Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

04
Jun20

O fardo de Floyd foi não ter farda

A propósito do homicídio de George Floyd, escreve André Ventura no Twitter que com ele ofender polícias vai-se acabar. Isto do nós contra eles é uma maravilha. E eu a pensar que a polícia era um dos garantes da dignidade dos cidadãos. Não que discorde da necessidade de respeito pelas forças de segurança, bem como do reforço de meios e condições, mas será que o candidato-a-tudo também pretende acabar com a corrupção, crime e violência policiais ou o seu propósito é instaurar um estado policial onde as forças de segurança pública sejam inimputáveis? Onde é que já vimos isto?

30
Mar20

A manhã depois do vírus

Nem mesmo durante a II Guerra Mundial a indústria esteve parada. Convém ter presente que o rescaldo da pandemia será duríssimo. Os Estados estão a apoiar as empresas procurando evitar a falência em catadupa, e a investir nos serviços nacionais de saúde tentando, no possível, dar resposta à crise humanitária que vivemos. Na manhã seguinte não será tudo igual ao que era antes. A extensão da lesão na economia dos países e a capacidade de recuperação dependerão da estratégia comunitária a ser adotada. Ou a Europa vai junta, ou a Europa enquanto ideia política acaba. As soluções simplistas dos nacionalismos vão estar à flor da pele. Soluções que passarão pelo recuo histórico dos vários países, seduzindo as populações ao regresso dos regimes autoritários. Fazer face a isso passa por incentivar de forma extraordinária a indústria, o comércio, o turismo. Apoiar de modo musculoso os setores vitais das várias economias a fim de os revitalizar. Como se de um pós-guerra se tratasse. Porque o é.

29
Nov19

O problema de fundo no caso do LIVRE e Joacine

A reboque dos péssimos tempos que vivemos, o escrutínio a Joacine Katar Moreira tem o problema de soar sempre a racismo. E por isso mesmo, os mais fiéis eleitores e apoiantes da deputada do LIVRE arreigam-se em seu redor, porque avaliar as decisões políticas de Joacine é fazer purgas de caráter, é reproduzir o racismo estrutural e reavivar o determinismo racial. O excesso de atenção mediática, que resulta de uma combinação entre a pessoalização da agenda partidária e a exotização do pioneirismo da deputada enquanto mulher negra e única representante de um partido estreante, contém a tensão entre a descolonização como necessidade intelectual, a descolonização como ato político de combate à invisibilidade racial e a descolonização como um ataque à heróica história de Portugal.

Ora, esta radicalização dos «lugares de fala» putrifica a política portuguesa, porque não permite olhar objetivamente os acontecimentos sem os inscrever num contexto social de combate cultural e descolonização do pensamento. O problema é que a situação política objetiva do braço-de-ferro entre o LIVRE e JKM não deve ser inscrita num contexto racializado. Quem quiser atacar a deputada por ser negra, feminista ou gaga deve retirar-se da ágora. E o mesmo é dito para quem quiser elevá-la a mártir e messias. 

Objetivamente, o escrutínio a JKM está num nível superior ao de André Ventura. Mas as razões residirão em matéria racial ou em protetorado mediático do líder da extrema-direita? Nenhum dado aponta nesse sentido, mesmo quando parece formar-se um eixo de apoio camuflado a André Ventura no quadro do grupo Cofina. Pelo contrário, a responsabilidade por esse peso excessivo de atenção negativa deve-se, sobremaneira, ao desencontro do partido liderado por Rui Tavares e a sua deputada única na Assembleia da República. E o desencontro não é, somente, ao nível da comunicação, como tem sido mencionado. Longe disso. O desencontro reside, sobretudo, na agenda política e no modo de fazer política. JKM acredita na pessoalização da atividade política, que a ação do LIVRE é por si, em si e sobre si. Não é por acaso que afirma que se elegeu sozinha e que o partido não tem de lhe ensinar a fazer política. É soberba? Bom, imprudência é certamente. Embora haja que reconhecer que tal "arrogância" seria tolerada em André Ventura e, aqui, não poderemos escapar às malhas da racialização e do imaginário salazarista dos negros humildes enquanto metáfora para subserviência. Nada obsta, todavia, que lhe possamos fazer a crítica do deslumbramento e da má assessoria que lhe é prestada, que tem contribuído para um clima de guerra e não de serenamento. A estratégia de silêncio do BE em relação à saída de Mamadou Ba do partido revelou-se uma lição. Ao não se manifestar, o partido impediu que o assunto se tornasse num debate sobre racismo, anticolonialismo, necessidade de descolonização, e tudo o mais que não abonaria a favor de nenhuma das partes. O que o LIVRE não entendeu, o BE aprendeu. 

