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A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

11
Nov20

E agora, América?

Para os liberais conservadores que olham para os EUA como garante da Democracia, estes são tempos difíceis. É verdade que já Churchill dizia que esgotadas as alternativas, a América faz sempre o que é certo. Mas isso era válido no tempo em que o Estado de Direito democrático era inderrogável. Hoje temos um presidente que recusa aceitar os resultados eleitorais porque não foram os desejados, abanando com "fraude" para acicatar o seu eleitorado, procurando condicionar todo o sistema político. Como fica o precedente? Quando estas coisas acontecem temos sempre dito que a Democracia está posta em causa. E agora que é nos EUA?

06
Nov20

A Grande Fraude, segundo Trump

Trump mantém a narrativa da fraude. Existe processo democrático até que ele sinta que pode perder. A sua atitude acima da lei é cada vez mais insustentável. Mas não nos enganemos quanto ao distanciamento republicano. Ele apenas ocorre porque é oportuno. O GOP foi tomado pelo vírus do populismo trumpista, um misto de patriotismo do Midwest, euforia evangélica, e ódio racial, onde a verdade não pode atrapalhar uma boa história. Mas a dificuldade em remover Trump da Casa Branca, confirmando-se a derrota, é uma lição para aqueles que votam em populistas com o argumento de que se correr mal tiram-nos de lá. Vamos ver o que sucede nos EUA e no Brasil.

03
Nov20

EUA: do sonho mau ao terrível pesadelo

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Hoje é o dia que os estadunidenses* decidem o rumo dos próximos quatro anos, não apenas em matéria de Política e Direito interno, mas no âmbito internacional. Num mundo multipolar e ao mesmo tempo concentrado em eixos e focos de poder, os rumos dos EUA afetam, determinantemente, as trajetórias internacionais. Até à entrada de Donald Trump na Casa Branca, nunca a mentira se tinha tornado, de forma tão declarada e evidente, em modus operandi. Mentir e distorcer factos, tornou-se na tradução de Sentido de Estado, de um presidente inapto para o cargo, com graves distúrbios de personalidade e grosseiras falhas éticas. A mitologia urbana do sucesso aliada aos contrastes de um país que se assemelha a um continente, onde as suas zonas rurais vivem um fervor cristão e um continuum com o faroeste, colocaram Donald Trump sentado à mesa da sala oval. Hoje a "América" decide se pretende inverter esta espiral de insanidade política ou ampliar os atropelos à Democracia. Ampliar porque se Trump vencer sentir-se-á legitimado a tomar o poder nas mãos de uma forma decisiva, atropelando o Senado e manietando o Supremo Tribunal. Não obstante, a sua derrota não garante que abandone a Casa Branca. Convicto de que a cadeira presidencial é sua, Trump ameaçou já que não reconhecerá a derrota, remetendo a questão para o Supremo Tribunal, onde, sabemos, a balança está desproporcionalmente virada para o lado Republicano. Se assim for, o mundo ficará nas mãos do ST, esperando para saber se este obecederá às ordens de Trump ou se cumprirá o seu dever de reconhecer as urnas.

*opto por esta designação tendo em conta que os canadianos são, também, norte-americanos, geograficamente falando. 

adenda: agradeço à equipa de blogs do Sapo pelo destaque deste post.

07
Out20

Micropost [60] Eleições Americanas

Segundo as sondagens Biden leva 16 pontos de vantagem sobre Trump. As notícias são boas, mas o facto de Trump ter informado que não reconhecerá as eleições caso perca, deixa tudo nas mãos do Supremo Tribunal, controlado pelos republicanos e onde ele irá colocar uma peça determinante. Poderemos estar prestes a ver os EUA perderem a Democracia. Eleger um egocêntrico patológico foi um péssimo serviço prestado ao mundo.

