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A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

01
Fev17

Entender a emergência de Trump

Não é por acaso que Donald Trump vem sendo comparado a Adolf Hitler. As trajetórias são, evidentemente diferentes, mas os traços de personalidade e a emergência da figura mais hedionda do século XX e do atual presidente dos EUA. Em primeiro lugar ambos são filhos de mães com historial determinante na configuração de personalidade dos seus filhos, num jogo articulado de complexo de Édipo. No caso de Hitler, a saúde débil de sua mãe foi fundamental na configuração de uma noção de impureza geneticamente instituída nos judeus. Ao mesmo tempo, situações de instabilidade política e económica foram essenciais para que emergissem nas sociedadesalemãe e norte-americana um sentimento de suspeição diante do "outro", haja visto que a alteridade requer uma maturidade psicológica e cultural maior que o preconceito, instinto primário. Na Alemanha da virada do pós-I Guerra Mundial, um sentimento de orgulho ferido e a emergência dos ideias antissemitas oriundos de Viena, foram essenciais para que Hitler emergisse como o líder que iria tornar a Alemanha grande, outra vez. Nos EUA pós-Obama, o primeiro presidente negro e mais à esquerda, onde o midwest mantém os seus valores conservadores e em que 20% da sua população considera que a escravatura nunca deveria ter terminado, onde a escolaridade é mais baixa e o conservadorismo religioso mais elevado, e com o agudizar do fenómeno do terrorismo islâmico, a emergência de um homem branco, rico, conservador e mediático, colou com as aspirações e receios dos americanos, em particular a franja descrita como redneck (trabalhadores rurais ou de baixo rendimento). No meio disto, tanto Hitler quanto Trump cavalgaram a onda, revelando-se oradores poderosos com distúrbios de personalidade, marcados pelo exacerbamento de personalidade. De um modo claro, Hitler e Trump apresentaram-se aos seus concidadãos como: líder eleito para guiar o povo eleito e tornar os seus países grandes novamente. Trata-se de uma narrativa poderosa, herdeira do messianismo bíblico, e que encontra eco nas crenças e aspirações mais profundas de pessoas com baixa capacidade crítica, com valores ultranacionalistas e extremamente religiosas. Não é, pois, de estranhar Donald Trump ter recebido o apoio do Ku Klux Klan. 

Em jeito de término, deixem-me dizer-vos algo assustador: o problema não é Trump. De uma forma ou de outra ele acabará por sair. O problema são estes milhões de pessoas que o colocaram lá, que permanecerão presas aos seus valores e que mais tarde ou mais cedo, no momento certo, colocarão no poder outro. O que é válido para Trump é válido para Le Pen e outros iguais. A ignorância tem muita força. Education is the key against oppression.

02
Mar16

A trombeta de Trump não é nazi

De tempos a tempos as tendências nacionalistas regressam em força, como vagas trazidas pela instabilidade económico-financeira e decorrente instabilidade social. São discursos que por fazerem de determinados preconceitos sociais alavancas ideológicas conquistam larga franja social. São fenómenos que, desde que reduzidos no tempo, carregam uma força narrativa ímpar, porque inflamam o eleitorado em direção a alvos fáceis, encontrando uma culpabilização naif para problemas bem mais estruturais. Exemplo disso é a emergência política de Donald Trump, cada vez mais provável candidato republicano à Casa Branca. Trata-se de um candidato que faz do medo, do ódio fácil e de um maniqueísmo primário as suas bases ideológicas e programáticas. Por todas as razões já salientadas, uma possível eleição de Trump não abonaria nada em favor da democracia global. No entanto, daí a colar-se o político populista ao nazismo vai um passo grande, que joga, no mesmo tom que o visado, com o medo e a memória coletiva. Donald Trump é produto de um ultraconservadorismo e de um ultranacionalismo norte-americanos. É nesse quadro, muito similar ao da família Bush, que o candidato deve ser enquadrado, a bem da democracia, para que seja, dentro da sua real moldura, derrubado. 

08
Ago13

O Fantasma Nazi Revisitado.

"Se eles chegassem e respeitassem as nossas leis seriam bem-vindos (...) assustam os nossos filhos com as Burkhas", Tommy Robinson.

 

Hitler faz parte do passado? Como referi noutra sede, "o esqueleto de Hitler é já pó, mas não a sua fórmula". A poeira da história jamais se apaga, espelhando-se e acumulando-se em lugares novos ou já visitados. Hoje os tempos estão negros, mesmo que o sol em Portugal ainda brilhe e nos faça relativizar certos factos. À medida que crise vai grassando, afetando as economias e as estabilidades emocionais domésticas, certas tendências extremistas fazem-se notar e sentir. Os alvos são fáceis: os emigrantes. Sucessivos governos desorganizados possibilitaram que a situação se colocasse a jeito. A proliferação emigrante e a guetização cultural [agora também para refugiados] fazem de países como Inglaterra ou França verdadeiros campos de minas. 

 

Por enquanto, felizmente, os alvos são os incapazes governos que não só não souberam antever a crise como só a notaram já em suas casas. As populações estão nas ruas, descontentes, sem esperanças, revoltados e já com um sentido agressivo face aos governos. O tempo do "deixa andar" terminou. À medida que as soluções apresentam não solucionam coisa alguma, a espiral de descontentamento aumento. As manifestações sucedem-se.

 

Todo este caldo sociológico recorda os períodos que antecederam a emergências dos movimentos e partidos populistas de extrema-direita na Europa. O nacionalismo forte começa a suar (alarmantemente) nas cabeças das pessoas, depois do projeto da moeda ter-se revelado um falhanço total, procurando equilibrar economias díspares nem integrar e centralizar politicamente os Estados. Ou a federação ou os nacionalismos isolacionistas.

 

Na região nordestina da Alemanha, uma pequena aldeia chamada de Jamel, está nas mãos dos neo-nazis outrora liderados por Sven Krüger, hoje na prisão. A poeira não se dispersou e a situação económica serve de protesto. Em Inglaterra, a English Defense League, fundada por Tommy Robinson, procura reviver a nostalgia de uma Great Britain verdadeiramente britânica, apontado o dedo aos inúmeros emigrantes islâmicos. Os velhos problemas da burkha cultural e das falácias integracionistas mantêm-se vivos. Os extremismos de parte a parte, o racismo e a sharia, conjugados com a atual crise económica e financeira, poderão recuperar lugares que queríamos enterrados na memória histórica. É preciso estar-se atento.

 

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texto adaptado; originalmente publicado em Outubro de 2012. [link]