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O Avô Dias

02.02.18

NA DÉCADA DE 1940, numa altura em que a vila ainda dava pelo nome de aldeia, o filho da Benta, sobrinho da Cipriana, as gémeas, saía da fazenda com um andar determinado. Não sabia, ainda, que acabaria por fazer a vida na Lisboa. Naquela altura era o triunfante João «guerrilha», alcunha que identifica a família, em particular a sua mãe, conhecida por fazer frente aos homens, que lhe batem à porta, de pau na mão. Não leva o bordão das nazarenas na boca, era uma mulher de poucas falas, mas leva o bordão na mão, e fazia lei em sua casa. Ora, o João «guerrilha», ou o «couve-flor» como era chamado na sua própria aldeia, gostava de se fazer notar, e fazia-o criteriosamente, através do ruído das suas botas, arrastadas e batidas no final de cada tarde, anunciando em toda a aldeia "lá vem o couve-flor". Na aldeia vizinha, o (agora sim) João «guerrilha», era já sobejamente conhecido, com o seu jeito gingão e assobio na ponta dos lábios, um "cantador" de fados, mas acima de tudo de mulheres. Galanteador, não perdia oportunidade de dar um salto até Espanha, montado em burro, se fosse preciso, para ir "a bailar com a espanholitas". Era um D. Juan sem modéstias, e sem olhar a consequências. Quando no serviço militar oficial se viu metido num barco para a Madeira, não tardou a encontrar com que se ocupar pela selvagem ilha portuguesa. A fama espalhou-se rápido, e o avô Dias, na altura solteiro, mas já pai, viu-se forçado a refugiar-se no quartel, por várias ocasiões, a monte dos homens da região. 

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Acabou a fazer vida com a avó Ana, uma mulher da vizinha aldeia, mais alta do que ele, bem mais alta. O feitio irascível do filho da velha Benta acompanhou-o toda a vida, e as cunhadas e cunhados bem se lamentavam que "ele não era para ela, ela é que se foi meter pelo meio". Foram a casar em Lisboa, já o meu pai era rapazote, na altura em que veio para Lisboa, e largou as saias das tias que o haviam criado. Consta que o casal Dias haveria de ir a Viana de lambreta, uma coisa de coragem, há que dizer. Era um homem da Legião portuguesa, cujo cinto servia mais para os castigos educacionais do que para as calças. Era, de igual modo, um comunista enviesado, mais comodista do que comunista, dado a sestas no local de trabalho, onde tinha um sofá instalado para o efeito. 

Sempre gingão, lembro-me dele bem disposto, mesmo trajando o luto pelo filho mais novo perdido. Despautério da vida que lhe tirou o caminho da rádio e do fado. Na casa quase dos 70 ainda corria pelos corredores comigo, jogava à bola nos meus aniversários, e levava-me ao estádio, onde fingíamos ser adeptos do Real Madrid, uns espanhóis que iam ao estádio da Luz como turistas. Lembro-me que comia bem e bebia melhor, sendo, de igual modo, um condutor terrível. Isso jamais o afastou da estrada, que fazia fielmente em direção ao seu Alentejo, para ir buscar azeite, bolos secos e vinho, ou para o Mochão, para a casa de beira de Tejo que servia o repouso de final-de-semana. 

O João «guerrilha» foi-se embora neste milénio. Não viu o Benfica penta campeão, não conheceu bisnetos. As memórias restam-me poucas, algumas na sua sala na velha Lisboa, em frente à televisão - como naquele dia em que o FCP foi à Luz vencer por 5x0 -, uns aniversários soltos, uma bola de futebol, e alguns passeios. Pouco dado a costumeiras coisas, o avô pegou na avó e foram viajar, gozando a reforma intensamente, e roubando-nos as memórias que poderíamos ter tido, na adolescência da vida. Como não era dado a religião, não acreditava em anjos, nem no Inferno que não o da Luz, aposto que onde estiver estará a dar cabo da paciência das "senhoritas" e da paciência da minha avó.

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Os reencontros de antigos colegas do liceu têm um condão psicológico que se inscreve em sentidos de nostalgia, em que se volta no tempo e o tempo parece recuperar-se novamente, como se tudo se tivesse mantido ali, em cálida saudade e vitalidade. À margem da maresia da memória, tais encontros oferecem-nos possibilidades de olhar as formas como se recuperam modelos de interação, como se buscam, novamente, os enredos comunitários, como a memória coletiva opera e se institui, como é partilhada, ou como queria Halbwachs, a forma pela qual a nossa memória se beneficia das memórias dos outros. Encontramos no envelhecimento alheio o nosso próprio, ao mesmo tempo que para além do imediato se vislumbram velhos traços de personalidade, e nos deparamos com o resultado do devir: a forma pela qual as personalidades mudam, os caminhos de conhecimento que trilham, e os sujeitos que se tornaram. Quando acontece a vida, avalia-se nos outros a nossa própria medida da existência e, assim, o que temos, de onde vimos, para onde vamos, é articulado com a discussão interna, resultante da alteridade, de avaliar quem somos, afinal, na engrenagem das expetativas.

