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A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

Micropost [25] | Joacine e o Amor Livre

Dezembro 11, 2019

JKM e o Livre chegaram a um acordo nupcial. Ambos têm consciência que um divórcio neste momento seria o fim das suas credibilidades públicas. Uma expulsão deixaria o partido com a imagem de que tinha aproveitado para se despachar da sua deputada, o que seria terrível pois a eleição foi em boa parte graças à simbologia de JKM. O abandono partidário deixaria JKM vista como alguém que saltou fora assim que pode, livrando-se do partido pelo qual se elegeu, esperando outros voos. Melhor assim. Sinal de maturação democrática. Daqui a 4 anos logo se vê.

O problema de fundo no caso do LIVRE e Joacine

Novembro 29, 2019

A reboque dos péssimos tempos que vivemos, o escrutínio a Joacine Katar Moreira tem o problema de soar sempre a racismo. E por isso mesmo, os mais fiéis eleitores e apoiantes da deputada do LIVRE arreigam-se em seu redor, porque avaliar as decisões políticas de Joacine é fazer purgas de caráter, é reproduzir o racismo estrutural e reavivar o determinismo racial. O excesso de atenção mediática, que resulta de uma combinação entre a pessoalização da agenda partidária e a exotização do pioneirismo da deputada enquanto mulher negra e única representante de um partido estreante, contém a tensão entre a descolonização como necessidade intelectual, a descolonização como ato político de combate à invisibilidade racial e a descolonização como um ataque à heróica história de Portugal.

Ora, esta radicalização dos «lugares de fala» putrifica a política portuguesa, porque não permite olhar objetivamente os acontecimentos sem os inscrever num contexto social de combate cultural e descolonização do pensamento. O problema é que a situação política objetiva do braço-de-ferro entre o LIVRE e JKM não deve ser inscrita num contexto racializado. Quem quiser atacar a deputada por ser negra, feminista ou gaga deve retirar-se da ágora. E o mesmo é dito para quem quiser elevá-la a mártir e messias. 

Objetivamente, o escrutínio a JKM está num nível superior ao de André Ventura. Mas as razões residirão em matéria racial ou em protetorado mediático do líder da extrema-direita? Nenhum dado aponta nesse sentido, mesmo quando parece formar-se um eixo de apoio camuflado a André Ventura no quadro do grupo Cofina. Pelo contrário, a responsabilidade por esse peso excessivo de atenção negativa deve-se, sobremaneira, ao desencontro do partido liderado por Rui Tavares e a sua deputada única na Assembleia da República. E o desencontro não é, somente, ao nível da comunicação, como tem sido mencionado. Longe disso. O desencontro reside, sobretudo, na agenda política e no modo de fazer política. JKM acredita na pessoalização da atividade política, que a ação do LIVRE é por si, em si e sobre si. Não é por acaso que afirma que se elegeu sozinha e que o partido não tem de lhe ensinar a fazer política. É soberba? Bom, imprudência é certamente. Embora haja que reconhecer que tal "arrogância" seria tolerada em André Ventura e, aqui, não poderemos escapar às malhas da racialização e do imaginário salazarista dos negros humildes enquanto metáfora para subserviência. Nada obsta, todavia, que lhe possamos fazer a crítica do deslumbramento e da má assessoria que lhe é prestada, que tem contribuído para um clima de guerra e não de serenamento. A estratégia de silêncio do BE em relação à saída de Mamadou Ba do partido revelou-se uma lição. Ao não se manifestar, o partido impediu que o assunto se tornasse num debate sobre racismo, anticolonialismo, necessidade de descolonização, e tudo o mais que não abonaria a favor de nenhuma das partes. O que o LIVRE não entendeu, o BE aprendeu. 