27
Set20

Micropost [58] Amy Coney Barrett

este é o nome escolhido por Donald Trump para o Supremo Tribunal, para substituir Antonin Scalia, falecido. Barrett é uma defensora da interpretação literal da Constituição norte-americana, opositora ao aborto, conservadora católica. Segundo Trump, vem garantir a liberdade religiosa no país, metáfora para dizer que vem defender uma visão religiosa da sociedade. O ST fica, definitivamente, desequilibrado em favor dos Republicanos, um partido tomado pela Oligarquia Trump, como se pode ver no último congresso do partido.

06
Ago20

Em desalinho com Ana Sá Lopes

No editorial do Público, escreve Ana Sá Lopes que "O improvável Joe Biden será, ao que tudo indica, o próximo Presidente dos Estados Unidos da América". Tenho pouca simpatia pelos wishful thinkings na análise política. Por vezes demais este tipo de raciocínio descambou em prognósticos desligados da realidade. Um deles foi, precisamente, o das eleições norte-americanas, quando ninguém dava a vitória de Trump como possível. É o problema de se pensar o mundo a partir do «lugar de fala» elitista - ele só existe na sua bolha e não tem aderência à realidade, muito mais multivocal. Recomenda-se prudência. Em primeiro lugar porque, como a jornalista pontua, Trump pretende adiar as eleições. Esta é uma estratégia, obviamente, que visa a perpetuação no poder pelo tempo que lhe for "democraticamente" impossível. Além disso, apesar dos efeitos económicos da covid-19, a verdade é que a América não pode ser pensada a partir dos Estados urbanos, mas antes precisa ser vista a partir da sua dimensão multipolarizada, uma vez que os Estados do midwest e do eleitorado "redneck" tende a reagir de forma agressiva em tempos de crise económica, voltando-se ainda mais para os seus valores ultraconservadores. Ora, Trump continua a ser a pessoa que melhor representa esse manual de valores que vão do racismo, ao ultranacionalismo, passando pelo machismo e pelo conservadorismo religioso. 

Quanto à possibilidade de Michelle Obama surgir como número 2 de Biden, compreendo os argumentos de Ana Sá Lopes, mas também aqui estou em desacordo, uma vez que a administração Obama foi, ainda, em tempo recente, e isso pode ser aproveitado por Trump. Além do mais, Michelle tem capital político e intelectual para surgir, numa futura eleição, como candidata presidencial, pelo que nesta fase estaria a esgotar tais recursos. Melhor seria um endorsement without commitment

21
Jan17

O Dia Zero da Era Trump

Nenhum outro dia pareceu tão oportuno para revisitar Alexis de Tocqueville e a sua análise da democracia americana. Quase 200 anos depois a eleição de Trump é o exemplo da assertividade das palavras do visconde francês. Escreveu o mesmo que em tempos de instabilidade as pessoas abdicam da sua liberdade em troca da segurança e que a maioria nem sempre tem razão. Ora, Trump, com o seu discurso de exclusão e difusão do medo conquistou a maioria redneck, provando, uma vez mais, que o medo é um aditivo político poderosíssimo, particularmente quando se oferecem bodes expiatórios. Não é preciso ter ideias, basta gritar e bracejar uns chavões. É o dia zero da Era Trump. O eixo terrível está completo com Trump, Putin e May. Merkel perdeu o efeito de terror.

12
Nov16

A lição de Trump ao Partido Democrata.

