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Dias Assim

05
Mar21

A poesia traduzida tem "raça"?

O poema recitado por Amanda Gorman na cerimónia da tomada de posse do presidente estadunidense Joe Biden estava previsto ser traduzido, para holandês, pela escritora Marieke Lucas Rijneveld, com o aval da primeira. No entanto, um artigo de Janice Deul, jornalista e ativista negra, no jornal Volkskrant, fez com que Marieke desistisse, face à onda de críticas. Janice Deul argumenta que a tradução do poema deveria caber a "um artista local, jovem, uma mulher assumidamente Negra”. Eventualmente ela mesma, Janice Deul. 

É importante ter presente, claro, que tal como Doris Sommer e outros autores mostram, há sentimentos e experiências que estão racialmente circunscritas. Mas mesmo Sommer, autora branca, é capaz de traduzir e inscrever as circunstâncias negras na literatura. É por isso que queiramos ou não, a reação de Deul e afins é populismo de esquerda. Ao radicalizar as questões raciais esvazia-as de conteúdo e impede a simpatia de fora. Ironicamente, o que os movimentos de militância racial radical fazem é apropriar-se de um elemento cultural judaico, a "pureza", para construir o seu discurso e imaginário populista racial. Não é por acaso que a sua narrativa sobre "apropriação cultural" é a versão inversa da autenticidade do nacionalismo. Tanto uma quanto a outra desconsideram o mais elementar aspeto das culturas: o hibridismo. Acresce ainda que uma parte significativa das culturas africanas sempre observaram os elementos culturais exógenos pela ótica da mais-valia, da eficácia simbólica e efetiva, estando livres da "pureza", da autenticidade, categorias próprias do pensamento judaico-cristão.

20
Ago20

Esquerdofobia

Na década de 1970 Archie Bunker surgia para mostrar, de forma cómica, o absurdo dos preconceitos da sociedade americana. Na época era um sinal de coragem tratar de homofobia, racismo, misoginia. Hoje isso tornou-se num tal de politicamente correto e Bunker passou de paródia a herói. Não é por acaso que Trump foi comparado à personagem de All in the Family, tanto como crítica como por elogio. Ora, o que temos hoje é pequenos Archie Bunker por todo o lado, gente para quem tudo o que não seja pensamento igual ao seu é marxismo cultural (uma paranóia), perigo comunista, esquerdopatia. Isto não significa que à esquerda não existam pessoas com ideias radicais e desligadas da realidade, mas o archiebunkerismo manifesta-se na paranóia da ditadura da esquerda e no ódio por todas as pessoas do outro lado da fronteira ideológica, sejam moderadas ou radicais.

02
Nov19

Micropost [15]

Uma das razões para o crescimento da extrema-direita encontra-se na extrema-esquerda. Não por causa de coisas tão elementares como o direito à autodeterminação em matéria de eutanásia, aborto, género, ou de políticas sociais de combate ao racismo, por exemplo. Não é pela existência tão necessária dessas agendas, mas antes pela radicalização dos discursos cuja razão é a febril afirmação como «verdadeira esquerda». São tantas as luzes que não se vê o palco.

16
Out19

"assim se vê a forca do PC"

A prontidão com que o PCP se desenvencilha da Geringonça, deixando a ideia de que não houve um acordo mas um entendimento ao longo da última legislatura, revela uma interpretação superficial dos resultados eleitorais, que desconsidera as alterações políticas da sociedade. Uma fatia do seu eleitorado histórico já faleceu e a renovação geracional é ténue. As lutas de Esquerda já não são apenas da ótica proletária, mas de questões LGBTI, de minorias étnicas, e outras questões sociais sobre as quais o PCP tem uma visão quase ruralista. As gerações mais jovens não se reveem em Jerónimo de Sousa e na agenda do partido, encontrando mais representatividade no BE e no Livre. Acrescente-se que o próprio BE tenderá a assumir uma posição mais euro-participativa, ou arrisca-se a ver o seu eleitorado migrar para o Livre.

