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A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

06
Nov20

A Grande Fraude, segundo Trump

Trump mantém a narrativa da fraude. Existe processo democrático até que ele sinta que pode perder. A sua atitude acima da lei é cada vez mais insustentável. Mas não nos enganemos quanto ao distanciamento republicano. Ele apenas ocorre porque é oportuno. O GOP foi tomado pelo vírus do populismo trumpista, um misto de patriotismo do Midwest, euforia evangélica, e ódio racial, onde a verdade não pode atrapalhar uma boa história. Mas a dificuldade em remover Trump da Casa Branca, confirmando-se a derrota, é uma lição para aqueles que votam em populistas com o argumento de que se correr mal tiram-nos de lá. Vamos ver o que sucede nos EUA e no Brasil.

03
Nov20

EUA: do sonho mau ao terrível pesadelo

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Hoje é o dia que os estadunidenses* decidem o rumo dos próximos quatro anos, não apenas em matéria de Política e Direito interno, mas no âmbito internacional. Num mundo multipolar e ao mesmo tempo concentrado em eixos e focos de poder, os rumos dos EUA afetam, determinantemente, as trajetórias internacionais. Até à entrada de Donald Trump na Casa Branca, nunca a mentira se tinha tornado, de forma tão declarada e evidente, em modus operandi. Mentir e distorcer factos, tornou-se na tradução de Sentido de Estado, de um presidente inapto para o cargo, com graves distúrbios de personalidade e grosseiras falhas éticas. A mitologia urbana do sucesso aliada aos contrastes de um país que se assemelha a um continente, onde as suas zonas rurais vivem um fervor cristão e um continuum com o faroeste, colocaram Donald Trump sentado à mesa da sala oval. Hoje a "América" decide se pretende inverter esta espiral de insanidade política ou ampliar os atropelos à Democracia. Ampliar porque se Trump vencer sentir-se-á legitimado a tomar o poder nas mãos de uma forma decisiva, atropelando o Senado e manietando o Supremo Tribunal. Não obstante, a sua derrota não garante que abandone a Casa Branca. Convicto de que a cadeira presidencial é sua, Trump ameaçou já que não reconhecerá a derrota, remetendo a questão para o Supremo Tribunal, onde, sabemos, a balança está desproporcionalmente virada para o lado Republicano. Se assim for, o mundo ficará nas mãos do ST, esperando para saber se este obecederá às ordens de Trump ou se cumprirá o seu dever de reconhecer as urnas.

*opto por esta designação tendo em conta que os canadianos são, também, norte-americanos, geograficamente falando. 

adenda: agradeço à equipa de blogs do Sapo pelo destaque deste post.

20
Dez19

Micropost [29] | Trumpty Dumpty had a great fall?

A grande questão não é se a destituição é aprovada no Senado, coisa, que não será, não só porque o Senado está dominado pelos republicanos, como nenhum impeachment foi aprovado naquela sede anteriormente. A questão é saber qual o efeito na popularidade e na reeleição de Trump. A julgar pela tipologia do seu eleitorado mais fiel e pela capacidade de vitimização e de resistência pública do presidente norte-americano, não será este processo que o vai impedir de ser reeleito. Tudo isto é prova de que vivemos um tempo diferente, que conjuga o realismo maquiavélico com a pós-verdade e uma bipolarização do sistema político e social, com a emergência de visões maniqueístas da sociedade e da atividade política e um nova onda de puritanismo ideológico.

19
Dez19

Micropost [28] | Soem os trumpetes

As provas são contundentes contra Donald Trump. Não restam dúvidas de que o presidente dos EUA tem gerido o país com o mesmo cunho de tráfico de influências que gere as suas empresas. Aliás o país é apenas mais uma das suas empresas. É por isso que ele não percebe a gravidade dos seus atos. Infelizmente tenho dúvidas que o impeachment se dê -- apesar da aprovação da Câmara dos Representantes --, tendo em conta que necessita da aprovação de 2/3 do Senado. Em todo o caso os republicanos ficarão com a vergonha de terem salvo um presidente gravosamente corrupto no exercício das suas funções presidenciais.

29
Nov19

Micropost [23] | Pós-Democracia

O processo de impeachment de Donald Trump revela de forma clara e evidente a extensão e a gravidade das ações de um homem que acredita ter comprado o país como quem compra uma empresa cotada na bolsa. Aquilo que outrora seria matéria mais do que suficiente para a destituição e a vergonha de uma nação, não conduzirá a nada. Os seus apoiantes tomam por normais as suas violações democráticas. Na era do cansaço da ética tudo é lícito a um certo tipo de pessoas. Teremos Trump por mais um mandato e a consolidação da era pós-democrática como paradigma vigente.

