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A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

"assim se vê a forca do PC"

Outubro 16, 2019

A prontidão com que o PCP se desenvencilha da Geringonça, deixando a ideia de que não houve um acordo mas um entendimento ao longo da última legislatura, revela uma interpretação superficial dos resultados eleitorais, que desconsidera as alterações políticas da sociedade. Uma fatia do seu eleitorado histórico já faleceu e a renovação geracional é ténue. As lutas de Esquerda já não são apenas da ótica proletária, mas de questões LGBTI, de minorias étnicas, e outras questões sociais sobre as quais o PCP tem uma visão quase ruralista. As gerações mais jovens não se reveem em Jerónimo de Sousa e na agenda do partido, encontrando mais representatividade no BE e no Livre. Acrescente-se que o próprio BE tenderá a assumir uma posição mais euro-participativa, ou arrisca-se a ver o seu eleitorado migrar para o Livre.

A (Nova) Aliança

Outubro 09, 2019

O problema do Aliança não foi as várias alternativas à Direita. Aliás, tinha mais condições para ter elegido um deputado do que o Iniciativa Liberal. O que houve foi um desgaste público de Santana Lopes. Um número significativo de eleitores viu o Aliança como um partido de um Santana Lopes "amuado" com o PSD e com sede de um "tacho". Se a primeira parte é uma interpretação muito plausível, a segunda peca por não saber que PSL tinha um "tacho" muito melhor. A questão central é que o ex-primeiro-ministro é sedento de protagonismo público e amante do combate político. Infelizmente para ele a sua imagem já se desgastou há muito. Para o Aliança sobreviver precisa que o seu fundador se retire.

Um novo panorama político em Portugal

Outubro 07, 2019

Nem a Esquerda nem a Direita ficaram iguais depois do dia de ontem. Hoje amanhece-se num Portugal partidariamente diferente e que reflete o quadro socioideológico português. À Esquerda, O BE foi capaz de sobreviver, provando que o seu eleitorado ficou satisfeito com a geringonça e com a maturidade do partido, ao ser capaz de encontrar posições de consenso e de ponderação democrática, indo além da disposição de guerrilha, afirmando-se de vez como flanco esquerdo democrático do PS. A CDU, por sua vez, dissolve-se, passando a ser a bancada do PCP. A perda de 5 deputados traduz o efeito de desgaste cada vez mais acentuado não apenas do seu líder, mas também do próprio partido, progressivamente percebido como perdido no tempo dos combates de que uma larga maioria da população não se reconhece, ou encontra maior dinamismo no BE. Numa interpretação mais contida, o desgaste de Jerónimo de Sousa é cada vez mais evidente e ou o partido regenera ou arrisca-se a desaparecer, mesmo com o controlo dos sindicatos. Em sentido contrário, o LIVRE, partido de Rui Tavares, graças à exposição mediática de Joacine Katar Moreira e à capacidade desta em catapultar a agenda da militância negra e feminista, consegue pela primeira vez a eleição de uma representante. É expectável que Joacine Katar Moreira seja capaz de traduzir a qualitativa, estruturada e pensada agenda democrática e de Esquerda do LIVRE, sendo mais do que um partido da (importante) “agenda negra”.  Por sua vez, o PAN, consolida a sua posição no campo político português, conquistando um grupo parlamentar, gozando do sucesso de uma boa estratégia de comunicação e relação com a imprensa, catapultando a sua agenda animal e ambiental, permitindo-nos compreender o crescimento de uma consciência social “vegana” que não se reconhecia no PEV (possivelmente pela coligação com o PCP), ou no MPT, um partido mais conservador.

Na margem oposta, temos um CDS em total colapso, voltando a ser um partido pequeno, perdendo, muito provavelmente, eleitorado para o Chega e para a Iniciativa Liberal, consoante o tipo de agenda ideológica, comprovando que a Direita está a fragmentar-se, entre posições mais extremadas no campo social, e posições mais radicais em matéria económica. Mais do que a entrada em cena da IL, o crescimento do Chega dá-nos conta de um cenário mais preocupante, comprovando que já não basta um discurso católico-conservador marcante do CDS para acalmar um certo tipo de clamor social. Portugal deixou de ser, assim, um país parlamentarmente livre da extrema-direita. Enquanto o CDS volta a ser o partido “do táxi”, o Chega afirma-se como o partido “da taberna”, configurando um tipo de narrativa racista, de pendor autoritário, que catapulta uma ideologia nostálgica que capta um eleitorado mais velho, saudosista do antigo regime e do Portugal que não sendo racista, estava “livre” de ciganos, negros e toda essas “raças”.

O LIVRE e o PAN

Outubro 04, 2019

Para quem é de Esquerda o LIVRE é um partido de fácil identificação, enquanto espaço político que parece cumprir o papel de ser a Esquerda permanente do PS, ou uma versão europeísta do BE, se preferirem. No entanto, há que reconhecer que o LIVRE é a versão política daquele clube pequeno que joga bem, mas do qual ninguém é adepto. Há razões para isso, as quais já enumerei antes, e que dizem respeito à pouca atenção mediática, sobretudo. É verdade que Joacine Katar Moreira conseguiu trazer o LIVRE mais ao espaço da comunicação social, no entanto o viés tem sido a sua gaguez e não as suas ideias. Por outro lado, na margem das redes sociais, o LIVRE tem aparecido como o partido da militância negra, o que tem sido bom como visibilidade de uma causa importante no espaço público, mas que esvazia toda a demais agenda política. Espero que Joacine consiga ser eleita, bem como espero que a sua eleição seja capaz de ir além da agenda única, uma vez que o LIVRE sempre foi um partido com ideias claras e não de causas. 