07
Jul19

O Crescimento Económico

João Miguel Tavares, e outros comentadores de direita, refugiam-se no crescimento económico médio, face a países como a Roménia e a Polónia, para criticar o governo. Os dados estão aí, é um facto. Mas seria importante reconhecer que esses países precisam, efetivamente, de crescer muito acima do que cresce Portugal. É que se achamos que temos um país assimétrico, com clivagens sociais e económicas, vejam-se as condições desses países. Os níveis de conforto social são baixíssimos, assim como a mobilidade social. Se achamos que o nosso meio rural está subdesenvolvido, o melhor é ir ver o que se passa nesses países. Por isso, ainda bem que crescem mais do que nós, e que transformem rapidamente esse crescimento em welfare.

21
Jan19

Os lugares de fala do BE

Como sempre gosto do que escreve e como escreve Rui Bebiano. Num texto recente no seu blog, o historiador levanta um aspeto que não tem importância menor quando analisamos os percursos político-ideológicos do BE. Como sugere, o BE pretende falar em nome das "massas" e dos "trabalhadores" sem ser capaz de os atrair como eleitores. Em primeiro lugar, porque mesmo que se veja como radical, no sentido das lutas fundacionais do socialismo, o BE terá, sempre, de lidar com o espetro da máquina comunista, oleada durante décadas no operariado português, nos sindicatos com base de representação do partido, e na força simbólica de partido de luta de classes. Enquanto houverem sindicatos o PCP passará bem, e o BE jamais será capaz de capturar eleitorado naquelas franjas sociais. Em segundo lugar, a capacidade do BE de se posicionar no campo de ação do PCP é de fraca expressão porque é um partido fundacionalmente urbano, de questões urbanas e de atores urbanos. Trata-se de um partido lisboeta, e só posteriormente portuense, coimbrão, e pouco mais. A sua força na vila de Salvaterra de Magos é um caso excecional de ressimbolização ideológica ad hoc e ligada à capacidade de mobilização da sua líder local. 

Retomando. O Bloco de Esquerda é um partido de causas e caraterísticas urbanas cosmopolitas. Trata-se, pois, de um partido que tem, muito claramente, demarcados os seus lugares de fala, expressando-se nas causas feministas, da igualdade e da multiplicidade do género, no aborto, no casamento e na adoção LGBTI, na batalha das minorias. Não é por acaso que possui um eleitorado jovem e "alternativo", ainda em busca de abandonar as margens do Bairro Alto e do Largo Camões. São, pois, causas que não possuem uma amplitude nacional, difíceis, ainda, de aceitar por largas franjas sociais portuguesas, umas muito arreigadas às lutas operárias, outras profundamente conservadoras nos seus valores morais, outras demasiado burguesas, para quem votar no BE não fica bem no seu núcleo social, mesmo que se revejam no campo da ação bloquista. 

Por fim, há um problema de legitimidade da fala do partido. Uma vez que o BE é, por natureza da ação política, um partido de causas fortes, previamente enunciadas, ele debate-se com a tipologia da sua estrutura partidária. Não é por acaso que ficou conhecido como "esquerda caviar", resultante de uma composição burguesa esquerdista, onde a clivagem entre o campo da teoria e da perceção da realidade se fazem sentir. É um partido que quer falar de minorias mas que não as possui na sua estrutura, antes assimilando um conjunto de intelectuais que se consideram a si mesmos representantes daquelas, mas que vivem fechados num bolha. Se é verdade que do ponto de vista da representação feminina e LGBTI o BE conseguiu coincidir agenda com agentes políticos, o mesmo não se pode dizer das minorias étnicas. E porque motivo o BE não é um partido que se posicione na defesa das minorias religiosas?

21
Mar18

Marielle, a força de uma mártir

Precisei secar as lágrimas antes de conseguir dirigir-me ao teclado. Foi preciso que a mágoa se instalasse num canto, não por sossego, mas antes pela força impulsionadora da ação. A morte de Marielle Franco é a prova de que os ideais são eternos, persistem além dos sujeitos em que se encarnaram, e que se tornam sementes mais fortes quando plantadas em terra queimada.

