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Dias Assim

A Extrema-Direita e a Polícia

Fevereiro 20, 2021

João Ferreira Dias

Segundo avança o Expresso, nasceu um grupo de extrema-direita, designado UNIR, com apoio de membros da PSP. Nas últimas eleições (presidenciais) um dos dados que me foi transmitido, de fonte segura, é que as forças de segurança pública em Portugal votaram expressivamente no Chega. Se esta notícia for verídica o Chega poderá ficar ameaçado. O que em rigor seria bom, pois a fragmentação da extrema-direita favorece o seu enfraquecimento. Por outro lado, alerta para a urgência da revisão da carreira profissional de força de segurança, a começar pelos salários. Sem uma política salarial adequada continuaremos a ter desajustados sociais nas forças de segurança pública, fragilizando uma das funções essenciais do Estado: a segurança.

Marcelino da Mata e o colonialismo

Fevereiro 18, 2021

João Ferreira Dias

Marcelino da Mata tem sido instrumentalizado pela nova direita portuguesa como exemplo ilustrativo do país sem racismo. Com efeito, como um país que se miscigenou pelo mundo poderia ter um problema de racismo? Sucede, todavia, que o mesmo tipo de reflexão teve e continua a ter lugar no Brasil, a partir do nacionalismo "moreno" e da "democracia racial". O lusotropicalismo, o eixo luso-brasileiro da pós-racialidade baseia-se, sobretudo, naquilo que se designa por "racismo cordial", uma tipologia de relações de reciprocidade assimétrica e integração subordinada. Ou seja, não há racismo se cada grupo "racial" conhecer os espaços que lhes são lícitos. 

No caso de Marcelino da Mata o não-racismo português é expresso numa linguagem não-dita de que "até tínhamos um preto a matar pretos". Este tipo de argumento além de elementar é desonesto, uma vez que desconsidera o alinhamento colonial como um elemento do racismo. Parés (2006) e Guridy e Hooker (2018) mostraram a existência de negros alinhados com a sociedade dominante, negros com agendas de inclusão assimilacionistas, os quais foram determinantes, por exemplo, no combate às agendas da "negritude" e das religiões de matrizes africanas. Essa situação de alinhamento é, forçosamente, produto do "racismo cordial". 

O que custa a união

Dezembro 01, 2020

João Ferreira Dias

A Carta de Direitos Fundamentais da União Europeia veicula os direitos inderrogáveis desta organização internacional. Todos esses valores são colocados em causa, constantemente, pela Hungria e pela Polónia. Este último país agravou a possibilidade de interrupção voluntária da gravidez, ao ponto de pudermos questionar se efetivamente decorre a vigência do caráter voluntário. Ao mesmo tempo, nesse país, 100 municípios consideram-se libertos da influência LGBT, o que nos invoca o desaparecimento da autodeterminação, da liberdade e da diferença na igualdade. A UE mantém-se muda, depois de ter sido tão exigente em matérias económicas e fiscais em vários países. Imagino que seja isto a realpolitik.

Um Achega

Outubro 08, 2020

João Ferreira Dias

Em referência ao meu post sobre a expulsão do autor da moção de remoção de ovários, uma militante do Chega fez um post onde me tece algumas críticas. É uma das vantagens da Democracia, princípio pelo qual não temos a certeza de que o Chega tenha assim tanto afeto. A forma como André Ventura ataca os opositores políticos, a forma como as redes sociais do partido atuam distorcendo os factos e fazendo uso de chavões, estereótipos e ideias nacionalistas do começo do século XX, não deixam dúvidas sobre a forma como pretendem jogar o jogo político. É interessante ler no texto referido que o Chega é um partido "de cidadãos decentes, honestos, trabalhadores, pais de família, patriotas, cristãos e ateus, que não querem ver Portugal transformado numa Venezuela ainda mais pobre." Isto é ipsis verbis a narrativa dos apoiantes de Bolsonaro, quando na verdade por baixo desse belo véu está o racismo, a homofobia, o ódio de classe, o fanatismo evangélico e as saudades da ditadura militar. O que terá a dita senhora a dizer sobre os inúmeros militantes do Chega oriundos do PNR? E dos saudosistas do Salazarismo? Enfim, percebe-se que o combate cultural inventado por esta nova-velha-direita, reciclada dos anos de 1920 e 1930, espalhou-se pelo Ocidente. Por fim e já agora, quanto à castração química não há provas inquestionáveis de que seja uma solução segura, já que o estímulo sexual pedófilo é de natureza cerebral e pode ser satisfeito com objetos. 

