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Dias Assim

A arte de ser uma fraude


18.05.21

— A arte de ser uma fraude — O partido de Le Pen é acusado de desviar 6.8 milhões de euros de fundos europeus. Não deixa de ser engraçado que um partido (como os demais da mesma matéria genética) que se apresenta como anti-corrupção e anti-europa se aproveite de fundos europeus e ainda para mais de forma indevida. Isto comprova a minha visão destes partidos populistas da nova direita, que se dizem em nome do povo e contra o sistema - na verdade estão contra o facto de não terem acesso ao sistema. O triste é o seu eleitorado não perceber que estes são vendedores de ilusões, que na verdade não estão contra a Europa, não estão pelos descamisados da globalização, nem coisa alguma, são apenas sedentos de poder, às vezes mais racistas, outras mais fascistas, mas com uma ânsia inata pelo poder, para dele fazerem uso em proveito próprio.

A política como espetáculo


14.05.21

— A política como espetáculo — chamou-me à atenção a transformação de Pablo Iglesias após abandonar o «Podemos». A queda do "rabo de cavalo" é apenas o sinal mais evidente do desmaquilhar de uma construção política de imagem muito "nouvelle époque à la gauche", i.e., o paradoxo coevo entre valores e quotidiano que se traduz numa situação de ressignificação da culpa cristã em culpa burguesa, expiada através da ação política. Se André Ventura é um ator do populismo da "nova direita", que como Groucho Marx tem valores à escolha do freguês, Iglesias era um ator da "nova esquerda", incorporando a imagem que melhor vendia ao eleitorado. A política é um espetáculo.

A direita má não existiu, porque dela é o reino dos céus


13.04.21

— A direita má não existiu, porque dela é o reino dos céus — Tirando o Salazarismo que foi de direita porque foi um regime "bom", no quadro do romance com a memória histórica, não houve regimes de direita. O alinhamento retrospectivo do fascismo e do nazismo, em torno do socialismo, é muito interessante. Enquanto regimes autoritários e totalitários, baseados numa identidade nacional unívoca e num fenómeno racial, eram, por inerência, nacionalistas-conservadores. O erro é supor que os movimentos operários não tinham uma dimensão nacionalista e conservadora. Basta ver o operariado católico, um movimento operário conservador, embora humanista. Acresce, v.g., a dimensão de agregação do descontentamento popular que esteve na base do nazismo, um trauma com a memória histórica e o encontro de um inimigo. Sinais próprios do totalitarismo. Transformar esses elementos identificadores de um regime não democrático de direita em sinais de um regime não democrático de esquerda é um primeiro passo para normalizar os movimentos populistas da dita "nova direita" em crescimento na Europa. O comunismo, esse sim regime totalitário de esquerda, tinha uma matriz social e económica de supressão de classes. Naturalmente que na condição de extremismos existem pontos de contacto, mas a reescrita da história é um perigo que se propaga como um vírus. É o apelo judaico da "pureza" aplicada à ideologia política - só é de Direita o regime e a forma de governo que for perfeito. Imagino que o Chega seja o caminho, a verdade e a vida. Começo a ter saudades de Paulo Portas e do CDS-PP pré-paliativo. 

Micropost [75]


06.04.21

Aquilo que chamam Nova Direita caracteriza-se por ser ultranacionalista, securitária, populista (no sentido em que galvaniza um descontentamento das massas desprotegidas com um discurso conservador de costumes e de combate) e ultraliberal em matéria económica. Tirando este último elemento, em que difere da velha Direita que chegou ao poder há 100 anos?

Marcelino da Mata e o colonialismo


18.02.21

Marcelino da Mata tem sido instrumentalizado pela nova direita portuguesa como exemplo ilustrativo do país sem racismo. Com efeito, como um país que se miscigenou pelo mundo poderia ter um problema de racismo? Sucede, todavia, que o mesmo tipo de reflexão teve e continua a ter lugar no Brasil, a partir do nacionalismo "moreno" e da "democracia racial". O lusotropicalismo, o eixo luso-brasileiro da pós-racialidade baseia-se, sobretudo, naquilo que se designa por "racismo cordial", uma tipologia de relações de reciprocidade assimétrica e integração subordinada. Ou seja, não há racismo se cada grupo "racial" conhecer os espaços que lhes são lícitos. 

No caso de Marcelino da Mata o não-racismo português é expresso numa linguagem não-dita de que "até tínhamos um preto a matar pretos". Este tipo de argumento além de elementar é desonesto, uma vez que desconsidera o alinhamento colonial como um elemento do racismo. Parés (2006) e Guridy e Hooker (2018) mostraram a existência de negros alinhados com a sociedade dominante, negros com agendas de inclusão assimilacionistas, os quais foram determinantes, por exemplo, no combate às agendas da "negritude" e das religiões de matrizes africanas. Essa situação de alinhamento é, forçosamente, produto do "racismo cordial". 

Cólofon

Dias Assim é um blogue de João Ferreira Dias, escrito segundo o Acordo Ortográfico, de publicação avulsa e temática livre. Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

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