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A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

09
Out19

A (Nova) Aliança

O problema do Aliança não foi as várias alternativas à Direita. Aliás, tinha mais condições para ter elegido um deputado do que o Iniciativa Liberal. O que houve foi um desgaste público de Santana Lopes. Um número significativo de eleitores viu o Aliança como um partido de um Santana Lopes "amuado" com o PSD e com sede de um "tacho". Se a primeira parte é uma interpretação muito plausível, a segunda peca por não saber que PSL tinha um "tacho" muito melhor. A questão central é que o ex-primeiro-ministro é sedento de protagonismo público e amante do combate político. Infelizmente para ele a sua imagem já se desgastou há muito. Para o Aliança sobreviver precisa que o seu fundador se retire.

07
Out19

Um novo panorama político em Portugal

Nem a Esquerda nem a Direita ficaram iguais depois do dia de ontem. Hoje amanhece-se num Portugal partidariamente diferente e que reflete o quadro socioideológico português. À Esquerda, O BE foi capaz de sobreviver, provando que o seu eleitorado ficou satisfeito com a geringonça e com a maturidade do partido, ao ser capaz de encontrar posições de consenso e de ponderação democrática, indo além da disposição de guerrilha, afirmando-se de vez como flanco esquerdo democrático do PS. A CDU, por sua vez, dissolve-se, passando a ser a bancada do PCP. A perda de 5 deputados traduz o efeito de desgaste cada vez mais acentuado não apenas do seu líder, mas também do próprio partido, progressivamente percebido como perdido no tempo dos combates de que uma larga maioria da população não se reconhece, ou encontra maior dinamismo no BE. Numa interpretação mais contida, o desgaste de Jerónimo de Sousa é cada vez mais evidente e ou o partido regenera ou arrisca-se a desaparecer, mesmo com o controlo dos sindicatos. Em sentido contrário, o LIVRE, partido de Rui Tavares, graças à exposição mediática de Joacine Katar Moreira e à capacidade desta em catapultar a agenda da militância negra e feminista, consegue pela primeira vez a eleição de uma representante. É expectável que Joacine Katar Moreira seja capaz de traduzir a qualitativa, estruturada e pensada agenda democrática e de Esquerda do LIVRE, sendo mais do que um partido da (importante) “agenda negra”.  Por sua vez, o PAN, consolida a sua posição no campo político português, conquistando um grupo parlamentar, gozando do sucesso de uma boa estratégia de comunicação e relação com a imprensa, catapultando a sua agenda animal e ambiental, permitindo-nos compreender o crescimento de uma consciência social “vegana” que não se reconhecia no PEV (possivelmente pela coligação com o PCP), ou no MPT, um partido mais conservador.

Na margem oposta, temos um CDS em total colapso, voltando a ser um partido pequeno, perdendo, muito provavelmente, eleitorado para o Chega e para a Iniciativa Liberal, consoante o tipo de agenda ideológica, comprovando que a Direita está a fragmentar-se, entre posições mais extremadas no campo social, e posições mais radicais em matéria económica. Mais do que a entrada em cena da IL, o crescimento do Chega dá-nos conta de um cenário mais preocupante, comprovando que já não basta um discurso católico-conservador marcante do CDS para acalmar um certo tipo de clamor social. Portugal deixou de ser, assim, um país parlamentarmente livre da extrema-direita. Enquanto o CDS volta a ser o partido “do táxi”, o Chega afirma-se como o partido “da taberna”, configurando um tipo de narrativa racista, de pendor autoritário, que catapulta uma ideologia nostálgica que capta um eleitorado mais velho, saudosista do antigo regime e do Portugal que não sendo racista, estava “livre” de ciganos, negros e toda essas “raças”.

04
Out19

O LIVRE e o PAN

Para quem é de Esquerda o LIVRE é um partido de fácil identificação, enquanto espaço político que parece cumprir o papel de ser a Esquerda permanente do PS, ou uma versão europeísta do BE, se preferirem. No entanto, há que reconhecer que o LIVRE é a versão política daquele clube pequeno que joga bem, mas do qual ninguém é adepto. Há razões para isso, as quais já enumerei antes, e que dizem respeito à pouca atenção mediática, sobretudo. É verdade que Joacine Katar Moreira conseguiu trazer o LIVRE mais ao espaço da comunicação social, no entanto o viés tem sido a sua gaguez e não as suas ideias. Por outro lado, na margem das redes sociais, o LIVRE tem aparecido como o partido da militância negra, o que tem sido bom como visibilidade de uma causa importante no espaço público, mas que esvazia toda a demais agenda política. Espero que Joacine consiga ser eleita, bem como espero que a sua eleição seja capaz de ir além da agenda única, uma vez que o LIVRE sempre foi um partido com ideias claras e não de causas. 

