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A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

desigual

Novembro 08, 2019

A Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa precisa rever os seus critérios de acesso aos seus programas de pós-graduação, de modo a que todos os candidatos estejam em pé de igualdade. Neste momento, o regime é desigual, não por intencionalidade administrativa, mas antes porque determinados candidatos advém de países onde as notas são, por princípio, mais elevadas. Em consequência disso, os candidatos portugueses não estão em iguais condições de disputar as vagas. O caminho não passa por restringir o acesso a candidatos estrangeiros, mas antes incluir um critério de ponderação especial ou algum tipo de provas de qualificação. E isto aplica-se, igualmente, à FCT, com a atribuição de bolsas.

O Professor Passos Coelho

Março 03, 2018

Pedro Passos Coelho irá lecionar em três universidades, entre elas a Universidade de Lisboa, na categoria de professor convidado catedrático, ministrando nos cursos de mestrado e doutoramento em Administração Pública e Economia, burlando, desta forma, o processo normal de acesso e ascensão na carreira de docência universitária. Trata-se de uma situação gravíssima, porque lesa diretamente, e de uma só vez, a integridade institucional da universidade e a cientificidade da carreira académica. O ex-primeiro-ministro é detentor de uma simples licenciatura, sem qualquer trajeto científico credível (ver CV). Não há registo de publicações científicas, não há um trajeto com dissertações e teses, não há nada, a não ser uma carreira na JSD, no PSD, a atuação como PM, muitos favores e bastante nevoeiro. O grave disto já não é, note-se, a promiscuidade que está patente de forma tão declarada, é, sim, o desrespeito absoluto por todos aqueles que no anonimato vêm procurando construir um currículo científico sólido, muitas vezes sem bolsas de estudos, com inúmeras dificuldades, agruras, e que aguardam durante anos, não raras vezes na qualidade de investigadores pós-doc, por diversas vezes, ou simplesmente como investigadores associados e integrados em centros de investigação, por uma oportunidade, por uma vaga de docência, que pode nunca chegar, mas que está sempre disponível, aqui ou ali, para pagar favores a políticos com robustez científica de vão de escada. Num país em que um licenciado é dr., andamos a brincar com a ciência e a docência. Num país em que um licenciado é dr., andamos a brincar com a ciência e a docência. 

TPC, o peso do falhanço de um método

Janeiro 21, 2017

 Lembro-me do debate intenso em torno do peso das mochilas quando era criança e adolescente. Foi na época que surgiram as malas com rodas mas a moda não pegou. O problema, naturalmente, nunca foi nem é o excessivo peso das mochilas e suas consequências como os desvios na coluna. O problema são os TPCs, essa violência contra a família e o direito ao lazer como parte do crescimento individual. Lembro-me de me erguer contra essa prisão escolar, coisa recebida como apologia do vida de "calão". Era impossível convencer os Professores, alguns dos quais tenho aqui no FB, que as férias não significavam redobrar os TPCs, e que as tardes também merecem ser usadas para o dolce fare niente. Parecia haver uma competição para ver quem sobrecarregava mais os alunos. Portanto, aqui não se trata do negócio dos manuais escolares, mas do negócio da educação como fábrica de autómatos. É urgente que todos os pais em todo o país enviem os seus filhos para as escolas sem os TPCs feitos.

A nostalgia de Durão.

Abril 12, 2014

A nostalgia tem o condão de suavizar a dureza dos factos e lamber a memória com o aroma da saudade. A nostalgia, da perspetiva política, é um perigo. Suavizando o ruim, faz deste menos mau e isso é o quanto baste para o regresso dos modelos nefastos de outrora. Agora é Durão Barroso, que apagando os avanços da educação em Portugal, do ensino do inglês, das ciências naturais, exatas e sociais, clama pela excelência da educação ao tempo do Estado Novo. A "cultura de excelência"  nas escolas, que o presidente da Comissão Europeia fala, teve muito de medo e repressão. Sabiam-se os rios, as regiões de Portugal e das colónias e a tabuada. Tudo bem decorado com a ajuda de uma régua. 

Praxes Positivas.

Janeiro 27, 2014

O fim das praxes é acolhido com desagrado entre as associações de estudantes do Ensino Superior. Apesar de me opor aos rituais de humilhação tenho presente que as praxes podem, com considerável esforço, ser transformadas em verdadeiros processos de integração e socialização e, inclusive, em retorno à sociedade. Os exemplos das praxes que limpam as matas, como aconteceu na Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Beja em 2008, ou fazem apoio a famílias carenciadas - recordemos o exemplo dos calorios do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas que recuperaram quatro edifícios do bairro da Ajuda, em Lisboa, no ano de 2012 - são roteiros para olhar as praxes positivamente e haver alguma esperança ao meio do ridículo que são a grande maioria dos eventos iniciáticos da vida académica. 

Ir além de Bolonha.