Não tenho dúvidas que Marielle está hoje mais orgulhosa do que nunca. Estou certo que Marielle teria dado a sua vida mais cedo se lhe prometessem que as ruas não se calariam. Num Brasil em pleno processo revolucionário, mergulhado numa transformação política e social de tamanha envergadura que promete reconduzir o país à ditadura, com perseguição policial das comunidades afrodescendentes, das culturas afrodescendentes, estrangulamento da mobilidade social, fim das políticas públicas de inserção e minoração do fosso social, como as quotas raciais e a bolsa família, o ataque à liberdade religiosa e às múltiplas formas de igualdade racial, de género, sexuais, económicas. Negra, criada na favela, lésbica, Marielle será, sempre, o símbolo da inconformidade e da contramão do Brasil de Temer, Bolsonaro e afins. É urgente, agora, criar desassossego e voltar a quebrar as correntes. 

 

(obrigado à equipa do Sapo pelo destaque deste texto)

03
Abr16

O mal-entendido sobre a 'Esquerda'.

Estava sentado numa das mesas corridas na petisqueira Matateu, no Restelo, quando um dos meus convivas menciona o facto de eu ser de 'esquerda', adiantando que ele próprio, não sendo de 'direita', também se declarava de 'esquerda'. Esta é uma alegação recorrente, que evidencia um problema de fundo ligado às conceções sociais sobre o que configura ser de 'esquerda'. Ao que parece, o soft power do macartismo (1950-1957), marcado pela "caça às bruxas", i.e., de perseguição comunista, a divisão de Berlim e o Estado Novo Português, conjugaram-se para confundir 'esquerda' com comunismo e este com 'perigo vermelho'. Parece difícil, para muito boa gente, pensar a 'esquerda' fora dos quadrantes reivindicativos, proletários e de luta de classes. A formatação da 'esquerda' num só modelo político-ideológico não só é infundada como injusta e perigosa, porque permite uma margem de manobra maior a diferentes tessituras de 'direita'. Em rigor, em quase nada me encontro no PCP ou BE (partidos, ainda assim, bastante diferentes). Ser de 'esquerda' para mim não é tanto uma forma de posicionamento partidário como um modo de ver a vida e o mundo, com um olhar pluralista que a Antropologia oferece e que aí contrasta com os horizontes herméticos de direita - o mundo é muito mais colorido e complexo do que o configurado por certas ideias de 'direita' e de 'esquerda'. 

30
Nov15

Portugal: Uma Sociedade de Direita?

Não se pode negar que José Sócrates contribuiu para o desgaste do PS e, com isso, para a consolidação de um "benefício da dúvida" perante a coligação PSD-CDS. A mnemónica da herança socialista, da herança dos tempos do despesismo, para o qual as orientações europeias muito contribuíram, num período em que se acreditou que contrair mais despesa seria o ideal para ultrapassar a crise, serviu durante quatro anos como narrativa de legitimação governativa. Durante uma legislatura inteira a coligação encabeçada por Passos Coelho e Paulo Portas, jamais foi responsável pelas suas decisões. A mentira compulsiva surtiu os seus efeitos. 

Tudo isso é quase de somenos importância se levarmos em conta os efeitos sociológicos da coligação de esquerda liderada por António Costa. "Coligação negativa", "bota-abaixismo", "ilegítima", são inúmeros os adjetivos. Por todo o lado, da imprensa às ruas, se sentem as críticas a uma coligação em que o rosa se mistura aos vermelhos numa espécie de magenta. As pessoas habituaram-se a uma rotatividade entre PS, PSD e CDS, num eterno bailado dos mesmos, a qual passaram a ver como porto seguro. O "todos iguais" figurou como uma espécie de lamento costumeiro, algo que é mau mas que é bom porque que sempre tem sido assim. Quer isto dizer que os cravos empunhados, as "abriladas", foram gestos espontâneos de saudosismo, um reviver do espírito de Abril mas cujo horizonte de solução não era objetivado. Era desejar algo novo, uma solução mais social, mais humana, mais "de esquerda" mas sem a esquerda existente. É a sociedade dos mitos sebastianistas.

