Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Nenhum outro dia pareceu tão oportuno para revisitar Alexis de Tocqueville e a sua análise da democracia americana. Quase 200 anos depois a eleição de Trump é o exemplo da assertividade das palavras do visconde francês. Escreveu o mesmo que em tempos de instabilidade as pessoas abdicam da sua liberdade em troca da segurança e que a maioria nem sempre tem razão. Ora, Trump, com o seu discurso de exclusão e difusão do medo conquistou a maioria redneck, provando, uma vez mais, que o medo é um aditivo político poderosíssimo, particularmente quando se oferecem bodes expiatórios. Não é preciso ter ideias, basta gritar e bracejar uns chavões. É o dia zero da Era Trump. O eixo terrível está completo com Trump, Putin e May. Merkel perdeu o efeito de terror.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Democrats did it themselves, é uma conclusão acertada para o desfecho das eleições norte-americanas. O Partido Democrata precisa, com seriedade, fazer uma reflexão sobre os caminhos que pretende trilhar doravante, para que os erros, cuja fatura foi agora emitida, não se repitam. O primeiro erro foi desvalorizar a candidatura de Trump e ter, por portas e travessas, dado uma mão ao agora eleito presidente, numa tentativa de dividir o eleitorado republicano, esperando que o tempo cumprisse o seu papel de fazer cair a paródia donáldica. Menosprezar a capacidade de Trump cavalgar a onda foi um erro colossal, e os media, por seu turno, não estão isentos de responsabilidade. Donald Trump é one man show numa América onde uma fatia significativa da população elege o presidente como um concurso de popularidade. Em segundo lugar, e verdadeiramente mais importante ainda, foi desvalorizar o seu próprio eleitorado, oferecendo-lhe a candidata Hillary Clinton como se os democratas não dessem pela diferença face a Bernie Sanders. Uma desfaçatez dos corredores democratas, que optaram pela sua candidata mais conservadora e cuja imagem não se deslocava da administração do seu marido e dos interesses de Wall Street. É preciso, portanto, respeitar o eleitorado, quando era evidente que os eleitores democratas queriam uma transição governativa pacífica, com um presidente com uma imagem clean e independente dos vícios políticos, e verdadeiramente de esquerda. Bernie Sanders reunia todos os predicados como candidato (uma vez que Michelle Obama não apareceu à corrida, e bem a meu ver). O partido desinteressou-se disso, partindo do errado pressuposto que qualquer candidato serviria ao seu eleitorado. É claro que o eleitorado democrata cometeu o erro de não ir votar, esperando que os seus concidadãos flutuantes e até republicanos não cometessem o erro de eleger Donald Trump. Mas cometeram. Um golpe inesperado geminado com o brexit, e que deixa a América num caos político, num turbilhão social, entregue ao lado mais negro do Partido Republicano. Serão quatro penosos anos. Ao menos que seja uma lição profunda para o Partido Democrata -- é preciso deixar o eleitorado escolher. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

 Tocqueville em "Da Democracia na América" alertava para a ilusão da maioria, sobre os limites democráticos de supor que a maioria resumia a razão. As eleições presidenciais norte-americanas tornam-se paradigma de que as pessoas em tempos incertos abrem facilmente a mão da razoabilidade em troca de pretensa segurança, regra-geral alavancada em discursos populistas, maniqueístas e preconceituosos. A vitória de Donald Trump comprova a teoria de que dizer coisas banais aos gritos produz maior resultado do que dizer coisas sensatas pausadamente. Trump já o havia experimentado quando replicou algumas ideias de Obama mas de forma tresloucada. 
Acordamos, então, chocados. Uma campanha vista com um olhar humorístico transformou-se num caso de eleição presidencial. Será difícil, convenhamos, não olhar com ceticismo para o povo americano. Um povo que é capaz de eleger-me Donald Trump como presidente – e que já elegeu Bush filho – é capaz das maiores barbaridades, vendo-se desabitado de sensatez. The old west não está circunscrito e atacou os boletins de voto elegendo um presidente preconceituoso, medíocre, com profundos tiques fascistas e para quem a paz é sinónimo de recurso às armas. A Idade Média que circulava pelos EUA veio à tona. God save America.

