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O Estado dos Dias

«O dia precedente é o mestre do dia seguinte.» - Píncaro

A Igreja e os abusos sexuais

06
Out22

No entanto, uma Igreja que aposta na doutrina do sentimento de culpa face a uma natureza eminentemente pecadora da humanidade, que pede expiação dos pecados e atos de contrição como caminho para a apreensão de um código moral, não pode pregar e não dar exemplo.


Com o processo de laicização da sociedade, com a entrada do catolicismo numa dimensão de mercado religioso, ainda que em monopólio, a Igreja Católica enfrenta o desafio de sobrevivência (embora importe reconhecer um novo despertar conservador e fervoroso católico com a Nova Direita). Isso justifica que perante os casos de pedofilia a Igreja aposte na contenção de danos, normalizando os abusos sexuais, fazendo um malabarismo com os valores morais de agora, mentindo sobre a natureza não pública do crime e a ausência de dever de denúncia. Neste capítulo, o tipo de crime recai sob a alçada do art. 172.° do Código Penal, "abuso sexual de menores dependentes ou em situação particularmente vulnerável", tendo uma natureza pública, dado que falamos, na maioria, de jovens ao cuidado de instituições da Igreja e numa situação de vulnerabilidade em razão do papel de autoridade material e simbólica de que gozam os abusadores sobre as vítimas.

Por outro lado, a relevância sociológica do catolicismo explica porque não existe uma onda de contestação social e política nesta matéria. Além dos partidos evidentemente confessionais, os demais receiam perdas eleitorais. No entanto, uma Igreja que aposta na doutrina do sentimento de culpa face a uma natureza eminentemente pecadora da humanidade, que pede expiação dos pecados e atos de contrição como caminho para a apreensão de um código moral, não pode pregar e não dar exemplo.

O Paradoxo da Caridade

17
Dez17

Desde a Encíclica Rerum Novarum de Leão XIII, de 1891, que a Igreja Católica se dedicou à solicitude social, tendo atingido o seu marco com a Encíclica Populorum Progressio, de Paulo VI, em 1967. Tratam-se de predisposições teológico-sociais em que se defende o dever moral da caritas, a caridade. Seria esta uma obrigação imposta aos detentores do capital pela ética católica do "amor ao próximo". Na constituição Gaudium et Spes, resultante do Concílio Vaticano II, afirma-se: «As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens do nosso tempo, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos do Cristo; e nada existe de verdadeiramente humano que não encontre eco em seu coração». Neste sentido, estamos diante de um quadro teológico de preocupação social que reconhece a máxima de «felizes vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus» (Lc 6, 20). Evidentemente que esta missão social se haveria de tornar numa obra missionária que a dois tempos procura suprimir os males do corpo oferecendo a redenção da alma. Uma mão sempre lava a outra. É o corpo de Cristo em todas as suas formas. 

 

No entanto, se esta missão social da Igreja se tornou numa ação de grande envergadura e importância, que não pode nem deve ser minorada, ela própria detém um paradoxo que não pode ser ignorado, e que esta muito evidente na Encíclica fundacional, e que se resume a uma simples mas ideologicamente poderosa assunção: para que a caridade opere é preciso que os ricos se mantenham ricos e os pobres se mantenham pobres. Ou seja, é necessário que as fronteiras sociais se mantenham estáveis, traçadas a linhas grossas, onde a mobilidade seja reduzida e o capital circule, mas se retenha nas mãos dos de sempre. Somente pela manutenção do status quo social é possível que a caridade se exerça. Para que os ricos encontrem a redenção no ato de dar, na dádiva da caridade, é preciso que o capital esteja na sua maioria nas suas mãos. E como o catolicismo mais fervoroso, o popular -- que paradoxalmente é o que mais foge da agência eclésica --, precisa de camadas populares, é naturalmente conservador e se apoia na ação do capital, pois também foi sempre, historicamente, o grande financiador da Igreja. Mais uma vez uma mão lava a outra. 

A Igreja de Francisco.

02
Dez13

A Exortação Apostólica do Papa Francisco tornou-se num curioso campo de debate, colocando a «esquerda» e a «direita» a repensarem a sua leitura papal. A descoberta da Doutrina Social da Igreja por parte da Esquerda Europeia – bem a propósito do contexto político-económico-social vigente, numa época em que o desassossego é tão premente quanto real, e tão urgente quanto instrumentalizável – e o abanão dos alicerces ideológicos-cristãos edificados pela Direita Europeia são, na mesma medida, fatores risíveis, ou seriam, se na verdade não revelassem, per se, a longa cortina erigida entre a doutrina fundacional da Igreja e o seu longo discurso histórico a propósito da vida em sociedade.

 

A  Doutrina Social da Igreja nasce com a encíclica Rerum Novarum, do Papa Leão XIII, a 15 de maio de 1891. Embora se constitua como uma data de  viragem das preocupação vaticanas a propósito do capital, do trabalho e da pobreza – em rigor sob as flores do maio de Das Kapital de Karl Marx  e como contrarresposta da Igreja, numa verdadeira lógica de «via alternativa» - ela apenas retoma –retenha-se – os primórdios doutrinários da Fé de Cristo.

 

Quer isto dizer, ipsis verbis, que doutrinariamente a Igreja sempre foi – reconhecendo o «realinhamento retrospetivo», recorrendo aos termos de Arthur Danto, e o respetivo cuidado necessário – de «Esquerda». Pelo menos naquilo de que a «Esquerda» é mais fundacional: a pobreza, a solidariedade, a igualdade, a liberdade, e a justiça equitativa. Não obstante, ao sabor dos contextos, e na promiscuidade entre a Santa Sé e o poder político, foi-se construindo a ideologia da Igreja. Portanto, enquanto dogmaticamente a Igreja é por definição de «Esquerda», o seu substrato social foi e é de «Direita». Os meandros da realeza e do clero são bem prova disso. Ademais, as oposições da Igreja aos métodos contraceptivos, às relações homossexuais, ao aborto, etc., não têm necessariamente a ver com a Doctrina Christiana mas antes com modelos de sociedade construídos nas margens do Advento Messiânico.