O próximo congresso do partido irá determinar os rumos do partido, se de facto o LIVRE vai permanecer como uma reciclagem do BE dos primeiros tempos – radical, ultrapessoalizado e delimitado na sua agenda identitária –, ou se vai encontrar forma de fazer caber a agenda identitária num programa alargado de reivindicações políticas. O que não pode, sob prejuízo de esgotar de vez a imagem quer do partido quer da deputada, é permanecer em disputa pública e desencontrado.

26
Nov19

Em Queda Livre

O LIVRE falhou o prazo para a entrega do seu projeto-lei sobre a nacionalidade, uma das bandeiras do partido. A justificação reside, segundo declarações oficiais do assessor de Joacine Katar Moreira, nas já conhecidas falhas de comunicação entre a deputada e a direção do partido. A sucessão de falhas de comunicação num partido de reduzidas dimensões e que, inclusivamente, em tempo de campanha eleitoral possuía um número WhatsApp para contacto por parte dos eleitores, é pesarosamente suspeita. Numa matéria absolutamente vital para o partido, que possui uma agenda essencialmente identitária, o incumprimento do prazo revela mais do que uma falha de comunicação, uma vez que é expectável que um partido candidato à AR, e que tem nesse tema um ponto nevrálgico, tivesse já um projeto-lei sobre a matéria previamente elaborado. 

→ obrigado à equipa do Sapo.pt pelo destaque deste post.

22
Nov19

Micropost [21]

A atenção que vai ser dada às precárias condições dos polícias, com um atraso de mais de uma década, é uma coisa tipicamente portuguesa, uma reação aos efeitos e não às causas. Com isto André Ventura vai rindo e somando pontos, ensinando os politólogos que é preciso a sociologia antes de dizer certos disparates como o de que estaríamos imunes ao populismo, e ao velho bloco central que há assuntos que não se podem empurrar com a barriga, porque mais tarde ou mais cedo fazem ricochete.

(em reforma) BLOGS AOS MOLHOS //  A Terceira Noite | Absorto | Adufe | Almanaque Republicano | Aparências do Real | Aspirina B | A Origem das Espécies | Barbearia Sr. Luis | Blasfémias | Blogoperatório | Bomba Inteligente | Causa Nossa | Corta-Fitas | Crónicas da Terra | Da Literatura | Delito de Opinião | Der Terrorist | desNorte | Dias com Árvores | Esmaltes e Jóias | Esquerda Republicana | Blues For Alice | Geração de 60  | Incursões | Indústrias Culturais | J.P.Coutinho |  Jorge Vaz Nande | Ladrões de Bicicletas | Lauro António Apresenta… | Ler BD | Miniscente | O Insurgente | Ortografia do Olhar | O Jumento | O Grande Zoo | Poesia | Poesia Distribuida | Puxa-Palavra | Quarta Republica | ruitavares.net | Sorumbático | Teatro Anatómico | Tempo Contado  | UmBlogSobreKleist | Voz do Deserto | 2 Dedos de Conversa  BLOGS COM AÇÚCAR NA VOZ // Alfarrabio | Leituras do Dia | Paulinho Assuncao | Farofafá | Prosa Caotica | Rafael Galvao |