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Dias Assim

Racismo, segundo João Miguel Tavares

Março 02, 2021

João Ferreira Dias

Para João Miguel Tavares só há ciência a sério se ela for concordante com a sua opinião. Não me surpreende sendo ele uma versão fluffy do populismo, um tipo "às direitas" que diz umas "verdades". Não obstante, o seu texto consegue ir um pouco mais longe do que o costumeiro "achismo", e isso já é um mérito. Compreendo a sua posição, que reflete o pensamento de autores vários, como o meu colega Riccardo Marchi, que entendem que a definição de racismo a partir do passado histórico, biológico e científico do termo "raça" não serve para pensar as relações multiversas nas sociedades hodiernas, e que consideram que o conceito deve englobar uma gama maior de atitudes de desconsideração entre pessoas com identificações distintas, sem uma inflexão para um lado. Qual é o problema? O problema é que essa abordagem desconsidera toda a história de escravidão, perseguição, genocídio, exclusão, marginalização, dominação de brancos para negros. Quando se pega num conceito com um histórico tão pesado, tão concreto, para o usar para todas as relações, é dizer que um negro que chama "branco de merda" a um branco tem o mesmo significado, o mesmo efeito coletivo (pessoal tem certamente) que as leis que durante séculos afastaram os negros da cidadania, da dignidade, da autodeterminação, da escolaridade, da justiça. Porque o fenómeno ao contrário não teve nem tem lugar. É equivaler um pisar de calcanhar ao esmagamento por derrocada.

Ao que vem a Bastonária dos Enfermeiros

Fevereiro 12, 2021

João Ferreira Dias

Ana Rita Cavaco é o paradigma perfeito do que há uns anos a esta parte as Ordens profissionais se tornaram. Longe do princípio da subsidiaridade do Estado, enquanto instituições a quem o Estado delega poderes de regulamentação da atividade dos seus membros, muitas ordens profissionais tornaram-se em verdadeiros sindicatos e, sobretudo, plataformas para-partidárias, permitindo o lançamento de carreiras políticas dos seus mais relevantes membros e bastonários. É o que sucede, de forma gritante, com Ana Rita Cavaco. A bastonária da Ordem dos Enfermeiros tem aproveitado o seu mandato para auto-promoção, aparecendo de forma quixotesca como antissistémica e politicamente incorreta, revelando-se uma excelente réplica feminina do seu amigo André Ventura. Com efeito, Ana Rita Cavaco encaixa no perfil traçado por vários autores do outsider político populista, que fala contra a elite corrupta em nome das “pessoas de bem”, trazendo “verdades” que são politicamente incorretas. Aqui, uma vez mais, assemelha-se em tudo a André Ventura. Aliás, a amizade entre ambos vem do tempo da Juventude Social-Democrata (JSD), do qual ambos fizeram parte. Percebe-se, pois, que nenhum deles é um verdadeiro outsider, sendo mais bem caracterizado como oportunista. Precisamente por isso é facilmente intuível que Ana Rita Cavaco esteja a aproveitar a Ordem dos Enfermeiros como rampa de lançamento para as próximas autárquicas, muito possivelmente com um candidatura à Câmara Municipal de Lisboa pelo Chega.

A Luta de Trump

Janeiro 05, 2021

João Ferreira Dias

Trump trouxe um novo sentido de Estado e uma nova configuração ao papel do Chefe de Estado. Não foi uma inovação proveitosa, todavia. Ele é o déspota iluminado às avessas, que não aceita outros resultados, compromissos, ideias, valores, que não os que lhe são favoráveis. Infelizmente, este modelo de atuação fez escola, e há quem veja na tipologia do político-arruaceiro méritos, fazendo de tudo para o copiar. A decência e a classe, felizmente, não andam exclusivamente atreladas à posse de capital. Trump nunca percebeu que em Democracia o poder pertence aos cidadãos e que não é um direito seu por legitimação divina. É por isso que não abre mão de uma guerra que pode trazer efeitos nefastos à estabilidade social, política e económica do país, apenas para vincar uma posição sem qualquer fundamentação na realidade.

