nada. Os seus apoiantes tomam por normais as suas violações democráticas. Na era do cansaço da ética tudo é lícito a um certo tipo de pessoas. Teremos Trump por mais um mandato e a consolidação da era pós-democrática como paradigma vigente.

Trump deita-se à sombra do carvão

Junho 01, 2017

Donald Trump acaba de anunciar o previsível, o abandono dos Estados-Unidos do Acordo de Paris, respeitando o compromisso de aplicar o seu programa eleitoral. Não nos devemos chocar. Donald Trump sempre afirmou, e hoje voltou a afirma-lo, que o aquecimento global é um embuste criado pela China para reduzir a capacidade industrial norte-americana. Trata-se de uma teoria esquizofrénica que encaixa, perfeitamente, na personalidade messiânica e dada a teorias da conspiração do ocupante da Casa Branca. Em segundo lugar, verifica-se um alinhamento entre as pretensões político-ideológicas de Donald Trump e os seus financiadores da indústria petrolífera e do carvão, que não tardaram a emitir a fatura dos 90 milhões injetados na sua campanha. Portanto, num só golpe Trump destrói um acordo que levou uma década a ser firmado, e coloca em risco a sustentabilidade do planeta, deixando perfeitamente visível a ausência de compromisso ético e moral da sua gestão. A narrativa de Trump, a "história da carochinha" sobre emprego, crescimento económico e conspiração chinesa, é operatória, unicamente, num eleitorado com dificuldade em compreender o que está em causa com o aquecimento global, resumidamente um eleitorado de baixa escolaridade a quem Trump conta belas mentiras. A rutura com o Acordo de Paris servirá para abrir a já de si significativa fissura na sociedade americana, evidenciando o problema do modelo eleitoral presidencial onde não basta ter o maior número de votos. Durante mais quanto tempo Donald Trump conseguirá sustentar uma governação baseada no binómio "eles contra nós" e no slogan "make America great again"?

Entender a emergência de Trump

Fevereiro 01, 2017

Não é por acaso que Donald Trump vem sendo comparado a Adolf Hitler. As trajetórias são, evidentemente diferentes, mas os traços de personalidade e a emergência da figura mais hedionda do século XX e do atual presidente dos EUA. Em primeiro lugar ambos são filhos de mães com historial determinante na configuração de personalidade dos seus filhos, num jogo articulado de complexo de Édipo. No caso de Hitler, a saúde débil de sua mãe foi fundamental na configuração de uma noção de impureza geneticamente instituída nos judeus. Ao mesmo tempo, situações de instabilidade política e económica foram essenciais para que emergissem nas sociedadesalemãe e norte-americana um sentimento de suspeição diante do "outro", haja visto que a alteridade requer uma maturidade psicológica e cultural maior que o preconceito, instinto primário. Na Alemanha da virada do pós-I Guerra Mundial, um sentimento de orgulho ferido e a emergência dos ideias antissemitas oriundos de Viena, foram essenciais para que Hitler emergisse como o líder que iria tornar a Alemanha grande, outra vez. Nos EUA pós-Obama, o primeiro presidente negro e mais à esquerda, onde o midwest mantém os seus valores conservadores e em que 20% da sua população considera que a escravatura nunca deveria ter terminado, onde a escolaridade é mais baixa e o conservadorismo religioso mais elevado, e com o agudizar do fenómeno do terrorismo islâmico, a emergência de um homem branco, rico, conservador e mediático, colou com as aspirações e receios dos americanos, em particular a franja descrita como redneck (trabalhadores rurais ou de baixo rendimento). No meio disto, tanto Hitler quanto Trump cavalgaram a onda, revelando-se oradores poderosos com distúrbios de personalidade, marcados pelo exacerbamento de personalidade. De um modo claro, Hitler e Trump apresentaram-se aos seus concidadãos como: líder eleito para guiar o povo eleito e tornar os seus países grandes novamente. Trata-se de uma narrativa poderosa, herdeira do messianismo bíblico, e que encontra eco nas crenças e aspirações mais profundas de pessoas com baixa capacidade crítica, com valores ultranacionalistas e extremamente religiosas. Não é, pois, de estranhar Donald Trump ter recebido o apoio do Ku Klux Klan. 

