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A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

O Cheiro do VOX

Novembro 27, 2019

Em Espanha era consensual, da esquerda à direita, a necessidade de combate à violência sobre as mulheres. Era matéria sobre a qual todos os partidos estavam de acordo, havendo uma expressão de unanimidade. Havia. Porque este ano o VOX colocou-se à margem do tema. Quem simpatiza com o VOX -- como Nuno Melo, e de onde o Chega retira inspiração -- deve ter isto em conta e fazer a devida reflexão se o medo do multiculturalismo é mais forte do que os valores da democracia. Desengane-se quem acredita que o VOX, tal como o Chega, veio para acrescentar valor à democracia. O ar que traz é bafiento. Cheira a ditadura, cheira a patriarcado e machismo, cheira a homofobia, cheira a racismo, cheira a antiparlamentarismo, cheira a antipluralismo.

É preciso salvar o PSD!

Janeiro 20, 2019

Enquanto eleitor de esquerda, do centro-esquerda mais canhoto, digamos assim, não me vanglorio, em tempos que correm, com a situação decrépita que parece devotado o maior partido do centro-direita/direita português. A história da democracia portuguesa é feita também e muito, graças ao PSD. Nenhuma democracia sobrevive quando centro se esvazia. Ora, em tempos de crise ideológica e social, em que discursos sedutores de demonização de um «outro» com o qual não se consegue articular uma alteridade positiva, e de hipermoralidade religiosa que se julgava perdida com o avanço das sociedades, é fundamental que os partidos ditos «moderados» sejam capazes de se manter fiéis aos seus edifícios ideológicos, agarrados à democracia e livres de suspeição e da mácula da corrupção. Quando isso não acontece crescem coisas como o Vox, a Frente Nacional, atual Reunião Nacional, elegem-se pessoas como Órban e Bolsonaro. Com o perigo do fascismo ali ao lado, cada vez mais normalizado, Portugal não está assim tão imune a adesões populistas, faltando, apenas, o líder certo, num país que sabemos ser profundamente racista e de forte pendor messiânico. Será o espaço deixado em vazio por um PSD enfraquecido que esse movimento ocupará. Por isso sim, precisamos salvar o PSD. A bem de todos. 

Orban, Coletes Amarelos ou de como se tanto fez que agora tanto faz

Dezembro 18, 2018

O fluxo trazido pela globalização e pelo capitalismo glorificou as conquistas sociais económicas dos finais do séc. XX, em particular com a consolidação de uma classe média robusta, cada vez mais empoderada em resultado de uma estabilidade e crescimento económico que permitiu a elevação profissional através do boom educacional universitário. O número de licenciados disparou em flecha, e os primeiros dessa vaga conquistaram o mercado laboral de forma decisiva. Os empréstimos bancários à rédea solta, os cartões de crédito, a americanização do mundo através do modelo social baseado no consumo, glorificou um tempo que fez crer que viveríamos modernidades absolutas, nas quais as sucessivas gerações viveriam melhor do que as anteriores, e o espetro dos fascismos estaria, decisivamente, acometido a um canto da História. 

O problema é que como todas as glórias, também esta se baseou em saltos de fé, incapaz de prever efeitos micro que afetariam o macrossistema. Os chamados «descamisados» da globalização foram aumentando à medida em que o modelo capitalista perdeu a regulação e o mercado passou a ditar as regras, regras essas que foram teceladas sem fios de ética. Por baixo do aparente apogeu da sociedade de consumo como supressão de assimetrias, foi sendo escavado um fosso social em silêncio. Os efeitos europeus da moeda única rapidamente se fizeram sentir, num continente que só na cabeça dos economistas sem um olhar sociológico poderia parecer uniforme. O monstro capitalista, alimentado pela especulação e pelo crédito, não ficou saciado, e mesmo com o estourar da crise de 2008 jamais perdeu o seu apetite. A austeridade como caminho gerou uma profunda tensão social, porque aos descamisados da globalização, franjas sociais historicamente silenciosas, se juntou a classe média violentada pelos efeitos colaterais dos paradigmas político-financeiros. O "aguenta, aguenta" como modelo de governação, baseado no saque à classe média para financiar diretamente os bancos, num processo evidente de transferência de ativos, foi a gota de água para o ressurgimento dos populismos de extrema-direta. Ao mesmo tempo, o fluxo migratório contínuo, com populações dispostas a receber salários bem mais baixos, e a crise civilizacional gerada pelo avanço do sharia nas sociedades ocidentais, contribuíram, determinantemente, para um caldo sociológico perigoso, o qual permanece ignorado pela oligarquia política sediada em Bruxelas, que continua a olhar para a Europa pela lente da dívida pública e muito pouco pela lente da saúde da Democracia. Neste caldo a vapor, os discursos populistas anti-europeístas, protecionistas e nacionalistas, ganharam e ganham margem de manobra brutal, sem que Bruxelas se disponha a intervir. A receita da troika permanece prescrita, e assim irá ficar no obituário do projeto Europeu. 

