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Dias Assim

Ora bolas, senhores


10.07.21

— Ora bolas, senhores — Os casos Salgado, Berardo, Vieira, e afins, mostram que a nossa transição democrática foi excessivamente pacífica, na medida em que manteve todos os vícios anteriores de favorecimento, concentração nas elites económicas, corrupção endémica, e exacerbou o clientelismo em torno do futebol, a nova Igreja do Estado. Não há coisa mais parola do que a forma como a classe política se anima em torno do futebol.

O CDS depois do CDS 


05.07.21

— O CDS depois do CDS —  O CDS, no rescaldo de Abril, afirmou-se como um partido que congregava católicos fervorosos, católicos progressistas (em torno do Concílio Vaticano II e a doutrina social da Igreja), alguns monárquicos, uns tantos saudosistas do Antigo Regime, e liberais. O surgimento da Iniciativa Liberal e do Chega ofereceu terreno para parte do eleitorado e dos militantes do CDS. Mas o partido não desaparecerá. Com efeito, à medida que o Chega se vai revelando um partido Cristão mais radical, com forte expressão eleitoral evangélica-bolsonarista, os católicos portugueses mais moderados e de berço continuarão a ter no CDS o seu partido. Veremos, evidentemente, um CDS mais pequeno, gravitante, na melhor das hipóteses, em torno do PSD. Algo que não sucedeu à Esquerda, porque o surgimento do BE é precoce e porque o Livre não conseguiu ser a alternativa que pretendia, nem na sua feição europeísta, nem posteriormente na sua dimensão identitária nouvelle gauche.

[a propósito desta notícia]

A política como espetáculo


14.05.21

— A política como espetáculo — chamou-me à atenção a transformação de Pablo Iglesias após abandonar o «Podemos». A queda do "rabo de cavalo" é apenas o sinal mais evidente do desmaquilhar de uma construção política de imagem muito "nouvelle époque à la gauche", i.e., o paradoxo coevo entre valores e quotidiano que se traduz numa situação de ressignificação da culpa cristã em culpa burguesa, expiada através da ação política. Se André Ventura é um ator do populismo da "nova direita", que como Groucho Marx tem valores à escolha do freguês, Iglesias era um ator da "nova esquerda", incorporando a imagem que melhor vendia ao eleitorado. A política é um espetáculo.

Um rio sem corrente e o fantasma da Páscoa passada


11.05.21

— UM RIO SEM CORRENTE E O FANTASMA DA PÁSCOA PASSADA — Passos de coelho fazem-se ouvir nos corredores do número 9 da Rua de São Caetano, em Lisboa, sede do Partido Social-Democrata. É o fantasma da Páscoa passada, quando o partido governava o país em dificuldades, e qual Peter Rabbit, personagem da literatura e da animação infantil, o Primeiro-Ministro foi buscar fundos à horta europeia. A viragem da página da austeridade do governo de António Costa em «geringonça» e em pandemia, trouxe sérias dificuldades ao novo líder do PSD, Rui Rio, que depois de ter anunciado um banho de ética na política nacional e uma guinada do partido ao centro-esquerda, encontrou no caminho duas noivas: uma que com ele não quer casar, porque vai conseguindo manter o mapa rosa nas intenções de voto, e por isso está melhor solteira, com pretendentes e potenciais noivos à esquerda e à direita, e outra cujo possível matrimónio é uma vergonha para a família. Não sendo capaz de ser rei sozinho, a Rui Rio pouco lhe tem restado do que se deixar seduzir pela voz da sereia do populismo, aceitando uma Suzana Garcia que abomina o BE e o Chega, mas não ao ponto de se recusar a seguir o manual do bom populista, com um discurso messiânico, um tom de voz inflamado, um perfil de quem vem purificado, longe da carreira política e pronto a ser a voz do povo esquecido; e chamando um ex-craque e ex-selecionador nacional de futebol, António Oliveira, para concorrer à Câmara Municipal onde o Futebol Clube do Porto tem o seu centro de estágio, fazendo contas ao eleitorado “azul-e-branco”.

Com a ameaça de perda de importância política, a liderança de Rui Rio estará sempre a escrutínio. As próximas eleições autárquicas irão ajudar a fazer contas ao futuro do partido e da liderança. Antevendo tempos difíceis muitos olham para o passado à procura de um salvador. Passos de coelho ouvem-se no sótão de Rui Rio. Mas os órfãos de Pedro Passos Coelho serão assim tantos? O “passismo” será, de facto, uma nostalgia política com mais-valia eleitoral quando tão facilmente permitirá à oposição invocar os “anos negros da troika”? Esta nostalgia é, acima de tudo, sintoma de uma incapacidade do partido se apresentar como alternativa ao atual governo e a urgência de o fazer. Sucede que tirando na franja eleitoral do Chega, André Ventura é uma persona non grata para a maioria do eleitorado português e tóxico o suficiente para afastar eleitores do PSD.

O futuro do centro-direita é jogado no PSD, e é este o mais importante ativo para estancar o avanço da extrema-direita e da nova direita populista. Uma aliança com o Chega poderá ser boa a curto prazo para efeitos de contabilização de votos e formação de um acordo de governação, e até pode diluir o radicalismo do Chega, já que André Ventura é, apenas, alguém com um único princípio inderrogável: o poder a todo o custo. Todavia, nada garante um futuro ao PSD além desse caminho dos práticos. Ao mesmo tempo, um regresso de Pedro Passos Coelho não traduz uma nova política para o partido, mas antes um regresso a um lugar ainda com cheiro das batalhas travadas. No entanto, aqueles que desejam o regresso de Passos Coelho parecem ser aqueles para quem um beijo ao Chega não é assim tão penoso.