O próximo congresso do partido irá determinar os rumos do partido, se de facto o LIVRE vai permanecer como uma reciclagem do BE dos primeiros tempos – radical, ultrapessoalizado e delimitado na sua agenda identitária –, ou se vai encontrar forma de fazer caber a agenda identitária num programa alargado de reivindicações políticas. O que não pode, sob prejuízo de esgotar de vez a imagem quer do partido quer da deputada, é permanecer em disputa pública e desencontrado.

Em Queda Livre

Novembro 26, 2019

O LIVRE falhou o prazo para a entrega do seu projeto-lei sobre a nacionalidade, uma das bandeiras do partido. A justificação reside, segundo declarações oficiais do assessor de Joacine Katar Moreira, nas já conhecidas falhas de comunicação entre a deputada e a direção do partido. A sucessão de falhas de comunicação num partido de reduzidas dimensões e que, inclusivamente, em tempo de campanha eleitoral possuía um número WhatsApp para contacto por parte dos eleitores, é pesarosamente suspeita. Numa matéria absolutamente vital para o partido, que possui uma agenda essencialmente identitária, o incumprimento do prazo revela mais do que uma falha de comunicação, uma vez que é expectável que um partido candidato à AR, e que tem nesse tema um ponto nevrálgico, tivesse já um projeto-lei sobre a matéria previamente elaborado. 

→ obrigado à equipa do Sapo.pt pelo destaque deste post.

O escrutínio a Joacine Katar Moreira

Novembro 25, 2019

Joacine Katar Moreira é hoje a deputada mais escrutinada do país, uma sobre-dosagem que reflete muitos outros aspetos sobre a sociedade portuguesa. Seria, obviamente, um erro considerar que a deputada do Livre, por motivos da luta contra o racismo e a invisibilidade, é intocável e inscrutinável. O seu lugar de fala é importante na democratização da Assembleia da República, ainda incapaz de refletir a pluralidade da sociedade portuguesa. Basta ver, por exemplo, o número excessivo de advogados na AR. Ora, se JKM deve ser objeto de escrutínio e deve aguentar as críticas sem tomar tudo por discursos de ódio, também não deve ser transformada em alvo fácil, em causa de todos os males, em símbolo do pior da política nacional. Uma inflexão dessa natureza só pode espelhar o papel que o racismo ainda ocupa na forma como a nossa sociedade ainda se estrutura e reproduz. Só isso justifica o excesso de atenção a tudo o quanto a deputada faz, o que reflete, igualmente, um olhar exotizado sobre os negros. Quanto à abstenção nas matérias recentes, as justificações, embora plausíveis, até pelo atraso na sua exposição, parecem fabricadas a posteriori, não convencendo totalmente.

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adenda: grato à equipa dos Blogs.sapo e do portal Sapo.pt pelo destaque deste post. 

Ainda a gaguez de Joacine

Novembro 05, 2019

Somente a direção do Livre poderá decidir se a gaguez de Joacine configura ou não um problema no desempenho das suas funções como deputada. E a própria. Afinal de contas, o que interessa à direita que um partido de esquerda não "consiga" transmitir a sua mensagem? Nada. Aliás, no quadro do jogo político, tanto melhor que não consiga. Alguém duvida que o PSD e o CDS rejubilariam se António Costa ficasse afetado nas suas capacidades comunicacionais? Por isso, o que incomoda às vozes mais críticas não é a gaguez, mas a diferença. Por fim, quando a discussão permanece no nível do biológico temos um problema de substância. É urgente parar de discutir Joacine ou a saia do assessor para começar a discutir as ideias do Livre. Mesmo para o Livre, manter Joacine Katar Moreira como símbolo, na qualidade de mulher, negra, gaga, revela-se uma fonte esgotável como recurso político, além de continuar a objetificar os sujeitos, o que é, precisamente, o contrário do desejado. Uma candidatura que pretendia subverter o status quo não pode cair nas armadilhas de, na ânsia de inverter da norma social, a reproduzir às avessas. Já se deveria ter passado da fase "o que é Joacine", para "o que pensa o Livre, nas mais diversas matérias". Este circo em torno da pessoa, de uma ideia de um partido tornado em microcausa, e não do programa político, não é nada abonatório, nem para a deputada nem para a Democracia. 

