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O Estado dos Dias

«O dia precedente é o mestre do dia seguinte.» - Píncaro

Ideologia ou Identidade de Género?

12
Out22

Por mero acaso acabo de esbarrar neste texto no Observador. Há que reconhecer, em primeiro lugar, a qualidade da argumentação, mesmo que se discorde da mesma. E em boa parte discordo, pelo facto de absolutizar a perspectiva ocidental judaico-cristã sobre biologia e género. Quando digo absolutizar refiro-me a um olhar etnocêntrico que pressupõe que os padrões civilizacionais ocidentais são a medida do humano, que são universais. Ora, não são. São válidos no nosso canto do mundo para um número alargado de pessoas, e foi sobre eles que se construiu a nossa identidade civilizacional a partir das ruínas do Império romano e do mundo cristão que se seguiu. Em segundo lugar, assume que o género se constrói em relação estreita com a biologia, com os órgãos genitais. Retomo, se isso é válido no Ocidente não é um dado universal, razão pela qual, ao contrário do pensado no texto, o género é uma construção social. Sobre a questão do ensino da identidade de género às crianças, há que referir que tal não acontece no I Ciclo, mas somente a partir do segundo. Pode-se argumentar que é demasiado cedo para debater tais questões. Aí estou de acordo. Mas não subscrevo a ideia de que é uma ideologia, aceitando antes como uma teoria científica que se baseia tanto na diversidade cultural humana quanto na experiência plural de ser.

Velma e a sexualidade na BD

10
Out22

Velma, personagem da icónica BD Scooby-Doo, apaixona-se pela vilã no novo filme Trick or Treat Scooby-Doo!Neste caso encontramos embrulhadas uma série de questões. Em primeiro lugar, a de saber se os desenhos animados devem ser sexualizados. A verdade é que a sexualização dos desenhos animados é um fenómeno antigo, desde a mulher do rato Mickey, passando pelas personagens da Disney, e chegando a desenhos animados como American Dad. O Scooby-Doo, com efeito, já tinha personagens sexualizados, basta ver o caso de Daphne Blake, personagem feminina que representa a colegial sensual ou Fred Jones, o galã louro. A questão é desconsiderada pela sua natureza heteronormativa. Segundo, se o problema, ao caso, passa, então, pela sexualidade Velma. E a resposta é "sim". Velma há muito que é imaginada como lésbica pelos autores da série. O que se passa é que agora se considerou que havia um ambiente favorável à afirmação como tal. Portanto, retomo que o problema não é a sexualização da personagem, porque elas já o eram, mas a orientação sexual de Velma que choca com o que um segmento alargado da sociedade considera como incorreto, imoral ou doença. Daqui emerge uma terceira questão: havia necessidade de tornar Velma homossexual? Trata-se de um detalhe que não acrescenta nada à história, portanto em termos concretos "não". Mas vivemos num período de batalha pela representatividade, pelo que cada vez mais teremos personagens não-binárias e de diferentes minorias. Tal facto cria uma desordem junto das pessoas mais conservadoras que não compreendem que desenhos animados, filmes e séries maioritariamente brancos e cisgénero é uma escolha ideológica em torno do imaginário do que é a «normalidade social».

Varzim sem Tauromaquia

28
Set22

Não obstante ter sido parte integrante da cultura portuguesa por um longo período, a verdade é que a tauromaquia vem perdendo adeptos, em razão de transformações tanto no plano da cultura (com a entrada de uma orientação cosmopolita globalista) quanto no plano da proteção animal. As sociedades não são estanques, e na mudança o património imaterial vai sendo perdido ou ressignificado. Tomada a decisão de demolir o espaço, a conversão em equipamento cultural parece acertada, uma vez que liga o terreno à fruição cultural. No entanto, é preciso ter presente que o desaparecimento da tauromaquia traz efeitos económicos concretos para aqueles cuja atividade, muitas vezes ao longo de gerações, tem sido ligada a tal prática, como a produção animal, o uso de terras para pasto, etc. É provável que vejamos esses terrenos convertidos em produção fotovoltaica. No mais, veremos esta questão cada vez mais integrada nas guerras culturais entre identidade cultural nativa e identidade cultural globalista.

