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O Estado dos Dias

«O dia precedente é o mestre do dia seguinte.» - Píncaro

Lula venceu, a democracia não ganhou e amanhã não sabemos se o sabiá canta.

04
Nov22

(texto escrito na alvorada da vitória)

Lula ganhou, mas não venceu. Os resultados deixam o país na mesma fissura e sem particulares hipóteses de reconciliação. É um país sem vasos comunicantes. Se o Senado é de forte expressão bolsonarista, com as presentes eleições vimos São Paulo eleger e Rio de Janeiro reeleger governadores de igual tendência, com Haddad, potencial sucessor de Lula a perder em território paulista e ficando sem capital político para o futuro.

Nas ruas a narrativa do presidente-bandido prevalece entre o eleitorado branco, evangélico e de classe média. Os casos que indiciam corrupção, formação de milícia e violação de direitos humanos na era Bolsonaro não produzem efeito de afastamento de um eleitorado arregimentado. Uma vez mais, o Brasil é uma cópia adaptada dos EUA. Mesmo Lula tendo o apoio dos evangélicos moderados e de boa parte da elite económica e empresarial, facto que inviabiliza qualquer fantasia de venezuelização do país (que nunca ocorreu), a verdade é que a batalha cultural contra o dito “marxismo cultural” em favor de uma hipermoral evangélica e dos direitos de classe alienam o eleitorado bolsonarista, o qual sobrevive bem sem Bolsonaro, já que é um produto histórico e social antigo que sempre esteve vivo no Brasil. 

Não obstante os resultados eleitorais, a situação política e social está muito longe de estar sanada. Nas ruas teremos um arregimentar das milícias populares pró-Bolsonaro e algo similar ao ataque ao Capitólio é bastante viável de acontecer. O incitamento à intervenção dos militares ganhará força e a recusa em aceitar os resultados eleitorais, com fabricação de suspeitas de fraude, fará também o seu caminho. A democracia brasileira não está minimamente a salvo e até 1 de Janeiro de 2023 muita água (e esperemos que nenhum sangue) irá correr no Brasil. 

Assim, partindo do princípio de que a situação social não entrará numa escalada de guerra civil, já que o ódio é o grande leitmotiv eleitoral no país, e que Lula da Silva tomará posse dentro do (mínimo) regular funcionamento das instituições, a democracia brasileira entrará no seu mais determinante capítulo desde o fim da ditadura. Lula precisará de (i) estabelecer acordos que lhe permitam governar, (ii) ser absolutamente impoluto, (iii) realizar uma purga à corrupção do partido, (iv) encontrar mecanismos de combate à pobreza e à violência, (v) repor os direitos das minorias entretanto suspensos, sem fazer dessa a sua pauta cultural, (vi) corrigir as assimetrias sociais e estaduais da melhor forma possível, visando um processo continuado de equilíbrio e aproximação do país, (vii) preparar a sucessão incentivando os demais partidos a encontrar quadros democráticos e qualificados que garantam uma saudável alternância política sem um enfoque populista e de guerra cultural. O desafio é hercúleo, porque o que está em causa, a partir de agora, é salvar a democracia dos seus mais terríveis fantasmas.  

[adenda: obrigado à equipa de Blogs do Sapo pelo destaque deste post]

E agora, Brasil?

28
Out22
Pode ser uma imagem de ao ar livre e parede de tijolo
A prudência tende a ser contrária à ansiedade do comentário, cujo primeiro impulso é o de vaticinar resultados. Há uma verdadeira hipótese de Lula ganhar, mas não creio que o faça por uma margem significativa. Na verdade, nem estou absolutamente seguro da sua vitória. É preciso ouvir as pessoas nas esquinas da vida, depois da declaração oficial para sondagem. O voto envergonhado, feito de preconceitos, sugestões do pastor, pressões do patrão, e partilhas de WhatsApp, tem uma inclinação bolsonarista. Precisamos ter presente que o preconceito contra o nordestino, o racismo, o apontar do dedo para o lado como julgamento moral, a busca por uma nostalgia imaginada e fabricada da gloriosa nação, o medo do crime, a batalha moral evangélica, possuem força psicológica e social inquestionável.
Poderá ser uma cautela injustificada — as manobras eleitorais e as geografias que estão em disputa recomendam que assim seja — mas até ao lavar dos cestos não se fazem festas. E mesmo depois de tudo, ainda que Lula vença, não há festa, porque depois do suspiro, há um senado predominantemente bolsonarista, um bolsonarismo que vive além daquele, nos mais arreigados preconceitos históricos brasileiros, e uma necessidade de construir um Brasil para o futuro, que começa por reforçar as instituições do Estado e acaba em encontrar uma alternativa a Lula, depois do adeus.

