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A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

"assim se vê a forca do PC"

Outubro 16, 2019

A prontidão com que o PCP se desenvencilha da Geringonça, deixando a ideia de que não houve um acordo mas um entendimento ao longo da última legislatura, revela uma interpretação superficial dos resultados eleitorais, que desconsidera as alterações políticas da sociedade. Uma fatia do seu eleitorado histórico já faleceu e a renovação geracional é ténue. As lutas de Esquerda já não são apenas da ótica proletária, mas de questões LGBTI, de minorias étnicas, e outras questões sociais sobre as quais o PCP tem uma visão quase ruralista. As gerações mais jovens não se reveem em Jerónimo de Sousa e na agenda do partido, encontrando mais representatividade no BE e no Livre. Acrescente-se que o próprio BE tenderá a assumir uma posição mais euro-participativa, ou arrisca-se a ver o seu eleitorado migrar para o Livre.

PCP: partido católico português?

Agosto 30, 2018

Recentemente aludi às ligações históricas do PCP com a causa operária católica, salientando a forma como a doutrina operária foi mesclada com a doutrina social da Igreja. A esta herança católica que passa quase despercebida, junta-se o conservadorismo ideológico que também não parece evidente, mas que se traduz numa ideia de sociedade dividida entre operariado e detentores do capital, um modelo de sociedade que não reconhece -- ou que para fins de património ideológico prefere não reconhecer, o que vai dar ao mesmo -- a existência de uma classe média que não se revê numa luta de classes, mas que antes se concebe como parte de uma sociedade desclassificada, no sentido de fronteiras sociais abertas, onde os hábitos de consumo estão acessíveis a todos, seja diretamente seja por via de crédito. 

É nesse quadro que é urgente entender o alinhamento do PCP com a direita em matérias fraturantes entre esquerda e direita, como a mais recente questão da eutanásia, chumbada, precisamente, pelo PCP. Ficamos agora a saber, pelo Diário de Notícias, que o PCP volta a alinhar à direita, desta feita na questão do período internupcial, que estipula que os homens só possam casar 180 dias depois do divórcio oficializado, e as mulheres 300 dias (que podem ser reduzidos a 180 se provado que não estão grávidas). Esta matéria volta a colocar a nu o corpo ideológico do partido comunista português, que pretende cristalizar a sociedade portuguesa, num ímpeto de controlar aqui que dificilmente (e muito felizmente) não tem volta, preferindo barricar a sociedade a alterar o seu aparelho ideológico. Este PCP não é para jovens. 

O PCP eutanasiou-se

Maio 30, 2018

A posição do PCP em relação à eutanásia apanhou muita gente de surpresa, gerando uma onda de revolta inclusive em parte significativa do seu eleitorado liberal. Todavia, é preciso inscrever a tomada de posição num quadro de aparelho ideológico do partido. Apesar de representar o eixo clássico de esquerda, o PCP distancia-se, ideologicamente, do BE e da ala mais esquerdista do PS, efetivando-se como um partido conservador no seu sentido estrito de arreigado a um património ideológico e social. O reduto ideológico do PCP como partido da causa operária opera num sentido de instituição de memória coletiva, reforçando lugares-chave das suas fileiras programáticas. Imbuído desse manual operário, veiculado num Portugal fabril e agrário que já mal existe, e arreigado a uma estrutura interna devedora de uma organização operária assente na antiguidade, o PCP postula-se num quadro utópico que somente amiúde vai correspondendo à realidade. A todo este cenário cristalizador de uma narrativa idílica, junta-se a sombra da ação do operariado e do sindicalismo católicos. Não é possível esquecer o lugar ocupado pela «questão operária» -- i.e., descanso e direito à missa, condições de trabalho e caridade -- na formação da Doutrina Social da Igreja, desde a Encíclica Rerum Novarum, do Papa Leão XIII. A criação da Liga Operária Católica (LOC) e da Juventude Operária Católica (JOC) , iniciadas em Portugal em 1935, marca a ação doutrinária católica no seio das classes operárias, por natureza mais conservadoras do que as elites intelectuais de Esquerda. A conciliação da luta operária com a ação social católica permanece viva e, apesar de menos expressivas, tanto a LOC quanto a JOC continuam em funções no Portugal de hoje. Nesse sentido, a convergência entre o ideal católico e do PCP de santificação da vida não deve surpreender, mas permite ao seu eleitorado mais jovem e progressista repensar que PCP querem para o futuro.  

O PCP e o Muro de Berlim.

Novembro 10, 2014

A propósito das comemorações do quarto de século da queda do muro de Berlim, o Partido Comunista Português, publica no seu jornal, Avante, uma interessante nota. O que importa reter dessa missiva é a perpetuação de uma narrativa de uma sociedade em processo amplamente marcada pela dicotomia bem/mal, que endereça o comunismo como o messias, o branqueamento das fugas que representam uma rejeição a um modelo de sociedade, e a consolidação de ideias de pureza e nostalgia como produtos ideológicos e ritualizados. 

Palavra de Bernardino.

Novembro 11, 2013

Numa entrevista ao jornal 'Público', Bernardino Soares, atual Presidente de Câmara de Loures, colocou de parte a hipótese de um dia ser líder do PCP, exprenssando-o nos seguintes termos: «A legitimidade eleitoral não tem nada a ver com isso. Para ser secretário-geral do PCP é preciso um conjunto de características que o Jerónimo de Sousa tem e que, porventura, outros camaradas meus terão também. Essa questão não se põe em relação a mim. Eu nunca pus a hipótese». Nas entrelinhas lemos toda a lógica do PCP. Não é uma questão de qualidade mas de características e, já agora, de antiguidade, esqueceu Bernardino de referir. A antiguidade ainda é um posto no mundo vermelho. O que é lamentável, quando o PS vive dias de amargura identitária, entre o cá e o lá da esquerda lusitana e dos entroikados, o BE permanece como um partido de rua e a esquerda precisava de um PCP renovador, não apenas bem firmado nas suas estruturas filosóficas de apoio ao proletariado, mas também ativo e adaptado à realidade social, cultural e política nacional, com uma dimensão abrangente capaz de ser a esquerda que a esquerda precisa, e não a esquerda que desconforta o eleitorado da esquerda moderada (leia-se não radical).