A Caranguejola Açoreana

Novembro 04, 2020

João Ferreira Dias

A caranguejola açoreana é bastante legítima, e o precedente foi aberto com a geringonça. A questão não é essa. A questão é que para governar o PSD tem de fazer concessões ao Chega. Isto é válido nos Açores e pode vir a ser válido nas legislativas. Ora, André Ventura sabe que não pode dar um salto fora dos compromissos com o seu eleitorado, pelo se vai manter fiel ao homem-elástico que encarnou. Ao contrário de João Miguel Tavares, eu não acho nada boa ideia o PSD se dar a estas danças para chegar ao poder. E não, o BE não é a mesma coisa que o Chega. É por isso que é tão urgente revitalizar o CDS, tirando de lá o Chiquinho e colocando alguém capaz. Atendendo à idade de Adriano Moreira, diria Manuel Monteiro, Adolfo Mesquita Nunes ou mesmo Paulo Portas.

adenda: agradeço à equipa de blogs do Sapo pelo destaque deste post.

EUA: do sonho mau ao terrível pesadelo

Novembro 03, 2020

João Ferreira Dias

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Hoje é o dia que os estadunidenses* decidem o rumo dos próximos quatro anos, não apenas em matéria de Política e Direito interno, mas no âmbito internacional. Num mundo multipolar e ao mesmo tempo concentrado em eixos e focos de poder, os rumos dos EUA afetam, determinantemente, as trajetórias internacionais. Até à entrada de Donald Trump na Casa Branca, nunca a mentira se tinha tornado, de forma tão declarada e evidente, em modus operandi. Mentir e distorcer factos, tornou-se na tradução de Sentido de Estado, de um presidente inapto para o cargo, com graves distúrbios de personalidade e grosseiras falhas éticas. A mitologia urbana do sucesso aliada aos contrastes de um país que se assemelha a um continente, onde as suas zonas rurais vivem um fervor cristão e um continuum com o faroeste, colocaram Donald Trump sentado à mesa da sala oval. Hoje a "América" decide se pretende inverter esta espiral de insanidade política ou ampliar os atropelos à Democracia. Ampliar porque se Trump vencer sentir-se-á legitimado a tomar o poder nas mãos de uma forma decisiva, atropelando o Senado e manietando o Supremo Tribunal. Não obstante, a sua derrota não garante que abandone a Casa Branca. Convicto de que a cadeira presidencial é sua, Trump ameaçou já que não reconhecerá a derrota, remetendo a questão para o Supremo Tribunal, onde, sabemos, a balança está desproporcionalmente virada para o lado Republicano. Se assim for, o mundo ficará nas mãos do ST, esperando para saber se este obecederá às ordens de Trump ou se cumprirá o seu dever de reconhecer as urnas.

*opto por esta designação tendo em conta que os canadianos são, também, norte-americanos, geograficamente falando. 

adenda: agradeço à equipa de blogs do Sapo pelo destaque deste post.

Os Ovários de Ventura

Setembro 30, 2020

João Ferreira Dias

A Direção do Chega quer a expulsão do autor da moção, rejeitada, para a remoção dos ovários às mulheres que pratiquem aborto fora do regime previsto pela lei anterior, ou seja em casos que não de má formação fetal ou violação. Não tivesse existido uma comoção nacional e a coisa passaria. No entanto, um partido que atrai todo o tipo de desajustados sociais, com as mais variadas soluções para "problemas" que assolam a sociedade, sujeita-se a ser um melting pot de delírios e fanatismos. Se a castração física de pedófilos atraia uma massa significativa de pessoas que acredita no modelo de justiça popular, a remoção de ovários representou um salto que o Chega só daria não havendo uma rejeição dentro do seu eleitorado. Perante a reação pública, Ventura quer ver essa nódoa rapidamente removida, não vá fazer estragos ao naperon que anda a costurar.