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O que custa a união


01.12.20

A Carta de Direitos Fundamentais da União Europeia veicula os direitos inderrogáveis desta organização internacional. Todos esses valores são colocados em causa, constantemente, pela Hungria e pela Polónia. Este último país agravou a possibilidade de interrupção voluntária da gravidez, ao ponto de pudermos questionar se efetivamente decorre a vigência do caráter voluntário. Ao mesmo tempo, nesse país, 100 municípios consideram-se libertos da influência LGBT, o que nos invoca o desaparecimento da autodeterminação, da liberdade e da diferença na igualdade. A UE mantém-se muda, depois de ter sido tão exigente em matérias económicas e fiscais em vários países. Imagino que seja isto a realpolitik.

Sobre o Congresso do PCP


20.11.20

Não há dúvidas de que o partido tem uma capacidade organizativa que permite garantir o cumprimento das regras de segurança em tempo de pandemia. Coisa que não pode ser dita do Chega. Também não parecem existir dúvidas sobre a legalidade do congresso. Onde está, então, o problema? Na perceção pública. Sim, esta tornou-se um elemento da vida política que não pode ser desconsiderado. Cabe aos órgãos do partido compreender que apesar da ameaça global vir da extrema-direita (sob as suas mais elaboradas formas), transcorre o mito da ameaça «vermelha». Mais: não se trata de ficar preso a perceção nem a fatores eleitorais, mas antes perceber que em política a ideia de que o povo é que quem mais ordena se traduz na necessidade de legitimação pública. Por muito higienicamente responsável que o PCP seja, a perceção é, precisamente, a contrária - de que existe um regime de exceção para os comunistas. Em tempos de ameaça real da direita nacional-populista não convém que o PCP se satisfaça apenas com as suas fileiras e com a CGTP.

A Caranguejola Açoreana


04.11.20

A caranguejola açoreana é bastante legítima, e o precedente foi aberto com a geringonça. A questão não é essa. A questão é que para governar o PSD tem de fazer concessões ao Chega. Isto é válido nos Açores e pode vir a ser válido nas legislativas. Ora, André Ventura sabe que não pode dar um salto fora dos compromissos com o seu eleitorado, pelo se vai manter fiel ao homem-elástico que encarnou. Ao contrário de João Miguel Tavares, eu não acho nada boa ideia o PSD se dar a estas danças para chegar ao poder. E não, o BE não é a mesma coisa que o Chega. É por isso que é tão urgente revitalizar o CDS, tirando de lá o Chiquinho e colocando alguém capaz. Atendendo à idade de Adriano Moreira, diria Manuel Monteiro, Adolfo Mesquita Nunes ou mesmo Paulo Portas.

adenda: agradeço à equipa de blogs do Sapo pelo destaque deste post.

O que diz Ventura, diz mais de si


10.09.20

Depois de Ana Gomes ser a "candidata cigana", agora Marisa Matias é a "candidata cannabis". Este tipo de ataques diz mais de Ventura do que dos visados. Não tanto do seu carácter, que é algo que ele deixou de parte quando começou a fazer política de espetáculo, e por isso não lho conhecemos de verdade, mas sobretudo da forma como pretender participar do jogo político, sem qualquer fair play e ciente de que existe uma franja eleitoral que responde a estímulos básicos e a clichés, pessoas que precisam que ele pense por elas e lhes digam como pensar e reagir. São pessoas que arrumam o mundo em binómios e preconceitos. A brasileira é "p%/", o negro é preguiçoso, etc. Como não pretendem conhecer os candidatos, e já são eleitores de Ventura por natureza, basta que arrumem os demais candidatos em "dos ciganos", "do cannabis", "do sistema", e por aí adiante. No final deste exercício classificatório depreciativo, sobra-lhes Ventura. Não interessa se este padece de muitas das contaminações de que acusa os demais, o relevante é que a sua narrativa seja coincidente com os preconceitos que as pessoas têm e o mundo esteja arrumado de forma simples.

Um político não é um abajur


09.09.20

Já li por aí que deveria haver uma candidata cigana às presidenciais. Eu sou a favor da representação política, mas não gosto nada desta nova trend de gnomos de jardim — pessoas que lá estão para representar uma ideia, mesmo que elas mesmas não tenham ideias. Este modelo do político-símbolo (muitas vezes fantoche) não serve para empoderar nenhum grupo com menor visibilidade, mas antes para tornar o campo político ainda mais um espaço de entretenimento. É preciso integração e representação sem objetificação. Se movimentos ou partidos de esquerda enveredarem por escolhas em função da semiótica e não das competências dos sujeitos, não estarão a fazer mais do que coisificar pessoas, aplicando a receita do colonialismo de forma invertida.

Micropost [54] | ai meu rico Chega


02.09.20

Cinha Jardim foi ao jantar-comício do Chega em Setúbal, facto que André Ventura fez questão de enfatizar nas redes sociais. Enquanto ato político-simbólico, estamos diante de um sinal claro da transferência eleitoral do CDS para o Chega. Isto revela que uma enorme fatia do eleitorado daquele partido não era apenas católico-conservador, mas preconceituoso (étnico-racial, social, sexual, religioso, etc.), e estava ali na falta de um partido que desse real expressão aos seus valores e modelo de sociedade: segregadora, sem mobilidade social e diversidade cultural. O espírito do Estado Novo não desapareceu com o 25 de Abril, esteve apenas à espera de oportunidade de regressar. Quando os pobres perceberem que o programa do Chega não os representa já será tarde.

Cólofon

Dias Assim é um blogue de João Ferreira Dias, escrito segundo o Acordo Ortográfico, de publicação avulsa e temática livre. Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

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