Em jeito de término, deixem-me dizer-vos algo assustador: o problema não é Trump. De uma forma ou de outra ele acabará por sair. O problema são estes milhões de pessoas que o colocaram lá, que permanecerão presas aos seus valores e que mais tarde ou mais cedo, no momento certo, colocarão no poder outro. O que é válido para Trump é válido para Le Pen e outros iguais. A ignorância tem muita força. Education is the key against oppression.

O Dia Zero da Era Trump

Janeiro 21, 2017

Nenhum outro dia pareceu tão oportuno para revisitar Alexis de Tocqueville e a sua análise da democracia americana. Quase 200 anos depois a eleição de Trump é o exemplo da assertividade das palavras do visconde francês. Escreveu o mesmo que em tempos de instabilidade as pessoas abdicam da sua liberdade em troca da segurança e que a maioria nem sempre tem razão. Ora, Trump, com o seu discurso de exclusão e difusão do medo conquistou a maioria redneck, provando, uma vez mais, que o medo é um aditivo político poderosíssimo, particularmente quando se oferecem bodes expiatórios. Não é preciso ter ideias, basta gritar e bracejar uns chavões. É o dia zero da Era Trump. O eixo terrível está completo com Trump, Putin e May. Merkel perdeu o efeito de terror.

A lição de Trump ao Partido Democrata.

Novembro 12, 2016

Democrats did it themselves, é uma conclusão acertada para o desfecho das eleições norte-americanas. O Partido Democrata precisa, com seriedade, fazer uma reflexão sobre os caminhos que pretende trilhar doravante, para que os erros, cuja fatura foi agora emitida, não se repitam. O primeiro erro foi desvalorizar a candidatura de Trump e ter, por portas e travessas, dado uma mão ao agora eleito presidente, numa tentativa de dividir o eleitorado republicano, esperando que o tempo cumprisse o seu papel de fazer cair a paródia donáldica. Menosprezar a capacidade de Trump cavalgar a onda foi um erro colossal, e os media, por seu turno, não estão isentos de responsabilidade. Donald Trump é one man show numa América onde uma fatia significativa da população elege o presidente como um concurso de popularidade. Em segundo lugar, e verdadeiramente mais importante ainda, foi desvalorizar o seu próprio eleitorado, oferecendo-lhe a candidata Hillary Clinton como se os democratas não dessem pela diferença face a Bernie Sanders. Uma desfaçatez dos corredores democratas, que optaram pela sua candidata mais conservadora e cuja imagem não se deslocava da administração do seu marido e dos interesses de Wall Street. É preciso, portanto, respeitar o eleitorado, quando era evidente que os eleitores democratas queriam uma transição governativa pacífica, com um presidente com uma imagem clean e independente dos vícios políticos, e verdadeiramente de esquerda. Bernie Sanders reunia todos os predicados como candidato (uma vez que Michelle Obama não apareceu à corrida, e bem a meu ver). O partido desinteressou-se disso, partindo do errado pressuposto que qualquer candidato serviria ao seu eleitorado. É claro que o eleitorado democrata cometeu o erro de não ir votar, esperando que os seus concidadãos flutuantes e até republicanos não cometessem o erro de eleger Donald Trump. Mas cometeram. Um golpe inesperado geminado com o brexit, e que deixa a América num caos político, num turbilhão social, entregue ao lado mais negro do Partido Republicano. Serão quatro penosos anos. Ao menos que seja uma lição profunda para o Partido Democrata -- é preciso deixar o eleitorado escolher. 

Soaram as Trumpetas

Novembro 11, 2016

 Tocqueville em "Da Democracia na América" alertava para a ilusão da maioria, sobre os limites democráticos de supor que a maioria resumia a razão. As eleições presidenciais norte-americanas tornam-se paradigma de que as pessoas em tempos incertos abrem facilmente a mão da razoabilidade em troca de pretensa segurança, regra-geral alavancada em discursos populistas, maniqueístas e preconceituosos. A vitória de Donald Trump comprova a teoria de que dizer coisas banais aos gritos produz maior resultado do que dizer coisas sensatas pausadamente. Trump já o havia experimentado quando replicou algumas ideias de Obama mas de forma tresloucada. 
Acordamos, então, chocados. Uma campanha vista com um olhar humorístico transformou-se num caso de eleição presidencial. Será difícil, convenhamos, não olhar com ceticismo para o povo americano. Um povo que é capaz de eleger-me Donald Trump como presidente – e que já elegeu Bush filho – é capaz das maiores barbaridades, vendo-se desabitado de sensatez. The old west não está circunscrito e atacou os boletins de voto elegendo um presidente preconceituoso, medíocre, com profundos tiques fascistas e para quem a paz é sinónimo de recurso às armas. A Idade Média que circulava pelos EUA veio à tona. God save America.