Joacine e a Bandeira

Outubro 10, 2019

Esta montagem explica muito bem porque o CHEGA chegou lá. Quem a fez, pretende bipolarizar o cenário político nacional, catapultando a ideia do "nós" contra "eles", fazendo uso da ideia de que existe uma agenda africana de destruição da Portugalidade. Esta narrativa não é desconhecida e tem enorme força em França, por exemplo, em relação às comunidades islâmicas. Todas as demais ideias do CHEGA são esquecidas. O que conta, aqui, é a imagem do homem da Pátria. Mal acabam de ser eleitas três deputadas negras e o racismo que não há vem à tona. Será que haveria problema se ao invés de uma negra e uma bandeira da Guiné fosse uma loira e a bandeira inglesa? Evidentemente que não, afinal o nosso espírito Zezé Camarinha tem os seus padrões.

 

O LIVRE e a encruzilhada de Joacine

Setembro 17, 2019

Joacine Katar Moreira deve ser eleita não apenas porque é negra, mas porque é, precisamente, negra, e isso representa uma esperança num parlamento que reflita a composição social portuguesa. Ao mesmo tempo paira no ar o receio de que não se olhe para ela além da racialidade, o que seria uma gaiola dourada.

O Partido LIVRE é, com efeito, aquele que fica entre o PS e o BE, o meio caminho entre o centro-esquerda e esquerda-esquerda, feito de ideias socialistas, de ideias progressistas e valores europeus, que já era ecologista antes do tema entrar na agenda política de forma determinante. Infelizmente, é também um partido esmagado pelo encosto do PS à esquerda e do BE ao centro, não conseguindo deslocar-se da imagem de um micropartido de dissidência bloquista, liderado por um coerente e claro Rui Tavares. Não obstante, é um partido que tem vindo a dar sinais de dificuldades de sobrevivência, em particular por não ser capaz de efetivar a sua presença social, muito devido à opção de não financiamento institucional, i.e., o LIVRE quis ser livre da «mão invisível». 

Ora, no jogo eleitoral onde se jogam as sobrevivências partidárias, o LIVRE pretendeu ampliar os sinais dados nas eleições europeias, e apresentou Joacine Katar Moreira como o rosto do partido para estas eleições. Mulher, democrata, ativista negra,  pessoa de bem. Atributos. Mas Joacine é, ao mesmo tempo, heroína e vítima num enredo onde está aprisionada, um enredo que joga uma importante cartada eleitoral - o da representatividade dos afrodescendentes. Se por um lado esse «lugar de fala» é determinante para o empoderamento de vozes silenciadas pelas estruturas sociais de poder, por outro impede-a de ser uma candidata além da etnicidade. A afirmação de que os portugueses decidirão se querem uma deputada negra encerra a atividade política de Joacine Katar Moreira na gaiola da representação racial. Ora, tal ideia não poderia ser mais nefasta, porque centra o debate na "racialidade" ao invés das ideias progressistas ligadas à ecologia, ao género, à democracia pluralista. Obama não foi eleito exclusivamente por ser o candidato negro. Aliás, sabendo da forma como o preconceito opera na ordenação social, se Obama tivesse sido apresentado apenas como o candidato negro, dificilmente teria sido eleito. E com razão. Porque Obama era mais do que a esperança de uma certa reparação histórica, era um conjunto de valores democráticos, de respeito pelas liberdades e pelas diversidades que não tem respaldo em Donald Trump. Do mesmo modo, é importante olhar Joacine como um todo: alguém que vem de fora da política, diretamente da universidade, com um currículo em torno dos estudos de género e violência, e feito de luta contra a invisibilidade da mulher negra. Trata-se de alguém que merece, de facto, a eleição, trazendo a esperança de uma nova composição parlamentar que seja reflexo da realidade social portuguesa, combatendo as assimetrias e invisibilidades.