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Como sempre gosto do que escreve e como escreve Rui Bebiano. Num texto recente no seu blog, o historiador levanta um aspeto que não tem importância menor quando analisamos os percursos político-ideológicos do BE. Como sugere, o BE pretende falar em nome das "massas" e dos "trabalhadores" sem ser capaz de os atrair como eleitores. Em primeiro lugar, porque mesmo que se veja como radical, no sentido das lutas fundacionais do socialismo, o BE terá, sempre, de lidar com o espetro da máquina comunista, oleada durante décadas no operariado português, nos sindicatos com base de representação do partido, e na força simbólica de partido de luta de classes. Enquanto houverem sindicatos o PCP passará bem, e o BE jamais será capaz de capturar eleitorado naquelas franjas sociais. Em segundo lugar, a capacidade do BE de se posicionar no campo de ação do PCP é de fraca expressão porque é um partido fundacionalmente urbano, de questões urbanas e de atores urbanos. Trata-se de um partido lisboeta, e só posteriormente portuense, coimbrão, e pouco mais. A sua força na vila de Salvaterra de Magos é um caso excecional de ressimbolização ideológica ad hoc e ligada à capacidade de mobilização da sua líder local. 

Retomando. O Bloco de Esquerda é um partido de causas e caraterísticas urbanas cosmopolitas. Trata-se, pois, de um partido que tem, muito claramente, demarcados os seus lugares de fala, expressando-se nas causas feministas, da igualdade e da multiplicidade do género, no aborto, no casamento e na adoção LGBTI, na batalha das minorias. Não é por acaso que possui um eleitorado jovem e "alternativo", ainda em busca de abandonar as margens do Bairro Alto e do Largo Camões. São, pois, causas que não possuem uma amplitude nacional, difíceis, ainda, de aceitar por largas franjas sociais portuguesas, umas muito arreigadas às lutas operárias, outras profundamente conservadoras nos seus valores morais, outras demasiado burguesas, para quem votar no BE não fica bem no seu núcleo social, mesmo que se revejam no campo da ação bloquista. 

Por fim, há um problema de legitimidade da fala do partido. Uma vez que o BE é, por natureza da ação política, um partido de causas fortes, previamente enunciadas, ele debate-se com a tipologia da sua estrutura partidária. Não é por acaso que ficou conhecido como "esquerda caviar", resultante de uma composição burguesa esquerdista, onde a clivagem entre o campo da teoria e da perceção da realidade se fazem sentir. É um partido que quer falar de minorias mas que não as possui na sua estrutura, antes assimilando um conjunto de intelectuais que se consideram a si mesmos representantes daquelas, mas que vivem fechados num bolha. Se é verdade que do ponto de vista da representação feminina e LGBTI o BE conseguiu coincidir agenda com agentes políticos, o mesmo não se pode dizer das minorias étnicas. E porque motivo o BE não é um partido que se posicione na defesa das minorias religiosas?

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Soares é fixe

16.12.16

 Em fase de transição começam a aparecer os mais variados postais sobre Mário Soares. A caminho do único mal irremediável, fica a eternidade de uma figura essencial na história da Democracia portuguesa. Com todos os erros e virtudes, afinal, como diz o povo, só erra quem faz. Merece lamento as vozes extremadas à Direita, que se agitam perante a eminência da morte do homem e do político. Vícios de forma, sem remédio.

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Estava sentado numa das mesas corridas na petisqueira Matateu, no Restelo, quando um dos meus convivas menciona o facto de eu ser de 'esquerda', adiantando que ele próprio, não sendo de 'direita', também se declarava de 'esquerda'. Esta é uma alegação recorrente, que evidencia um problema de fundo ligado às conceções sociais sobre o que configura ser de 'esquerda'. Ao que parece, o soft power do macartismo (1950-1957), marcado pela "caça às bruxas", i.e., de perseguição comunista, a divisão de Berlim e o Estado Novo Português, conjugaram-se para confundir 'esquerda' com comunismo e este com 'perigo vermelho'. Parece difícil, para muito boa gente, pensar a 'esquerda' fora dos quadrantes reivindicativos, proletários e de luta de classes. A formatação da 'esquerda' num só modelo político-ideológico não só é infundada como injusta e perigosa, porque permite uma margem de manobra maior a diferentes tessituras de 'direita'. Em rigor, em quase nada me encontro no PCP ou BE (partidos, ainda assim, bastante diferentes). Ser de 'esquerda' para mim não é tanto uma forma de posicionamento partidário como um modo de ver a vida e o mundo, com um olhar pluralista que a Antropologia oferece e que aí contrasta com os horizontes herméticos de direita - o mundo é muito mais colorido e complexo do que o configurado por certas ideias de 'direita' e de 'esquerda'. 

