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A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

06
Mai20

Micropost [42] Bolsonaro

Um ignorante num lugar decisório sente-se sempre ameaçado por todos. Não sabendo como se manter e legitimar de forma democrática, ataca em todas as frentes com ofensas à dignidade alheia e ameaças às instituições democráticas. Qualquer não-alinhado é um perigo na sua paranóia. Todos os traços de personalidade autocrática estão evidentes. Na linha histórica da pessoalização do poder sul-americana, Bolsonaro espera a oportunidade para fechar o Congresso e o STF e cumprir o sonho de restaurar a ditadura militar. Ainda na segunda-feira recebeu, no Planalto, um dos homens fortes do regime militar.

24
Abr20

Micropost [41] Infetados políticos

Inflação e aumento exponencial do desemprego é uma realidade em grande parte dos países. Portugal mantém-se, para já, numa situação controlada. É, portanto, incompreensível os ataques ao governo. Da parte de determinados políticos é expectável, tal o ímpeto populista. Da parte dos empresários também, pois em tempos de crise o biberão do Estado calha sempre bem. Da parte dos cidadãos, particularmente em determinados termos pouco lúcidos, é sinal de que o confinamento já está a gerar efeitos psicológicos, levando as pessoas a acreditarem em soluções não democráticas. Desconfiança e medo sempre parem autoritarismos. 

16
Abr20

As mal-aVENTURAnças

Há para aí um grupo de apoio a André Ventura que o apelida de "Salvador nacional". Certamente não têm presente que o último "Salvador da pátria" foi Salazar. Ou se calhar até têm, e é precisamente por isso que aplicam a mesma receita. É tão constrangedora esta disposição para o messianismo, para esperar que jogadores políticos sejam uma espécie ungidos. Como esperar que alguém que pensa uma coisa e diz outra venha resolver o que quer que seja? Como esperar que alguém cuja posição política se baseia em soundbites retirados de caixas de comentários que seja impoluto? Como esperar que alguém que tinha no seu programa político a destruição da Escola pública e do SNS, que venha agir em nome do povo? Tinha, pretérito imperfeito. Imperfeito como o seu carácter. Tinha, porque o apagou mal foi confrontado com o facto. Portanto, nem a coerência política lhe é intrínseca. Nada daí viria de diferente ao mundo da política se não fosse o caso de lidarmos com alguém que reconhecendo os tempos que correm se apresenta como um ator político externo, um outsider da toxicidade da vida política. Uma mentira entalhada com ouro dos preconceitos daqueles para quem a sua mensagem é desenhada. 
Enfim, heranças religiosas na vida pública. No Brasil também há um Messias, de nome, que é visto como "mito". Não há como não ter vergonha alheia. Não deles, mas de quem empunha a sua bandeira sem filtro, sem peneira, sem sentido crítico. O Messias é apenas um promessa, uma exaltação e esperança. Quando se transforma alguém real num Messias corre-se o risco de ver nos seus defeitos as suas perfeições e, assim, abdicar da racionalidade própria e deixar-se guiar por um "vendedor de sonhos". 

04
Jan20

A era da pós-verdade

A era da pós-verdade, da verossimilhança, dos factos alternativos, resume-se numa frase clássica: não deixar que a verdade estrague uma boa história.

Como escrevia Mattelart, em História da Ciência de Informação (2006), a noção de information overload (excesso ou sobrecarga de informação) diz respeito a uma elevada taxa de entrada de informação nas sociedades urbanas que impossibilita o eficaz tratamento da mesma. Com isto, estamos diante de uma circunstância social na qual o caudal de informação peca por excesso, e o frenesim da obsolência e a ética do instante, termos de Chesneaux, em Modernidade-Mundo (1996), não se compilam com a verificação das fontes, dos factos e a necessidade de reflexão individual sobre os fenómenos. Esta situação é responsável por produzir o conceito de «pós-verdade», o aspeto mais marcante da sociedade digital em que vivemos.

O excesso de informação gerou uma necessidade seletiva, acelerada pelas redes sociais e os seus reduzidos caracteres, enfatizando o impacto das “gordas” dos jornais (títulos e subtítulos) e dos soundbites. Conforme McCallam no seu artigo “Les «petites phrases» dans la politique anglo-saxonne” (2000) e Le Séac’h em “La petite phrase: d’où vient-elle? Comment se propage-t-elle? Quelle est sa portée réelle?” (2015), o soundbite apresenta-se como uma espécie de provérbio moderno de ação política, que funciona por si mesmo e como fim em sim mesmo.

Desta conjugação compreende-se que a não verificação dos conteúdos informativos é um problema em “bola de neve”. Sabemos que tais conteúdos são partilhados massivamente, e que produzem um caudal excessivo de desinformações e erros factuais, uma vez que muitos dos meios de comunicação falham em apresentar títulos noticiosos que correspondam ao conteúdo da informação, uma falha deontológica e ética jornalística de forte repercussão social.

