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A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

10
Set20

O que diz Ventura, diz mais de si

Depois de Ana Gomes ser a "candidata cigana", agora Marisa Matias é a "candidata cannabis". Este tipo de ataques diz mais de Ventura do que dos visados. Não tanto do seu carácter, que é algo que ele deixou de parte quando começou a fazer política de espetáculo, e por isso não lho conhecemos de verdade, mas sobretudo da forma como pretender participar do jogo político, sem qualquer fair play e ciente de que existe uma franja eleitoral que responde a estímulos básicos e a clichés, pessoas que precisam que ele pense por elas e lhes digam como pensar e reagir. São pessoas que arrumam o mundo em binómios e preconceitos. A brasileira é "p%/", o negro é preguiçoso, etc. Como não pretendem conhecer os candidatos, e já são eleitores de Ventura por natureza, basta que arrumem os demais candidatos em "dos ciganos", "do cannabis", "do sistema", e por aí adiante. No final deste exercício classificatório depreciativo, sobra-lhes Ventura. Não interessa se este padece de muitas das contaminações de que acusa os demais, o relevante é que a sua narrativa seja coincidente com os preconceitos que as pessoas têm e o mundo esteja arrumado de forma simples.

09
Set20

Um político não é um abajur

Já li por aí que deveria haver uma candidata cigana às presidenciais. Eu sou a favor da representação política, mas não gosto nada desta nova trend de gnomos de jardim — pessoas que lá estão para representar uma ideia, mesmo que elas mesmas não tenham ideias. Este modelo do político-símbolo (muitas vezes fantoche) não serve para empoderar nenhum grupo com menor visibilidade, mas antes para tornar o campo político ainda mais um espaço de entretenimento. É preciso integração e representação sem objetificação. Se movimentos ou partidos de esquerda enveredarem por escolhas em função da semiótica e não das competências dos sujeitos, não estarão a fazer mais do que coisificar pessoas, aplicando a receita do colonialismo de forma invertida.

02
Set20

Micropost [54] | ai meu rico Chega

Cinha Jardim foi ao jantar-comício do Chega em Setúbal, facto que André Ventura fez questão de enfatizar nas redes sociais. Enquanto ato político-simbólico, estamos diante de um sinal claro da transferência eleitoral do CDS para o Chega. Isto revela que uma enorme fatia do eleitorado daquele partido não era apenas católico-conservador, mas preconceituoso (étnico-racial, social, sexual, religioso, etc.), e estava ali na falta de um partido que desse real expressão aos seus valores e modelo de sociedade: segregadora, sem mobilidade social e diversidade cultural. O espírito do Estado Novo não desapareceu com o 25 de Abril, esteve apenas à espera de oportunidade de regressar. Quando os pobres perceberem que o programa do Chega não os representa já será tarde.

16
Ago20

Ai chega, chega, o meu D. Sebastião

Dá que pensar sobre como chegámos aqui. Creio que em grande parte porque o Estado Novo deixou uma ideologia de nacionalismo branco, lusotropicalista e colonialista. A História portuguesa nunca foi objeto de reflexão crítica. Simplesmente se manteve o país do Minho a Goa, a glória dos Descobrimentos e o serviço à humanidade da civilização cristã. Os povos não foram conquistados, foram civilizados. Não foram escravizados, foram realocados. Uma memória de ser português que passa por Fátima, pelo Ultramar como um direito natural roubado, pelo paternalismo com os povos mais pobres e o serventilismo com os mais ricos. E essa memória não aceita ser beliscada. É o ethos nacional. Essa memória produziu uma nostalgia do Estado Novo. A isto junta-se um cansaço face a uma classe política sucessivamente seduzida pela corrupção. Ora, o ar do tempo trouxe a nostalgia dos anos de 1920 e a ressurreição dos ideias do fascismo reciclado. Em Portugal, o sebastianismo torna-se fator de sedução pública - a ânsia pelo Messias que conduzirá a nação. É o salvacionismo político. Assim, o refugado do Chega faz-se com a glória dos Descobrimentos que não pode ter uma versão dos povos dominados, com o messianismo de um líder ungido na Santa Fé, e da ilusão de que a corrupção não faz parte do quotidiano nacional, do mais pequeno cidadão ao mais alto dirigente. E eis que temos Ventura, o católico fervoroso, defensor da memória pátria, e jovem puro. Um mito, claro, mas o mais profundo mito sebastiânico.

