Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Dias Assim

O que custa a união

Dezembro 01, 2020

A Carta de Direitos Fundamentais da União Europeia veicula os direitos inderrogáveis desta organização internacional. Todos esses valores são colocados em causa, constantemente, pela Hungria e pela Polónia. Este último país agravou a possibilidade de interrupção voluntária da gravidez, ao ponto de pudermos questionar se efetivamente decorre a vigência do caráter voluntário. Ao mesmo tempo, nesse país, 100 municípios consideram-se libertos da influência LGBT, o que nos invoca o desaparecimento da autodeterminação, da liberdade e da diferença na igualdade. A UE mantém-se muda, depois de ter sido tão exigente em matérias económicas e fiscais em vários países. Imagino que seja isto a realpolitik.

Sobre o Congresso do PCP

Novembro 20, 2020

Não há dúvidas de que o partido tem uma capacidade organizativa que permite garantir o cumprimento das regras de segurança em tempo de pandemia. Coisa que não pode ser dita do Chega. Também não parecem existir dúvidas sobre a legalidade do congresso. Onde está, então, o problema? Na perceção pública. Sim, esta tornou-se um elemento da vida política que não pode ser desconsiderado. Cabe aos órgãos do partido compreender que apesar da ameaça global vir da extrema-direita (sob as suas mais elaboradas formas), transcorre o mito da ameaça «vermelha». Mais: não se trata de ficar preso a perceção nem a fatores eleitorais, mas antes perceber que em política a ideia de que o povo é que quem mais ordena se traduz na necessidade de legitimação pública. Por muito higienicamente responsável que o PCP seja, a perceção é, precisamente, a contrária - de que existe um regime de exceção para os comunistas. Em tempos de ameaça real da direita nacional-populista não convém que o PCP se satisfaça apenas com as suas fileiras e com a CGTP.

A Caranguejola Açoreana

Novembro 04, 2020

A caranguejola açoreana é bastante legítima, e o precedente foi aberto com a geringonça. A questão não é essa. A questão é que para governar o PSD tem de fazer concessões ao Chega. Isto é válido nos Açores e pode vir a ser válido nas legislativas. Ora, André Ventura sabe que não pode dar um salto fora dos compromissos com o seu eleitorado, pelo se vai manter fiel ao homem-elástico que encarnou. Ao contrário de João Miguel Tavares, eu não acho nada boa ideia o PSD se dar a estas danças para chegar ao poder. E não, o BE não é a mesma coisa que o Chega. É por isso que é tão urgente revitalizar o CDS, tirando de lá o Chiquinho e colocando alguém capaz. Atendendo à idade de Adriano Moreira, diria Manuel Monteiro, Adolfo Mesquita Nunes ou mesmo Paulo Portas.

adenda: agradeço à equipa de blogs do Sapo pelo destaque deste post.

O que diz Ventura, diz mais de si

Setembro 10, 2020

Depois de Ana Gomes ser a "candidata cigana", agora Marisa Matias é a "candidata cannabis". Este tipo de ataques diz mais de Ventura do que dos visados. Não tanto do seu carácter, que é algo que ele deixou de parte quando começou a fazer política de espetáculo, e por isso não lho conhecemos de verdade, mas sobretudo da forma como pretender participar do jogo político, sem qualquer fair play e ciente de que existe uma franja eleitoral que responde a estímulos básicos e a clichés, pessoas que precisam que ele pense por elas e lhes digam como pensar e reagir. São pessoas que arrumam o mundo em binómios e preconceitos. A brasileira é "p%/", o negro é preguiçoso, etc. Como não pretendem conhecer os candidatos, e já são eleitores de Ventura por natureza, basta que arrumem os demais candidatos em "dos ciganos", "do cannabis", "do sistema", e por aí adiante. No final deste exercício classificatório depreciativo, sobra-lhes Ventura. Não interessa se este padece de muitas das contaminações de que acusa os demais, o relevante é que a sua narrativa seja coincidente com os preconceitos que as pessoas têm e o mundo esteja arrumado de forma simples.

Um político não é um abajur

Setembro 09, 2020

Já li por aí que deveria haver uma candidata cigana às presidenciais. Eu sou a favor da representação política, mas não gosto nada desta nova trend de gnomos de jardim — pessoas que lá estão para representar uma ideia, mesmo que elas mesmas não tenham ideias. Este modelo do político-símbolo (muitas vezes fantoche) não serve para empoderar nenhum grupo com menor visibilidade, mas antes para tornar o campo político ainda mais um espaço de entretenimento. É preciso integração e representação sem objetificação. Se movimentos ou partidos de esquerda enveredarem por escolhas em função da semiótica e não das competências dos sujeitos, não estarão a fazer mais do que coisificar pessoas, aplicando a receita do colonialismo de forma invertida.