 

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Dado à nostalgia, quer como sentimento quer como tema de olhar científico, não posso deixar de ter uma relação emocional com as estações. Por sua natureza cíclica, elas remetem-nos para as paisagens da memória, para a recuperação dos fragmentos que reatualizamos pelo gesto saudosista. Como afirma Stephen Legg, no seu texto "Reviewing geographies of memory/forgetting", cada recordação é uma recordação tanto do evento em si quanto da última vez que o mesmo foi lembrado. Por essa mesma razão, a memória é uma sobreposição de memórias, um processo cumulativo. Quando regressamos, sucessivamente, a lugares onde fomos felizes (e sabemos que há quem nos aconselhe a não o fazer) somos confrontados com as vicissitudes do tempo, com as marcas impressas em nós e nos lugares, forçando-nos a paisagem a recordar o que já ali vivemos. É por isso que a memória tende a necessitar da bengala do espaço para se fazer ouvir. É por tudo isso que odeio tanto Agosto, apesar de adorar o frenesim dos mergulhos, o sal na pele, ou a leveza fluvial, o dourado do bronze, os chinelos, as toalhas, a areia, os gelados, o cansaço das corridas à beira-mar, os livros lidos entre rochas. E odeio-o porque me obriga a recordar, porque me arrasta sonâmbulo pelas margens da memória, pelo rio de vivências que me faz recuperar. O que foi feito, o que gostaríamos de ter feito, o que não deveríamos ter feito. Tantas coisas.

O Verão mostra-nos que quando não se vai é pior. Ficar em casa, deitados à sombra do Verão não vivido, é obrigarmos-nos a reviver Verões passados. Mesmo aqueles marcados pela tristeza morna estival, hoje vemos-los com nostalgia, com a saudade do idílico e do maravilhoso. O Agosto em que não fui, mergulhado no triste escuro de um quarto em maratona televisiva, e tardes na escola vazia entre balizas e cestos de basket, contém o tempero da saudade. Os Agostos em que fui, em que fiz balizas com chinelos e raquetes, em que estive na água até à hipotermia, em que tomei pequenos-almoços de gelados, em que corri canaviais a fora e estradas de chão de terra em cima de uma bicicleta e com o meu velho walkman, em que joguei finais contra mim mesmo, em que fiz de um tudo e um tanto. Por isso não posso deixar de pensar em Svetlana Boym e a frase com que a autora, entretanto falecida, termina o seu The Future of Nostalgia: «Sobreviventes do século XX, somos todos nostálgicos de um tempo em que não éramos nostálgicos». 

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125 Azul

21.06.17

 

"Foi sem mais nem menos que um dia selei a 125 Azul", assim diz a canção dos Trovante com que cresci, cruzando essa estrada, rumo ao Verão da Costa Alentejana, onde fui imprimindo memórias, camadas de recordações e vivências, da infância à idade adulta. E com a soma dos dias visitou-me o desejo de "sem mais nem menos" selar a 125 azul, assim, no repente do instante. E foi ontem, na celebração dos afetos de 15 anos, o peso de um tempo que não senti, que fui levado, nas correias dos amores, até ao coração das lembranças, aos cheiros, à brisa que da água sobe, aos sons, aos lugares que se mutaram e aos que se mantiveram, e é assim que a vida tem mais cor, que vai para além da soma dos dias e se faz sentir. E não resta a quem vive senão agradecer a quem faz viver. 

 

{fotografia de Sandra Fialho}

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Em finais da década de 1980, inícios de 1990, os Jogos Sem Fronteiras animavam as noites do começo de Verão, já para lá da época escolar, na RTP1. Muitas vezes era preciso um grande esforço para me manter acordado para ver JSF, uma luta por vezes inglória, perdida para o cansaço da praia. Tratavam-se de jogos engraçados, muitas vezes co-apresentados por senhoras que ficavam a sorrir para a câmara, de microfone na mão, e a narrar somente os pontos. Peculiaridades à parte, os JSF ajudaram a construir uma ideia de Europa que hoje é agredida. Ao lado do Europeu de Futebol, os JSF foi o meu primeiro horizonte nesse sentimento de união geográfica e além linhas entre Portugal e a Europa.