Em segundo lugar, contribuindo para o agudizar do problema, está a descrença generalizada face à classe política. O distanciamento entre eleitorado e partidos clássicos é gritante, gerando um esvaziamento do centro moderado e comprometido com o projeto comum e com um modelo de sociedade liberal e progressista. A perceção de que os partidos estão comprometidos com interesses económicos, os escândalos de corrupção, e a própria perceção de que os políticos não representam os vários setores e clusters das sociedades, mas antes são selecionados por favorecimento, compadrio e corrupção interna, gera um clima de descrença e suspeição que ajuda a eleger políticos populistas. Com efeito, discursos inflamados, capazes de pegar nos mais banais silogismos para compor uma narrativa aparente, são sonantes aos ouvidos de um eleitorado descrente. 

Chegámos a um ponto em que as pessoas sacrificam a Democracia em nome de uma coisa nova, que na verdade nada mais é que uma ideia velha ressignificada. A classe política precisa compreender que tanto fez que para a população agora tanto faz. E tanto faz que arrisca eleger fascistas de forma triunfante. E o futuro não é nada risonho. 

Porque elegerá a França Le Pen?

Fevereiro 10, 2017

Aproximam-se, vertiginosamente, as eleições francesas, com escândalos em torno dos principais candidatos, com exceção para Marine Le Pen. Não é por acaso. Marine Le Pen não tem esqueletos no armário, porque tudo o que é mau ela está evidente, é parte da sua ação pública como política, verdadeira continuação da estratégia do seu pai, Jean-Marie Le Pen, antigo dirigente da Frente Nacional. Marine Le Pen é, portanto, produto de uma socialização em torno do fascismo, dos ideias da extrema-direita anti-semita, anti-imigração, e nacionalista. É o espólio ideológico dos derrotados da II Guerra Mundial, os que não se inconformaram com a queda do ideal nazi, aos quais se juntam os descamisados da globalização, os sem rosto e sem sorte das últimas décadas, os que viram passar o capitalismo sem o cavalgar. Sem referenciais, sem ingresso na ordem mundial globalizada, de classes sociais desfavorecidas e altamente instáveis, são os adeptos fáceis das teorias do medo que elegeram Donald Trump, da culpabilização do «outro», da rejeição do multiculturalismo. 

A estes redneck franceses vão-se juntando os que abdicam da liberdade em troca de segurança, diante do medo contínuo do terrorismo de feição islamista. O «outro» já não é apenas culturalmente diferente, é o que se apropria do fundo de maneio da segurança social francesa, registando mais de cinco filhos, para passar o dia no banco de jardim, é o que se guetiza -- narrativa que se esquiva de fazer a reflexão sobre os efeitos da guetização de imigrantes na construção de uma ideologia de exclusão e reforço de referenciais de contraste --, que se coloca à margem e se recusa a aderir aos padrões franceses. Numa França em ebulição, em debate interno sobre a imigração, o multiculturalismo e as fronteiras identitárias, receosa do terrorismo, conhecedora da narrativa do Daesh de exportação de terroristas a partir do fluxo migratório, a resposta democrática, a integração, as políticas de inclusão social, deixam de ser alternativa, em particular porque os seus efeitos são mais demorados, e a alternativa extremista de fechamento de fronteiras e reforço do nacionalismo francês, voltam à tona com nova energia. E a cada dia que passa a "paz kantiana" e os sonhos da União Europeia vão se desmanchando, dando lugar a um cenário em tudo idêntico aos pré-guerras mundiais.  

Le Pen, o perigo em 144 medidas

Fevereiro 05, 2017

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Olhei com alguma atenção para as 144 medidas propostas pela candidatura de Marine Le Pen e não tenho dúvidas que a coisa vai ter adesão popular em tempos de medo, insegurança e difícil alteridade. O multiculturalismo e a globalização produziram os seus descamisados, gente à deriva identitária que encontra nos movimentos nacionalistas radicais uma coerência e uma oferta de almofada simbólica e referenciais sedutores. Para tanto basta oferecer ao altar dos receios o bode expiatório: o "outro", com a sua entidade contrastante e as similitudes com o terrorismo. Os descamisados da globalização são herdeiros dos descamisados dos impérios europeus e da I Guerra Mundial, os tais que aderiram aos nacionalismos do século XX, cujo desfecho conhecemos. Não se tome de ânimo leve a crispação resultante das diversas vagas migratórias.