E porque não Lula?

05
Out22
No caso do Brasil percebo (nos termos mínimos) que as pessoas de Direita votem em Bolsonaro. Na sua maioria é um voto classista, contra os avanços dos direitos laborais e a mobilidade ascendente dos mais pobres no período de Lula. É, também, um voto contra a violência e a insegurança, uma vez que em termos teóricos Bolsonaro representaria o modelo securitário (tosco, na verdade, por via do armamento geral da população). É, por fim, um voto religioso em prol de um Brasil teocrático evangélico.

Em Portugal a situação é bastante diferente. O que leva as pessoas de Direita, portuguesas, a simpatizar com um homem cujo herói é Brilhante Ustra, torturador no período da ditadura militar, alguém que defende que tal período pecou por ter morto poucas pessoas, que não tem a menor simpatia pela cultura, pela literatura, pela arte, cujo trajeto político é marcado pela total ausência de produção, que é abertamente racista, misógino e homofóbico?

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Brasil 2022: os resultados

03
Out22

Pode ser uma imagem de 4 pessoas e texto que diz "Presidente Ver lista completa Eleição matematicamente definida (Segundo turno) PT-13 13 LULA 57.256.705 votos 48,43% PL-22 JAIR BOLSONARO 51.070.986 votos 43,20% MDB-15 4.915.281 votos SIMONE TEBET 4,16% PDT-12 PDT- 12 CIRO GOMES 3.599.193 votos 3,04%"

Tal como fui dizendo "em off" a quem me foi perguntando — já que não tinha qualquer base científica ou dados reais para fundamentar a minha opinião, tratando-se apenas de um feeling —, Lula ganhou, mas haverá segundo turno. As sondagens eleitorais são, cada vez mais, instrumentos que influenciam votações mais do que refletem tendências de voto. É verdade que são indicadores de determinado momento, mas vem sendo evidente que quando publicadas alteram os comportamentos eleitorais.
Para o que conta, a campanha para segunda volta vai transformar, novamente, o Brasil num campo de batalha cultural e política, agudizando tensões sociais. Em termos eleitorais, o facto de Lula partir à frente não significa uma necessária vantagem. A base bolsonarista tem grande capacidade de mobilização, e apesar de Lula ter uma plataforma eleitoral tendencialmente mais alargada, é ao mesmo tempo um ativo político tóxico. O facto de não se vislumbrar mais ninguém capaz de vencer Bolsonaro não significa que Lula pudesse, de facto, o fazer. Ademais, o eleitorado de Simone Tebet pode bem virar para o lado de Bolsonaro, já que Tebet tem no seu currículo a votação favorável ao impeachment de Dilma e várias votações condenadas por organizações de direitos humanos. Igualmente, o eleitorado de Ciro Gomes pode não ser suficiente para dar a eleição a Lula, até porque não há garantia de que uma parte dele não se abstenha.
Por isso, para este segundo turno é preciso cautela com antecipação de vitórias. No meu entendimento (arriscando desta vez), Bolsonaro partindo de uma posição de derrota parte em vantagem para uma mobilização mais eficaz.