AconChegados

Outubro 05, 2020

João Ferreira Dias

Já tive a oportunidade de ver alguns momentos do Congresso do Chega. O partido padece dos mesmos problemas dos grandes partidos, mas a triplicar. É um conjunto de fações radicalizadas, que se odeiam, com objetivos e ideias diferentes para o país, a que se junta um grupo de sujeitos mais articulados com rancor ao sistema porque não fazem parte dele, e por isso estão ansiosos porque lá chegar. São pessoas que vociferam contra os tachos, mas que desesperam por um. Quanto a Ventura, personifica o líder carismático weberiano, mas no Chega, tal como nas Igrejas evangélicas, o líder não é amado por todos, notando-se a presença de desejosos de tomar o poder. Para compor o espetáculo, lá estava o homem que odeia as mulheres e o excitado com o partido que desdiz o líder - enquanto Ventura tentou transformar o ataque ao Estado Social num mito urbano, o voluntarioso sujeito afirmava o modelo ultraliberal de 100% privatizações.

A ideologia da farda

Janeiro 23, 2020

João Ferreira Dias

André Ventura é um político arguto. A forma como tratou o caso Cláudia Simões é paradigmático da sua capacidade de recompor os factos em favor do argumento que lhe é eleitoralmente favorável e concordante com a sua ideologia securitária. Há muito que percebemos que ele confia nas forças policiais para fazer-se eleger e, eventualmente, fazer crescer o partido. É um eleitorado que conquistado, sentido que tem voz política, se manterá fiel. Por isso, mais do que se colocar ao lado do agente da PSP, arrolou um argumentário de natureza negacionista e conspiratório. Fazer crer que tudo foi uma encenação é um desrespeito pelas partes e um convite à criação de fábulas sociais perigosas. Dúvidas houvessem é seguir as caixas de comentários das notícias e o chorrilho de ataques raciais que são proferidos. Reconhecer que as forças de autoridade pública atravessam uma circunstância profissional deficitária não impede que vejamos uma situação de abuso de autoridade e força desproporcional, nem tão pouco que se reconheça que há um problema nos testes psicológicos e seleção no acesso à carreira, motivados pela falta de candidatos.

O Cheiro do VOX

Novembro 27, 2019

João Ferreira Dias

Em Espanha era consensual, da esquerda à direita, a necessidade de combate à violência sobre as mulheres. Era matéria sobre a qual todos os partidos estavam de acordo, havendo uma expressão de unanimidade. Havia. Porque este ano o VOX colocou-se à margem do tema. Quem simpatiza com o VOX -- como Nuno Melo, e de onde o Chega retira inspiração -- deve ter isto em conta e fazer a devida reflexão se o medo do multiculturalismo é mais forte do que os valores da democracia. Desengane-se quem acredita que o VOX, tal como o Chega, veio para acrescentar valor à democracia. O ar que traz é bafiento. Cheira a ditadura, cheira a patriarcado e machismo, cheira a homofobia, cheira a racismo, cheira a antiparlamentarismo, cheira a antipluralismo.

É preciso salvar o PSD!

Janeiro 20, 2019

João Ferreira Dias

Enquanto eleitor de esquerda, do centro-esquerda mais canhoto, digamos assim, não me vanglorio, em tempos que correm, com a situação decrépita que parece devotado o maior partido do centro-direita/direita português. A história da democracia portuguesa é feita também e muito, graças ao PSD. Nenhuma democracia sobrevive quando centro se esvazia. Ora, em tempos de crise ideológica e social, em que discursos sedutores de demonização de um «outro» com o qual não se consegue articular uma alteridade positiva, e de hipermoralidade religiosa que se julgava perdida com o avanço das sociedades, é fundamental que os partidos ditos «moderados» sejam capazes de se manter fiéis aos seus edifícios ideológicos, agarrados à democracia e livres de suspeição e da mácula da corrupção. Quando isso não acontece crescem coisas como o Vox, a Frente Nacional, atual Reunião Nacional, elegem-se pessoas como Órban e Bolsonaro. Com o perigo do fascismo ali ao lado, cada vez mais normalizado, Portugal não está assim tão imune a adesões populistas, faltando, apenas, o líder certo, num país que sabemos ser profundamente racista e de forte pendor messiânico. Será o espaço deixado em vazio por um PSD enfraquecido que esse movimento ocupará. Por isso sim, precisamos salvar o PSD. A bem de todos. 

