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A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

O ativismo de quatro

Abril 24, 2019

Sara Zambeli, ativista feminina brasileira, exortou as mulheres a recusarem a posição sexual conhecida por "de quatro", justificando que a mesma coloca num papel de sujeição a mulher. Sou um grande defensor do empoderamento feminino, defendendo a implementação de medidas públicas que alcancem a autonomia decisória e a igualdade no mercado de trabalho. Posto isto, acho que o ativismo (seja qual for) tem uma dimensão purificadora extremista que se autoflagela. O ato sexual é um jogo de negociações de poder e fantasia. A chamada posição "de quatro" varia entre o primeiro e o segundo lugar, consoante o país, no ranking das preferências femininas. A submissão que invoca é intencional, conjugando, ainda, uma dimensão de proteção. No contexto atual de luta o que está em causa o empoderamento e não a erradicação do feminino. Qualquer dia estarão a defender a mutilação genital feminina como combate ao prazer sexual que colocaria o poder nos homens. 

Dia da Mulher, Sempre Urgente

Março 08, 2018

 

Somos, muitas vezes, convidados ao facilitismo de ver o Dia Internacional da Mulher como uma data cuja comemoração não se justifica numa sociedade ocidental em que as mulheres têm acesso ao mercado de trabalho, à educação, a espaços de lazer, e que até são privilegiadas em bares e discotecas. Esse facilitismo não passa de uma leitura superficial da realidade, um olhar que se horizonta a oriente, onde os direitos elementares das mulheres permanecem restringidos a partir de leituras conservadoras dos postulados religiosos. Contudo, não nos regozijemos por uma separação entre religião e sociedade. Tal não existe. O elevado número de violações e o assédio sexual, resultam de uma atitude social que faz da mulher um objeto social. O citado privilégio em bares e discotecas é, claramente, um sinónimo disso, porque essa prioridade não se baseia numa paridade, mas antes na ideia da mulher enquanto produto de mercado, enquanto objeto de predação sexual. Essa ideia encontra-se reproduzida no desempenho de papéis sexualizados no cinema, em que a percentagem de nu feminino é esmagadoramente superior ao masculino.

Retomando o assédio e o ataque sexual, a crença social de que mulheres arrojadamente trajadas constitui um sinal de disponibilidade permanente para o sexo, um sinal de ausência de decoro e pudor, é produto de uma sociedade em que a religião ainda está presente, ainda impregna a moralidade social. Uma mulher de minissaia “está a pedi-las”. Isto porque o ideal feminino continua a residir, para citar o malfado presidente Temer, o da “mulher recatada e o do lar”, estereótipo mergulhado na figura católica de Maria, mãe de Jesus (1).

Portanto, todo este caldo sociológico produz uma disparidade entre homens e mulheres que se traduz em violência sexual, física e simbólica, em que violência doméstica, em violência salarial e de ascensão profissional. Por regra as mulheres recebem salários menores e ocupam lugares inferiores. Há uma mudança em curso, mas esta é pautada caso a caso. Por isso o feminismo continua tão necessário. Não o feminismo de muitas bloggers portuguesas que, na sua ignorância, confundem empoderamento feminino com violência simbólica da figura masculina, mas antes o feminismo politicamente ativo, o que demanda por igualdade salarial, igualdade de oportunidades, por direito à minissaia dessexualizada. É preciso queimar soutiens sociais.

 

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(1) sobre as transformações do sagrado feminino ler A prostituta sagrada - A face eterna do Feminino, de Nancy Qualls- Corbett.