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Dias Assim

20
Mar21

Solidário, mas racista?

Como um país tão solidário e que acolhe tão bem pode ser racista? É uma interessante e legítima pergunta, cuja resposta reside no passado, no paradoxo das relações coloniais, entre a Casa Grande e a Senzala, onde se mistura racismo violento, racismo cordial e miscigenação. São contradições nos termos que coabitam nas práticas, e para o qual o Estado Novo deu determinante contributo, ao construir a ideia de "Nação" à volta dos Descobrimentos. O processo foi tão bem desenhado, porque objeto de políticas públicas através do sistema de ensino, propaganda e outros recursos de um país colonial, que nunca mais o largámos, tendo sacralizado a epopeia marítima à exaustão. Não se trata de desconsiderar o feito, nem de o ler a partir do presente - politização tão negativa quanto a nacionalista -, mas antes de reconhecer o seu lado nefasto. É por isso que um país pobre e profundamente católico foi e é tão fortemente solidário, porque sempre percebeu a importância da vizinhança, desde os primórdios do regime foraleiro. Mas é, também, racista, de um modo sereno e cordial, porque foi essa a sua realidade colonial, foi isso que o Estado Novo lhe ensinou a ser, através da narrativa do selvagem que Portugal foi salvar e oferecer o reino de Deus.

20
Fev21

A Extrema-Direita e a Polícia

Segundo avança o Expresso, nasceu um grupo de extrema-direita, designado UNIR, com apoio de membros da PSP. Nas últimas eleições (presidenciais) um dos dados que me foi transmitido, de fonte segura, é que as forças de segurança pública em Portugal votaram expressivamente no Chega. Se esta notícia for verídica o Chega poderá ficar ameaçado. O que em rigor seria bom, pois a fragmentação da extrema-direita favorece o seu enfraquecimento. Por outro lado, alerta para a urgência da revisão da carreira profissional de força de segurança, a começar pelos salários. Sem uma política salarial adequada continuaremos a ter desajustados sociais nas forças de segurança pública, fragilizando uma das funções essenciais do Estado: a segurança.

19
Fev21

Micropost [72]

O negacionismo e o revisionismo históricos são amplos, tocando todos os quadrantes políticos. Vai da euforia com os Descobrimentos, sacralizando a epopeia marítima e as figuras do nacionalismo lusitano, até ao ataque de caráter aos mesmos, à luz dos padrões coevos, como se os valores humanistas que nos regem não fossem tanto uma construção social e intelectual, quanto um produto cultural etnocêntrico. Portanto, tanto demos "novos mundos ao mundo" (que é como quem diz abrimos rotas comerciais para proveito europeu), quanto pilhámos, destruímos, escravizámos, demonizámos e convertemos. Tudo com base nas crenças e valores da época. São duas mãos distintas de um mesmo corpo. O resto é combate ideológico.

02
Fev21

Micropost [71]

O uso indevido de vacinas é sintoma de que a corrupção não tem rosto, profissão, situação económica, condição racial ou outra. É uma componente humana ligada à oportunidade e à falência ética. Tanto é corrupto um político que abusa do seu poder, quanto um operário que declara falsamente ter estado com alguém infetado para beneficiar de descanso pago. É a natureza humana. É por isso que temos de ter cuidado com os discursos populistas do "cidadão do bem" contra a "elite corrupta". Lembremos que no Brasil o "cidadão do bem" é racista e se o filho for homossexual cura-o com porrada.

02
Nov20

Micropost [65] Murais do Racismo

Sobre os murais racistas, nas escolas e universidades, importa lembrar que ao sabor do lusotropicalismo Portugal construiu um imaginário de país sem racismo, ou, nos termos mais negativos, de um país onde o racismo era moeda de troca. Uma falácia que esconde a dominação e o silenciamento. As políticas públicas que visam reverter esse histórico são interpretadas como favorecimento e proteção, reforçando ímpetos raciais. Enfim, não podemos deixar o racismo vencer, mas para tal é preciso desconstrui-lo de forma pedagógica.

12
Ago20

Mas alguém aqui é o preto?

Ao que parece, uma das formas mais eficazes de provar que Portugal não é um país estruturalmente racista é fazer uma manifestação ao estilo do Ku Klux Klan à porta do SOS Racismo. In meanwhile, as deputadas Joacine Katar Moreira, Beatriz Dias e Mariana Mortágua, receberam ameaças por email, onde lhes foi dado 48h para abandonar o país. Caso contrário, “medidas serão tomadas contra estes dirigentes e os seus familiares, de forma a garantir a segurança do povo português”. Ora, na qualidade de cidadão português não me sinto minimamente ameaçado pelas três deputadas referidas, pelo contrário, mas temo muito este movimento de supremacia branca e nacionalista. É o espelho de um país que tem por ideologia o mito do bom colonizador, e com ele o paradoxo bem resolvido de não ser misógino mas pagar pior às mulheres, de não ser racista mas segregar por razões raciais, não ser homofóbico mas achar a homossexualidade uma doença, não ser preceituoso mas requerer pedigree social.