Orban, Coletes Amarelos ou de como se tanto fez que agora tanto faz

Dezembro 18, 2018

João Ferreira Dias

O fluxo trazido pela globalização e pelo capitalismo glorificou as conquistas sociais económicas dos finais do séc. XX, em particular com a consolidação de uma classe média robusta, cada vez mais empoderada em resultado de uma estabilidade e crescimento económico que permitiu a elevação profissional através do boom educacional universitário. O número de licenciados disparou em flecha, e os primeiros dessa vaga conquistaram o mercado laboral de forma decisiva. Os empréstimos bancários à rédea solta, os cartões de crédito, a americanização do mundo através do modelo social baseado no consumo, glorificou um tempo que fez crer que viveríamos modernidades absolutas, nas quais as sucessivas gerações viveriam melhor do que as anteriores, e o espetro dos fascismos estaria, decisivamente, acometido a um canto da História. 

O problema é que como todas as glórias, também esta se baseou em saltos de fé, incapaz de prever efeitos micro que afetariam o macrossistema. Os chamados «descamisados» da globalização foram aumentando à medida em que o modelo capitalista perdeu a regulação e o mercado passou a ditar as regras, regras essas que foram teceladas sem fios de ética. Por baixo do aparente apogeu da sociedade de consumo como supressão de assimetrias, foi sendo escavado um fosso social em silêncio. Os efeitos europeus da moeda única rapidamente se fizeram sentir, num continente que só na cabeça dos economistas sem um olhar sociológico poderia parecer uniforme. O monstro capitalista, alimentado pela especulação e pelo crédito, não ficou saciado, e mesmo com o estourar da crise de 2008 jamais perdeu o seu apetite. A austeridade como caminho gerou uma profunda tensão social, porque aos descamisados da globalização, franjas sociais historicamente silenciosas, se juntou a classe média violentada pelos efeitos colaterais dos paradigmas político-financeiros. O "aguenta, aguenta" como modelo de governação, baseado no saque à classe média para financiar diretamente os bancos, num processo evidente de transferência de ativos, foi a gota de água para o ressurgimento dos populismos de extrema-direta. Ao mesmo tempo, o fluxo migratório contínuo, com populações dispostas a receber salários bem mais baixos, e a crise civilizacional gerada pelo avanço do sharia nas sociedades ocidentais, contribuíram, determinantemente, para um caldo sociológico perigoso, o qual permanece ignorado pela oligarquia política sediada em Bruxelas, que continua a olhar para a Europa pela lente da dívida pública e muito pouco pela lente da saúde da Democracia. Neste caldo a vapor, os discursos populistas anti-europeístas, protecionistas e nacionalistas, ganharam e ganham margem de manobra brutal, sem que Bruxelas se disponha a intervir. A receita da troika permanece prescrita, e assim irá ficar no obituário do projeto Europeu. 

Em segundo lugar, contribuindo para o agudizar do problema, está a descrença generalizada face à classe política. O distanciamento entre eleitorado e partidos clássicos é gritante, gerando um esvaziamento do centro moderado e comprometido com o projeto comum e com um modelo de sociedade liberal e progressista. A perceção de que os partidos estão comprometidos com interesses económicos, os escândalos de corrupção, e a própria perceção de que os políticos não representam os vários setores e clusters das sociedades, mas antes são selecionados por favorecimento, compadrio e corrupção interna, gera um clima de descrença e suspeição que ajuda a eleger políticos populistas. Com efeito, discursos inflamados, capazes de pegar nos mais banais silogismos para compor uma narrativa aparente, são sonantes aos ouvidos de um eleitorado descrente. 

Chegámos a um ponto em que as pessoas sacrificam a Democracia em nome de uma coisa nova, que na verdade nada mais é que uma ideia velha ressignificada. A classe política precisa compreender que tanto fez que para a população agora tanto faz. E tanto faz que arrisca eleger fascistas de forma triunfante. E o futuro não é nada risonho. 

Cólofon

Dias Assim é um blogue de João Ferreira Dias, escrito segundo o Acordo Ortográfico, de publicação avulsa e temática livre. Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

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