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Dias Assim

O que custa a união

Dezembro 01, 2020

A Carta de Direitos Fundamentais da União Europeia veicula os direitos inderrogáveis desta organização internacional. Todos esses valores são colocados em causa, constantemente, pela Hungria e pela Polónia. Este último país agravou a possibilidade de interrupção voluntária da gravidez, ao ponto de pudermos questionar se efetivamente decorre a vigência do caráter voluntário. Ao mesmo tempo, nesse país, 100 municípios consideram-se libertos da influência LGBT, o que nos invoca o desaparecimento da autodeterminação, da liberdade e da diferença na igualdade. A UE mantém-se muda, depois de ter sido tão exigente em matérias económicas e fiscais em vários países. Imagino que seja isto a realpolitik.

Um Achega

Outubro 08, 2020

Em referência ao meu post sobre a expulsão do autor da moção de remoção de ovários, uma militante do Chega fez um post onde me tece algumas críticas. É uma das vantagens da Democracia, princípio pelo qual não temos a certeza de que o Chega tenha assim tanto afeto. A forma como André Ventura ataca os opositores políticos, a forma como as redes sociais do partido atuam distorcendo os factos e fazendo uso de chavões, estereótipos e ideias nacionalistas do começo do século XX, não deixam dúvidas sobre a forma como pretendem jogar o jogo político. É interessante ler no texto referido que o Chega é um partido "de cidadãos decentes, honestos, trabalhadores, pais de família, patriotas, cristãos e ateus, que não querem ver Portugal transformado numa Venezuela ainda mais pobre." Isto é ipsis verbis a narrativa dos apoiantes de Bolsonaro, quando na verdade por baixo desse belo véu está o racismo, a homofobia, o ódio de classe, o fanatismo evangélico e as saudades da ditadura militar. O que terá a dita senhora a dizer sobre os inúmeros militantes do Chega oriundos do PNR? E dos saudosistas do Salazarismo? Enfim, percebe-se que o combate cultural inventado por esta nova-velha-direita, reciclada dos anos de 1920 e 1930, espalhou-se pelo Ocidente. Por fim e já agora, quanto à castração química não há provas inquestionáveis de que seja uma solução segura, já que o estímulo sexual pedófilo é de natureza cerebral e pode ser satisfeito com objetos. 

AconChegados

Outubro 05, 2020

Já tive a oportunidade de ver alguns momentos do Congresso do Chega. O partido padece dos mesmos problemas dos grandes partidos, mas a triplicar. É um conjunto de fações radicalizadas, que se odeiam, com objetivos e ideias diferentes para o país, a que se junta um grupo de sujeitos mais articulados com rancor ao sistema porque não fazem parte dele, e por isso estão ansiosos porque lá chegar. São pessoas que vociferam contra os tachos, mas que desesperam por um. Quanto a Ventura, personifica o líder carismático weberiano, mas no Chega, tal como nas Igrejas evangélicas, o líder não é amado por todos, notando-se a presença de desejosos de tomar o poder. Para compor o espetáculo, lá estava o homem que odeia as mulheres e o excitado com o partido que desdiz o líder - enquanto Ventura tentou transformar o ataque ao Estado Social num mito urbano, o voluntarioso sujeito afirmava o modelo ultraliberal de 100% privatizações.

A ideologia da farda

Janeiro 23, 2020

André Ventura é um político arguto. A forma como tratou o caso Cláudia Simões é paradigmático da sua capacidade de recompor os factos em favor do argumento que lhe é eleitoralmente favorável e concordante com a sua ideologia securitária. Há muito que percebemos que ele confia nas forças policiais para fazer-se eleger e, eventualmente, fazer crescer o partido. É um eleitorado que conquistado, sentido que tem voz política, se manterá fiel. Por isso, mais do que se colocar ao lado do agente da PSP, arrolou um argumentário de natureza negacionista e conspiratório. Fazer crer que tudo foi uma encenação é um desrespeito pelas partes e um convite à criação de fábulas sociais perigosas. Dúvidas houvessem é seguir as caixas de comentários das notícias e o chorrilho de ataques raciais que são proferidos. Reconhecer que as forças de autoridade pública atravessam uma circunstância profissional deficitária não impede que vejamos uma situação de abuso de autoridade e força desproporcional, nem tão pouco que se reconheça que há um problema nos testes psicológicos e seleção no acesso à carreira, motivados pela falta de candidatos.