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Não se pode negar que José Sócrates contribuiu para o desgaste do PS e, com isso, para a consolidação de um "benefício da dúvida" perante a coligação PSD-CDS. A mnemónica da herança socialista, da herança dos tempos do despesismo, para o qual as orientações europeias muito contribuíram, num período em que se acreditou que contrair mais despesa seria o ideal para ultrapassar a crise, serviu durante quatro anos como narrativa de legitimação governativa. Durante uma legislatura inteira a coligação encabeçada por Passos Coelho e Paulo Portas, jamais foi responsável pelas suas decisões. A mentira compulsiva surtiu os seus efeitos. 

Tudo isso é quase de somenos importância se levarmos em conta os efeitos sociológicos da coligação de esquerda liderada por António Costa. "Coligação negativa", "bota-abaixismo", "ilegítima", são inúmeros os adjetivos. Por todo o lado, da imprensa às ruas, se sentem as críticas a uma coligação em que o rosa se mistura aos vermelhos numa espécie de magenta. As pessoas habituaram-se a uma rotatividade entre PS, PSD e CDS, num eterno bailado dos mesmos, a qual passaram a ver como porto seguro. O "todos iguais" figurou como uma espécie de lamento costumeiro, algo que é mau mas que é bom porque que sempre tem sido assim. Quer isto dizer que os cravos empunhados, as "abriladas", foram gestos espontâneos de saudosismo, um reviver do espírito de Abril mas cujo horizonte de solução não era objetivado. Era desejar algo novo, uma solução mais social, mais humana, mais "de esquerda" mas sem a esquerda existente. É a sociedade dos mitos sebastianistas.

Todo este momento tem posto a nu a realidade ideológica nacional: um país de Direita marinada pela religião, pelas heranças dos brandos costumes, pelos medos dos "vermelhos" que trarão o comunismo. Nessa lógica, os velhos que vêm a política nacional como uma eterna luta de classes estão perdidos no tempo. Acima de tudo porque a "classe" tornou-se numa categoria sem operatividade. A noção de operariado foi dissolvida pela mobilidade social, mesmo que aparente, colocada em jogo pela sociedade de consumo. Entre o ter e o haver, ainda bem. Mas isto traduz-se numa sociedade em que cada qual se considera parte de um cluster economicamente distinto. A classe média vive o mito de classe alta. Ninguém lê o "Avante!" em público, ninguém votou no BE ou no PCP. É um eleitorado mais do que volátil - é temeroso. Usa o cravo como imagem, vota à esquerda para reforçar a oposição, mas quando tal produz um governo retrai-se e teme, como se dos pesadelos da infância voltasse o "papão". 

Esse mito de não-pertencimento a uma determinada "classe" está patente no estereótipo do eleitor de esquerda como pobre. Ninguém que vá de férias, trabalhe em serviços, vista fato e tenha um bom telemóvel pode ser de esquerda. O problema é que entre as camadas mais baixas da sociedade a esquerda foi desaparecendo, dando lutar a uma direita difusa. É a direita paternalista e referencial que Passos Coelho soube encerrar sobre si no tom calmo, humildade e paternal. Calhou bem em contraste com o anterior primeiro-ministro seguro de si, com roupas caras e um ar de "bon vivant". E a esquerda foi ficando nos velhos comunistas anti-PS e nos jovens abaixo dos 40 anos, numa lógica americana de que quem é republicano antes dos 30 anos não tem coração, acima dos 30 não tem cérebro. 

O PS passou a figurar, então, na cosmovisão portuguesa, como uma versão mais suave do PSD, mas jamais com tendências esquerdistas que o aproximem do BE e, "graças a deus!" longe do PCP. E isto faz-me regressar aos reflexos sociais. Não há dúvida de que o conservadorismo provinciano ainda produz os seus efeitos, particularmente quando mesclado ao capitalismo e à sociedade de consumo. Almejar ter a vida do patrão, fazer as suas férias, ter o que este tem, passa pela socialização terciária, pela modelagem comportamental em que os sujeitos copiam os gostos e tendências daqueles. Querer "ser como" é "agir como", e isso produz efeitos na intenção de voto, no voto real e na disposição ideológica. 