O PAN, por seu turno, deverá eleger de 5 a 9 deputados, conquistando um grupo parlamentar. Sendo um partido de duas causas: animais e natureza, por esta específica ordem, o PAN tem observado um crescimento gigantesco, graças a uma boa estratégia de marketing, com outdoors fortes, bem desenhados e estrategicamente colocados, e ao apoio massivo da imprensa, que tem feito do PAN um partido pioneiro na ecologia, facto que não procede. A questão será, então, avaliar o grau de competência e de intervenção deste grupo parlamentar, depois de André Silva ter passado uma legislatura a abster-se nas votações e perante o despreparo apresentado em debates, quer pelo próprio, quer por alguns cabeças-de-lista de várias regiões. 

01
Out19

"eu é mais gatos e ambiente"

À excepção dos radicais animalistas (diferente de ser defensor do direito dos animais), muitas são as pessoas seduzidas pela narrativa ambientalista do PAN, como se este fosse o único partido "verde". Convém ter presente que um partido em vias de eleger dois deputados deve estar preparado para avaliar, aprovar ou rejeitar medidas que vão da saúde à economia. Ora, o sr. André Silva, que irá cumprir a segunda legislatura, não teve tempo, pelos vistos, para se dedicar a conhecer outras pastas. Não só se absteve, ao longo de todo o mandato, da grande maioria das votações, como surgiu nos debates a querer subordinar todas as discussões a temas ambientais. Lembra a velha rábula de Herman José, "eu é mais bolos".

19
Set19

O programa do PAN

Uma vez que o PAN cativou a Ecologia - fazendo passar a ideia de que foram eles que inventaram a agenda da sustentabilidade ambiental - parece gozar de uma condescendência alargada em face das inúmeras alterações ao programa eleitoral, continuando a crescer nas intenções de voto. Tenho dificuldade em tomar por bem um partido que à medida que as críticas vão-lhe sendo feitas vai pegando na borracha e suprimindo parcelas do seu programa. São caso disso as entradas sobre os encontros entre as vítimas e os seus agressores ou a apologia do lusotropicalismo. Se ao fim de uma legislatura o PAN não é capaz de ter um programa fechado, coerente e que o possa defender até ao fim, que justificação existe para nele votar?

17
Set19

O LIVRE e a encruzilhada de Joacine

Joacine Katar Moreira deve ser eleita não apenas porque é negra, mas porque é, precisamente, negra, e isso representa uma esperança num parlamento que reflita a composição social portuguesa. Ao mesmo tempo paira no ar o receio de que não se olhe para ela além da racialidade, o que seria uma gaiola dourada.

O Partido LIVRE é, com efeito, aquele que fica entre o PS e o BE, o meio caminho entre o centro-esquerda e esquerda-esquerda, feito de ideias socialistas, de ideias progressistas e valores europeus, que já era ecologista antes do tema entrar na agenda política de forma determinante. Infelizmente, é também um partido esmagado pelo encosto do PS à esquerda e do BE ao centro, não conseguindo deslocar-se da imagem de um micropartido de dissidência bloquista, liderado por um coerente e claro Rui Tavares. Não obstante, é um partido que tem vindo a dar sinais de dificuldades de sobrevivência, em particular por não ser capaz de efetivar a sua presença social, muito devido à opção de não financiamento institucional, i.e., o LIVRE quis ser livre da «mão invisível». 

Ora, no jogo eleitoral onde se jogam as sobrevivências partidárias, o LIVRE pretendeu ampliar os sinais dados nas eleições europeias, e apresentou Joacine Katar Moreira como o rosto do partido para estas eleições. Mulher, democrata, ativista negra,  pessoa de bem. Atributos. Mas Joacine é, ao mesmo tempo, heroína e vítima num enredo onde está aprisionada, um enredo que joga uma importante cartada eleitoral - o da representatividade dos afrodescendentes. Se por um lado esse «lugar de fala» é determinante para o empoderamento de vozes silenciadas pelas estruturas sociais de poder, por outro impede-a de ser uma candidata além da etnicidade. A afirmação de que os portugueses decidirão se querem uma deputada negra encerra a atividade política de Joacine Katar Moreira na gaiola da representação racial. Ora, tal ideia não poderia ser mais nefasta, porque centra o debate na "racialidade" ao invés das ideias progressistas ligadas à ecologia, ao género, à democracia pluralista. Obama não foi eleito exclusivamente por ser o candidato negro. Aliás, sabendo da forma como o preconceito opera na ordenação social, se Obama tivesse sido apresentado apenas como o candidato negro, dificilmente teria sido eleito. E com razão. Porque Obama era mais do que a esperança de uma certa reparação histórica, era um conjunto de valores democráticos, de respeito pelas liberdades e pelas diversidades que não tem respaldo em Donald Trump. Do mesmo modo, é importante olhar Joacine como um todo: alguém que vem de fora da política, diretamente da universidade, com um currículo em torno dos estudos de género e violência, e feito de luta contra a invisibilidade da mulher negra. Trata-se de alguém que merece, de facto, a eleição, trazendo a esperança de uma nova composição parlamentar que seja reflexo da realidade social portuguesa, combatendo as assimetrias e invisibilidades.