Extrema-Direira Europeia e a Importância da História.

Novembro 15, 2013

Quando se pergunta qual o interesse de estudar História este exemplo pode muito bem ser dado - as extremas-direita francesa e holandesa deram as mãos. Marine Le Pen, líder francesa, destaca que "O tempo para os movimentos patrióticos estarem divididos acabou", ao qual Geert Wilders, líder holandês, acresce: "Hoje é o início da libertação da Europa do monstro de Bruxelas". A repetição do pior da história europeia é aspeto mais do que suficiente para repensar a centralidade da disciplina na memória política e social. Nunca como agora os piores ventos do século passado estiveram tão fortes. Há uma poeira a pairar sobre a Europa e é escura. A noite dos cristais (9 de Novembro de 1938) está cada vez mais ao virar da esquina. Hitler não caminhou sozinho, e é examente isso que Le Pen e Wilders querem demonstrar para a nova-velha extrema-direita: you'll never walk alone.

O Fantasma Nazi Revisitado.

Agosto 08, 2013

"Se eles chegassem e respeitassem as nossas leis seriam bem-vindos (...) assustam os nossos filhos com as Burkhas", Tommy Robinson.

 

Hitler faz parte do passado? Como referi noutra sede, "o esqueleto de Hitler é já pó, mas não a sua fórmula". A poeira da história jamais se apaga, espelhando-se e acumulando-se em lugares novos ou já visitados. Hoje os tempos estão negros, mesmo que o sol em Portugal ainda brilhe e nos faça relativizar certos factos. À medida que crise vai grassando, afetando as economias e as estabilidades emocionais domésticas, certas tendências extremistas fazem-se notar e sentir. Os alvos são fáceis: os emigrantes. Sucessivos governos desorganizados possibilitaram que a situação se colocasse a jeito. A proliferação emigrante e a guetização cultural [agora também para refugiados] fazem de países como Inglaterra ou França verdadeiros campos de minas. 

 

Por enquanto, felizmente, os alvos são os incapazes governos que não só não souberam antever a crise como só a notaram já em suas casas. As populações estão nas ruas, descontentes, sem esperanças, revoltados e já com um sentido agressivo face aos governos. O tempo do "deixa andar" terminou. À medida que as soluções apresentam não solucionam coisa alguma, a espiral de descontentamento aumento. As manifestações sucedem-se.

 

Todo este caldo sociológico recorda os períodos que antecederam a emergências dos movimentos e partidos populistas de extrema-direita na Europa. O nacionalismo forte começa a suar (alarmantemente) nas cabeças das pessoas, depois do projeto da moeda ter-se revelado um falhanço total, procurando equilibrar economias díspares nem integrar e centralizar politicamente os Estados. Ou a federação ou os nacionalismos isolacionistas.

 

Na região nordestina da Alemanha, uma pequena aldeia chamada de Jamel, está nas mãos dos neo-nazis outrora liderados por Sven Krüger, hoje na prisão. A poeira não se dispersou e a situação económica serve de protesto. Em Inglaterra, a English Defense League, fundada por Tommy Robinson, procura reviver a nostalgia de uma Great Britain verdadeiramente britânica, apontado o dedo aos inúmeros emigrantes islâmicos. Os velhos problemas da burkha cultural e das falácias integracionistas mantêm-se vivos. Os extremismos de parte a parte, o racismo e a sharia, conjugados com a atual crise económica e financeira, poderão recuperar lugares que queríamos enterrados na memória histórica. É preciso estar-se atento.

 

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texto adaptado; originalmente publicado em Outubro de 2012. [link]

Onde está a França da Liberdade?

Abril 15, 2013

Um país que nos habitou a ser grande promotor das liberdades individuais e da laicidade causa surpresa perante a notícia do agudizar dos protestos e a promessa de violência por parte da direita-conservadora e da extrema-direita face ao casamento e adoção homossexual. Durante a madrugada 67 pessoas foram detidas no seguimento de conflitos com a polícia. É claro que vivemos tempos de maior preocupação como: terá o casal emprego? terá a criança leite?; mas sabemos bem que estas direitas não têm a mesma agenda que os movimentos democráticos. Tenho, pois, dificuldade em saber por que França anseiam estes movimentos? De que França são, afinal, herdeiros? Certamente não a França das liberdades...