24
Jul20

A Montra do Império

A presença africana na cidade de Lisboa e outros lugares do país (segue de exemplo o Paço dos Negros da Ribeira de Muge) é marca inegável da História nacional, meticulosa e ideologicamente negada sob o compasso da memória coletiva racializada. Escravidão, irmandades negras, autos da Inquisição, profissões como vendedeiras, limpa-chaminés e tantas outras, são elementos que provam a marca africana na História portuguesa no seu próprio solo, pese todo o esforço de apagamento intencional dessa memória. A novidade da presença africana que a reportagem da SIC mencionou tem um viés temporal adstrito ao Estado Novo. Na cidade do Porto de então a presença de negros era uma raridade. Memórias familiares contam que se considerava sinal de bom presságio o avistamento de um negro na Invicta dos anos de 1950.
 
Portanto, no caso das exposições de negros, fenómeno comum na Europa de então, o elemento exótico da "raridade" era um ativo importante e real. A profunda marca do racismo, do determinismo racial e do evolucionismo estava impressa no espírito do tempo e nas gentes. Com uma população massivamente analfabeta, Portugal era um país racista (não por alteridade contrastativa, mas antes como gesto de rejeição do outro como produto histórico de longo-termo), cujos efeitos se estendem até hoje, aspeto a que o evento traumático da descolonização deu forte impulso.
 
Avaliar os eventos no seu tempo não é desculpabilizar os mesmos, mas oferecer uma base de análise, um ponto de partida para o debate tão urgente quanto atrasado. Assim, o exercício de combate desta ideologia racial precisa ser feito pela desconstrução e pelo debate histórico, não pela violência simbólica contra a sociedade portuguesa, fulanizando colectivamente o país, sem a esteira do contexto como aspeto de avaliação. Uma avaliação necessariamente crítica e dolorosa da História, das memórias e das narrativas que o país conta a si mesmo.
09
Jun20

"Não há racismo em Portugal"

Ora, diz Rui Rio do seu lugar de fala racial. E diz ele e diz muita gente, porque o racismo estrutural (ou sistémico) é invisível, e assim, de tão profundamente enraizado na história e memória portuguesa, ganha a aura de inexistente. Agora vejamos, quantos deputados, docentes universitários, gestores de empresas, etc, são negros ou de outra classificação étnico-racial? Se perante esta questão responder que são praticamente inexistentes por serem inerentemente intelectualmente inferiores, então parabéns, é um racista e pode ir votar em consonância com isso. Se disser que tal decorre da falta de mérito, então vive na ilusão de que as circunstâncias de partida não influem na construção de oportunidades. É aí que reside o racismo estrutural, na reprodução de uma situação de marginalidade que impede a igual mobilidade social.

25
Mai20

Micropost [44] O país COVIDizer

O desconfinamento levou os portugueses a considerarem o vírus um sonho mau do qual se acordou. Povo valente e munido de uma ignorância triunfante, enfrenta o calor em apinhamentos, porque isso da distância social e dos cuidados de higiene é chão que já deu uvas, uma mariquice lisboeta. Quando vier o caos dos seus atos não terão espelho em casa. Apontarão o dedo ao governo e benzendo-se sem fé votarão no messias que a poeira do Estado Novo pariu.

06
Abr20

O regresso do tal Portugal

NUMA ALTURA EM QUE ANTÓNIO COSTA defende que Portugal terá de voltar a produzir aquilo que se acostumou a importar da China, convém lembrar que Portugal foi durante mais de duas décadas a melhor fábrica têxtil e do calçado do mundo. Antes do 25 de Abril tinha a Fábrica de Braço de Prata, uma cidade fabril dedicada à produção de armamento, mas que poderia ter sido convertida numa imensa fábrica de produção de frigoríficos, esquentadores e outros equipamentos. Não houve capacidade política para tal. Para sermos um país "moderno" e europeu abandonámos as pescas, comprometemos a sustentabilidade agrícola e quisemos ser um país de serviços. Mais tarde de turismo. Vicissitudes da globalização, não tivemos como competir com a indústria asiática, baseada na exploração da mão de obra. Hoje, o covid-19 pariu o saudosismo. Gostava de saber como iremos recuperar o Portugal produtor sem comprometer acordos comerciais.

Cólofon

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