 

 

Eleições Brasileiras 2022

entre lulismo e bolsonarismo, quem perde é o Brasil

30
Set22

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quadro democrático. São outra coisa. São campo de batalha cultural entre lulismo e bolsonarismo, o que configura, desse modo, uma derrota de antemão para o Brasil, encurralado em questões de natureza pós-material. Esvaziado de um patamar de normalidade democrática, a política brasileira é apenas uma versão própria do "ar do tempo", cujo aroma é sobretudo a populismo.
De modo sistemático, o lulismo representa um misto entre a Esquerda clássica materialista que visa a transformação social por via económica, através de diferentes interpretações da luta de classes, almejando, sobretudo, o combate à pobreza num país profundamente desigual, e a Esquerda pós-material identitária urbana, voltada àquilo que a direita radical chama de «marxismo cultural», isto é, uma agenda assente numa visão da sociedade marcada por um binómio opressor/oprimido, não tanto num sentido material, embora detendo forte crítica ao capitalismo, mas numa ótica das diferentes minorias, sexuais, raciais, de género. Ou seja, a esquerda ativista.
Por seu turno, o bolsonarismo representa uma conjugação entre uma agenda económica neoliberal de privatizações, concentração no mercado, defesa dos interesses dos setores agrários e de empresas de exploração dos recursos naturais, e uma agenda também ela pós-material identitária de direita, marcada pelo conservadorismo radical evangélico, pelo securitarismo social (combate à criminalidade segundo a lógica do "bandido bom é bandido morto), pela dimensão anti-minorias, cujas queixas de discriminação são classificadas como vitimização, através de uma leitura individualista e meritocrática da sociedade, pelo combate pelos costumes expresso no anti-aborto. No fundo, trata-se de uma versão brasileira do trumpismo e da direita radical populista europeia, que conflui neoliberalismo económico, conservadorismo moral, teocracia evangélica, saudosismo autoritário (ditadura militar), classista racializada (na medida em que uma parte do seu eleitorado se revê na divisão social por via da raça, em versões modernas de uma divisão entre Casa Grande e Senzala).
Pelo meio surge um despertar da consciência política massificada que é canalizada por meio das redes sociais, canais de divulgação de fake news e radicalismo ideológico. O Brasil está numa verdadeira guerra pelo seu coração, uma vez mais. Isso explica porque a corrupção no tempo do PT de Lula é fator determinante no antipetismo, uma vez que o despertar consciente político não se acompanha de uma literacia política capaz de compreender que a corrupção é endémica e sistémica na política brasileira, não sendo uma invenção do PT. (Aliás, a família Bolsonaro está envolvida em inúmeras suspeitas de corrupção).
Assim, qualquer eleitor moderado está diante de um problema de escolha entre duas versões de messianismo político. Se é verdade que o governo de Lula foi marcado pela corrupção, não é menos verdade que foi um período de políticas públicas que resultaram em redução das assimetrias sociais, criação de novas universidades, maior mobilidade social ascendente, número recorde de jovens pobres e racializados com acesso à educação, políticas educativas voltadas para o conhecimento da história e cultura brasileira nas suas vertentes indígenas e afrodescendentes. Por seu turno, o governo de Bolsonaro não foi capaz de produzir melhorias económicas, estando associado à péssima gestão da crise pandémica da Covid-19, com o negacionismo massivo, com a reversão das políticas educativas e de proteção às minorias e aos direitos fundamentais. É um projeto político falhado que dificilmente captaria um eleitorado conservador clássico, de direita, voltado ao capitalismo, mas com um olhar social.
Seja como for, o Brasil em processo de consolidação das instituições democráticas já perdeu. Resta saber se perdendo ganha alguma capacidade de regeneração com Lula, à falta de alternativa, ou se continua a caminhar em direcção ao abismo, com a política bolsonarista de feição evangélica. E depois do horizonte curto? Onde andam os estadistas?