Com isto temos um caldo mediático e social favorável à germinação da «pós-verdade». Ora, por «pós-verdade» entende-se, nos termos do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa,

Conjunto de circunstâncias ou contexto em que é atribuída grande importância, sobretudo social, política e jornalística, a notícias falsas ou a versões verosímeis dos factos, com apelo às emoções e às crenças pessoais, em detrimento de factos apurados ou da verdade objectiva (…). Informação que se divulga ou aceita como facto verdadeiro devido à forma como é apresentada e repetida, mas que não tem fundamento real.

Desta clara e objetiva definição sobressaem duas categorias analíticas centrais: verossimilhança e crenças pessoais. É dessa combinação entre factos alternativos, i.e., que possuem verossimilhança e crenças pessoais que se entende o efeito devastador, mas operatório na ação política da «pós-verdade».

No seu livro Post Truth: Why We Have Reached Peak Bullshit and What We Can Do About It (2017) Davis mostra que a necessidade de posicionamento dos cidadãos individuais e anónimos face aos atores públicos e ao mundo novamente maniqueísta e bipolarizado que vivemos é mais importante do que o deslindar dos factos. Por outras palavras, os discursos políticos são relevantes, cada vez mais, não pela sua capacidade de acederem ao conteúdo dos factos, portanto pela verdade que contêm, mas antes por darem corpo ao conjunto de crenças pessoais e grupais. Nesse sentido, os fenómenos sociais são manipulados a fim de darem sentido aos discursos, ao invés dos discursos refletirem os factos sociais. A «pós-verdade», então, corresponde à interpretação e adulteração dos dados e factos a fim de compor uma narrativa alternativa ou de os fazer caber numa ideia de realidade. Trata-se, portanto, da ideologia de grupo que se quer assegurada, já não pela recomposição do passado de que falava Triaud em “Lieux de mémoire et passés composés” (1999), mas pela reconfiguração do presente.

Tudo isto tem estado presente na ação política de Donald Trump, Boris Johnson, Jair Bolsonaro e André Ventura, para citar apenas alguns casos. Os seus eleitores não têm tido problema em declarar que o facto de mentirem em nada altera a sua confiança política ou intenção de voto. É reconhecido valor político na mentira para efeitos eleitorais. Isto condiz com uma nova forma de participação dos cidadãos na política, mais ideológica do que nas últimas décadas. As notícias e os conteúdos produzidos para efeitos de desinformação (fake news) passam a estar ao serviço da eleição de políticos que reivindiquem valores e políticas nacionalistas e que se aproveitam dos preconceitos outrora silenciosos.

Nem a manipulação dos dados relativos ao desemprego nem o tráfico de influências que está na base do processo de impeachment em curso são problemáticos para o eleitorado fiel de Donald Trump, na sua maioria um eleitorado rural, de baixa escolaridade, de situação económica instável, evangélico e racista, que melhor apreende os soundbites de Trump do que os discursos de Obama. Vários eleitores de Boris Johnson declararam, nos últimos dias da campanha eleitoral de 2019, que não estavam preocupados com as incongruências dos discursos do líder conservador, o mais importante era concretizar o Brexit. Os eleitores de André Ventura não parecem preocupados com o paradoxo da sua tese de doutoramento e dos seus discursos sobre os ciganos, nem com o facto desses discursos serem discordantes da realidade, ou de defender um combate à corrupção e ter apresentado candidatos europeus com processos judiciais por prática de corrupção. Não foi problemático que André Ventura tivesse sido apanhado de surpresa com o programa de destruição do Estado Social do seu partido. Os eleitores de Bolsonaro não se preocuparam com a sua apologia da ditadura militar ou com as soluções radicais do seu programa de governo em matéria de privatização de todos os recursos naturais do país e de ataque ao ensino. Tanto num caso como no outro, o mais relevante foi a presença de narrativas que traduziam o racismo, a homofobia, o ataque ao multiculturalismo, coincidentes com as aspirações de tais eleitorados.

A era da pós-verdade, da verossimilhança, dos factos alternativos, resume-se numa frase clássica: não deixar que a verdade estrague uma boa história.

* publicado também ali.

11
Dez19

Micropost [25] | Joacine e o Amor Livre

JKM e o Livre chegaram a um acordo nupcial. Ambos têm consciência que um divórcio neste momento seria o fim das suas credibilidades públicas. Uma expulsão deixaria o partido com a imagem de que tinha aproveitado para se despachar da sua deputada, o que seria terrível pois a eleição foi em boa parte graças à simbologia de JKM. O abandono partidário deixaria JKM vista como alguém que saltou fora assim que pode, livrando-se do partido pelo qual se elegeu, esperando outros voos. Melhor assim. Sinal de maturação democrática. Daqui a 4 anos logo se vê.