01
Jun17

Trump deita-se à sombra do carvão

Donald Trump acaba de anunciar o previsível, o abandono dos Estados-Unidos do Acordo de Paris, respeitando o compromisso de aplicar o seu programa eleitoral. Não nos devemos chocar. Donald Trump sempre afirmou, e hoje voltou a afirma-lo, que o aquecimento global é um embuste criado pela China para reduzir a capacidade industrial norte-americana. Trata-se de uma teoria esquizofrénica que encaixa, perfeitamente, na personalidade messiânica e dada a teorias da conspiração do ocupante da Casa Branca. Em segundo lugar, verifica-se um alinhamento entre as pretensões político-ideológicas de Donald Trump e os seus financiadores da indústria petrolífera e do carvão, que não tardaram a emitir a fatura dos 90 milhões injetados na sua campanha. Portanto, num só golpe Trump destrói um acordo que levou uma década a ser firmado, e coloca em risco a sustentabilidade do planeta, deixando perfeitamente visível a ausência de compromisso ético e moral da sua gestão. A narrativa de Trump, a "história da carochinha" sobre emprego, crescimento económico e conspiração chinesa, é operatória, unicamente, num eleitorado com dificuldade em compreender o que está em causa com o aquecimento global, resumidamente um eleitorado de baixa escolaridade a quem Trump conta belas mentiras. A rutura com o Acordo de Paris servirá para abrir a já de si significativa fissura na sociedade americana, evidenciando o problema do modelo eleitoral presidencial onde não basta ter o maior número de votos. Durante mais quanto tempo Donald Trump conseguirá sustentar uma governação baseada no binómio "eles contra nós" e no slogan "make America great again"?

01
Fev17

Entender a emergência de Trump

Não é por acaso que Donald Trump vem sendo comparado a Adolf Hitler. As trajetórias são, evidentemente diferentes, mas os traços de personalidade e a emergência da figura mais hedionda do século XX e do atual presidente dos EUA. Em primeiro lugar ambos são filhos de mães com historial determinante na configuração de personalidade dos seus filhos, num jogo articulado de complexo de Édipo. No caso de Hitler, a saúde débil de sua mãe foi fundamental na configuração de uma noção de impureza geneticamente instituída nos judeus. Ao mesmo tempo, situações de instabilidade política e económica foram essenciais para que emergissem nas sociedadesalemãe e norte-americana um sentimento de suspeição diante do "outro", haja visto que a alteridade requer uma maturidade psicológica e cultural maior que o preconceito, instinto primário. Na Alemanha da virada do pós-I Guerra Mundial, um sentimento de orgulho ferido e a emergência dos ideias antissemitas oriundos de Viena, foram essenciais para que Hitler emergisse como o líder que iria tornar a Alemanha grande, outra vez. Nos EUA pós-Obama, o primeiro presidente negro e mais à esquerda, onde o midwest mantém os seus valores conservadores e em que 20% da sua população considera que a escravatura nunca deveria ter terminado, onde a escolaridade é mais baixa e o conservadorismo religioso mais elevado, e com o agudizar do fenómeno do terrorismo islâmico, a emergência de um homem branco, rico, conservador e mediático, colou com as aspirações e receios dos americanos, em particular a franja descrita como redneck (trabalhadores rurais ou de baixo rendimento). No meio disto, tanto Hitler quanto Trump cavalgaram a onda, revelando-se oradores poderosos com distúrbios de personalidade, marcados pelo exacerbamento de personalidade. De um modo claro, Hitler e Trump apresentaram-se aos seus concidadãos como: líder eleito para guiar o povo eleito e tornar os seus países grandes novamente. Trata-se de uma narrativa poderosa, herdeira do messianismo bíblico, e que encontra eco nas crenças e aspirações mais profundas de pessoas com baixa capacidade crítica, com valores ultranacionalistas e extremamente religiosas. Não é, pois, de estranhar Donald Trump ter recebido o apoio do Ku Klux Klan. 

Em jeito de término, deixem-me dizer-vos algo assustador: o problema não é Trump. De uma forma ou de outra ele acabará por sair. O problema são estes milhões de pessoas que o colocaram lá, que permanecerão presas aos seus valores e que mais tarde ou mais cedo, no momento certo, colocarão no poder outro. O que é válido para Trump é válido para Le Pen e outros iguais. A ignorância tem muita força. Education is the key against oppression.

