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As eleições presidenciais brasileiras traçaram um novo mapa sócio-político no país. A intensa campanha anti-petista, baseada não apenas nos escândalos de corrupção, mas igualmente num elevado número do que hoje se designa por fake news, associada a um clima de medo permanente derivado do elevado crime que assola o país, permitiram a emergência de Jair Bolsonaro, um candidato cuja campanha eleitoral se baseia num discurso misógino, racista, anti-LGBT e pró-ditadura militar. O apoio declarado das principais Igrejas neopentecostais -- gerando uma onda messiânica em torno do mártir Bolsonaro -- e uma nostalgia nebulosa do período da ditadura militar, cozinharam o caldo sociológico para que Bolsonaro surgisse envolto na aura de "salvador da Pátria". O seu discurso militarizado serviu para alimentar clusters sociais tendencialmente extremistas e perigosos, que encontraram uma figura que personifica o seu ideal fascista. Ao mesmo tempo, as elites brasileiras, que viram as classes mais desfavorecidas conquistarem direitos sociais que lhes pesaram nos bolsos, equilibrando ligeiramente a balança social e permitindo uma brisa de mobilidade social, encontraram em Bolsonaro a narrativa ideal, ao anunciar o fim do 13º mês, da bolsa família, dos direitos das domésticas, do direito a férias, das cotas raciais nas universidades públicas, e outras iniciativas do governo do PT que permitiram colocar uma tábua sobre o fosso entre ricos e pobres, brancos e negros no Brasil. Todas essas iniciativas sociais foram essenciais no enfatizar de um sentimento anti-PT enquanto pretexto para uma nova velha ordenação social brasileira, historicamente demarcada entre a Casa Grande e a Senzala. Todavia, a insatisfação anti-petista é uma estratégia, uma oportunidade política que permite revitalizar aspirações ditatoriais. Isto porque, Bolsonaro não era a única alternativa a Fernando Haddad -- que estaria, por exemplo, em Ciro Gomes ou na menos popular Marina Silva --, mas era, sem dúvida, a única alternativa anti-democrática.

Portanto, não restam dúvidas do que está, efetivamente, em causa nestas eleições, as quais vêm sendo marcadas pelo histerismo que, em alguns lugares, descambou em violência, tendo ocorrido, no dia de ontem, o homicídio de um mestre de capoeira, de 63 anos, em Salvador da Bahia, depois de declarar, num bar, ter votado em Fernando Haddad. No Rio de Janeiro, em alguns locais de voto, foi montada uma coação, perfeitamente ilegal, com vista à obtenção de votos em favor de Bolsonaro. As fake news, em torno do candidato do PT multiplicaram-se. Tratam-se de casos que evidenciam um clima que faz pano de fundo de uma nova ordenação político-social brasileira. Seja qual for o próximo presidente do Brasil, o mapa ideológico brasileiro estará fortemente bipolarizado. Está, novamente, em frenética ascensão um cenário de fronteiras traçadas a linhas espessas. 

O Brasil está, hoje, dividido, não entre anti-petistas e petistas, mas entre pró-regime militar e anti-regime militar. Acautelo-me ao uso do termo fascistas, por considerar que, e em cuidada análise, uma larga maioria dos eleitores de Bolsonaro não possui o manual de informação capaz de compreender o que está em jogo com o fascismo, nem é exatamente isso que esse eleitorado deseja, mas antes um regime onde sacrifiquem a sua liberdade (da qual têm pouca consciência) para poderem usufruir de uma (falsa) sensação de segurança. 