25
Nov19

O escrutínio a Joacine Katar Moreira

Joacine Katar Moreira é hoje a deputada mais escrutinada do país, uma sobre-dosagem que reflete muitos outros aspetos sobre a sociedade portuguesa. Seria, obviamente, um erro considerar que a deputada do Livre, por motivos da luta contra o racismo e a invisibilidade, é intocável e inscrutinável. O seu lugar de fala é importante na democratização da Assembleia da República, ainda incapaz de refletir a pluralidade da sociedade portuguesa. Basta ver, por exemplo, o número excessivo de advogados na AR. Ora, se JKM deve ser objeto de escrutínio e deve aguentar as críticas sem tomar tudo por discursos de ódio, também não deve ser transformada em alvo fácil, em causa de todos os males, em símbolo do pior da política nacional. Uma inflexão dessa natureza só pode espelhar o papel que o racismo ainda ocupa na forma como a nossa sociedade ainda se estrutura e reproduz. Só isso justifica o excesso de atenção a tudo o quanto a deputada faz, o que reflete, igualmente, um olhar exotizado sobre os negros. Quanto à abstenção nas matérias recentes, as justificações, embora plausíveis, até pelo atraso na sua exposição, parecem fabricadas a posteriori, não convencendo totalmente.

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adenda: grato à equipa dos Blogs.sapo e do portal Sapo.pt pelo destaque deste post. 

05
Nov19

Ainda a gaguez de Joacine

Somente a direção do Livre poderá decidir se a gaguez de Joacine configura ou não um problema no desempenho das suas funções como deputada. E a própria. Afinal de contas, o que interessa à direita que um partido de esquerda não "consiga" transmitir a sua mensagem? Nada. Aliás, no quadro do jogo político, tanto melhor que não consiga. Alguém duvida que o PSD e o CDS rejubilariam se António Costa ficasse afetado nas suas capacidades comunicacionais? Por isso, o que incomoda às vozes mais críticas não é a gaguez, mas a diferença. Por fim, quando a discussão permanece no nível do biológico temos um problema de substância. É urgente parar de discutir Joacine ou a saia do assessor para começar a discutir as ideias do Livre. Mesmo para o Livre, manter Joacine Katar Moreira como símbolo, na qualidade de mulher, negra, gaga, revela-se uma fonte esgotável como recurso político, além de continuar a objetificar os sujeitos, o que é, precisamente, o contrário do desejado. Uma candidatura que pretendia subverter o status quo não pode cair nas armadilhas de, na ânsia de inverter da norma social, a reproduzir às avessas. Já se deveria ter passado da fase "o que é Joacine", para "o que pensa o Livre, nas mais diversas matérias". Este circo em torno da pessoa, de uma ideia de um partido tornado em microcausa, e não do programa político, não é nada abonatório, nem para a deputada nem para a Democracia. 

03
Nov19

Micropost [16]

O discurso do Chega não se combate com gritaria nem posições puritanas de ofendido, mas pela confrontação dos factos. Uma das medidas a tomar para combater a narrativa da impunidade dos ciganos passaria por um levantamento do número de presos de etnia de cigana. Facto a facto, sem invisibilidade em favor de um "politicamente correto", contra o populismo.

02
Nov19

Micropost [15]

Uma das razões para o crescimento da extrema-direita encontra-se na extrema-esquerda. Não por causa de coisas tão elementares como o direito à autodeterminação em matéria de eutanásia, aborto, género, ou de políticas sociais de combate ao racismo, por exemplo. Não é pela existência tão necessária dessas agendas, mas antes pela radicalização dos discursos cuja razão é a febril afirmação como «verdadeira esquerda». São tantas as luzes que não se vê o palco.

30
Out19

Se cabe num tweet é política

A nova composição da AR é a prova da existência de uma renovação total de velhas crenças e da revigoração de nostalgias. Se o Chega trouxe a fala dos reformados saudosistas de velhos regimes e dos frequentadores de tabernas acerca dos "ciganos, pretos e paneleiros", a IL recupera a crença na «mão invisível» como modelo económico-financeiro, que depois de ter resultado mal da primeira vez, há sempre a hipótese de correr pior da segunda, como no Chile. Por sua vez, o Livre viu-se deslocado do seu europeísmo de Esquerda para uma agenda de causas, que embora importantes, não deveriam resumir o programa do partido. Por fim, o PAN é a vitória da solidão e desconfianca humana. Com prejuízos para a Democracia, temos uma AR marcada pela utopia do mercado, dos homens de saia, dos pet lovers, dos anti-ciganos. Em suma, a política da simplificação que caiba num Tweet.

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