O Cheiro do VOX

Novembro 27, 2019

Em Espanha era consensual, da esquerda à direita, a necessidade de combate à violência sobre as mulheres. Era matéria sobre a qual todos os partidos estavam de acordo, havendo uma expressão de unanimidade. Havia. Porque este ano o VOX colocou-se à margem do tema. Quem simpatiza com o VOX -- como Nuno Melo, e de onde o Chega retira inspiração -- deve ter isto em conta e fazer a devida reflexão se o medo do multiculturalismo é mais forte do que os valores da democracia. Desengane-se quem acredita que o VOX, tal como o Chega, veio para acrescentar valor à democracia. O ar que traz é bafiento. Cheira a ditadura, cheira a patriarcado e machismo, cheira a homofobia, cheira a racismo, cheira a antiparlamentarismo, cheira a antipluralismo.

É preciso salvar o PSD!

Janeiro 20, 2019

Enquanto eleitor de esquerda, do centro-esquerda mais canhoto, digamos assim, não me vanglorio, em tempos que correm, com a situação decrépita que parece devotado o maior partido do centro-direita/direita português. A história da democracia portuguesa é feita também e muito, graças ao PSD. Nenhuma democracia sobrevive quando centro se esvazia. Ora, em tempos de crise ideológica e social, em que discursos sedutores de demonização de um «outro» com o qual não se consegue articular uma alteridade positiva, e de hipermoralidade religiosa que se julgava perdida com o avanço das sociedades, é fundamental que os partidos ditos «moderados» sejam capazes de se manter fiéis aos seus edifícios ideológicos, agarrados à democracia e livres de suspeição e da mácula da corrupção. Quando isso não acontece crescem coisas como o Vox, a Frente Nacional, atual Reunião Nacional, elegem-se pessoas como Órban e Bolsonaro. Com o perigo do fascismo ali ao lado, cada vez mais normalizado, Portugal não está assim tão imune a adesões populistas, faltando, apenas, o líder certo, num país que sabemos ser profundamente racista e de forte pendor messiânico. Será o espaço deixado em vazio por um PSD enfraquecido que esse movimento ocupará. Por isso sim, precisamos salvar o PSD. A bem de todos. 

Orban, Coletes Amarelos ou de como se tanto fez que agora tanto faz

Dezembro 18, 2018

O fluxo trazido pela globalização e pelo capitalismo glorificou as conquistas sociais económicas dos finais do séc. XX, em particular com a consolidação de uma classe média robusta, cada vez mais empoderada em resultado de uma estabilidade e crescimento económico que permitiu a elevação profissional através do boom educacional universitário. O número de licenciados disparou em flecha, e os primeiros dessa vaga conquistaram o mercado laboral de forma decisiva. Os empréstimos bancários à rédea solta, os cartões de crédito, a americanização do mundo através do modelo social baseado no consumo, glorificou um tempo que fez crer que viveríamos modernidades absolutas, nas quais as sucessivas gerações viveriam melhor do que as anteriores, e o espetro dos fascismos estaria, decisivamente, acometido a um canto da História. 

O problema é que como todas as glórias, também esta se baseou em saltos de fé, incapaz de prever efeitos micro que afetariam o macrossistema. Os chamados «descamisados» da globalização foram aumentando à medida em que o modelo capitalista perdeu a regulação e o mercado passou a ditar as regras, regras essas que foram teceladas sem fios de ética. Por baixo do aparente apogeu da sociedade de consumo como supressão de assimetrias, foi sendo escavado um fosso social em silêncio. Os efeitos europeus da moeda única rapidamente se fizeram sentir, num continente que só na cabeça dos economistas sem um olhar sociológico poderia parecer uniforme. O monstro capitalista, alimentado pela especulação e pelo crédito, não ficou saciado, e mesmo com o estourar da crise de 2008 jamais perdeu o seu apetite. A austeridade como caminho gerou uma profunda tensão social, porque aos descamisados da globalização, franjas sociais historicamente silenciosas, se juntou a classe média violentada pelos efeitos colaterais dos paradigmas político-financeiros. O "aguenta, aguenta" como modelo de governação, baseado no saque à classe média para financiar diretamente os bancos, num processo evidente de transferência de ativos, foi a gota de água para o ressurgimento dos populismos de extrema-direta. Ao mesmo tempo, o fluxo migratório contínuo, com populações dispostas a receber salários bem mais baixos, e a crise civilizacional gerada pelo avanço do sharia nas sociedades ocidentais, contribuíram, determinantemente, para um caldo sociológico perigoso, o qual permanece ignorado pela oligarquia política sediada em Bruxelas, que continua a olhar para a Europa pela lente da dívida pública e muito pouco pela lente da saúde da Democracia. Neste caldo a vapor, os discursos populistas anti-europeístas, protecionistas e nacionalistas, ganharam e ganham margem de manobra brutal, sem que Bruxelas se disponha a intervir. A receita da troika permanece prescrita, e assim irá ficar no obituário do projeto Europeu. 

