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Dias Assim

29
Mar21

A Ministra Sueca e o estigma social

A entrevista da Ministra das Finanças sueca destaca-se na afirmação de que estando um português ao lado de um sueco num hospital, em Portugal, o português terá pago impostos pelos dois, embora ambos gozem da mesma prestação de cuidados médicos. Estranha a Ministra que em Portugal não decorra daí uma comoção popular. Ora, sucede que apesar de conhecer as praias, os vinhos, o fado e os elementos turísticos nacionais, desconhece a personalidade de um povo que se revolta pouco, a não ser incitado por movimentos políticos populistas, para os quais o tema se revela enviesado. Ora, é aqui que a questão se torna particularmente interessante, uma que invoca um aspeto elementar da nossa perceção comum em torno da categoria «imigrante». Não obstante o contributo dos imigrantes ativos para a segurança social, a nossa sociedade organiza a legitimidade de vivência em Portugal e a dignidade em função da nacionalidade e do tom de pele. O imigrante é sempre aquele que vem de um país mais pobre, nunca o reformado inglês, sueco ou francês. Esta entrevista invoca outro aspeto ainda mais grave, o de que a sociedade portuguesa se indigna com o negro, com a brasileira ou com o “cigano” que recebe rendimento mínimo nacional, classificando-os de subsídio-dependentes e sobre eles operando negativamente, associando-lhes uma imagem de lesadores das contas públicas, mas não o faz face ao nórdico que não paga impostos, e isto leva-me ao conceito cunhado pelo antropólogo estadunidense, James Lorand Matory, de ethnological schadenfreude, i.e., uma satisfação que se retira do ato de estigmatizar os percebidos como "inferiores" e que é usada como recurso para legitimar a participação ou pertença no grupo dos "superiores". Trata-se de um comportamento típico de pessoas em situação de vulnerabilidade e que por tal estão ansiosas por ascender na escala social, reconhecendo que para tal precisam de um alvo mais estigmatizável. Num país com défices de confiança e autocomiseração, onde a postura vergada à Europa “dos ricos” é um modo de estar inculcado, a imigração de povos economicamente mais fragilizados permite subir-lhes nos ombros para legitimar a sua participação no fórum dos aceitáveis.

26
Nov19

Em Queda Livre

O LIVRE falhou o prazo para a entrega do seu projeto-lei sobre a nacionalidade, uma das bandeiras do partido. A justificação reside, segundo declarações oficiais do assessor de Joacine Katar Moreira, nas já conhecidas falhas de comunicação entre a deputada e a direção do partido. A sucessão de falhas de comunicação num partido de reduzidas dimensões e que, inclusivamente, em tempo de campanha eleitoral possuía um número WhatsApp para contacto por parte dos eleitores, é pesarosamente suspeita. Numa matéria absolutamente vital para o partido, que possui uma agenda essencialmente identitária, o incumprimento do prazo revela mais do que uma falha de comunicação, uma vez que é expectável que um partido candidato à AR, e que tem nesse tema um ponto nevrálgico, tivesse já um projeto-lei sobre a matéria previamente elaborado. 

→ obrigado à equipa do Sapo.pt pelo destaque deste post.

Cólofon

Dias Assim é um blogue de João Ferreira Dias, escrito segundo o Acordo Ortográfico, de publicação avulsa e temática livre. Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.