A trombeta de Trump não é nazi

Março 02, 2016

De tempos a tempos as tendências nacionalistas regressam em força, como vagas trazidas pela instabilidade económico-financeira e decorrente instabilidade social. São discursos que por fazerem de determinados preconceitos sociais alavancas ideológicas conquistam larga franja social. São fenómenos que, desde que reduzidos no tempo, carregam uma força narrativa ímpar, porque inflamam o eleitorado em direção a alvos fáceis, encontrando uma culpabilização naif para problemas bem mais estruturais. Exemplo disso é a emergência política de Donald Trump, cada vez mais provável candidato republicano à Casa Branca. Trata-se de um candidato que faz do medo, do ódio fácil e de um maniqueísmo primário as suas bases ideológicas e programáticas. Por todas as razões já salientadas, uma possível eleição de Trump não abonaria nada em favor da democracia global. No entanto, daí a colar-se o político populista ao nazismo vai um passo grande, que joga, no mesmo tom que o visado, com o medo e a memória coletiva. Donald Trump é produto de um ultraconservadorismo e de um ultranacionalismo norte-americanos. É nesse quadro, muito similar ao da família Bush, que o candidato deve ser enquadrado, a bem da democracia, para que seja, dentro da sua real moldura, derrubado. 

E se Donald Trump fosse eleito?

Fevereiro 02, 2016

 

Conhecemos a América como o país de todas as possibilidades, de todas as demografias, de todos os acidentes geológicos e contextos culturais. É o melting pot por excelência, o país de contrastes, da denominada «América profunda» às vibrantes cidades como a emblemática Nova Iorque, the big apple. No entremeio que fica entre contrastes, na curva que vai entre estradas e Estados, fica uma América que não se pode mencionar a uma só voz. Sociologicamente complexo, o país chamado Estados Unidos não poderia ser politicamente simples, ou poderia? Apesar da diversidade, a vida política americana fragmenta-se em dois partidos: Republicano e Democrata. Aos primeiros corresponde a ideologia conservadora, com enorme expressão nas altas esferas económicas americanas e entre o eleitorado rural. Aos segundos corresponde a ideologia liberal, no sentido de não-conservadora, com maior expressão entre as elites intelectuais, classes baixas e médias e nos espaços urbanos. A distância entre realidades é tremenda. Trata-se da América das armas, da religião, do patriotismo e da alta finança, versus a América das liberdades, do país para todos, da pluralidade sexual e religiosa, do anti-armamento. É Bush e Obama, é Trump e Hillary. Apesar da popularidade de Hillary Clinton, a sua eleição está longe ser real. O feminismo, a América multicoloridade, não é consensual. Pelo contrário. O paradigma dominante é o da América como grande legislador mundial, da América armada. A grande indústria americana é republicana. O soft power americano precisa de elementos conotados com os republicanos, como a bandeira, a Coca-Cola e o hot dog. Quer disto dizer que precisa de lugares-comuns para exercer o seu efeito. Paralelamente, apesar de qualitativa e difícil, a gestão de Obama foi-se degradando e cansando. Obama já não é mais o man of the moment, mas um presidente em firme de mandato e com um histórico de grandes crispações. Hillary representa a continuidade que não agrada a todos. Donald Trump, que aos olhos europeus e democratas representa o pior da política americana, o verdadeiro "saloio" milionário, tem uma margem considerável de aceitação entre o eleitorado republicano, ao defender o armamento, as intervenções militares, as políticas anti-emigração, o conservadorismo religioso, e ficando, do ponto de vista imagético, entre a América profunda e a alta finança, agradando a todos. Se Donald Trump ocupar a Casa Branca não regressamos a George W. Bush. Avançamos para algo muito pior.