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Henrique Raposo é um cronista conservador. Nada contra. O problema é quando se confunde a posição de conservador com o apego aos extremismos moralistas e ideológicos. Na sua última crónica no Expresso, para poder atacar Maduro, confunde socialismo com regimes autoritários que derivaram do socialismo. Para ele, existe uma relação direta entre socialismo e ditadura. O problema é que este tipo de argumento populista é incapaz de explicar as ditaduras de direita, para além de ser incapaz de perceber o socialismo nas suas dimensões democráticas. Para este pilantra do raciocínio, só existe um modelo de sociedade possível e funcional: o do liberalismo, modelo esse que, aliás, tem feito maravilhas pela inclusão social e pela paridade. O maniqueísmo é tão decadente que virou kitsch. 

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[para que não sobrem dúvidas: não apoio Maduro]

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Não pretendo tomar posição a propósito do sucedido no Bairro da Jamaica enquanto não forem tornadas públicas as deduções dos factos. Neste momento, tudo o que seja dito em torno do sucedido tem a capacidade de capitalizar as posições extremadas.

Todavia, considero importante salientar o facilitismo que representa relacionar negritude e crime. É naturalmente fácil constatar o índice de criminalidade associado aos bairros mais pobres e neles encontrar, na Grande Lisboa, por exemplo, forte densidade populacional negra. O problema é inscrever a criminalidade na negritude. Se o raciocínio for esse, então as teorias da craniologia que no séc. XIX e inícios do séc. XX relacionavam as caraterísticas do crânio dos africanos a uma pretensa propensão para as práticas criminosas, fundando ali o racismo científico, estarão, novamente, em voga. Este tipo de raciocínio, ele sim criminoso, varre para debaixo do tapete o mais importante: o contexto socioeconómico. No período em que o racismo científico e biológico estava a ser teorizado, a presença dos negros no Ocidente era resultante do comércio de escravos, um modelo económico que se baseava na propriedade e exploração de pessoas a fim de baixar os custos de produção e potenciar os lucros. Esse modelo económico era perdoado, no seu sentido religioso, pelo aparelho teológico católico, que não considerava os negros pessoas, dispondo que não possuíam alma. 

O fim da escravatura trouxe uma nova realidade? Nem tanto. A circunstância de negação de identidade e autodeterminação dos negros foi substituída pela segregação racial. O racismo científico, depois de desconstruído, sobreviveu como dispositivo social, como recurso para a manutenção de um status quo de exclusão. Nas Américas e na Europa. 

Em Portugal, o racismo não existe. Este é um argumento repetido de tal forma que se tornou uma espécie de verdade sociológica. Tão verdadeira quanto a democracia racial no Brasil. Cá, como lá, enquanto os negros se mantiverem nas periferias, socializando nas suas geografias particulares, a paz social prevalece.  Sucede que essa guetização, esse empurrar com a barriga o problema da exclusão social e racial, somente adia a solução do problema. Não basta rezar para que a tensão social não surja para que ela permaneça adormecida. Como qualquer vírus, à mínima variação das condições ficamos diante de um surto. 

Portanto, sim, existe uma taxa elevada de criminalidade na população negra. É natural. Os processos de socialização em bairros de exclusão, de baixíssima mobilidade social, de baixíssima escolarização, de baixíssima capacidade de obtenção de conforto económico, só podem produzir comportamentos marginais. É por isso que os bairros de lata ou as favelas são "escolas de criminalidade", porque as possibilidades de fuga a esse modelo são mínimas. Morro do Alemão, Bronx ou Damaia. A associação entre criminalidade e negritude é produto das condições económicas e sociais dos sujeitos. Ali não basta ser inteligente para ser capaz de alterar a sua condição social. Diferentemente, em Cascais, no Leblon ou em Manhattan, onde, às vezes, os sujeitos intelectualmente menos aptos, gozam de condições favoráveis ao sucesso profissional. Não é por acaso que se ouve o insulto, tornado normativa social, de "preto estúpido". Ora quando esse "preto" é inteligente costuma-se dizer o quê? Que parece um branco. É preciso dizer mais? 

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Como se previa, até pelas declarações apressadas de Flávio Bolsonaro, meses atrás, a Venezuela é o palco escolhido para o confronto ideológico entre a aliança em torno de Trump e o eixo russo-chinês. Seja qual for o desfecho, a Venezuela continuará sem a sua autodeterminação. Estamos diante de um jogo geopolítico. Não é, nem jamais foi, o povo venezuelano a razão das coisas.