07
Ago20

A Encruzilhada do CDS

Pedro Borges de Lemos, líder da corrente não formalizada do CDS, "CDS XXI", desfiliou-se do partido e mostra-se disponível para integrar o Chega. A notícia permite duas leituras justapostas: por um lado, é prova de que o CDS albergava muitos indivíduos com um pensamento pouco dado à democracia, herdeiro das elites conservadoras do Estado Novo, e que o surgimento do Chega tornou-se fator de cisão dentro do partido classicamente definido como "democrata-cristão"; por outro, esta situação poderia representar uma oportunidade de recentrar o partido, recuperando a sua feição democrática e de identidade forte, ao invés de se avizinhar como sintoma de fim de vida do partido. Mas para que este momento fosse, efetivamente, uma oportunidade política para o CDS, era preciso uma liderança experiente e forte. Ora, Francisco Rodrigues dos Santos, vulgo "chicão", é um erro de casting, uma ilusão de jovialidade besuntada com populismo a la Ventura e muita manteiga bolsonarista. O CDS que foi um partido vital na democracia portuguesa arrisca-se a desaparecer nos escombros de uma associação de estudantes. Chiquitito I tell you, you're what's wrong

13
Jul20

Rita Rato

A polémica escolha de Rita Rato, deputada comunista, para dirigir o Museu do Aljube leva-nos a uma encruzilhada que marca a vida pública nacional. Ali confluem escolhas políticas, o que no Brasil se designa por QI (quem indica), competência, estratégia e o sempre problemático concurso público como mera metáfora para procedimentos turvos feitos ad hominem. O EGEAC justifica a escolha de Rita Rato com o facto da deputada ter defendido "uma visão integrada para o Museu do Aljube, incluindo uma proposta de programação relacionada com temáticas de liberdades contemporâneas, como as questões de género ou a inclusão social, e destacou-se numa segunda ronda de entrevistas nessa abordagem múltipla”. As razões parecem-me razoáveis e justificadas. A questão que falta saber é se Rita Rato teria tido esta oportunidade se não fosse deputada, uma vez que a priori não correspondia aos critérios definidos para a escolha da nova direção.

06
Mai20

Micropost [42] Bolsonaro

Um ignorante num lugar decisório sente-se sempre ameaçado por todos. Não sabendo como se manter e legitimar de forma democrática, ataca em todas as frentes com ofensas à dignidade alheia e ameaças às instituições democráticas. Qualquer não-alinhado é um perigo na sua paranóia. Todos os traços de personalidade autocrática estão evidentes. Na linha histórica da pessoalização do poder sul-americana, Bolsonaro espera a oportunidade para fechar o Congresso e o STF e cumprir o sonho de restaurar a ditadura militar. Ainda na segunda-feira recebeu, no Planalto, um dos homens fortes do regime militar.

24
Abr20

Micropost [41] Infetados políticos

Inflação e aumento exponencial do desemprego é uma realidade em grande parte dos países. Portugal mantém-se, para já, numa situação controlada. É, portanto, incompreensível os ataques ao governo. Da parte de determinados políticos é expectável, tal o ímpeto populista. Da parte dos empresários também, pois em tempos de crise o biberão do Estado calha sempre bem. Da parte dos cidadãos, particularmente em determinados termos pouco lúcidos, é sinal de que o confinamento já está a gerar efeitos psicológicos, levando as pessoas a acreditarem em soluções não democráticas. Desconfiança e medo sempre parem autoritarismos. 

16
Abr20

As mal-aVENTURAnças

Há para aí um grupo de apoio a André Ventura que o apelida de "Salvador nacional". Certamente não têm presente que o último "Salvador da pátria" foi Salazar. Ou se calhar até têm, e é precisamente por isso que aplicam a mesma receita. É tão constrangedora esta disposição para o messianismo, para esperar que jogadores políticos sejam uma espécie ungidos. Como esperar que alguém que pensa uma coisa e diz outra venha resolver o que quer que seja? Como esperar que alguém cuja posição política se baseia em soundbites retirados de caixas de comentários que seja impoluto? Como esperar que alguém que tinha no seu programa político a destruição da Escola pública e do SNS, que venha agir em nome do povo? Tinha, pretérito imperfeito. Imperfeito como o seu carácter. Tinha, porque o apagou mal foi confrontado com o facto. Portanto, nem a coerência política lhe é intrínseca. Nada daí viria de diferente ao mundo da política se não fosse o caso de lidarmos com alguém que reconhecendo os tempos que correm se apresenta como um ator político externo, um outsider da toxicidade da vida política. Uma mentira entalhada com ouro dos preconceitos daqueles para quem a sua mensagem é desenhada. 
Enfim, heranças religiosas na vida pública. No Brasil também há um Messias, de nome, que é visto como "mito". Não há como não ter vergonha alheia. Não deles, mas de quem empunha a sua bandeira sem filtro, sem peneira, sem sentido crítico. O Messias é apenas um promessa, uma exaltação e esperança. Quando se transforma alguém real num Messias corre-se o risco de ver nos seus defeitos as suas perfeições e, assim, abdicar da racionalidade própria e deixar-se guiar por um "vendedor de sonhos".