Novembro 13, 2013

Este governo gosta da ideia de "ir além". Pessoanos na bojadora ideia da conquista, sempre prometeram "ir além da troika", rumando por "mares nunca dantes navegados". Como D. Quixotes também os nossos governantes vivem de ilusões, de utopias, edificadas infelizmente sobre as mais básica esperanças sociais, sobre uma ideia de Estado e sobre um modelo de sociedade equitativa. Chega-nos a proposta de criação de ciclos curtos no Ensino Superior. Sabemos que com o «Processo de Bolonha» o nível qualitativo do ensino superior ficou profundamente afetado, ao mesmo tempo que os Mestrados foram estripados da sua identidade científica, empurrados para um grau inferior ao seu real conteúdo. Agora o governo quer reduzir ainda mais o período de formação. Nada como licenciados à pressão para engrossar as filas do desemprego ou para desqualificar as empresas e os serviços. Os medíocres a subir ao palanque da excelência erguendo barreiras à concorrência do amanhã. A plan, a big plan.

 

© foto de Jon Anderson

Uma sociedade às direitas.

Outubro 31, 2013

O que a análise de Miguel Vale de Almeida nos deixa compreender é precisamente que vivemos governados por uma direita particular, com uma noção bem definida de modelo de sociedade. Já o disse antes esta é uma geração/direita que não aceita nem perdoa que os filhos dos remediados tenham ido para a faculdade e muitos tenham conseguido, por essa parte, promover a ascensão social. Arriscaria dizer que falamos de colegas de carteira que por mérito próprio não precisaram da política para se fazerem "alguém". Por isso esta malta que nos governa quer uma sociedade em que só quem tem pode ser alguém. Só os filhos dos doutores e engenheiros o podem ser também. O resto que seja proletariado. Só esquecem que estarão, por ventura, a construir um proletariado que votará no mais velho inimigo do Estado Novo.

As Lacunas da História.

Outubro 14, 2013

O meu lado A, que versa sobre a história religiosa, compreende bem o que João André alude. Sem adentrar pelas questões da história moderna europeia, as quais são terreno arado por Rui Bebiano, merece a minha consideração as lacunas da formação em história no Ensino básico e secundário e, bem assim, a construção do discurso da história. Devedora das teorias evolucionistas e da noção de «sociedades sem história» a História enquanto disciplina é profundamente facciosa e parcelar. Ao estudarmos as grandes civilizações jamais se adentra pela "África Negra", deixando de fora, por exemplo, os Impérios Songhai e Yorùbá. Portanto, quando se forma alunos em história universal, esta deve de facto ficar em itálico como conceito duvidoso, porque o universalismo da história centra-se na Europa e vai até ao Egipto e volta. O mesmo deve ser dito para o ensino das américas e das navegações de expansão marítima ibérica. Jamais os alunos ficam a conhecer os povos ameríndios, o processo de colonização, a escravatura, as identidades dos povos escravizados. Os processos de criação dos manuais escolares em Portugal está ainda presa aos métodos do Estado Novo, isso é bem claro.

Mérito ao Estado Social.

Julho 19, 2013

O ESTADO SOCIAL é imperfeito porque é regido por pessoas. No seu âmago o conceito é absolutamente necessário e o melhor garante ao salto intergeracional e à não reprodução das condicionantes sociais. Ou seja, sem o Estado Social a mobilidade social é posta em causa. Milhares de crianças e jovens estarão depositados ao insucesso escolar fruto não da sua competência mas presos às condicionantes socioeconómicas do seu background familiar. É por isso que o Programa Escolar de Reforço Alimentar (PERA) é tão importante. O seu sucesso é notório quando lemos que 50% dos abrangidos tiveram melhoria no aproveitamento escolar. Somente um governo sem consciência social poderá pensar que o Estado Social é um conceito decrépito. O capitalismo não tem rosto, coração ou dignidade. E tudo isto traz-me à memória Jorge Amado, em Jubiabá:

Já sabiam do seu destino desde cedo: cresceriam e iriam para o cais onde ficavam curvados sob o peso dos sacos cheios de cacau, ou ganhariam a vida nas fábricas enormes. E não se revoltavam porque há muitos anos vinha sendo assim: os meninos das ruas bonitas e arborizadas iam ser médicos, advogados, engenheiros, comerciantes, homens ricos. E eles iam ser criados destes homens (…) no morro onde morava tanto negro, tanto mulato, havia a tradição da escravidão ao senhor branco e rico. 

Geração 8,9 e um LOL.

Julho 16, 2013

O FUTURO do país está nas mãos de uma geração que prefere Justin Bieber a Eça, Morangos com Açúcar a Fernando Pessoa, ou LOL a "hilariante". Não seria problemático se a Bieber juntassem Eça, se aos Morangos na TV acrescentassem Pessoa, e se o LOL fosse meramente tecnológico. Mas não é uma questão de delimitação consciente do espaços, é uma substituição, uma escolha entre dois universos referenciais. A média dos exames nacionais de português - a língua materna - é de 8,9. Negativa, portanto. A lógica das turmas amontoadas num processo taylorista falhado está a dar os seus resultados. A culpabilização dos professores em vez dos alunos, da parte dos pais (porque assim não reconhecem os seus próprios erros) gera uma espiral de facilitismo e desculpabilização perigosa. Esta geração terá acesso à Universidade (!) porque o que conta são as propinas não a competência. Será uma geração que vai votar (ou não), que comporá o tecido empresarial português. Como diz a Bad Girl "Oito-vírgula-nove. Um país que está ansioso por voltar aos mercados, mas que não pega num livro.