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Dias Assim

Ai chega, chega, o meu D. Sebastião

Agosto 16, 2020

João Ferreira Dias

Dá que pensar sobre como chegámos aqui. Creio que em grande parte porque o Estado Novo deixou uma ideologia de nacionalismo branco, lusotropicalista e colonialista. A História portuguesa nunca foi objeto de reflexão crítica. Simplesmente se manteve o país do Minho a Goa, a glória dos Descobrimentos e o serviço à humanidade da civilização cristã. Os povos não foram conquistados, foram civilizados. Não foram escravizados, foram realocados. Uma memória de ser português que passa por Fátima, pelo Ultramar como um direito natural roubado, pelo paternalismo com os povos mais pobres e o serventilismo com os mais ricos. E essa memória não aceita ser beliscada. É o ethos nacional. Essa memória produziu uma nostalgia do Estado Novo. A isto junta-se um cansaço face a uma classe política sucessivamente seduzida pela corrupção. Ora, o ar do tempo trouxe a nostalgia dos anos de 1920 e a ressurreição dos ideias do fascismo reciclado. Em Portugal, o sebastianismo torna-se fator de sedução pública - a ânsia pelo Messias que conduzirá a nação. É o salvacionismo político. Assim, o refugado do Chega faz-se com a glória dos Descobrimentos que não pode ter uma versão dos povos dominados, com o messianismo de um líder ungido na Santa Fé, e da ilusão de que a corrupção não faz parte do quotidiano nacional, do mais pequeno cidadão ao mais alto dirigente. E eis que temos Ventura, o católico fervoroso, defensor da memória pátria, e jovem puro. Um mito, claro, mas o mais profundo mito sebastiânico.

As mal-aVENTURAnças

Abril 16, 2020

João Ferreira Dias

Há para aí um grupo de apoio a André Ventura que o apelida de "Salvador nacional". Certamente não têm presente que o último "Salvador da pátria" foi Salazar. Ou se calhar até têm, e é precisamente por isso que aplicam a mesma receita. É tão constrangedora esta disposição para o messianismo, para esperar que jogadores políticos sejam uma espécie ungidos. Como esperar que alguém que pensa uma coisa e diz outra venha resolver o que quer que seja? Como esperar que alguém cuja posição política se baseia em soundbites retirados de caixas de comentários que seja impoluto? Como esperar que alguém que tinha no seu programa político a destruição da Escola pública e do SNS, que venha agir em nome do povo? Tinha, pretérito imperfeito. Imperfeito como o seu carácter. Tinha, porque o apagou mal foi confrontado com o facto. Portanto, nem a coerência política lhe é intrínseca. Nada daí viria de diferente ao mundo da política se não fosse o caso de lidarmos com alguém que reconhecendo os tempos que correm se apresenta como um ator político externo, um outsider da toxicidade da vida política. Uma mentira entalhada com ouro dos preconceitos daqueles para quem a sua mensagem é desenhada. 
Enfim, heranças religiosas na vida pública. No Brasil também há um Messias, de nome, que é visto como "mito". Não há como não ter vergonha alheia. Não deles, mas de quem empunha a sua bandeira sem filtro, sem peneira, sem sentido crítico. O Messias é apenas um promessa, uma exaltação e esperança. Quando se transforma alguém real num Messias corre-se o risco de ver nos seus defeitos as suas perfeições e, assim, abdicar da racionalidade própria e deixar-se guiar por um "vendedor de sonhos". 

Micropost [19]

/ Greta na AR e outros messianismos /

Novembro 15, 2019

João Ferreira Dias

O convite a Greta Thunberg para vir discursar à AR é proporcional aos tempos de messianismos que vivemos. Esta coisa de transformar pessoas em símbolos, em que pouco interessa o que dizem mas o que representam, o que personificam, é preocupante e reflete o grau de infantilização democrática de uma sociedade. É, sem dúvida, um fetichismo político coincidente com o modelo de seguidismo que se reciclou. Em alguns casos estamos perante a mera amplificação de chavões e preconceitos, noutros no delírio da êxtase ideológica, e noutros na euforia do Messias.

Cólofon

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