Portugal é, sim, uma sociedade de direita, moderada, marinada, e que teme a esquerda como a antítese da sociedade atual, jamais concebendo que a esquerda também se transforma. Felizmente na soma dos que acreditam na esquerda foi possível construir um amanhã novo, porque António Costa soube ousar. Mesmo que falhe ao menos tentou. Seja como for, os últimos quatro anos foram um mar de fingidos sucessos. 

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Os ataques em política, como de resto noutros lugares comunitários, servem muitas vezes para camuflar realidades próprias. O ataque cerrado à coligação de esquerda, encabeçada pelo PS, levado a cabo pelos partidos então no governo, partia de dois pressupostos erróneos: 1. que uma coligação a posteriori não era legal, 2. que não há Democracia se esta não contiver pelo menos um dos partidos de direita no poder. Quanto ao primeiro pressuposto basta dizer que a coligação PSD-CDS foi, na primeira legislatura, firmada após os resultados eleitorais. Quanto à segunda basta dizer que se António Costa tivesse aceite coligar-se à direita era hoje Vice-Primeiro-Ministro porque Paulo Portas estava disposto a abrir mão do seu lugar. No que concerne à sede de poder que apontaram a Costa estamos conversados. No que se refere, enfim, à concepção limitativa de democracia, não resta muito a dizer. Vícios de forma de outros tempos. 

Ora, depois de anos a fazerem do governo de José Sócrates bode expiatório e almofada para a necessidade de austeridade -- a qual sempre disseram, assim de fugida, que era parte do seu programa ideológico --, e de meses de campanha a anunciar o sucesso do programa troikista, eis que as notícias nos revelam que não há dinheiro para cumprir os compromissos com os credores. O golpe de teatro final surgiu em dois atos: proposta de restituição de 4 feriados e a nomeação à última da hora de 100 postos nos gabinetes do governo cessante. A 2 de junho de 2011, Passos Coelho escrevia no Twitter que não queria ser eleito para dar empregos a amigos. Entende-se, portanto, que os 100 funcionários metidos à pressão são meros conhecidos. As consequências herdam-nas o atual governo. 

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Por estes dias percebeu-se o lugar que os partidos de esquerda tinham na concepção popular: existiam como contrapeso ideológico. Eram, basicamente, o miúdo negro numa escola privada, admitido para demonstrar que não há segregação. De um momento para o outro passam a existir dois miúdos negros e a coisa assume proporções de "arrastão". Não há direito, a Esquerda estava tão bem no seu papel de lunáticos inofensivos. Assim não dá. Cada um no seu lugar - à direita a legitimidade de governar, à esquerda a de protestar.

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 Faço da parte da mailing list da Coligação Novo Rumo para Vila Franca de Xira. Não sei exatamente porque motivo, nem tal importa particularmente ao caso, mas faço. Esta nova coligação, formada pelo PSD, MPT e PPM,  é um excelente exemplo da capacidade de negociar, estabelecer pontes e produzir efeitos práticos ao nível inter-partidário da Direita portuguesa. Os partidos que ocupam a dita margem direita do espaço político-ideológico português aprenderam a mais válida lição da democracia: para se ter voz é preciso ter presença. A ação política que visa a melhoria da sociedade em que se insere - independentemente do recorte ideológico que comporta - implica fazer parte do eixo decisório. Não podemos esperar implementar ideias sem estarmos dispostos a aceitar que as mesmas façam parte de um pacote mais amplo de medidas com as quais podemos não ter de total acordo. Ao contrário do que acreditam os partidos de esquerda PCP e BE, a mudança faz-se pela participação. Messiânicos e ideologicamente formatados, tais partidos são sobrevivências de um espírito de oposição de regime. São esperanças religiosas mais do que projetos político-sociais. A Esquerda portuguesa não entende, nem pretende entender, que os partidos de Direita irão sobreviver no poder precisamente porque estão dispostos a aceitar uma regra social básica - de que a convivência é um processo de alteridade negocial. Enquanto viverem na utopia da Primavera vermelha não terão nada a crescer ou oferecer à sociedade. Igrejas carismáticas e salvacionistas há muitas, não é preciso partidos que agem sob a mesma lógica. Do Juntos Podemos, ao Agir, passando pelo Livre e pelo Manifesto 3D, o que temos é um sem fim de igrejas políticas que pregando a mesma palavra o fazem em diferentes tons e de modo independente. A lógica "eu é que sou a Esquerda" é uma erva daninha que teimam em fazer florescer.