Micropost [53] | No país do Carnaval

Agosto 14, 2020

João Ferreira Dias

Ao que parece Bolsonaro tem aprovação recorde. O país tem, então, o presidente que merece. Um analfabeto, racista, machista, antidemocrático. Pensando bem, reflete uma parte do eleitorado. A este junta-se o eleitorado evangélico em cruzada religiosa, o eleitorado conservador que não suporta a mobilidade social, e o setor empresarial ávido da privatização de todos os recursos. Quem não percebeu o que está em causa não percebe o que se passa no Brasil. Apoiar Bolsonaro é apoiar a memória da ditadura.

E as manifs, têm vírus?

Junho 07, 2020

João Ferreira Dias

Há muita gente revoltada com as manifestações antirracistas ocorridas ontem em Portugal. Uns porque julgam que o combate ao racismo é só um golpe político anti-trump (prováveis eleitores, portanto, de Ventura, que vivem na paranoia da espuma dos dias), outros por motivos de saúde pública. Estes últimos compreendo. Em parte. Em parte porque não vejo revolta contra os aglomerados nas praias, contra aqueles que desrespeitam as regras de distância social em período de desconfinamento. Há quem invoque as críticas endereçadas ao 1º de Maio para criticar estas manifestações, na lógica do "olha, agora já pode!?". Sim, agora já pode e não é pelo racismo, mas pelo desconfinamento. Com efeito, foram cometidos erros de cautela pública segundo as normas da DGS, não muito diferente das filas de supermercados em que não se respeita a distância, daquelas pessoas que usam máscara mas deixam o nariz destapado, ou das que não respeitam quaisquer medidas de segurança porque é uma "mariquice" de "alfacinhas", porque macho que é macho agarra o vírus pelos cornos. E, por favor, não digam que o que se passou nos EUA não teve nada que com Portugal. O racismo estrutural é uma realidade da maioria das sociedades ocidentais, porque é invisível e silencioso. Sim, poderíamos ter levado a cabo tais manifestações noutras ocasiões, mas vivemos o tempo das redes sociais, das trends, dos hashtags e das correntes. Porque só neste assunto haveríamos de não importar tendências?

Micropost [44] O país COVIDizer

Maio 25, 2020

João Ferreira Dias

O desconfinamento levou os portugueses a considerarem o vírus um sonho mau do qual se acordou. Povo valente e munido de uma ignorância triunfante, enfrenta o calor em apinhamentos, porque isso da distância social e dos cuidados de higiene é chão que já deu uvas, uma mariquice lisboeta. Quando vier o caos dos seus atos não terão espelho em casa. Apontarão o dedo ao governo e benzendo-se sem fé votarão no messias que a poeira do Estado Novo pariu.

A manhã depois do vírus

Março 30, 2020

João Ferreira Dias

Nem mesmo durante a II Guerra Mundial a indústria esteve parada. Convém ter presente que o rescaldo da pandemia será duríssimo. Os Estados estão a apoiar as empresas procurando evitar a falência em catadupa, e a investir nos serviços nacionais de saúde tentando, no possível, dar resposta à crise humanitária que vivemos. Na manhã seguinte não será tudo igual ao que era antes. A extensão da lesão na economia dos países e a capacidade de recuperação dependerão da estratégia comunitária a ser adotada. Ou a Europa vai junta, ou a Europa enquanto ideia política acaba. As soluções simplistas dos nacionalismos vão estar à flor da pele. Soluções que passarão pelo recuo histórico dos vários países, seduzindo as populações ao regresso dos regimes autoritários. Fazer face a isso passa por incentivar de forma extraordinária a indústria, o comércio, o turismo. Apoiar de modo musculoso os setores vitais das várias economias a fim de os revitalizar. Como se de um pós-guerra se tratasse. Porque o é.

Cólofon

Dias Assim é um blogue de João Ferreira Dias, escrito segundo o Acordo Ortográfico, de publicação avulsa e temática livre. Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

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