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A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

Beatas, Verão e Cidadania

Agosto 27, 2019

O cenário é uma belíssima barragem, na região de Guimarães, que se acompanha de uma cascata e uma verdejante área de lazer, onde é possível fazer um piquenique à coberta do fresco das árvores. Tudo convida ao recolhimento e ao prazer de integração na natureza. Tudo, menos o que se passa nas águas. De pneus a fogareiros descartados depois de usados. Pelo chão, pacotes de batatas fritas, de sumos, beatas, latas de cerveja. Marcas nefastas da presença humana. Mais a sul, pela costa portuguesa abaixo, pelo areal que namora com o mar, apesar dos cinzeiros oferecidos por uma empresa de telecomunicações, há uma desoladora presença de garrafas de plástico, beatas incontáveis, paus e invólucros de gelados, guardanapos de bolas-de-berlim, e infindáveis contributos humanos à degradação da paisagem. É o verão em todo o seu esplendor: a violência gratuita sobre a paisagem. Quando o inverno chegar, veremos as correntes urbanas das chuvas a arrastarem latas, garrafas de plástico, beatas. [continuar a ler]

Incendiar o governo (?)

Outubro 18, 2017

 Este é um tempo de luto nacional, de pesar e de reflexão. Como em tudo é, também, um tempo de apurar responsabilidades. No entanto, os cenários devastadores de incêndio têm servido um arraial político e mediático em torno do governo de António Costa e da ministra Constança Urbano de Sousa. É preciso ver para além das intenções da PAF de regressarem ao poder, perceber todo um problema de fundo que caiu no colo, por circunstâncias extremas, do atual governo. É preciso compreender que uma parte destes incêndios foram derivados de negligência extrema e punível, de proprietários de terrenos que contando com a chuva realizaram queimadas. Precisamos ter presente a mão criminosa de interesses ligados à compra da madeira e à construção civil. Urge rever a lei, aplicando medidas penais mais violentas sobre os pirómanos, como a de crime lesa-pátria ou contra a humanidade. Esses problemas de fundo derivam, como sabemos e há intenção de se esquecer por parte da oposição, que não lhe quer ver imputadas responsabilidades diretas, de anos de abandono de políticas de proteção civil e planeamento florestal. Medidas orçamentais desde os governos de Cavaco Silva têm sido transversais a governos do PS e do PSD, e CDS, sem exceção, com a mesma responsabilidade. Extinção de postos de vigia florestal, diminuição de combate aos incêndios e outras calamidades (não podemos esquecer a cheias que ainda aí virão), desinteresse no combate à plantação de eucalipto e pinheiro, mão leve perante o crime de incêndio, promiscuidade com os interesses citados. Querer culpar em exclusivo o atual governo é uma manobra desesperada da oposição, incapaz de jogar o jogo político noutros terrenos. É preciso que se apurem responsabilidades, mas acima de tudo é obrigatório que haja um consenso nacional, inter-partidário, para que se tomem, de uma vez por todas, sem medos, com os devidos fundos, as medidas necessárias para requalificar a floresta e recuperar a vigilância florestal. Incendiar o governo para que o próximo faça igual, aliás como fez a coligação PAF, serve apenas para colocar novamente na cadeira os que ainda há pouco deixaram os lugares quentes. 

Bombeiros, heróis, nada menos do que isso

Junho 19, 2017

 Nos Estados Unidos existe, justamente, uma valorização particular dos bombeiros, considerados "os melhores" da sociedade. Trata-se de um reconhecimento perante um trabalho de grande altruísmo, de entrega, de risco, que exige confiança no outro, no desempenho de colegas, de coragem perante um inimigo que não dá tréguas, não se cansa, não desiste, apenas consome.
Precisamos valorizar os nossos heróis, que lutam até ao cansaço contra este inimigo, que dão o corpo às chamas pelos bens dos outros, pelo bem maior de todos nós: a Natureza e a nossa segurança. Aqui na foto os bombeiros voluntários de Tondela descansam vencidos pela exaustão, porque mesmo os Super-Heróis também se esgotam.

O abraço de Marcelo

Junho 19, 2017

Há quem condene o abraço de Marcelo ao secretário de estado da administração interna. Para mim o gesto é resultado do reconhecimento do turbilhão emocional que o SE se prestou ao passar estas 48 horas no coração da tragédia. O que Marcelo Rebelo de Sousa encontrou foi um ser humano sem chão perante a tragédia alheia. A humanidade vive dos gestos sociais, para bonecos de corda já bastaram os anos do Cavaquismo.

As lágrimas não salvam Pedrógão Grande.

Junho 18, 2017

 Cantou Zeca Afonso que "a morte saiu à rua num dia assim". E foi. E não nos bastam as lágrimas para extinguir o fogo, não nos bastam os braços emotivos para circunscrever as chamas e extingui-las na dor e nos afetos. A mancha negra é mais do que geográfica, é o dolo dos que nada fazem, dos que são coniventes, dos que ganham dinheiro de sangue com os incêndios. São os "doidos" que saem impunes porque não há mão pesada nestas tragédias. Porque o anterior Primeiro-Ministro, é bom recordar, retirou os incêndios dos crimes prioritários de investigação, retirando-lhe qualquer legitimidade para se embandeirar por feitos governativos cujos efeitos são vividos na atual magistratura. Um tonto. Enquanto isso estamos perto das 60 vítimas mortais. Uma tragédia sem igual, uma vergonha num país burocrático, que pune quem limpa o próprio mato. Um país onde quem planta o fogo aluga os equipamentos de combate. Um país ondem faltam meios e gente para limpar as matas, mas que não faz uso de prisediários para essas tarefas. Um país lavrado todos os anos pelas chamas, mas que por um passo de mágica de amnésia parece sempre surpreso, optando, como diz o John, por olhar para o calor e as praias, num provincianismo jornalístico absurdo. 

 

{foto RTP}