 

Nem o PT é o Demónio, nem Haddad é Lula

A demonização do Partido dos Trabalhadores (PT) resulta de uma estratégia de concertação de forças políticas, religiosas e imprensa conservadora com vista a restauração de uma sociedade cavada num fosso étnico-cultural. Num plano das utopias políticas, o Messias Bolsonaro foi apresentado como o homem que restauraria a ordem, o progresso e a moral cristã num país onde a franja religiosa evangélica é, cada vez mais, o próprio couro cabeludo. A coincidência das agendas políticas e religiosas fecundou uma oportunidade perfeita. Justapôs-se o perigo vermelho do comunismo ao vermelho do demónio. O problema é que o PT não é o demónio. Efetivamente marcado pela corrupção e por uma ineficiente gestão de Dilma Rousseff, a era do PT foi, também, caraterizada por enormes avanços sociais e por políticas educacionais tremendas, como a bolsa família, as cotas raciais, o ensino da cultura afro-brasileira e ameríndia nas escolas, entre inúmeras outras, que permitiram o surgimento de uma geração escolarizada entre as classes historicamente desfavorecidas e um ajuste com a história brasileira varrida para debaixo do tapete sob o epíteto do branqueamento social e cultural. Evidentemente fracassado em algumas matérias, os governos do PT foram determinantes num virar de página de um Brasil economica e culturalmente racializado, em particular ao nível das instituições. Enquanto isso, nos lares mais favorecidos crescia um sentimento de insatisfação. Os episódios de manifestações nas universidades pedindo o fim das cotas raciais, sob o lema "não queremos negros aqui", foram prova declarada do que estaria em marcha. 

Ora, além da demonização do PT, a campanha pró-Bolsonaro é marcada pela coincidência entre Lula da Silva e Fernando Haddad, o candidato indicado após a exclusão do histórico líder dos Trabalhadores. Essa campanha, todavia, encontra respaldo na própria campanha do PT. Com Lula afastado judicialmente das eleições, o PT fez saber que «Haddad é Lula, e Lula é Haddad», enfatizando uma continuidade entre políticos e políticas. Aqui residiu, com efeito, uma falha por parte do PT. É que o descontentamento anti-petista figurava na figura desgastada (ainda que parcialmente de forma injusta) de Lula da Silva. O afastamento judicial do seu líder representava uma oportunidade para novas aspirações político-ideológicas. No entanto, o PT caiu nas mesmas falhas de históricos partidos da mesma natureza ideológica. Ao enfatizar as continuidades, perdeu-se a oportunidade de chamar à atenção do perfil particular de Fernando Haddad, cujo currículo científico e político são de uma evergadura moralizadora para o país: licenciado em Direito, Mestre em Economia, Doutorado em Filosofia, Professor de Ciência Política na USP. Enquanto ministro da Educação, de 2005 a 2012, foi responsável pelo FIES (Fundo de Investimento Estudantil), pelo ProUni (Programa Universidade para Todos), um programa de bolsas para os mais carenciados, e pelo reformular do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio). Entre 2013 e 2016 foi prefeito de São Paulo, tendo sido distinguido pela ONU como o melhor prefeito da América Latina. Portanto, se o PT tivesse sabido planear a sua campanha, descolando Haddad de Lula, e apresentando-o como o candidato de uma nova era do PT, neste momento estaríamos numa campanha eleitoral entre um político e académico com uma carreira invejável e um político que em 30 anos só aprovou leis que beneficiaram os deputados e propagou o ódio, sem apresentar qualquer ideia de governo. 

 

{texto originalmente publicado no blog do Centro de Estudos Internacionais (CEI-IUL) do ISCTE}

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O Supremo Tribunal Federal recusou o pedido de Habeas Corpus de Luís Inácio Lula da Silva, efetivando o mandado de prisão. Lula foi levado à prisão, em braços, pelo povo. O juiz que assinou o mandado, em minutos, apanhou prontamente um avião para Lisboa, escapando da praça pública. Sobre o processo em si, os factos que consumam a decisão são muito pouco transparentes, baseando-se numa suspeita que remonta à década de 1980, altura em que a carreira de Lula começava a emergir o suficiente para constituir um perigo para o status quo das instituições, conservadoras e herdeiras de um modelo ideológico que idealizava e idealiza o Brasil cristalizado entre a Casa Grande e a Senzala. Por isso, a prisão de Lula deve ser inscrita nesse contexto maior, que se materializa com o impeachment de Dilma Rousseff, justificado por irregularidades que não ocorreram, mas que serviram para estancar o processo conhecido por "lava-jato". A concertação política é conhecida, e está bem patente nas palavras, tornadas públicas, de Romero Jucá:

Conversei ontem com alguns ministros do Supremo. Os caras dizem 'ó, só tem condições de [inaudível] sem ela [Dilma]. Enquanto ela estiver ali, a imprensa, os caras querem tirar ela, essa porra não vai parar nunca'. Entendeu? Então... Estou conversando com os generais, comandantes militares. Está tudo tranquilo, os caras dizem que vão garantir.

Os contornos sinistros do golpe são evidentes. A prisão de Lula, por si só, configura uma encenação política oportunamente orquestrada numa altura em que o ex-presidente aparecia como grande favorito nas eleições presidenciais brasileiras, com uma intenção de voto em torno dos 40 por cento, face aos 8 por cento de Jair Bolsonaro, o presumível candidato da Direita, um apoiante da ditadura militar, ultra-conservador, homofóbico, anti-liberdade religiosa, defensor da despenalização da violação e da penalização severa do aborto, da descriminação racial e da diferença salarial entre homens e mulheres. Ora, a fim de garantir a eleição de tal personagem, era premente afastar o mais sério candidato, ao caso Lula da Silva. 

 

Mas o que representa Lula da Silva?

 

Porque motivo Lula da Silva assusta tanto a direita brasileira ao ponto de se falar num processo que, à primeira vista, a partir de um olhar impreparado, representa uma teoria da conspiração? Como tem sido partilhado nas redes sociais no Brasil, Lula é, antes de mais, "uma ideia". Ele representa um país de possibilidades para os historicamente desfavorecidos, marginalizados e segregados, desde a escravatura ao pós-abolição, onde a governança brasileira, a partir de paradigmas ideológicos desenvolvimentistas, foi levando a cabo um branqueamento social, através do estimulo massivo à imigração europeia, mas não apenas. Os ex-escravos tornaram-se cidadãos livres, mas sem acesso à educação, à cultura, ao emprego, à habitação, sendo empurrados para fora das malhas urbanas. A obra de Maria Nilza da Silva, Nem para Todos e a Cidade, é um retrato disso mesmo. 

Com a eleição de Lula, vieram medidas sociais profundas, restauradoras das injustiças historicamente perpetradas contra os mais desfavorecidos. Medidas como a Bolsa Família, que tirou milhares de famílias da miséria e garantindo-lhes acesso à saúde e educação, a ProUni, que forneceu bolsas de estudos, "luz para todos", "fome zero", as quotas raciais nas universidades, e a criação de 18 novas universidades e 422 escolas técnicas, ou a lei que estabeleceu o ensino da cultura afro-brasileira e ameríndia nas escolas, foram algumas das medidas da presidência de Lula que possibilitaram a mobilidade social, tornando o Brasil mais justo e equilibrado, com negros nas universidades e com acesso a empregos historicamente demarcados racialmente. 

É, por tudo isto, que ele é odiado pela direita, a classe burguesa e pseudo-aristocrática dos privilégios herdados, filha dos coronéis das fazendas, dos salões das casas grandes, que não toleram a presença de negros nas universidades, nos shoppings, nos aeroportos, que se enfurecem com o facto da doméstica ir de férias e ter "carteira assinada" com direitos elementares. É uma classe saudosista da miséria dos pobres, do enorme fosso social, da exploração dos mais desfavorecidos, que não tolera uma sociedade que não dividida, eternamente, entre ricos e pobres, entre a Casa Grande e a Senzala. 

(ligação externa - Público)

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