21
Jan17

O Dia Zero da Era Trump

Nenhum outro dia pareceu tão oportuno para revisitar Alexis de Tocqueville e a sua análise da democracia americana. Quase 200 anos depois a eleição de Trump é o exemplo da assertividade das palavras do visconde francês. Escreveu o mesmo que em tempos de instabilidade as pessoas abdicam da sua liberdade em troca da segurança e que a maioria nem sempre tem razão. Ora, Trump, com o seu discurso de exclusão e difusão do medo conquistou a maioria redneck, provando, uma vez mais, que o medo é um aditivo político poderosíssimo, particularmente quando se oferecem bodes expiatórios. Não é preciso ter ideias, basta gritar e bracejar uns chavões. É o dia zero da Era Trump. O eixo terrível está completo com Trump, Putin e May. Merkel perdeu o efeito de terror.

12
Nov16

A lição de Trump ao Partido Democrata.

Democrats did it themselves, é uma conclusão acertada para o desfecho das eleições norte-americanas. O Partido Democrata precisa, com seriedade, fazer uma reflexão sobre os caminhos que pretende trilhar doravante, para que os erros, cuja fatura foi agora emitida, não se repitam. O primeiro erro foi desvalorizar a candidatura de Trump e ter, por portas e travessas, dado uma mão ao agora eleito presidente, numa tentativa de dividir o eleitorado republicano, esperando que o tempo cumprisse o seu papel de fazer cair a paródia donáldica. Menosprezar a capacidade de Trump cavalgar a onda foi um erro colossal, e os media, por seu turno, não estão isentos de responsabilidade. Donald Trump é one man show numa América onde uma fatia significativa da população elege o presidente como um concurso de popularidade. Em segundo lugar, e verdadeiramente mais importante ainda, foi desvalorizar o seu próprio eleitorado, oferecendo-lhe a candidata Hillary Clinton como se os democratas não dessem pela diferença face a Bernie Sanders. Uma desfaçatez dos corredores democratas, que optaram pela sua candidata mais conservadora e cuja imagem não se deslocava da administração do seu marido e dos interesses de Wall Street. É preciso, portanto, respeitar o eleitorado, quando era evidente que os eleitores democratas queriam uma transição governativa pacífica, com um presidente com uma imagem clean e independente dos vícios políticos, e verdadeiramente de esquerda. Bernie Sanders reunia todos os predicados como candidato (uma vez que Michelle Obama não apareceu à corrida, e bem a meu ver). O partido desinteressou-se disso, partindo do errado pressuposto que qualquer candidato serviria ao seu eleitorado. É claro que o eleitorado democrata cometeu o erro de não ir votar, esperando que os seus concidadãos flutuantes e até republicanos não cometessem o erro de eleger Donald Trump. Mas cometeram. Um golpe inesperado geminado com o brexit, e que deixa a América num caos político, num turbilhão social, entregue ao lado mais negro do Partido Republicano. Serão quatro penosos anos. Ao menos que seja uma lição profunda para o Partido Democrata -- é preciso deixar o eleitorado escolher. 

11
Nov16

Soaram as Trumpetas

 Tocqueville em "Da Democracia na América" alertava para a ilusão da maioria, sobre os limites democráticos de supor que a maioria resumia a razão. As eleições presidenciais norte-americanas tornam-se paradigma de que as pessoas em tempos incertos abrem facilmente a mão da razoabilidade em troca de pretensa segurança, regra-geral alavancada em discursos populistas, maniqueístas e preconceituosos. A vitória de Donald Trump comprova a teoria de que dizer coisas banais aos gritos produz maior resultado do que dizer coisas sensatas pausadamente. Trump já o havia experimentado quando replicou algumas ideias de Obama mas de forma tresloucada. 
Acordamos, então, chocados. Uma campanha vista com um olhar humorístico transformou-se num caso de eleição presidencial. Será difícil, convenhamos, não olhar com ceticismo para o povo americano. Um povo que é capaz de eleger-me Donald Trump como presidente – e que já elegeu Bush filho – é capaz das maiores barbaridades, vendo-se desabitado de sensatez. The old west não está circunscrito e atacou os boletins de voto elegendo um presidente preconceituoso, medíocre, com profundos tiques fascistas e para quem a paz é sinónimo de recurso às armas. A Idade Média que circulava pelos EUA veio à tona. God save America.