O fator evangélico em Bolsonaro

25
Ago22
Nenhuma descrição de foto disponível.
À proposta teórica de Max Weber de tipos de liderança, no quadro da liderança carismática, gosto de aditar uma subcategoria a de "messiânica", posto que ajuda a compreender, por exemplo, o tipo de liderança do atual presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. Tendo tomado como foco de campanha as «guerras culturais», cujo conteúdo é pós-material, Bolsonaro fez da sua trajetória recente como político uma combinação entre os seus valores de sempre - máxime a nostalgia da ditadura militar e o seu regime de repressão política - e a agenda da Nova Direita ocidental, passada à peneira da realidade brasileira. É assim que o substrato religioso cristão, sobretudo evangélico, se torna o principal motor da sua campanha, opondo a família tradicional, a moral radical cristã, o patriotismo nacionalista, ao dito «marxismo cultural», uma classificação produzida pela direita radical ocidental a propósito de questões pós-materiais interpretadas à esquerda, na esteira da Escola de Frankfurt e sua teoria crítica, como seja a diversidade sexual e de género, o combate a estruturas racializadas das sociedades ocidentais, ao capitalismo, entre outras.
É, pois, nessa batalha pela identidade da «Nação» a partir de uma grelha evangélica teocrática, que Bolsonaro posiciona a sua força eleitoral, reconhecendo a forma como as Igrejas evangélicas conseguem arregimentar os seus fiéis e torná-los um eleitorado devoto. Ao apresentar Bolsonaro como o "ungido", o eleito para instaurar o reino de Deus no Brasil, o setor evangélico faz desta campanha uma luta entre o "bem e o mal", tornando o contexto político e social brasileiro tremendamente radicalizado e perigoso para a Democracia, cujas instituições são, ainda, frágeis.

Hillary e Lula, equívocos de timming

28
Out18

A poucas horas de vermos o Brasil se tornar um país que elegeu um presidente assumidamente homofóbico, racista, misógino e fascista, uma última consideração sobre o processo de suicídio do PT. Quando o Partido Democrata decidiu ignorar o apelo do seu eleitorado e de importantes figuras do partido, varrendo Bernie Sanders para debaixo do tapete, para apresentar Hillary Clinton como candidata a Presidente dos Estados Unidos, partiu do erróneo princípio de que o eleitorado democrata seguiria em massa a escolha. Não tomou em conta a perceção generalizada de que Hillary se apresentava como a candidata dos interesses de Wall Street, dos vícios do poder político e das suas promiscuidades com o poder económico. Em consequência disso, levou uma valente tareia, pois uma parte do seu eleitorado, confiante que uma figura como Trump jamais seria eleito, votou no atual presidente dos EUA como protesto contra o autismo do Partido Democrata. As consequências políticas foram as que conhecemos. 

Similar erro cometeu o PT. Mergulhado num clima de suspeição -- com uma imprensa que gritou os escândalos de corrupção do seus deputados e outros membros e que falou baixo da corrupção dos demais partidos --, o PT, em toda a sua arrogância de quem está no poder, insistiu em manter como candidato presidencial Lula da Silva. Ainda que esteja inocente, não é democraticamente saudável nem politicamente sustentável apresentar um candidato nestas circunstâncias. No estado atual, caberia ao PT ter apresentado desde logo Fernando Haddad como candidato e ter defendido, de forma clara e transparente, a investigação interna e a reforma partidária. Construir um novo PT em torno de Haddad, valorizando os méritos do passado e apontando o dedo e punindo os erros também, teria valido ao partido uma outra confiança popular. Os erros estratégicos pagam-se caro. E o PT sacrificou a Democracia em nome de uma dinâmica interna típica dos partidos comunistas. 

 

{originalmente em O Coletivo}

Os tais 89%: entender o eleitorado de Bolsonaro em Portugal

25
Out18

 

UM DOS FENÓMENOS SOCIAIS mais interessantes da ascensão de Bolsonaro, encontra-se na conquista quase absoluta do eleitorado emigrado para Portugal. Foram 89% dos votos. Em primeiro lugar, é preciso levar em consideração que esse eleitorado não compartilha um mesmo perfil sócio-económico, mas partilha, pelo menos, um aspeto central desencadeador do fenómeno migratório: a insegurança. Na sua esmagadora maioria, os brasileiros em Portugal realizaram a travessia do atlântico escapando ao clima de violência brutal que assola o país. Quando se leva em consideração as motivações eleitorais sabemos, até por experiência da geografia política europeia, que o fator segurança é determinante na forma como se constrói um eleitorado em torno de movimentos extremados, que manipulam o desejo quotidiano e primário por uma vida sem crime. Perante uma liberdade que é tomada como dado adquirido, a segurança torna-se o principal fator eleitoral. Um candidato que prometa acabar com o crime, num país atolado de cadáveres, é altamente sedutor. Esta narrativa ganha um contorno particular diante de uma população que vê uma brecha de possibilidade de regresso ao seu país. Aspetos ligados à perseguição política, aos abusos de poder policial, e a violenta inversão de políticas sociais não aparecem, em primeira mão, equacionados. 