sereias, apropriação cultural, racismo e simbologia inclusiva

15
Set22

A nova versão da Pequena Sereia trouxe mais lenha à fogueira das guerras culturais entre o antirracismo e o enraizamento identitário ocidental. Quem cresceu a ver os desenhos animados da Disney lembra-se de uma Arielle coincidente com os padrões de beleza inerentemente ocidentais. À primeira vista isto não seria um problema numa sociedade alemã, escandinava ou de leste europeu de 1990, mas para países como a Inglaterra, os Estados Unidos, Portugal ou França, com uma longa presença não-branca no interior das suas fronteiras, em resultado de um passado colonial, o tecido social há muito que era, foi cada vez mais sendo, multicultural e multirracial, situação que se estendeu a todo o Ocidente, com maior ou menor intensidade.
Convém ter presente que qualquer personagem de banda desenha ou de televisão e cinema, não se encontra independente de um conjunto de estereótipos. Evidentemente que não faz sentido Thor, enquanto divindade da mitologia nórdica (o seu uso como personagem Marvel é uma verdadeira apropriação cultural que não se pode desconsiderar) aparecer que não com características morfológicas nórdicas. Diferentemente é o caso, por exemplo, do Super-Homem, figura que ajudou a construir um ideal de masculinidade, ou um Capitão América, que veicula um ideal fenótipo norte-americano. Em ambos os casos, seria perfeitamente legítimo e inclusivo que pudessem surgir com etnicidade não-branca e até outras características, como acontece com o Homem-Aranha que não corresponde ao ideal do “capitão da equipa do liceu”.
Este facto abre, desde já, um debate para o que significa “inclusivo”. Numa visão mais radical woke, inclusivo seria substituir grande parte das personagens do universo televisivo, cinematográfico e de BD por figuras não-binárias e não-brancas com um uso de uma linguagem neutra em matéria de género, numa espécie de redefinição e reprogramação da cultura ao contrário. Numa visão mais moderada, visando uma abertura da sociedade à sua pluralidade, “inclusivo” significa dotar o universo das artes (e não só) de uma maior representatividade, espelhando a sociedade de forma mais sólida e atualizada. É aqui que entra uma Arielle negra e entra, também, em consequência, a defesa da identidade biocultural ocidental, que não tolera desvios da norma. É um imaginário que aceita sereias, anões, hobbits, duendes, anjos e santos, mas não aceita que não sejam brancos. E isto, ladies and gentlemen, é racismo.
Em segundo lugar, falemos da “apropriação cultural”. Uma vez mais, na esteira woke, o conceito tem sido empregue como referente a qualquer utilização vista como indevida de elementos culturais não-brancos por pessoas brancas, enquanto se exige uma aceitação do multiculturalismo. Nessa ótica, o multiculturalismo está para ser visto e respeitado, mas não para ser aderido. A lógica das interdições culturais, da edificação de espaços (“seguros”) livres da “branquitude” não deixa de ser purista. Além disso, é também essencialista, uma vez que desconsidera o mais elementar dos princípios das culturas: a sua natureza híbrida e inautêntica. No entanto, a “apropriação cultural” existe e é importante aqui no quadro das sereias. Quando os africanos yorùbá foram escravizados, levados ao Novo Mundo, levaram os seus cultos religiosos. Entre as várias divindades ia Yèmọjá, deusa da família, símbolo do matriarcado, das águas doces e salgadas. Na Bahia, devido às características da costa e ao facto do seu nome significar “Mãezinha cujos filhos são peixes”, o seu culto passou a estar associada ao mar de onde os pescadores tiram o seu sustento. Em virtude do crescimento e popularização do seu culto, Yèmọjá foi sendo transformada em Iemanjá, a santa branca dos mares do Brasil. O seu culto sofreu evidente “apropriação cultural”, e a deusa foi sendo ressignificada estética e cosmologicamente, perdendo a sua dimensão sexual e aproximando-se das santas do catolicismo popular. Esse fenómeno, que comporta, ainda, uma dimensão de racismo religioso, não parece preocupar tanto como uma Arielle negra, que é, no fundo, uma “vingança” poética por acaso.

Sic Transit Gloria Mundi

09
Set22

O desaparecimento das questões materiais como matéria essencial da política e da sociedade, resultante de sociedades que atingiram um certo bem-estar geral, foi compensado por questões pós-materiais ligadas ao progressismo moral, através de correções, compensações e valorizações de identidades minoritárias, segundo a lógica de que o princípio da igualdade pressupõe a garantia do direito à diferença e à compensação por via da discriminação positiva. Este ciclo acelerado de mudança para um pluralismo complexo, que desconstroi o primado de uma ideia de unidade moral e cultural, foi questionado, desde 2008, com crises económicas, e a emergência de um ressentimento de natureza material por parte de populações fragilizadas (facto que serve para questionar a teoria do privilégio branco) que aderem a uma agenda política nova e radical que afirma dar voz ao "povo" contra as "elites", que combina uma agenda económica na verdade neoliberal com um conservadorismo moral que oferece sentido de pertença e conforto (exatamente igual ao que o ativismo e o associativismo oferecem). Ora, através dessa nova agenda pós-material assistimos à adesão às guerras culturais, que tornam matéria de confronto questões que teriam vocação para o consenso se o progresso dos direitos fundamentais não tivesse sido interrompido por uma crise económica global que acordou a *ansiedade masculina* sobre o seu papel como provedor da família (e com isto o debate sobre o que é uma família), que agudizou uma sensação de abandono entre as populações rurais, e tornou alvo de ressentimento os ativismos que se focam na culpabilização de larga escala dos sujeitos vistos como da maioria dominante e que a direita radical acolhe como *maioria silenciosa*. Há, portanto, um confronto de sentimentos de vítima, ressentidos e arreigados à sua posição, com perdas claras no consenso social. Por isso, a presença de um casal homossexual em desenhos animados é percebido como um ataque à identidade da Nação e aos valores civilizacionais ocidentais. E isto é uma vitória da Nova Direita sobre uma esquerda que, como diz Fukuyama (e não só), deixou de se preocupar com valores universais. 

A Hungria e a Mulher do Lar

29
Ago22

A crise económica de 2008 foi amplamente responsável por uma forte virada populista-conservadora, baseada num ressentimento de uma classe operária (e não só) que sentiu abandonada, em razão da forte quebra de rendimentos. Essa virada populista de Direita aliada ao abandono da esquerda da versão económica para se centrar em causas identitárias (que são bolsas de ressentimentos e demandas por dignidade) deu origem ao regresso das guerras culturais, uma tensão social e política baseada em questões pós-materiais e identitárias. Desse modo, a Direita Radical Populista trouxe de volta os valores cristãos conservadores baseados numa moral social patriarcal, com um combate ao aborto, à liberdade sexual e ao feminismo. É o regresso da subalternidade feminina, da mulher recatada e do lar. É, também, uma resposta ao feminismo radical que ostracizou os homens através de uma grelha que classificou como "machismo tóxico" toda a manifestação de masculinidade. A consequência mais abrangente é a perda do consenso social em torno da democracia liberal e social. Tudo isto nos ajuda a compreender o quadro ideológico do estudo realizado pelo Instituto Nacional de Estatística da Hungria sobre os "riscos" económicos e demográficos que teria para o país um número elevado de mulheres com formação universitária.