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Dias Assim

O beija-mão presidencial.

Março 17, 2016

 Nada impede que Marcelo Rebelo de Sousa seja católico, ou que fosse de outra qualquer religião, ou até, que na linha da New Age fosse mais espiritualista do que religioso. Mas já me preocupa que a agenda presidencial de Marcelo se inaugure com uma visita ao Vaticano. Este primeiro ato internacional do Presidente da República, culminado com um confessional beija-mão, aporta-nos a um tempo em que cabia ao Vaticano ratificar a figura régia de uma monarquia europeia. O mito da laicidade do Estado Português é feito evidência neste gesto. Não basta Marcelo ter convidado uma série de representantes religiosos para na Mesquita Central de Lisboa rezar pela paz. Essa plurividência presidencial esbarra com um tão grande ato político de veiculação religiosa. Não é o Marcelo cidadão, é Marcelo Presidente da República num beija-mão confessional. Espere-se por um 13 de Maio político. 

A Igreja de Francisco.

Dezembro 02, 2013

A Exortação Apostólica do Papa Francisco tornou-se num curioso campo de debate, colocando a «esquerda» e a «direita» a repensarem a sua leitura papal. A descoberta da Doutrina Social da Igreja por parte da Esquerda Europeia – bem a propósito do contexto político-económico-social vigente, numa época em que o desassossego é tão premente quanto real, e tão urgente quanto instrumentalizável – e o abanão dos alicerces ideológicos-cristãos edificados pela Direita Europeia são, na mesma medida, fatores risíveis, ou seriam, se na verdade não revelassem, per se, a longa cortina erigida entre a doutrina fundacional da Igreja e o seu longo discurso histórico a propósito da vida em sociedade.

 

A  Doutrina Social da Igreja nasce com a encíclica Rerum Novarum, do Papa Leão XIII, a 15 de maio de 1891. Embora se constitua como uma data de  viragem das preocupação vaticanas a propósito do capital, do trabalho e da pobreza – em rigor sob as flores do maio de Das Kapital de Karl Marx  e como contrarresposta da Igreja, numa verdadeira lógica de «via alternativa» - ela apenas retoma –retenha-se – os primórdios doutrinários da Fé de Cristo.

 

Quer isto dizer, ipsis verbis, que doutrinariamente a Igreja sempre foi – reconhecendo o «realinhamento retrospetivo», recorrendo aos termos de Arthur Danto, e o respetivo cuidado necessário – de «Esquerda». Pelo menos naquilo de que a «Esquerda» é mais fundacional: a pobreza, a solidariedade, a igualdade, a liberdade, e a justiça equitativa. Não obstante, ao sabor dos contextos, e na promiscuidade entre a Santa Sé e o poder político, foi-se construindo a ideologia da Igreja. Portanto, enquanto dogmaticamente a Igreja é por definição de «Esquerda», o seu substrato social foi e é de «Direita». Os meandros da realeza e do clero são bem prova disso. Ademais, as oposições da Igreja aos métodos contraceptivos, às relações homossexuais, ao aborto, etc., não têm necessariamente a ver com a Doctrina Christiana mas antes com modelos de sociedade construídos nas margens do Advento Messiânico. 

Um Brasil Papista.

Julho 29, 2013

Historicamente católico, demograficamente pluralista, o Brasil está longe de ser um país laico ao nível das instituições. A perigosa coabitação entre poder político e proselitismo evangélico, bem patente na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, presidida pelo Pastor Marco Feliciano, é um dado da mais alta preocupação. No entanto, o cruzamento entre religião e poder político ganhou ontem novos contornos com o discurso de Michel Temer, vice-presidente brasileiro. Que Michel Temer seja católico convicto não nos cabe julgar, tratando-se pois do direito de consciência individual. Todavia, que o seu discurso enquanto representante do governo brasileiro estivesse tão marcado pelo casamento entre governo e Igreja Católica já importa salientar. Um Estado laico deverá receber o chefe de Estado do Vaticano nessa mesma condição, ainda que abrindo as portas aos caminhos devocionais. Não deve, jamais, expressar o momento como uma comunhão entre o Estado e a Igreja. A afirmação do Brasil como um país católico, patente no discurso de Temer, é nefasta porque desrespeita a noção de laicidade e desrespeita a manta de retalhos devocional que compõe o tecido social brasileiro, independentemente da simplicidade e simpatia que o Papa Francisco imana.

Cólofon

A Morada dos Dias é um blogue de João Ferreira Dias, escrito segundo o Acordo Ortográfico, de publicação avulsa e temática livre. Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.