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Como sempre gosto do que escreve e como escreve Rui Bebiano. Num texto recente no seu blog, o historiador levanta um aspeto que não tem importância menor quando analisamos os percursos político-ideológicos do BE. Como sugere, o BE pretende falar em nome das "massas" e dos "trabalhadores" sem ser capaz de os atrair como eleitores. Em primeiro lugar, porque mesmo que se veja como radical, no sentido das lutas fundacionais do socialismo, o BE terá, sempre, de lidar com o espetro da máquina comunista, oleada durante décadas no operariado português, nos sindicatos com base de representação do partido, e na força simbólica de partido de luta de classes. Enquanto houverem sindicatos o PCP passará bem, e o BE jamais será capaz de capturar eleitorado naquelas franjas sociais. Em segundo lugar, a capacidade do BE de se posicionar no campo de ação do PCP é de fraca expressão porque é um partido fundacionalmente urbano, de questões urbanas e de atores urbanos. Trata-se de um partido lisboeta, e só posteriormente portuense, coimbrão, e pouco mais. A sua força na vila de Salvaterra de Magos é um caso excecional de ressimbolização ideológica ad hoc e ligada à capacidade de mobilização da sua líder local. 

Retomando. O Bloco de Esquerda é um partido de causas e caraterísticas urbanas cosmopolitas. Trata-se, pois, de um partido que tem, muito claramente, demarcados os seus lugares de fala, expressando-se nas causas feministas, da igualdade e da multiplicidade do género, no aborto, no casamento e na adoção LGBTI, na batalha das minorias. Não é por acaso que possui um eleitorado jovem e "alternativo", ainda em busca de abandonar as margens do Bairro Alto e do Largo Camões. São, pois, causas que não possuem uma amplitude nacional, difíceis, ainda, de aceitar por largas franjas sociais portuguesas, umas muito arreigadas às lutas operárias, outras profundamente conservadoras nos seus valores morais, outras demasiado burguesas, para quem votar no BE não fica bem no seu núcleo social, mesmo que se revejam no campo da ação bloquista. 

Por fim, há um problema de legitimidade da fala do partido. Uma vez que o BE é, por natureza da ação política, um partido de causas fortes, previamente enunciadas, ele debate-se com a tipologia da sua estrutura partidária. Não é por acaso que ficou conhecido como "esquerda caviar", resultante de uma composição burguesa esquerdista, onde a clivagem entre o campo da teoria e da perceção da realidade se fazem sentir. É um partido que quer falar de minorias mas que não as possui na sua estrutura, antes assimilando um conjunto de intelectuais que se consideram a si mesmos representantes daquelas, mas que vivem fechados num bolha. Se é verdade que do ponto de vista da representação feminina e LGBTI o BE conseguiu coincidir agenda com agentes políticos, o mesmo não se pode dizer das minorias étnicas. E porque motivo o BE não é um partido que se posicione na defesa das minorias religiosas?

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Enquanto eleitor de esquerda, do centro-esquerda mais canhoto, digamos assim, não me vanglorio, em tempos que correm, com a situação decrépita que parece devotado o maior partido do centro-direita/direita português. A história da democracia portuguesa é feita também e muito, graças ao PSD. Nenhuma democracia sobrevive quando centro se esvazia. Ora, em tempos de crise ideológica e social, em que discursos sedutores de demonização de um «outro» com o qual não se consegue articular uma alteridade positiva, e de hipermoralidade religiosa que se julgava perdida com o avanço das sociedades, é fundamental que os partidos ditos «moderados» sejam capazes de se manter fiéis aos seus edifícios ideológicos, agarrados à democracia e livres de suspeição e da mácula da corrupção. Quando isso não acontece crescem coisas como o Vox, a Frente Nacional, atual Reunião Nacional, elegem-se pessoas como Órban e Bolsonaro. Com o perigo do fascismo ali ao lado, cada vez mais normalizado, Portugal não está assim tão imune a adesões populistas, faltando, apenas, o líder certo, num país que sabemos ser profundamente racista e de forte pendor messiânico. Será o espaço deixado em vazio por um PSD enfraquecido que esse movimento ocupará. Por isso sim, precisamos salvar o PSD. A bem de todos. 

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 Vasco Pulido Valente escreve no Observador sobre o Islão no Ocidente. E fá-lo num emaranhado mental profundo, na sapiência morna da ignorância. Ignora que o multiculturalismo pressupõe a pluralidade e não se reduz ao binómio cristãos-muçulmanos, muito menos numa ótica bons-maus. Nenhuma sociedade ocidental é produto da visão católica conservadora que Pulido Valente parece ter adotado na época da revista "O tempo e o modo". É um facto que a sua crónica apresenta argumentos válidos, coerentes com a realidade. O problema é, por um lado, a solução apresentada por VPV, e por outro a noção obtusa de «multiculturalismo» como dizendo respeito, no Ocidente, à presença do Islão. Ignora VPV que é multiculturalismo é o kizomba e a salsa, ouvidas nos bares lisboetas, o fado em Paris, a gastronomia gourmet e as múltiplas fusões de aromas e sabores, as filosofias orientais, as múltiplas formas religiosas com que os portugueses se deparam e às quais aderem de uma forma institucionalizada ou nos trilhos da «Nova Era». A menos que VPV encerre uma sociedade dentro de si mesma, fechando as suas fronteiras, e fundamentalizando-a - coisa que parece condenar - o «multiculturalismo» será, sempre, marca d'água da construção do tecido social urbano e não apenas. Mas eventualmente VPV acredita que todos os portugueses são católicos, escutam apenas música portuguesa e comem apenas a comida das nossas avós. 

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