Todo este momento tem posto a nu a realidade ideológica nacional: um país de Direita marinada pela religião, pelas heranças dos brandos costumes, pelos medos dos "vermelhos" que trarão o comunismo. Nessa lógica, os velhos que vêm a política nacional como uma eterna luta de classes estão perdidos no tempo. Acima de tudo porque a "classe" tornou-se numa categoria sem operatividade. A noção de operariado foi dissolvida pela mobilidade social, mesmo que aparente, colocada em jogo pela sociedade de consumo. Entre o ter e o haver, ainda bem. Mas isto traduz-se numa sociedade em que cada qual se considera parte de um cluster economicamente distinto. A classe média vive o mito de classe alta. Ninguém lê o "Avante!" em público, ninguém votou no BE ou no PCP. É um eleitorado mais do que volátil - é temeroso. Usa o cravo como imagem, vota à esquerda para reforçar a oposição, mas quando tal produz um governo retrai-se e teme, como se dos pesadelos da infância voltasse o "papão". 

Esse mito de não-pertencimento a uma determinada "classe" está patente no estereótipo do eleitor de esquerda como pobre. Ninguém que vá de férias, trabalhe em serviços, vista fato e tenha um bom telemóvel pode ser de esquerda. O problema é que entre as camadas mais baixas da sociedade a esquerda foi desaparecendo, dando lutar a uma direita difusa. É a direita paternalista e referencial que Passos Coelho soube encerrar sobre si no tom calmo, humildade e paternal. Calhou bem em contraste com o anterior primeiro-ministro seguro de si, com roupas caras e um ar de "bon vivant". E a esquerda foi ficando nos velhos comunistas anti-PS e nos jovens abaixo dos 40 anos, numa lógica americana de que quem é republicano antes dos 30 anos não tem coração, acima dos 30 não tem cérebro. 

O PS passou a figurar, então, na cosmovisão portuguesa, como uma versão mais suave do PSD, mas jamais com tendências esquerdistas que o aproximem do BE e, "graças a deus!" longe do PCP. E isto faz-me regressar aos reflexos sociais. Não há dúvida de que o conservadorismo provinciano ainda produz os seus efeitos, particularmente quando mesclado ao capitalismo e à sociedade de consumo. Almejar ter a vida do patrão, fazer as suas férias, ter o que este tem, passa pela socialização terciária, pela modelagem comportamental em que os sujeitos copiam os gostos e tendências daqueles. Querer "ser como" é "agir como", e isso produz efeitos na intenção de voto, no voto real e na disposição ideológica. 

Portugal é, sim, uma sociedade de direita, moderada, marinada, e que teme a esquerda como a antítese da sociedade atual, jamais concebendo que a esquerda também se transforma. Felizmente na soma dos que acreditam na esquerda foi possível construir um amanhã novo, porque António Costa soube ousar. Mesmo que falhe ao menos tentou. Seja como for, os últimos quatro anos foram um mar de fingidos sucessos. 

27
Nov15

Mitos da Coligação PSD-CDS

Os ataques em política, como de resto noutros lugares comunitários, servem muitas vezes para camuflar realidades próprias. O ataque cerrado à coligação de esquerda, encabeçada pelo PS, levado a cabo pelos partidos então no governo, partia de dois pressupostos erróneos: 1. que uma coligação a posteriori não era legal, 2. que não há Democracia se esta não contiver pelo menos um dos partidos de direita no poder. Quanto ao primeiro pressuposto basta dizer que a coligação PSD-CDS foi, na primeira legislatura, firmada após os resultados eleitorais. Quanto à segunda basta dizer que se António Costa tivesse aceite coligar-se à direita era hoje Vice-Primeiro-Ministro porque Paulo Portas estava disposto a abrir mão do seu lugar. No que concerne à sede de poder que apontaram a Costa estamos conversados. No que se refere, enfim, à concepção limitativa de democracia, não resta muito a dizer. Vícios de forma de outros tempos. 

Ora, depois de anos a fazerem do governo de José Sócrates bode expiatório e almofada para a necessidade de austeridade -- a qual sempre disseram, assim de fugida, que era parte do seu programa ideológico --, e de meses de campanha a anunciar o sucesso do programa troikista, eis que as notícias nos revelam que não há dinheiro para cumprir os compromissos com os credores. O golpe de teatro final surgiu em dois atos: proposta de restituição de 4 feriados e a nomeação à última da hora de 100 postos nos gabinetes do governo cessante. A 2 de junho de 2011, Passos Coelho escrevia no Twitter que não queria ser eleito para dar empregos a amigos. Entende-se, portanto, que os 100 funcionários metidos à pressão são meros conhecidos. As consequências herdam-nas o atual governo. 

Cólofon

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