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Muitos dos pensadores da nossa Esquerda, e cito para linkar, Daniel Oliveira e Tomás Vasques, nas suas mais recentes crónicas, trazem a crítica e a consciência de que a Esquerda vive habitada de partidos e movimentos que se debatem entre si mais do que pelejam por uma sociedade mais justa, igualitária, pela defesa do Estado Social e contra o capitalismo que salva os bancos nem que para isso mate as pessoas. Isto é tudo bonito de ser dito, é um facto, mas é preciso que as palavras se tornem motores de ação. Quando Daniel Oliveira relembra, e bem, "A Vida de Brian" dos Monty Python, esquece-se que ele mesmo está empenhado numa alegoria à alegoria. Para o mesmo espaço político temos o decadente Bloco de Esquerda, o Movimento 3D, o LIVRE e um orgulhosamente só e mais radical Partido Comunista Português. 

Ora, este sentimento messiânico que habita a esquerda é problemático, porque ao mesmo tempo junta a escatologia ao messianismo e faz do espaço político à Esquerda um lugar de religiosidade tremenda. O "eu é que sou a Esquerda" que faz do PS o arqui-inimigo, é uma vitória premanente para uma Direita muito mais bem empossada de realpolitik, que joga os jogos das alianças e que tem com isso margem para aplicar o seu modelo de sociedade, lesando severamente a classe média que deveria ser o sustentáculo do país. A Esquerda continua a ser inimiga de si mesma. 

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Gosto de ouvir o "Bloco Central" com Pedro Adão e Silva e Pedro Marques Lopes. Quer concorde em parte, no todo, ou nada, é essencial auscultar outras opiniões, sob pena de nos sentirmos orgulhosamente sós na nossa ilusão. Entre os temas de domingo eis a inevitabilidade da reflexão em torno do partido LIVRE, fundado por Rui Tavares. Entre as críticas destaca-se a unipessoalidade do projeto. Entendo as críticas, uma vez que o partido não parece nascer de uma concertação de vontades, mas há muito de ilusório nessa ideia. Primeiro porque há nomes com algum significado no espaço político português que acompanham e acompanharão Rui Tavares, segundo porque convém lembrar que nos últimos anos o BE e o CDS foram e são partidos unipessoais, os "bloquistas" em torno de Francisco Louçã e os conversadores-católicos em torno de Paulo Portas. Ademais, a menor dimensão de Rui Tavares na cena política portuguesa é um fator positivo, não negativo. Em última análise significa que o LIVRE nasce livre de muitos vícios de substância. 

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Ainda o Livre.

22.11.13

O ruído de fundo gerado em torno do partido criado por Rui Tavares, é incompreensível. Essencialmente da margem «direita», com elevado teor de hipocrisia, vieram a terreiro os rumores de que Rui Tavares fazia do LIVRE um golpe para se perpetuar por Bruxelas. A falta de ponderação à «direita» e o elevado silêncio da «esquerda» revelam também o incómodo que começa logo por ser a iniciativa de Rui Tavares. Não se compreende, desde logo, tamanha aflição. Há sempre espaço para mais um partido no espetro político português. Não me recordo, na verdade, de ter havido tanta barulho pelo Partido Humanista, pelo Partido pelos Animais e pela Natureza, e outros que tais, tão legítimos quanto o LIVRE. Há, claro, uma razão em todo este barulho que revela algum medo. Rui Tavares não fará caminho sozinho, com ele estão e estarão nomes fortes da «esquerda» lusófona, dissidentes do Bloco de Esquerda, na sua maioria, pessoas que se vêem melhor no rio que corre entre o Bloco e o PS. O que assustará, creio, em particular os "bloquistas", é a franja social que o LIVRE representa(rá): o eleitorado urbano de «esquerda» que considera o BE demasiado radical. Aquela massa de cidadãos que é contra a troika mas que gosta e quer fazer parte da Europa, que não se vê longe dessa geografia das emoções que é a União Europeia. E a julgar pela carreira política e pelas iniciativas tomadas por Rui Tavares, há que lhe dar o benefício da dúvida, pois que à esquerda há sempre ideias, e na política há sempre espaço para mais um. 

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