Micropost [54] | ai meu rico Chega

Setembro 02, 2020

Cinha Jardim foi ao jantar-comício do Chega em Setúbal, facto que André Ventura fez questão de enfatizar nas redes sociais. Enquanto ato político-simbólico, estamos diante de um sinal claro da transferência eleitoral do CDS para o Chega. Isto revela que uma enorme fatia do eleitorado daquele partido não era apenas católico-conservador, mas preconceituoso (étnico-racial, social, sexual, religioso, etc.), e estava ali na falta de um partido que desse real expressão aos seus valores e modelo de sociedade: segregadora, sem mobilidade social e diversidade cultural. O espírito do Estado Novo não desapareceu com o 25 de Abril, esteve apenas à espera de oportunidade de regressar. Quando os pobres perceberem que o programa do Chega não os representa já será tarde.

Ai chega, chega, o meu D. Sebastião

Agosto 16, 2020

Dá que pensar sobre como chegámos aqui. Creio que em grande parte porque o Estado Novo deixou uma ideologia de nacionalismo branco, lusotropicalista e colonialista. A História portuguesa nunca foi objeto de reflexão crítica. Simplesmente se manteve o país do Minho a Goa, a glória dos Descobrimentos e o serviço à humanidade da civilização cristã. Os povos não foram conquistados, foram civilizados. Não foram escravizados, foram realocados. Uma memória de ser português que passa por Fátima, pelo Ultramar como um direito natural roubado, pelo paternalismo com os povos mais pobres e o serventilismo com os mais ricos. E essa memória não aceita ser beliscada. É o ethos nacional. Essa memória produziu uma nostalgia do Estado Novo. A isto junta-se um cansaço face a uma classe política sucessivamente seduzida pela corrupção. Ora, o ar do tempo trouxe a nostalgia dos anos de 1920 e a ressurreição dos ideias do fascismo reciclado. Em Portugal, o sebastianismo torna-se fator de sedução pública - a ânsia pelo Messias que conduzirá a nação. É o salvacionismo político. Assim, o refugado do Chega faz-se com a glória dos Descobrimentos que não pode ter uma versão dos povos dominados, com o messianismo de um líder ungido na Santa Fé, e da ilusão de que a corrupção não faz parte do quotidiano nacional, do mais pequeno cidadão ao mais alto dirigente. E eis que temos Ventura, o católico fervoroso, defensor da memória pátria, e jovem puro. Um mito, claro, mas o mais profundo mito sebastiânico.

A Encruzilhada do CDS

Agosto 07, 2020

Pedro Borges de Lemos, líder da corrente não formalizada do CDS, "CDS XXI", desfiliou-se do partido e mostra-se disponível para integrar o Chega. A notícia permite duas leituras justapostas: por um lado, é prova de que o CDS albergava muitos indivíduos com um pensamento pouco dado à democracia, herdeiro das elites conservadoras do Estado Novo, e que o surgimento do Chega tornou-se fator de cisão dentro do partido classicamente definido como "democrata-cristão"; por outro, esta situação poderia representar uma oportunidade de recentrar o partido, recuperando a sua feição democrática e de identidade forte, ao invés de se avizinhar como sintoma de fim de vida do partido. Mas para que este momento fosse, efetivamente, uma oportunidade política para o CDS, era preciso uma liderança experiente e forte. Ora, Francisco Rodrigues dos Santos, vulgo "chicão", é um erro de casting, uma ilusão de jovialidade besuntada com populismo a la Ventura e muita manteiga bolsonarista. O CDS que foi um partido vital na democracia portuguesa arrisca-se a desaparecer nos escombros de uma associação de estudantes. Chiquitito I tell you, you're what's wrong

Rita Rato

Julho 13, 2020

A polémica escolha de Rita Rato, deputada comunista, para dirigir o Museu do Aljube leva-nos a uma encruzilhada que marca a vida pública nacional. Ali confluem escolhas políticas, o que no Brasil se designa por QI (quem indica), competência, estratégia e o sempre problemático concurso público como mera metáfora para procedimentos turvos feitos ad hominem. O EGEAC justifica a escolha de Rita Rato com o facto da deputada ter defendido "uma visão integrada para o Museu do Aljube, incluindo uma proposta de programação relacionada com temáticas de liberdades contemporâneas, como as questões de género ou a inclusão social, e destacou-se numa segunda ronda de entrevistas nessa abordagem múltipla”. As razões parecem-me razoáveis e justificadas. A questão que falta saber é se Rita Rato teria tido esta oportunidade se não fosse deputada, uma vez que a priori não correspondia aos critérios definidos para a escolha da nova direção.

Cólofon

A Morada dos Dias é um blogue de João Ferreira Dias, escrito segundo o Acordo Ortográfico, de publicação avulsa e temática livre. Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.