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Escrevi este romance como um sentimento de obrigação, para comigo e para com as pessoas que o viveram. Por isso é em parte ficção, em parte factos reais. Trata-se de uma viagem que dura 50 anos, cruzando gerações, mas mantendo um fio condutor: o amor. Não é, contudo e apenas, uma estória de amor, é um romance de costumes, uma visita aos portugueses emigrantes, ao Agosto quente. Há queridos meses de Agosto que podem tornar-se tragédia. O livro está disponível para download ali: http://www.elivros-gratis.net/livros-gratis-literatura-estrangeira.asp

 

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 Sempre fui um consumidor da nostalgia, ainda antes e bem antes do seu boom mais recente. Por isso é uma delícia ir a estas barbearias revivalistas, impregnadas de objetos vintage. No entanto, por contingências de agenda e geografia, fui a um salão unissexo de uma jovem de cabelos às cores, oriunda do Norte da Roménia, mais para os lados da Hungria. Faltou-me, claro, a toalha quente, a oferta da cerveja que não bebo, e toda aquela parafernália retro. Mas no fim, o corte de cabelo ficou exatamente igual e fiquei a saber um pouco mais da Roménia, escapando ao cliché do "olha-me aquela do outro lado da estrada", conversa que só interessa a avulso ou numa saída à noite.

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© Fotografia de Siw Aldershvile

 

Sobre a chuva escreveu Sherwood Smith, «The only noise now was the rain, pattering softly with the magnificent indifference of nature for the tangled passions of humans». É essa indiferença que nos cativa, incessantemente escorrendo pelo tempo, desenhando abstratos rascunhos nos vidros e lavando as marcas humanas na calçada. Por isso gosto tanto de setembro e outubro, quando a folha cai e a chuva vem chegando ainda a medo, convidada pelo vento a fazer morada nas horas soltas dos nossos dias. É como se a chuva lava-se os limites disformes do quotidiano, das vivências vadias e fugidias, enquanto nos convida à quietude, à contemplação, à introspeção, ao silêncio, aos livros, às bebidas quentes e aos filmes. É como se a chuva fosse a senha para mergulharmos dentro de nós. 

 

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Adeus Avô

30.08.16

E depois do adeus, a vida continua. Acabo de saber, avô, que te foste. Não foste na paz tão desejada, foste em meio a sofrimento, mais ou menos como escolheste levar a vida. A felicidade já te havia fugido pelos dedos, os dias eram apenas horas em sucessão, num compasso lento de agonia de quem se aguenta sem saber bem porquê. Talvez pela "borboleta", com que escolheste fazer vida e casulo.

Partilhámos o insondável gosto pelos livros, pelas letras impressas a papel que nos fazem sonhar e nos transportam a outros mundos. Trocámos impressões honestas sobre o mundo. Apesar de o vermos a partir de diferentes colinas, de olharmos o horizonte com diferentes filtros, com ideologias políticas tão distantes, sempre houve, da minha parte, um total respeito por quem se edificou noutros tempos, se fez homem sobre outras geografias e sensibilidades. Era difícil perceber que aquele homem pequenino, de ascendência judaica bem presa ao apelido Ferreira, Ferreira do Porto, com qualquer coisa britânica ali metida, fosse admirador das utopias arianas, e ao mesmo tempo um homem bom, que tirou sempre de si em prol dos outros, e dedicou os seus dias e a sua saúde em favor da família. 

Vale recordar a história que sempre me contava. Havia um patrão, na Maia, na década de 1940, extremamente baixo, que, certa vez, ao visitar a sua fábrica, se cruzou com um trabalhador muito alto, o qual parou a olhar o patrão, de cima. O patrão, do andar de baixo mirou-o e disse - "Estás a olhar, parece que queres que te dê sociedade. Diz-me quanto tens, eu digo-te quanto vales, nada tens, nada vales". Terminava a narrativa sempre dizendo que ainda hoje é assim, valemos sempre aquilo que temos. 

Até para sempre, avô, em cores azuis-e-brancas, carago!

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Nenhuma tarefa é mais árdua na escrita científica que a de concluir. Não se trata, apenas, de proceder ao levantamento de tudo o que foi dito ao longo de um artigo, monografia ou tese. É muito mais do que isso - é repensar os objetivos iniciais, reconhecer as mudanças de rumo, as novas leituras, as possibilidades levantadas, as teorias propostas e as rejeitadas, as novidades oferecidas à ciência, o repensar os problemas centrais. Concluir é refazer o caminho e fechar uma dissertação sobre um tema. Concluir é fechar a porta de uma jornada. E, como tudo na vida, quando chega a hora de apagar a luz e fechar a porta, as coisas muitas vezes são morosas e cheias de receios e desafios. 

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