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Dias Assim

A greve dos trabalhadores dos supermercados ou o regresso da doutrina social da Igreja como ato político

Maio 02, 2019

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O bispo do Porto, D. Manuel Linda, foi trazido ao centro do palco político com o combate ao horário laboral dos super e hipermercados ao domingo. Tendo caído bem e mobilizado os trabalhadores do setor, que convocaram uma greve para o primeiro de maio, as declarações do bispo da cidade Invicta não são inocentes, quer no timing quer como ato político. Em primeiro lugar porque resultam da perceção de que o sindicalismo clássico na CGTP tende a desmobilizar-se, assumindo novas formas independentes, como visto com o caso dos enfermeiros e dos camionistas de matérias perigosas. Ao fugirem ao controlo da CGTP, os novos movimentossindicais afastam-se da mão católica presente naquela confederação, herdeira do sindicalismo operário católico dos anos do Estado Novo.

 

Em segundo, nesses termos, o bispo do Porto reconhece a oportunidade de trazer ao seio da Igreja, novamente, a questão operária, recuperando a ação social e tentando convergir, politicamente, o sindicalismo. A escolha do setor não é, portanto, inocente, uma vez que o descanso ao domingo resultou, precisamente, da emergência da doutrina social da Igreja – nascida com a Encíclica Rerum Novarum de Leão XIII, em 1891, sobre a condição dos operários e a solução desta através de uma ação cristã – que defendia o descanso ao domingo como ato de dispensa do operariado para frequência à missa.

 

Ora, se como preocupação social daqui não vem mal ao mundo, como ato político, se inscrito num quadro global de tomada da «coisa pública» pela religião, revela uma intenção de ação política que não apenas visa capitalizar o movimento operário como pretende trazê-lo, novamente, aos cuidados da Santa Sé, polarizando, uma vez mais, o campo ideológico da ação social e do operariado, instrumentalizando-o no combate ao «socialismo».

O Paradoxo da Caridade

Dezembro 17, 2017

Desde a Encíclica Rerum Novarum de Leão XIII, de 1891, que a Igreja Católica se dedicou à solicitude social, tendo atingido o seu marco com a Encíclica Populorum Progressio, de Paulo VI, em 1967. Tratam-se de predisposições teológico-sociais em que se defende o dever moral da caritas, a caridade. Seria esta uma obrigação imposta aos detentores do capital pela ética católica do "amor ao próximo". Na constituição Gaudium et Spes, resultante do Concílio Vaticano II, afirma-se: «As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens do nosso tempo, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos do Cristo; e nada existe de verdadeiramente humano que não encontre eco em seu coração». Neste sentido, estamos diante de um quadro teológico de preocupação social que reconhece a máxima de «felizes vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus» (Lc 6, 20). Evidentemente que esta missão social se haveria de tornar numa obra missionária que a dois tempos procura suprimir os males do corpo oferecendo a redenção da alma. Uma mão sempre lava a outra. É o corpo de Cristo em todas as suas formas. 

 

No entanto, se esta missão social da Igreja se tornou numa ação de grande envergadura e importância, que não pode nem deve ser minorada, ela própria detém um paradoxo que não pode ser ignorado, e que esta muito evidente na Encíclica fundacional, e que se resume a uma simples mas ideologicamente poderosa assunção: para que a caridade opere é preciso que os ricos se mantenham ricos e os pobres se mantenham pobres. Ou seja, é necessário que as fronteiras sociais se mantenham estáveis, traçadas a linhas grossas, onde a mobilidade seja reduzida e o capital circule, mas se retenha nas mãos dos de sempre. Somente pela manutenção do status quo social é possível que a caridade se exerça. Para que os ricos encontrem a redenção no ato de dar, na dádiva da caridade, é preciso que o capital esteja na sua maioria nas suas mãos. E como o catolicismo mais fervoroso, o popular -- que paradoxalmente é o que mais foge da agência eclésica --, precisa de camadas populares, é naturalmente conservador e se apoia na ação do capital, pois também foi sempre, historicamente, o grande financiador da Igreja. Mais uma vez uma mão lava a outra. 

A Igreja de Francisco.

Dezembro 02, 2013

A Exortação Apostólica do Papa Francisco tornou-se num curioso campo de debate, colocando a «esquerda» e a «direita» a repensarem a sua leitura papal. A descoberta da Doutrina Social da Igreja por parte da Esquerda Europeia – bem a propósito do contexto político-económico-social vigente, numa época em que o desassossego é tão premente quanto real, e tão urgente quanto instrumentalizável – e o abanão dos alicerces ideológicos-cristãos edificados pela Direita Europeia são, na mesma medida, fatores risíveis, ou seriam, se na verdade não revelassem, per se, a longa cortina erigida entre a doutrina fundacional da Igreja e o seu longo discurso histórico a propósito da vida em sociedade.

 

A  Doutrina Social da Igreja nasce com a encíclica Rerum Novarum, do Papa Leão XIII, a 15 de maio de 1891. Embora se constitua como uma data de  viragem das preocupação vaticanas a propósito do capital, do trabalho e da pobreza – em rigor sob as flores do maio de Das Kapital de Karl Marx  e como contrarresposta da Igreja, numa verdadeira lógica de «via alternativa» - ela apenas retoma –retenha-se – os primórdios doutrinários da Fé de Cristo.

 

Quer isto dizer, ipsis verbis, que doutrinariamente a Igreja sempre foi – reconhecendo o «realinhamento retrospetivo», recorrendo aos termos de Arthur Danto, e o respetivo cuidado necessário – de «Esquerda». Pelo menos naquilo de que a «Esquerda» é mais fundacional: a pobreza, a solidariedade, a igualdade, a liberdade, e a justiça equitativa. Não obstante, ao sabor dos contextos, e na promiscuidade entre a Santa Sé e o poder político, foi-se construindo a ideologia da Igreja. Portanto, enquanto dogmaticamente a Igreja é por definição de «Esquerda», o seu substrato social foi e é de «Direita». Os meandros da realeza e do clero são bem prova disso. Ademais, as oposições da Igreja aos métodos contraceptivos, às relações homossexuais, ao aborto, etc., não têm necessariamente a ver com a Doctrina Christiana mas antes com modelos de sociedade construídos nas margens do Advento Messiânico. 

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A Morada dos Dias é um blogue de João Ferreira Dias, escrito segundo o Acordo Ortográfico, de publicação avulsa e temática livre. Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.