Autoria e outros dados (tags, etc)

De tempos a tempos as tendências nacionalistas regressam em força, como vagas trazidas pela instabilidade económico-financeira e decorrente instabilidade social. São discursos que por fazerem de determinados preconceitos sociais alavancas ideológicas conquistam larga franja social. São fenómenos que, desde que reduzidos no tempo, carregam uma força narrativa ímpar, porque inflamam o eleitorado em direção a alvos fáceis, encontrando uma culpabilização naif para problemas bem mais estruturais. Exemplo disso é a emergência política de Donald Trump, cada vez mais provável candidato republicano à Casa Branca. Trata-se de um candidato que faz do medo, do ódio fácil e de um maniqueísmo primário as suas bases ideológicas e programáticas. Por todas as razões já salientadas, uma possível eleição de Trump não abonaria nada em favor da democracia global. No entanto, daí a colar-se o político populista ao nazismo vai um passo grande, que joga, no mesmo tom que o visado, com o medo e a memória coletiva. Donald Trump é produto de um ultraconservadorismo e de um ultranacionalismo norte-americanos. É nesse quadro, muito similar ao da família Bush, que o candidato deve ser enquadrado, a bem da democracia, para que seja, dentro da sua real moldura, derrubado. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

 

Conhecemos a América como o país de todas as possibilidades, de todas as demografias, de todos os acidentes geológicos e contextos culturais. É o melting pot por excelência, o país de contrastes, da denominada «América profunda» às vibrantes cidades como a emblemática Nova Iorque, the big apple. No entremeio que fica entre contrastes, na curva que vai entre estradas e Estados, fica uma América que não se pode mencionar a uma só voz. Sociologicamente complexo, o país chamado Estados Unidos não poderia ser politicamente simples, ou poderia? Apesar da diversidade, a vida política americana fragmenta-se em dois partidos: Republicano e Democrata. Aos primeiros corresponde a ideologia conservadora, com enorme expressão nas altas esferas económicas americanas e entre o eleitorado rural. Aos segundos corresponde a ideologia liberal, no sentido de não-conservadora, com maior expressão entre as elites intelectuais, classes baixas e médias e nos espaços urbanos. A distância entre realidades é tremenda. Trata-se da América das armas, da religião, do patriotismo e da alta finança, versus a América das liberdades, do país para todos, da pluralidade sexual e religiosa, do anti-armamento. É Bush e Obama, é Trump e Hillary. Apesar da popularidade de Hillary Clinton, a sua eleição está longe ser real. O feminismo, a América multicoloridade, não é consensual. Pelo contrário. O paradigma dominante é o da América como grande legislador mundial, da América armada. A grande indústria americana é republicana. O soft power americano precisa de elementos conotados com os republicanos, como a bandeira, a Coca-Cola e o hot dog. Quer disto dizer que precisa de lugares-comuns para exercer o seu efeito. Paralelamente, apesar de qualitativa e difícil, a gestão de Obama foi-se degradando e cansando. Obama já não é mais o man of the moment, mas um presidente em firme de mandato e com um histórico de grandes crispações. Hillary representa a continuidade que não agrada a todos. Donald Trump, que aos olhos europeus e democratas representa o pior da política americana, o verdadeiro "saloio" milionário, tem uma margem considerável de aceitação entre o eleitorado republicano, ao defender o armamento, as intervenções militares, as políticas anti-emigração, o conservadorismo religioso, e ficando, do ponto de vista imagético, entre a América profunda e a alta finança, agradando a todos. Se Donald Trump ocupar a Casa Branca não regressamos a George W. Bush. Avançamos para algo muito pior. 

Autoria e outros dados (tags, etc)



Dossier Presidenciais Brasileiras 2018


Os meus textos noutras Paragens



Pesquisar

  Pesquisar no Blog


__Gramas de Instantes__

@joaoferreiradiasphotography