O PAN, por seu turno, deverá eleger de 5 a 9 deputados, conquistando um grupo parlamentar. Sendo um partido de duas causas: animais e natureza, por esta específica ordem, o PAN tem observado um crescimento gigantesco, graças a uma boa estratégia de marketing, com outdoors fortes, bem desenhados e estrategicamente colocados, e ao apoio massivo da imprensa, que tem feito do PAN um partido pioneiro na ecologia, facto que não procede. A questão será, então, avaliar o grau de competência e de intervenção deste grupo parlamentar, depois de André Silva ter passado uma legislatura a abster-se nas votações e perante o despreparo apresentado em debates, quer pelo próprio, quer por alguns cabeças-de-lista de várias regiões. 

"eu é mais gatos e ambiente"

Outubro 01, 2019

À excepção dos radicais animalistas (diferente de ser defensor do direito dos animais), muitas são as pessoas seduzidas pela narrativa ambientalista do PAN, como se este fosse o único partido "verde". Convém ter presente que um partido em vias de eleger dois deputados deve estar preparado para avaliar, aprovar ou rejeitar medidas que vão da saúde à economia. Ora, o sr. André Silva, que irá cumprir a segunda legislatura, não teve tempo, pelos vistos, para se dedicar a conhecer outras pastas. Não só se absteve, ao longo de todo o mandato, da grande maioria das votações, como surgiu nos debates a querer subordinar todas as discussões a temas ambientais. Lembra a velha rábula de Herman José, "eu é mais bolos".

O tal mundo rural e quem fala em seu nome

Setembro 27, 2019

A emergência do PAN, de um discurso ambientalista e de defesa dos direitos dos animais (animalista na versão radicalizada do PAN), trouxe de volta a narrativa política do «mundo rural». Idealizado pelo Estado Novo enquanto memória identitária, esse «mundo rural» marcaria o compasso da «portugalidade». Com o advento da Democracia e a consequente litoralização, o «mundo rural» foi progressivamente desaparecendo, não enquanto realidade, mas enquanto ideologia e enquanto espaço primário de sociabilidades e construção de identidade, dando lugar à cidade como paradigma moderno de geografia humana. Ora, com o regresso de uma polarização política, com os blocos a se radicalizarem, a defesa do «mundo rural» como modo de vida entrou no discurso da Direita portuguesa. O problema é que esse mundo rural é visto, não na sua diversidade, mas antes na sua uniformização identitária ideológica. Para mais, a maioria daqueles que falam em seu nome são pessoas com pouca ou nenhuma ligação ao tal «mundo rural», fazendo dele uso para combate político. 

Madeira

/ resultados eleitorais /

Setembro 23, 2019

Os resultados da Madeira indicam uma justaposição de circunstâncias nacionais e regionais. Não obstante o PSD permanecer o partido mais votado, herdeiro da força da herança de Alberto João Jardim, a relação de forças políticas alterou-se nestas eleições. O mais importante dado é a queda da abstenção em 6 ponto percentuais. Em virtude da conjuntura nacional, o PS triplica o número de votos e mandatos, viabilizando um equilíbrio político mais saudável. O BE desaparece (perdeu os dois deputados), por circunstâncias que podem estar ligadas à dependência do arquipélago dos fundos europeus, e o CDS perde 4 deputados, ficando com apenas 3, acompanhando, certamente, a fragilidade nacional que o partido atravessa. 

O programa do PAN

Setembro 19, 2019

Uma vez que o PAN cativou a Ecologia - fazendo passar a ideia de que foram eles que inventaram a agenda da sustentabilidade ambiental - parece gozar de uma condescendência alargada em face das inúmeras alterações ao programa eleitoral, continuando a crescer nas intenções de voto. Tenho dificuldade em tomar por bem um partido que à medida que as críticas vão-lhe sendo feitas vai pegando na borracha e suprimindo parcelas do seu programa. São caso disso as entradas sobre os encontros entre as vítimas e os seus agressores ou a apologia do lusotropicalismo. Se ao fim de uma legislatura o PAN não é capaz de ter um programa fechado, coerente e que o possa defender até ao fim, que justificação existe para nele votar?

O Portugal que conta

Setembro 12, 2019

Um dos slogans de campanha do Aliança diz que Pedro Santana Lopes conhece Portugal como ninguém. Devido às características sociais do líder do Aliança, podemos deduzir que existe um Portugal que conta, que vai de Vilamoura à Foz do Porto, passa pela Comporta e por Cascais, e o Portugal que não conta, das aldeias perdidas e dos bairros periféricos.

Marinho e Pinto

Setembro 11, 2019

Marinho e Pinto apareceu assim, alfinetando criteriosamente a classe política e o sistema judicial. Bem parecia um revolucionário. Rapidamente adquiriu os tiques de personalidade dos populistas, quase todos grandes moralistas e moralizadores, de que no caso português António Salazar foi pioneiro. O problema destes moralizadores da pátria é que que tendem a ser apanhados nos paradoxos da ideologia e da ação. Ora veja-se Bolsonaro. Marinho e Pinto, por seu turno, foi um grande crítico dos salários dos eurodeputados, lugar onde esteve e para onde queria voltar. A incoerência saiu-lhe cara. Agora abandona a vida política, sem deixar saudades nem exemplo.