Democrats did it themselves, é uma conclusão acertada para o desfecho das eleições norte-americanas. O Partido Democrata precisa, com seriedade, fazer uma reflexão sobre os caminhos que pretende trilhar doravante, para que os erros, cuja fatura foi agora emitida, não se repitam. O primeiro erro foi desvalorizar a candidatura de Trump e ter, por portas e travessas, dado uma mão ao agora eleito presidente, numa tentativa de dividir o eleitorado republicano, esperando que o tempo cumprisse o seu papel de fazer cair a paródia donáldica. Menosprezar a capacidade de Trump cavalgar a onda foi um erro colossal, e os media, por seu turno, não estão isentos de responsabilidade. Donald Trump é one man show numa América onde uma fatia significativa da população elege o presidente como um concurso de popularidade. Em segundo lugar, e verdadeiramente mais importante ainda, foi desvalorizar o seu próprio eleitorado, oferecendo-lhe a candidata Hillary Clinton como se os democratas não dessem pela diferença face a Bernie Sanders. Uma desfaçatez dos corredores democratas, que optaram pela sua candidata mais conservadora e cuja imagem não se deslocava da administração do seu marido e dos interesses de Wall Street. É preciso, portanto, respeitar o eleitorado, quando era evidente que os eleitores democratas queriam uma transição governativa pacífica, com um presidente com uma imagem clean e independente dos vícios políticos, e verdadeiramente de esquerda. Bernie Sanders reunia todos os predicados como candidato (uma vez que Michelle Obama não apareceu à corrida, e bem a meu ver). O partido desinteressou-se disso, partindo do errado pressuposto que qualquer candidato serviria ao seu eleitorado. É claro que o eleitorado democrata cometeu o erro de não ir votar, esperando que os seus concidadãos flutuantes e até republicanos não cometessem o erro de eleger Donald Trump. Mas cometeram. Um golpe inesperado geminado com o brexit, e que deixa a América num caos político, num turbilhão social, entregue ao lado mais negro do Partido Republicano. Serão quatro penosos anos. Ao menos que seja uma lição profunda para o Partido Democrata -- é preciso deixar o eleitorado escolher. 

11
Nov16

Soaram as Trumpetas

 Tocqueville em "Da Democracia na América" alertava para a ilusão da maioria, sobre os limites democráticos de supor que a maioria resumia a razão. As eleições presidenciais norte-americanas tornam-se paradigma de que as pessoas em tempos incertos abrem facilmente a mão da razoabilidade em troca de pretensa segurança, regra-geral alavancada em discursos populistas, maniqueístas e preconceituosos. A vitória de Donald Trump comprova a teoria de que dizer coisas banais aos gritos produz maior resultado do que dizer coisas sensatas pausadamente. Trump já o havia experimentado quando replicou algumas ideias de Obama mas de forma tresloucada. 
Acordamos, então, chocados. Uma campanha vista com um olhar humorístico transformou-se num caso de eleição presidencial. Será difícil, convenhamos, não olhar com ceticismo para o povo americano. Um povo que é capaz de eleger-me Donald Trump como presidente – e que já elegeu Bush filho – é capaz das maiores barbaridades, vendo-se desabitado de sensatez. The old west não está circunscrito e atacou os boletins de voto elegendo um presidente preconceituoso, medíocre, com profundos tiques fascistas e para quem a paz é sinónimo de recurso às armas. A Idade Média que circulava pelos EUA veio à tona. God save America.

02
Mar16

A trombeta de Trump não é nazi

De tempos a tempos as tendências nacionalistas regressam em força, como vagas trazidas pela instabilidade económico-financeira e decorrente instabilidade social. São discursos que por fazerem de determinados preconceitos sociais alavancas ideológicas conquistam larga franja social. São fenómenos que, desde que reduzidos no tempo, carregam uma força narrativa ímpar, porque inflamam o eleitorado em direção a alvos fáceis, encontrando uma culpabilização naif para problemas bem mais estruturais. Exemplo disso é a emergência política de Donald Trump, cada vez mais provável candidato republicano à Casa Branca. Trata-se de um candidato que faz do medo, do ódio fácil e de um maniqueísmo primário as suas bases ideológicas e programáticas. Por todas as razões já salientadas, uma possível eleição de Trump não abonaria nada em favor da democracia global. No entanto, daí a colar-se o político populista ao nazismo vai um passo grande, que joga, no mesmo tom que o visado, com o medo e a memória coletiva. Donald Trump é produto de um ultraconservadorismo e de um ultranacionalismo norte-americanos. É nesse quadro, muito similar ao da família Bush, que o candidato deve ser enquadrado, a bem da democracia, para que seja, dentro da sua real moldura, derrubado.