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A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

João Miguel Tavares, o darwinista fofinho

Julho 16, 2019

João Miguel Tavares assina, hoje, no Público um artigo profundamente racista, mesmo que ele próprio não saiba ou nem fosse essa a sua intenção. Isto porque JMT desconhece o que é um «lugar de fala», i.e., um conjunto de enunciações morais, éticas, estéticas, ideológicas e identitárias a partir do qual se observa o mundo. Ora, o «lugar de fala» de João Miguel Tavares é, sem dúvida, o do liberalismo económico, do conservadorismo moral europeu e do materialismo ocidental, não se distinguindo, pela natureza das suas declarações, dos missionários e viajantes que chegaram a África e que sobre esta elaboraram todo o tipo de narrativas racistas e demonizadoras das práticas culturais e religiosas. É preciso conhecer para evitar o manual do Darwinismo Social e do Determinismo Racial, teorias que afirmavam a existência de "raças" "superiores" e "inferiores", sendo que caberia às "superiores" o dever de encaminharem as "inferiores" no sentido da sua evolução em direção à verdadeira civilização: europeia judaico-cristã. Esta ideia racializada foi essencial para a construção de uma visão parcelar e equivocada da História da Humanidade que fez por ignorar a sofisticação social, política, judicial e económica de culturas africanas como o Reino do Gana, o Império da Mali, o reino de Kush, o Império de Songhai, o Império Axum, o Império Yorùbá ou o Reino do Danxomé (Dahomé). 

Assim, ao aludir à superioridade das instituições norueguesas por oposição às sudanesas, JMT está a confundir sofisticação tecnológica, material e institucional com culturas. Talvez JMT refugia-se melhor o seu argumento na estabilidade, segurança e conforto das instituições sociais da Europa do Norte por oposição às sociedades africanas de um modo geral. É preciso fazer um esforço de releitura da sua crónica para não lhe ver um racista. Ora, não tendo JMT nessa conta, fica a sugestão de refrear o seu ímpeto de achismo. 

O Crescimento Económico

Julho 07, 2019

João Miguel Tavares, e outros comentadores de direita, refugiam-se no crescimento económico médio, face a países como a Roménia e a Polónia, para criticar o governo. Os dados estão aí, é um facto. Mas seria importante reconhecer que esses países precisam, efetivamente, de crescer muito acima do que cresce Portugal. É que se achamos que temos um país assimétrico, com clivagens sociais e económicas, vejam-se as condições desses países. Os níveis de conforto social são baixíssimos, assim como a mobilidade social. Se achamos que o nosso meio rural está subdesenvolvido, o melhor é ir ver o que se passa nesses países. Por isso, ainda bem que crescem mais do que nós, e que transformem rapidamente esse crescimento em welfare.

João Miguel Tavares

Junho 19, 2019

O discurso de João Miguel Tavares cumpriu o seu propósito: criou desordem. Como consequência, o comentador foi trazido ao palco da cena política com uma projeção que não tinha, tendo gerado disputas várias, à esquerda e à direita, entre elas com Daniel Oliveira. Uma parte das críticas feitas a JMT prendia-se com a falta de rigor das afirmações, lembrando que a questão da mobilidade social tem vindo a observar enormes melhorias. Com efeito. Mas tal não impede que JMT lhe faça menção, e bem. Em segundo lugar, é preciso ter presente que JMT é um jornalista convertido em comentador. Trata-se de alguém que possui um raciocínio claro, que se mantém fiel aos seus princípios e que não está preso a partidarismos, mas de quem não podemos exigir o mesmo rigor jurídico que se exige a Pedro Marques Lopes ou a José Eduardo Martins, ou o mesmo rigor científico no tratamento dos dados sociais que se exige a Pedro Adão e Silva. No entanto, JMT está equivocado quando afirma que o que faz é jornalismo, e o que Daniel Oliveira faz é política. Não é verdade, o que ambos fazem é comentário político e, nesse lugar de fala, fazem política, não aquela partidária, mas ainda assim política, porque a política é o ato de intervenção na vida comum. 

Carta a João Miguel Tavares

Março 10, 2018

Caríssimo João Miguel Tavares,

Antes de mais aproveito a oportunidade para lhe dizer que sou ouvinte aceitavelmente atento do Governo Sombra, e estando num quadrante ideológico distante do seu, não temo em reconhecer que me encontro a concordar consigo algumas vezes. Não tem mal. A democracia é tanto a liberdade de opinar como o dever de reconhecer o mérito mesmo não concordando no todo ou em parte.

Posto isto, escrevo-lhe a propósito da sua crónica sobre a entrada de Pedro Passos Coelho na carreira académica. Dou de barato que não conheça a seriedade das análises de Rui Bebiano. Até posso deixar passar, com algum custo, note-se, que afirme que as ciências sociais viraram muito à esquerda. Enfim, é uma afirmação de quem, parece-me, conhece as mesmas de soslaio, senão seria capaz de reconhecer que enquanto aquelas foram conservadoras reproduziram ideias como desigualdade racial, religiosa, de género, etc. O conservadorismo, enquanto metodologia, é um passo em direção ao «outro» com a gabardine do etnocentrismo.

Ora, reconheço o seu argumento de que um político que tenha ocupado um cargo de relevo, seja de que horizonte ideológico for, reune condições particulares para que o seu testemunho seja reconhecido no seio da academia. O saber é um campo de partilhas. O problema que o João Miguel Tavares não alcança (não me cabe dizer se intencionalmente ou não) é o do estatuto que o ex-primeiro-ministro terá dentro do ISCSP. Existem inúmeras formas de que alguém na situação de PPC possa ministrar ad hoc seminários, palestras, e similares, cuja participação, por parte dos alunos, seja convertida em créditos académicos. Em última análise, se absolutamente necessário que o mesmo incorpore o corpo docente, reconhecendo a particularidade excepcional do seu trajeto para que possa ministrar um seminário contínuo em mestrado e doutoramento, o estatuto que lhe deve caber é do de Professor Auxiliar, atendendo que não possui nenhum dos últimos graus mencionados, nem qualquer trajeto académico. Dir-me-á que se tratam de “balelas”, para usar um termo que gosta de recorrer. Mas não são. A posição de catedrático representa um reconhecimento incontestável de um percurso científico, feito de publicações de relevo, mestrado, doutoramento (às vezes mais do que um), pós-doutoramento, participação em júris, orientações de teses, enfim, uma carreira científica. Acresce que o acesso à carreira docente é feito num escrutínio complexo, sendo muitas vezes de impossível acesso a quem possui um CV científico rigoroso, rico, feito de publicações e pesquisa, muitas vezes em situação de precariedade, porque as bolsas cada vez escasseiam mais, e as universidades estão sem recursos para contratar docentes, a não ser que os docentes sejam políticos.

Portanto, como pode ver, o problema não é ideológico, porque tanto se aplica a PPC quanto a qualquer outro político na mesma situação.

Grato pela atenção,

votos de sucesso,

melhores cumprimentos,

João Ferreira Dias

 

(obrigado à equipa do Sapo pelo destaque deste texto)