Em segundo lugar, temos um eleitorado que se auto-percecionada como tendo ascendido socialmente. Tratam-se de pessoas de baixa renda, pobres, que pela experiência de emigração conseguem obter renda maior, pelo que no conjunto de tais fatores não se reconhecessem mais como parte do eleitorado tradicional petista, em contraste com familiares, amigos e vizinhos que foram deixados para trás. Eles já não são pobres, são brasileiros da europa, são "europeus" no olhar do seu grupo social de origem, e assim se reconhecem. Ao mesmo tempo, muitos deles são colhidos pelo movimento de fake news via whatsapp. 

Em terceiro lugar, temos um eleitorado recém-emigrado, uma elite económica brasileira que chega a Portugal fugida da violência. Uma elite historicamente construída no ideal da «casa grande e senzala», do fosso e da estratificação sociais, e assim ultra-conservadora que se revê numa parte significativa do discurso de Bolsonaro. Essa elite que culpa o PT pelos males do Brasil, olha para Bolsonaro como uma janela de oportunidade de regresso ao seu país, sabendo, ainda para mais, que aquele será um presidente que protegerá os interesses desse eleitorado. 

Brasil: de um novo mapa político-social a um Haddad encoberto

19
Out18

As eleições presidenciais brasileiras traçaram um novo mapa sócio-político no país. A intensa campanha anti-petista, baseada não apenas nos escândalos de corrupção, mas igualmente num elevado número do que hoje se designa por fake news, associada a um clima de medo permanente derivado do elevado crime que assola o país, permitiram a emergência de Jair Bolsonaro, um candidato cuja campanha eleitoral se baseia num discurso misógino, racista, anti-LGBT e pró-ditadura militar. O apoio declarado das principais Igrejas neopentecostais -- gerando uma onda messiânica em torno do mártir Bolsonaro -- e uma nostalgia nebulosa do período da ditadura militar, cozinharam o caldo sociológico para que Bolsonaro surgisse envolto na aura de "salvador da Pátria". O seu discurso militarizado serviu para alimentar clusters sociais tendencialmente extremistas e perigosos, que encontraram uma figura que personifica o seu ideal fascista. Ao mesmo tempo, as elites brasileiras, que viram as classes mais desfavorecidas conquistarem direitos sociais que lhes pesaram nos bolsos, equilibrando ligeiramente a balança social e permitindo uma brisa de mobilidade social, encontraram em Bolsonaro a narrativa ideal, ao anunciar o fim do 13º mês, da bolsa família, dos direitos das domésticas, do direito a férias, das cotas raciais nas universidades públicas, e outras iniciativas do governo do PT que permitiram colocar uma tábua sobre o fosso entre ricos e pobres, brancos e negros no Brasil. Todas essas iniciativas sociais foram essenciais no enfatizar de um sentimento anti-PT enquanto pretexto para uma nova velha ordenação social brasileira, historicamente demarcada entre a Casa Grande e a Senzala. Todavia, a insatisfação anti-petista é uma estratégia, uma oportunidade política que permite revitalizar aspirações ditatoriais. Isto porque, Bolsonaro não era a única alternativa a Fernando Haddad -- que estaria, por exemplo, em Ciro Gomes ou na menos popular Marina Silva --, mas era, sem dúvida, a única alternativa anti-democrática.

Portanto, não restam dúvidas do que está, efetivamente, em causa nestas eleições, as quais vêm sendo marcadas pelo histerismo que, em alguns lugares, descambou em violência, tendo ocorrido, no dia de ontem, o homicídio de um mestre de capoeira, de 63 anos, em Salvador da Bahia, depois de declarar, num bar, ter votado em Fernando Haddad. No Rio de Janeiro, em alguns locais de voto, foi montada uma coação, perfeitamente ilegal, com vista à obtenção de votos em favor de Bolsonaro. As fake news, em torno do candidato do PT multiplicaram-se. Tratam-se de casos que evidenciam um clima que faz pano de fundo de uma nova ordenação político-social brasileira. Seja qual for o próximo presidente do Brasil, o mapa ideológico brasileiro estará fortemente bipolarizado. Está, novamente, em frenética ascensão um cenário de fronteiras traçadas a linhas espessas. 

