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Dias Assim

06
Abr21

A "raspadinha" e a dependência

Como muito bem elenca Daniel Oliveira, 80% dos viciados em "raspadinhas" advêm das classes mais baixas da sociedade portuguesa, sendo um vício sem conotação social negativa, invisível e carente de regulamento de inibição. Esta situação deixa os mais vulneráveis economicamente e dependentes de um vício com a fatura de contribuir para o financiamento do património. No entanto, esta abordagem parece-me excessivamente paternalista -- um paternalismo de esquerda, de quem vestindo a casaca de operário, mas com estilo de vida de classe média, finge ser operário -- e enviesada pelo efeito tributário associado ao mesmo, revestindo o Estado de uma imagem de Sheriff de Nottingham. Se olharmos para o lado, para outro fenómeno de vício, o tabaco, percebemos também que este é, sobretudo, consumido pelas classes mais baixas da sociedade. O mesmo se aplica ao consumo de vinho de forma dependente, sobretudo por homens acima dos 50 anos e de condição económica e social vulnerável. Não sendo, no cômputo geral, exatamente os mesmos sujeitos, são, todavia, parte dos mesmos escalões económico-sociais. Ora, parece-me que a preocupação com a "raspadinha" vem revestida de um excesso de zelo, zelo que falta, portanto, em matéria de consumo de tabaco e de álcool, aos quais poderíamos acrescentar os casinos online, de fácil acesso e geradores de elevada dependência. Das duas uma: ou educamos toda a população para os riscos do álcool, do tabaco, dos vários tipos de jogos, etc., fomentando uma política social de combate às dependências, tratando-as de modo igual, ou deixamos a situação nos alertas mínimos e na máxima liberdade dos sujeitos, sem um regime de zelo face uma dependência de entre as várias que afetam as mesmas populações. De contrário estamos a dizer que a "raspadinha" é mais nociva que o álcool ou o tabaco. Ou de outra forma, que estamos mais preocupados com a utilização de um imposto para fins socialmente úteis, do que com a indústria do tabaco e do álcool, muitas vezes com uma imagem socialmente mais favorável, em virtude de um culto hodierno do vinho. 

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08
Fev21

O fecho das escolas e os que ficam para trás

O jornal Público traz uma reportagem que mostra como as assimetrias sociais estão bem patentes neste momento de regresso às aulas online. Esta situação deixa-nos, enquanto sociedade apreensivos, particularmente quem tem um olhar abrangente sobre o país. Susana Peralta, como outras tantas pessoas, apresenta este cenário como justificação para que as escolas tivessem permanecido abertas. Em rigor, na escola do meu filho mais velho, várias crianças não têm acesso às aulas online, nem suporte familiar que lhes permita o acompanhamento escolar. Esta situação é profundamente preocupante, porque agudiza o fosso social e cristaliza as fronteiras sociais, deixando muitos para trás, porque a meritocracia funciona muito bem na Quinta do Patino. Mas isto não invalida que as escolas eram focos de infeção, e que tal facto pesou e muito, inclusive porque muitas crianças estavam e estão, quotidianamente, entregues aos avós.

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Dias Assim é um blogue de João Ferreira Dias, escrito segundo o Acordo Ortográfico, de publicação avulsa e temática livre. Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

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