Em segundo lugar, contribuindo para o agudizar do problema, está a descrença generalizada face à classe política. O distanciamento entre eleitorado e partidos clássicos é gritante, gerando um esvaziamento do centro moderado e comprometido com o projeto comum e com um modelo de sociedade liberal e progressista. A perceção de que os partidos estão comprometidos com interesses económicos, os escândalos de corrupção, e a própria perceção de que os políticos não representam os vários setores e clusters das sociedades, mas antes são selecionados por favorecimento, compadrio e corrupção interna, gera um clima de descrença e suspeição que ajuda a eleger políticos populistas. Com efeito, discursos inflamados, capazes de pegar nos mais banais silogismos para compor uma narrativa aparente, são sonantes aos ouvidos de um eleitorado descrente. 

Chegámos a um ponto em que as pessoas sacrificam a Democracia em nome de uma coisa nova, que na verdade nada mais é que uma ideia velha ressignificada. A classe política precisa compreender que tanto fez que para a população agora tanto faz. E tanto faz que arrisca eleger fascistas de forma triunfante. E o futuro não é nada risonho. 

Porque elegerá a França Le Pen?

Fevereiro 10, 2017

Aproximam-se, vertiginosamente, as eleições francesas, com escândalos em torno dos principais candidatos, com exceção para Marine Le Pen. Não é por acaso. Marine Le Pen não tem esqueletos no armário, porque tudo o que é mau ela está evidente, é parte da sua ação pública como política, verdadeira continuação da estratégia do seu pai, Jean-Marie Le Pen, antigo dirigente da Frente Nacional. Marine Le Pen é, portanto, produto de uma socialização em torno do fascismo, dos ideias da extrema-direita anti-semita, anti-imigração, e nacionalista. É o espólio ideológico dos derrotados da II Guerra Mundial, os que não se inconformaram com a queda do ideal nazi, aos quais se juntam os descamisados da globalização, os sem rosto e sem sorte das últimas décadas, os que viram passar o capitalismo sem o cavalgar. Sem referenciais, sem ingresso na ordem mundial globalizada, de classes sociais desfavorecidas e altamente instáveis, são os adeptos fáceis das teorias do medo que elegeram Donald Trump, da culpabilização do «outro», da rejeição do multiculturalismo. 

A estes redneck franceses vão-se juntando os que abdicam da liberdade em troca de segurança, diante do medo contínuo do terrorismo de feição islamista. O «outro» já não é apenas culturalmente diferente, é o que se apropria do fundo de maneio da segurança social francesa, registando mais de cinco filhos, para passar o dia no banco de jardim, é o que se guetiza -- narrativa que se esquiva de fazer a reflexão sobre os efeitos da guetização de imigrantes na construção de uma ideologia de exclusão e reforço de referenciais de contraste --, que se coloca à margem e se recusa a aderir aos padrões franceses. Numa França em ebulição, em debate interno sobre a imigração, o multiculturalismo e as fronteiras identitárias, receosa do terrorismo, conhecedora da narrativa do Daesh de exportação de terroristas a partir do fluxo migratório, a resposta democrática, a integração, as políticas de inclusão social, deixam de ser alternativa, em particular porque os seus efeitos são mais demorados, e a alternativa extremista de fechamento de fronteiras e reforço do nacionalismo francês, voltam à tona com nova energia. E a cada dia que passa a "paz kantiana" e os sonhos da União Europeia vão se desmanchando, dando lugar a um cenário em tudo idêntico aos pré-guerras mundiais.  

Le Pen, o perigo em 144 medidas

Fevereiro 05, 2017

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Olhei com alguma atenção para as 144 medidas propostas pela candidatura de Marine Le Pen e não tenho dúvidas que a coisa vai ter adesão popular em tempos de medo, insegurança e difícil alteridade. O multiculturalismo e a globalização produziram os seus descamisados, gente à deriva identitária que encontra nos movimentos nacionalistas radicais uma coerência e uma oferta de almofada simbólica e referenciais sedutores. Para tanto basta oferecer ao altar dos receios o bode expiatório: o "outro", com a sua entidade contrastante e as similitudes com o terrorismo. Os descamisados da globalização são herdeiros dos descamisados dos impérios europeus e da I Guerra Mundial, os tais que aderiram aos nacionalismos do século XX, cujo desfecho conhecemos. Não se tome de ânimo leve a crispação resultante das diversas vagas migratórias.

Cólofon

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