O Brasil está, hoje, dividido, não entre anti-petistas e petistas, mas entre pró-regime militar e anti-regime militar. Acautelo-me ao uso do termo fascistas, por considerar que, e em cuidada análise, uma larga maioria dos eleitores de Bolsonaro não possui o manual de informação capaz de compreender o que está em jogo com o fascismo, nem é exatamente isso que esse eleitorado deseja, mas antes um regime onde sacrifiquem a sua liberdade (da qual têm pouca consciência) para poderem usufruir de uma (falsa) sensação de segurança. 

 

Nem o PT é o Demónio, nem Haddad é Lula

A demonização do Partido dos Trabalhadores (PT) resulta de uma estratégia de concertação de forças políticas, religiosas e imprensa conservadora com vista a restauração de uma sociedade cavada num fosso étnico-cultural. Num plano das utopias políticas, o Messias Bolsonaro foi apresentado como o homem que restauraria a ordem, o progresso e a moral cristã num país onde a franja religiosa evangélica é, cada vez mais, o próprio couro cabeludo. A coincidência das agendas políticas e religiosas fecundou uma oportunidade perfeita. Justapôs-se o perigo vermelho do comunismo ao vermelho do demónio. O problema é que o PT não é o demónio. Efetivamente marcado pela corrupção e por uma ineficiente gestão de Dilma Rousseff, a era do PT foi, também, caraterizada por enormes avanços sociais e por políticas educacionais tremendas, como a bolsa família, as cotas raciais, o ensino da cultura afro-brasileira e ameríndia nas escolas, entre inúmeras outras, que permitiram o surgimento de uma geração escolarizada entre as classes historicamente desfavorecidas e um ajuste com a história brasileira varrida para debaixo do tapete sob o epíteto do branqueamento social e cultural. Evidentemente fracassado em algumas matérias, os governos do PT foram determinantes num virar de página de um Brasil economica e culturalmente racializado, em particular ao nível das instituições. Enquanto isso, nos lares mais favorecidos crescia um sentimento de insatisfação. Os episódios de manifestações nas universidades pedindo o fim das cotas raciais, sob o lema "não queremos negros aqui", foram prova declarada do que estaria em marcha. 

Ora, além da demonização do PT, a campanha pró-Bolsonaro é marcada pela coincidência entre Lula da Silva e Fernando Haddad, o candidato indicado após a exclusão do histórico líder dos Trabalhadores. Essa campanha, todavia, encontra respaldo na própria campanha do PT. Com Lula afastado judicialmente das eleições, o PT fez saber que «Haddad é Lula, e Lula é Haddad», enfatizando uma continuidade entre políticos e políticas. Aqui residiu, com efeito, uma falha por parte do PT. É que o descontentamento anti-petista figurava na figura desgastada (ainda que parcialmente de forma injusta) de Lula da Silva. O afastamento judicial do seu líder representava uma oportunidade para novas aspirações político-ideológicas. No entanto, o PT caiu nas mesmas falhas de históricos partidos da mesma natureza ideológica. Ao enfatizar as continuidades, perdeu-se a oportunidade de chamar à atenção do perfil particular de Fernando Haddad, cujo currículo científico e político são de uma evergadura moralizadora para o país: licenciado em Direito, Mestre em Economia, Doutorado em Filosofia, Professor de Ciência Política na USP. Enquanto ministro da Educação, de 2005 a 2012, foi responsável pelo FIES (Fundo de Investimento Estudantil), pelo ProUni (Programa Universidade para Todos), um programa de bolsas para os mais carenciados, e pelo reformular do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio). Entre 2013 e 2016 foi prefeito de São Paulo, tendo sido distinguido pela ONU como o melhor prefeito da América Latina. Portanto, se o PT tivesse sabido planear a sua campanha, descolando Haddad de Lula, e apresentando-o como o candidato de uma nova era do PT, neste momento estaríamos numa campanha eleitoral entre um político e académico com uma carreira invejável e um político que em 30 anos só aprovou leis que beneficiaram os deputados e propagou o ódio, sem apresentar qualquer ideia de governo. 

