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Dias Assim

A arte de ser uma fraude


18.05.21

— A arte de ser uma fraude — O partido de Le Pen é acusado de desviar 6.8 milhões de euros de fundos europeus. Não deixa de ser engraçado que um partido (como os demais da mesma matéria genética) que se apresenta como anti-corrupção e anti-europa se aproveite de fundos europeus e ainda para mais de forma indevida. Isto comprova a minha visão destes partidos populistas da nova direita, que se dizem em nome do povo e contra o sistema - na verdade estão contra o facto de não terem acesso ao sistema. O triste é o seu eleitorado não perceber que estes são vendedores de ilusões, que na verdade não estão contra a Europa, não estão pelos descamisados da globalização, nem coisa alguma, são apenas sedentos de poder, às vezes mais racistas, outras mais fascistas, mas com uma ânsia inata pelo poder, para dele fazerem uso em proveito próprio.

Notas a propósito da Web Summit e da Senhora Le Pen


17.08.18

O convite e posterior desconvite a Marine Le Pen para estar presente na web summit revela o desconforto da Democracia para com os discursos e movimentos autoritários e radicais. A reboque do que se toma por primado democrático: a liberdade de opinião, deixa-se passar no funil areia perigosa. A história mais recente da Europa é um manual dos perigos de permitir que os populismos radicalizados tenham espaço. É natural que se creia que a castração da loucura narrativa dos fascismos possa inflamar, na paixão da clandestinidade romanciada, mas não é menos perigoso assumir que permitindo que tais discursos corram livres eles se irão esvaziar em alcance social. Não irão. Pelo contrário, irão fazer eco nas paredes dos lares menos informados, social e economicamente mais frágeis, onde discursos de culpabilizam e demonização do «outro» são operatórios. É por isso que a Democracia é tanto a permissão da opinião livre quanto o garante de que o ódio não se torna discurso maioritário.

Abstenção: o inaceitável silêncio francês


07.05.17

As eleições francesas parecem registar uma taxa de abstenção superior à registada em 2012. Esse facto é, sem dúvida, perturbador, quando sabemos, claramente, que o que está em causa, e muito infelizmente, não é uma questão de maior ou menor posicionamento liberal, é algo mais essencial do que isso: o retorno ou não do fascismo como modelo de governação. Só esse facto bastaria para que os franceses, gostando ou não de Macron tivessem acorrido às urnas, massivamente. Porque o silêncio nem sempre é a melhor resposta, por vezes é preciso agir para que não se torne conivência. 

Le Pen já ganhou, haja o que houver


06.05.17

Às portas do desfecho das eleições francesas, é tempo de olhar o quadro social em que as mesmas se desenrolam. Inúmeros lugares-comuns são visitados e reciclados em favor da campanha eleitoral, numa França multicultural e profundamente instável. Os problemas de ordem sociológica que afetam a França são conhecidos. Dificuldades de assimilação e acomodação cultural por parte de imigrantes provenientes do mundo árabe, segundas gerações em encruzilhadas identitárias que derivam em crises, que por sua vez se desenrolam em radicalismos. É inquestionável o efeito nefasto que a guetização teve na sociedade francesa. O multiculturalismo e a globalização exigem muito mais esforço concertado do que o enclausuramento fronteiriço, físico e cultural. É muito fácil perante a diversidade cerrar fileiras identitárias, arreigando-se a chavões culturais que formalizam uma espécie de ‘identidade nacional’, que mais não é que um aglomerado de práticas estabelecidas como autênticas e tradicionais. Aquilo que Jean-Louis Triaud, em Lieux de mémoire et passés composés, chamava de «memórias instituídas» e o já clássico Eric Hobsbawm cunhou como «invenção da tradição».

Micropost [3]

Sinais dos tempos, em França


02.05.17

Segundo Eduardo Pitta, as centrais sindicais francesas passaram ao lado das eleições presidenciais, nas comemorações do 1o de Maio. Nem uma palavra. O silêncio é, maioritariamente, conivência. Com ele sabemos para onde vai o substrato social francês. Usando de um termo de Arthur Danto, há um "alinhamento retrospetivo" na sociedade francesa que não augura nada de bom. De tempos a tempos "o povo" (categoria simbólica) gosta de colocar à sombra de messias.

Cólofon

Dias Assim é um blogue de João Ferreira Dias, escrito segundo o Acordo Ortográfico, de publicação avulsa e temática livre. Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

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