Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

06
Abr20

O regresso do tal Portugal

NUMA ALTURA EM QUE ANTÓNIO COSTA defende que Portugal terá de voltar a produzir aquilo que se acostumou a importar da China, convém lembrar que Portugal foi durante mais de duas décadas a melhor fábrica têxtil e do calçado do mundo. Antes do 25 de Abril tinha a Fábrica de Braço de Prata, uma cidade fabril dedicada à produção de armamento, mas que poderia ter sido convertida numa imensa fábrica de produção de frigoríficos, esquentadores e outros equipamentos. Não houve capacidade política para tal. Para sermos um país "moderno" e europeu abandonámos as pescas, comprometemos a sustentabilidade agrícola e quisemos ser um país de serviços. Mais tarde de turismo. Vicissitudes da globalização, não tivemos como competir com a indústria asiática, baseada na exploração da mão de obra. Hoje, o covid-19 pariu o saudosismo. Gostava de saber como iremos recuperar o Portugal produtor sem comprometer acordos comerciais.

17
Out13

O nosso tempo ao raio-x.

O período de incerteza que vivemos, em que o horizonte está bacento e imperceptível não é, contudo, difícil de explicar. As crises, todos sabemos, são cíclicas. Ao longo do séc. XX as mesmas foram resolvidas com guerras e consequentes planos de recuperação, dinamizando a economia e reerguendo a Europa a partir das cinzas. Hoje, diante do perigo do armamento nuclear, químico e de uma política de cooperação multilateral as guerras fazem-se na banca, na especulação e no mercado liberal. A emergência de novas potências, os acordos alemães, franceses e norte-americanos de exportação de tecnologia e da indústria automóvel obrigaram o Ocidente a abrir as portas aos produtos chineses a custos baixíssimos em função de uma mão-de-obra neo-escrava. As indústrias europeias foram, assim, assassinadas em favor de uma política temporária de um grupo de países.

A formação da União Europeia trouxe uma política agrícola e das pescas que, fabricada em Bruxelas, estrangulou as economias dos países do sul da Europa, com Portugal em particular enfoque. Os fundos europeus destinados ao desenvolvimento técnico foram distribuídos em compadrios e gastos levianamente, em automóveis, casas, estradas mil, equipamentos desportivos e culturais sem públicos, e tantos outros projetos loucos. Os bancos fomentaram o despesismo das famílias e empresas, à sombra de um paradigma de que o crescimento impõe a existência de dívida. Veio depois uma moeda única, que tratou a Europa como unidimensional e empurrou a esmagadora maioria dos países europeus para o sobreendividamento com um custo de vida insuportável - entre o escudo e o euro passámos a pagar o dobro e a ganhar o mesmo de sempre. 

Vinte anos volvidos de um capitalismo louco, de uma globalização desregulada, de projetos e ideologias tontas, estamos enterrados até ao pescoço. A austeridade que começou por ser a mãe de todas as virtudes - uma mãe com alzheimer que não sabe que a austeridade requer desvalorização monetária - rapidamente foi compreendida como a mãe de toda a miséria pelo FMI. A troika dos bancos e dos interesses alemães, contudo, mantém-se. O empobrecimento generalizado como projeto é cada vez mais claro, oferecendo aos países nobres da Europa mão-de-obra qualificada a preços de saldo. Enquanto isso os governos como o português caminham triunfantes para o suicídio. Ao menos afundam-se com orgulho. Os culpados da loucura dos anos 90 mantém-se nos governos e falam como se não tivessem estado lá. O povo esquece-se de tudo, a bem da euforia das campanhas, e volta a elegê-los. 

Sem dúvida que dentro de vinte anos - ou assim espero - os tempos que vivemos serão estudados como de loucura, em que os Estados condenaram as populações para salvar a banca, os bancos e determinados setores previligados e patrocinadores das campanhas. 

30
Mai13

Martim Neves

NÃO DIGO que Raquel Varela não tivesse razão no seu pensamento. Ponto assente que se encontrava na defesa dos trabalhadores têxteis e opondo-se à exploração capitalista da mão-de-obra no Bangladesh e afins, bem como à subvalorização da mão-de-obra portuguesa. Não obstante teve uma atitude agressiva em relação ao Martim, exagerada diga-se, pegando no elo mais fraco. Vale a pena perguntar onde terá sido feita a roupa que a dita tinha vestida. Dificilmente em Portugal. 
Sim, os salários na indústria têxtil em Portugal são baixos é um facto. São baixos aí como o são noutros setores do tecido produtivo português. O Estado Português, por seu turno, tem elevada quota de responsabilidade, porque nunca protegeu a indústria têxtil nacional, que diga-se de passagem é a melhor do mundo. 
A Europa, também ela, em nome de uma globalização mal pensada, deixou as várias indústrias entregues ao mercado livre, permitindo um deslocamento do setor têxtil, por exemplo, para a Ásia, assassinando os fatores produtivos europeus, aspeto que está na base da atual crise económica e financeira. A lógica do mercado global é impraticável quando emerge de noções díspares de condições de trabalho, salário, etc.
Obviamente que Martim não deitou por terra doutoramento algum, mas ao menos num ponto tem razão: melhor produzir em Portugal e gerar emprego do que seguir a onda fácil das multinacionais e produzir por uma malga de arroz.Chega? Não, mas é menos mau.

10
Mai13

Direitos Humanos, Etiquetas e Indústria

SUBSCREVO as palavras de JCS no 'Lóbi do Chá'. No entanto, acho que já vamos tarde. Primeiro a UE deixou que as indústrias nacionais fossem esvaziadas por acordos com a China. Segundo as grandes marcas não querem saber nem de direitos humanos nem de qualidade (sim, qualidade, porque o melhor feito na China é inferior ao fraco feito em Portugal). E se olharmos as etiquetas então não teremos nada para comprar, porque, infelizmente, já tudo é feito naquela região, à custa da destruição do tecido empresarial nacional. 

(em reforma) BLOGS AOS MOLHOS //  A Terceira Noite | Absorto | Adufe | Almanaque Republicano | Aparências do Real | Aspirina B | A Origem das Espécies | Barbearia Sr. Luis | Blasfémias | Blogoperatório | Bomba Inteligente | Causa Nossa | Corta-Fitas | Crónicas da Terra | Da Literatura | Delito de Opinião | Der Terrorist | desNorte | Dias com Árvores | Esmaltes e Jóias | Esquerda Republicana | Blues For Alice | Geração de 60  | Incursões | Indústrias Culturais | J.P.Coutinho |  Jorge Vaz Nande | Ladrões de Bicicletas | Lauro António Apresenta… | Ler BD | Miniscente | O Insurgente | Ortografia do Olhar | O Jumento | O Grande Zoo | Poesia | Poesia Distribuida | Puxa-Palavra | Quarta Republica | ruitavares.net | Sorumbático | Teatro Anatómico | Tempo Contado  | UmBlogSobreKleist | Voz do Deserto | 2 Dedos de Conversa  BLOGS COM AÇÚCAR NA VOZ // Alfarrabio | Leituras do Dia | Paulinho Assuncao | Farofafá | Prosa Caotica | Rafael Galvao |