 

{texto originalmente publicado no blog do Centro de Estudos Internacionais (CEI-IUL) do ISCTE}

Do anti-petismo a Bolsonaro não vai um passo

16
Out18

O MOTOR DESTAS ELEIÇÕES TEM SIDO, efetivamente, o sentimento anti-PT. Trata-se daquilo que o teórico Triaud chama de «memórias instituídas» que resultam de intencionalidades político-ideológicas que visam reforçar a identidade ou ideologia de um grupo. Se à primeira vista poderemos tender a não encontrar nestas eleições brasileiras respaldo desse quadro teórico, a verdade é que um mergulho mais cuidado na realidade sociológica e política brasileira revela, precisamente, o contrário. A forma como corrupção e PT foram associados, varrendo para longe o historial de corrupção como parte estruturante da política brasileira ab initio, revela a intencionalidade política dos seus difusores. O processo conhecido como Lava-Jato serviu de pano de fundo para uma campanha de desgaste da imagem do Partido dos Trabalhadores, tendo por climax o impeachment de Dilma Rousseff e a prisão de Lula da Silva. Mais uma vez é varrido o contexto para debaixo do tapete. É preciso recordar que o impeachment de Dilma se baseou numa caça-às-bruxas, em suspeitas infundadas de corrupção por parte da então presidente do Brasil, suspeitas que nunca se vieram a revelar verdadeiras. Em abono da verdade, o que se sucedeu foi um estancar do processo, à medida em que o Lava Jato ia arrastando cada vez mais membros da teia golpista, envolvendo muito mais políticos do PSDB do que do PT. 

 

No entanto, é preciso ter presente que as atuais eleições nada têm a ver com verdadeA forma como as redes sociais têm sido usadas no sentido de propagação de fake news merece urgente e profunda investigação, quer científica, quer político-judicial. Por ordem inversa de prioridades, inclusive. Esse caldeirão tem fermentado uma onda anti-petista como não há memória. A reboque da teoria da corrupção, a sociedade brasileira tem tirado do armário a sua homofobia, o seu racismo, a sua misoginia, jogando nas ruas e viralizando as tensões mais determinantes da sua história, cavando o fosso e fazendo eclodir um clima de violência. A militarização dos apoiantes de Bolsonaro é um fenómeno que se inscreve na longa tradição fascista-militar sul-americana, que se alimenta de uma lavagem da história dos regimes fascistas europeus. É, então, neste palco de um país conservador, homofóbico, racista, misógino e fortemente apoiado pelas agendas políticas das emergentes igrejas evangélicas, que o sentimento anti-PT descamba num apoio a Bolsonaro. Porque do anti-petismo a Bolsonaro não vai um passo. Não vai mesmo. Pelo meio, o centro-direita esvaziou-se, ficando o seu eleitorado convidado a escolher entre a esquerda reunida num PT para todos os gostos (do centro-esquerda à extrema-esquerda), mal ou bem, como bastião da Democracia, e a extrema-direita de Jair Bolsonaro, um movimento que visa a restauração da ditadura militar. A partir do momento em que o centro-direita não foi capaz de contrariar a onda fascizante de Bolsonaro, mantendo o país dentro de uma esquadria democrática, resta-lhe poucas opções: ou é conivente com o fascismo ou abandona o seu perfil político e segura a democracia que resta no país. Pelo meio disto caiu a opção mais segura, Ciro Gomes, o candidato do centro-esquerda, o qual seria a escolha mais óbvia para aqueles que considerando que o tempo do PT acabou, ainda acreditavam em soluções sociais justas e na Democracia. Por isso, não, isto não era entre o PT ou Bolsonaro. Só se tornou tal graças à falência do centro-direita, do centro-esquerda e à histeria gerada em torno de Bolsonaro. Caso se venha a confirmar a eleição do candidato fascista o Brasil vai acordar já tarde. Porque a história ensina que as ditaduras só aprofundam os problemas do país. 

 

{adenda: obrigado à equipa dos Blogs do Sapo pelo destaque deste texto}