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A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

Micropost [47] | O derrube das estátuas

Junho 17, 2020

Abolir estátuas de pessoas com ligações ao comércio de escravos e à colonização, sem uma contextualização e sobretudo sem um debate público e honesto sobre como a escravatura e o colonialismo marcaram as estuturas racializadas da sociedade portuguesa, não tem qualquer efeito, é começar pelo fim, simplesmente tentando apagar a história sem lidar com ela. 

A Estátua

Junho 13, 2020

Parece-me que entrámos, definitivamente, na reprodução dos confrontos vigentes no Brasil, onde não há possibilidade para o bom-senso e o equilíbrio. Ou se está de um lado da barricada ou do outro. Isto está refletido neste debate em torno da estatuária, onde encontramos a glorificação absoluta dos símbolos pátrios, sem qualquer sentido crítico, apenas pela exaltação da memória nacionalista, e do outro lado a rejeição do direito aos símbolos nacionais, como se um país fosse somente uma sociedade emergida do contrato social, sem uma história e uma identidade.
 
Neste jogo de surdos, faz-se um julgamento da história a partir dos padrões coevos, como se cada época não tivesse o seu próprio contexto e à luz do qual é honesto avaliar as atitudes. Isto não significa, contudo, desculpabilizar as atrocidades da escravatura e do colonialismo, simplesmente porque o comércio de escravos era "normal", até porque não se aplica, felizmente, a mesma receia ao nazismo.
 
Posto isto, no caso da estátua do Pe. António Vieira parece-me evidente que a mesma invoca e glorifica uma figura com várias esquinas, que balanceou entre o humanismo e o salvacionismo colonialista. Acresce que a estátua comporta toda uma ideologia nacionalista do "bom colonizador", com os índios aos pés, agradecidos pelo homem que lhes "salvou a alma" da perdição "selvagem". Por isso, sim, enquanto património que reproduz uma ideologia ela é passível de crítica. No entanto, a vandalização da mesma não produz ganhos políticos. Mais simbólico seria cobri-las com um lençol branco, aludindo ao branqueamento do outro lado da história.
 
Concluindo, é devido o respeito ao direito aos símbolos nacionais, da mesma forma que é honesta uma consciência crítica da história, reconhecendo que do outro lado dos feitos marítimos houve a escravidão e destruição de culturas.

Dois lados da Escravatura portuguesa

Janeiro 07, 2018

Década Internacional de Afrodescendentes 2015-2024 tem servido, e bem, de pretexto para discutir coisas como o racismo biológico, o racismo institucional, e o racismo cultural, em países, como por exemplo, o nosso. Muitos mitos construídos a partir da narrativa ideológica dos brandos costumes vêm sendo descascados, revelando um caldo sociológico muito menos clean do que o desejado. Falar de afrodescendentes implica falar em escravatura, um crime gigantesco que macula a história de inúmeros países, com forte destaque para Portugal. Como em muitos outros assuntos, contudo, a escravatura tornou-se num tema ideológico, altamente politizado. Para uma elite afrodescendente atual a escravatura tem servido para, e à luz de padrões morais vigentes, para fazer política contra Portugal. Uma ideologia de ajuste de contas com a história que serve outros interesses. Embora historicamente justificada, esta posição não apenas passa ao lado da contextualização histórica, como é seletiva, porque invoca o passado e nada diz sobre os crimes coevos que continuam a ser perpetrados em África. Anestesia, igualmente, o papel das lideranças africanas de então na produção do comércio de escravos. 

Do outro lado da barricada encontramos o Estado Português, que alavancado em mitos de convívio pacífico e lusotropicalismo vem celebrando o Quinto Império português, fazendo folclore de uma memória histórica que não pode ser congelada e arrumada. Essa herança do Estado Novo, que encontramos no Portugal dos Pequeninos e nos manuais escolares, que faz dos povos de chegada realidades sem história, sem cultura e religião, que promove a ideologia civilizadora europeia diante dos selvagens pagãos, precisa ser desmontada. Cabe ao Estado Português o dever de rever o processo de ensino dos Descobrimentos, de contextualizar as culturas de chegada, de suprimir hierarquias entre os povos, de promover a produção e investigação científica em torno das culturas do atlântico escravocrata, de criar um museu da Escravatura e dos povos escravizados, para que não se perpetuem caldos sociológicos de racismo cultural, biológico e preconceito religioso. Visitar o Museu Nacional de Etnologia é conviver com o lado mais racializado e hierarquizante da sociedade portuguesa, que confrontada com a alteridade das culturas africanas reage pela via discriminação, do racismo e da chacota. É isto que o mito da convivência pacífica produz. 

Cólofon

A Morada dos Dias é um blogue de João Ferreira Dias, escrito segundo o Acordo Ortográfico, de publicação avulsa e temática livre. Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.