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A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

17
Abr20

O vírus do estigma saiu à rua, novamente

Somos confrontados com as mensagens deixadas a profissionais de saúde e de superfícies comerciais pelos seus vizinhos, pedindo que encontrem outro lugar para morar. Sim, de facto, há uma questão sanitária neste assunto, mas não é apenas a do vírus, é a da decência. A partir da ótica do medo e do estigma, toda esta situação é excessivamente similar com a dos negros em bairros de classe média e alta dos EUA, ou com os judeus na antecâmara do nazismo. Todos eram pessoas indesejáveis, vista como transportando com elas uma toxicidade qualquer, um vírus que infectaria os lugares onde moravam.

11
Nov19

O novo velho eleitorado

De Bolsonaro ao Chega, de Trump ao Vox, o que procuram as pessoas que neles votam? Considerando as diferenças próprias de contexto, a verdade é que há elementos comuns entre tais eleitores que formam um continuum, um conjunto agregado de motivações partilhadas. Tratam-se de pessoas ressentidas com a marcha dos tempos, descamisados da globalização e do multiculturalismo. São pessoas arreigadas a valores morais que reclamam ser socialmente inquestionáveis. Pessoas que procuram uma materialização política dos seus próprios preconceitos, galvanizados por discursos feitos de chavões que não precisam refletir factos, basta, apenas, que se colem ao que pensam para serem elevados a proclamadores de "verdades incómodas", não se importando que para ver os seus preconceitos ampliados na esfera pública legitimem revisionismos e atropelos à Democracia.

15
Ago19

para a ideologia de género e mais além

No filme de animação Toy Story 4, a dada altura, aparece um casal de duas mulheres no cumprimento do tradicional primeiro dia de aulas norte-americano, altura em que os adultos do agregado familiar levam os filhos à escola. O facto de no meio de casais heterossexuais aparecer um casal homossexual motivou queixas por parte de associações de defesa da família dita tradicional, alegado uma normatização da homossexualidade e da “ideologia de género". Esta reação explica bem o que é, na verdade, ideologia de género: a assunção da exclusiva legitimidade de uma forma de identificação de género, de base binária, e de um modo único de composição de agregado familiar.

07
Jan18

Dois lados da Escravatura portuguesa

Década Internacional de Afrodescendentes 2015-2024 tem servido, e bem, de pretexto para discutir coisas como o racismo biológico, o racismo institucional, e o racismo cultural, em países, como por exemplo, o nosso. Muitos mitos construídos a partir da narrativa ideológica dos brandos costumes vêm sendo descascados, revelando um caldo sociológico muito menos clean do que o desejado. Falar de afrodescendentes implica falar em escravatura, um crime gigantesco que macula a história de inúmeros países, com forte destaque para Portugal. Como em muitos outros assuntos, contudo, a escravatura tornou-se num tema ideológico, altamente politizado. Para uma elite afrodescendente atual a escravatura tem servido para, e à luz de padrões morais vigentes, para fazer política contra Portugal. Uma ideologia de ajuste de contas com a história que serve outros interesses. Embora historicamente justificada, esta posição não apenas passa ao lado da contextualização histórica, como é seletiva, porque invoca o passado e nada diz sobre os crimes coevos que continuam a ser perpetrados em África. Anestesia, igualmente, o papel das lideranças africanas de então na produção do comércio de escravos. 

Do outro lado da barricada encontramos o Estado Português, que alavancado em mitos de convívio pacífico e lusotropicalismo vem celebrando o Quinto Império português, fazendo folclore de uma memória histórica que não pode ser congelada e arrumada. Essa herança do Estado Novo, que encontramos no Portugal dos Pequeninos e nos manuais escolares, que faz dos povos de chegada realidades sem história, sem cultura e religião, que promove a ideologia civilizadora europeia diante dos selvagens pagãos, precisa ser desmontada. Cabe ao Estado Português o dever de rever o processo de ensino dos Descobrimentos, de contextualizar as culturas de chegada, de suprimir hierarquias entre os povos, de promover a produção e investigação científica em torno das culturas do atlântico escravocrata, de criar um museu da Escravatura e dos povos escravizados, para que não se perpetuem caldos sociológicos de racismo cultural, biológico e preconceito religioso. Visitar o Museu Nacional de Etnologia é conviver com o lado mais racializado e hierarquizante da sociedade portuguesa, que confrontada com a alteridade das culturas africanas reage pela via discriminação, do racismo e da chacota. É isto que o mito da convivência pacífica produz. 

04
Mai15

A Lei do Sangue

[A leitura deste texto é desaconselhada a César das Neves e outros que tais]

Segundo o presidente do Instituto Português de Sangue, Gabriel Olim, “ser homossexual é um comportamento de risco” e tal infere na possibilidade de doar sangue. Portugal chegou, então, com devido atraso, à discussão sobre homossexualidade e doação de sangue, depois dos EUA terem banido, após 31 anos, a interdição. Com complexas restrições, as quais Portugal pretende, lato senso, seguir. Mas nem sequer é isso que está em causa. O que entra em cena é, em rigor, por um lado a avaliação do sujeito enquanto homossexual e, segundo, o princípio dos comportamentos de risco. Em rigor, qualquer pessoa pode esconder a sua orientação sexual e assim doar sangue, isto porque, e felizmente, os homossexuais não precisam de andar com uma placa distintiva ao peito. Em segundo lugar, há aqui uma confusão entre sexualidade declarada/assumida e sexualidade clandestina. Bem vistas as coisas, um homem que é oficialmente heterossexual mas que no escondido do seu lar ou na clandestinidade de um motel em nenhures tem relações sexuais com outros homens, pode doar sangue. Em termos práticos, o que está aqui em causa, e creio que a metáfora é adequada, é a confusão entre o cú e as calças. Em suma, o problema dos comportamentos de risco estão ligados ao primeiro, sendo que são as calças que deixam as coisas menos claras. Vale recordar, que numa relação heterossexual, o primeiro nem sempre está ausente das práticas e fantasias. Quer isto dizer, que uma senhora heterossexual que tem relações sexuais de natureza tal, com o marido, namorado, ou quem seja, poderá doar sangue, porque o seu ato não se encontra em equação. Ora, neste sentido, o que temos aqui não é uma questão de segurança mas antes um ideal de arianismo sanguíneo, e isso é bem diferente. Ou não sendo, uma profunda incoerência na gestão do processo. 

15
Abr13

Onde está a França da Liberdade?

Um país que nos habitou a ser grande promotor das liberdades individuais e da laicidade causa surpresa perante a notícia do agudizar dos protestos e a promessa de violência por parte da direita-conservadora e da extrema-direita face ao casamento e adoção homossexual. Durante a madrugada 67 pessoas foram detidas no seguimento de conflitos com a polícia. É claro que vivemos tempos de maior preocupação como: terá o casal emprego? terá a criança leite?; mas sabemos bem que estas direitas não têm a mesma agenda que os movimentos democráticos. Tenho, pois, dificuldade em saber por que França anseiam estes movimentos? De que França são, afinal, herdeiros? Certamente não a França das liberdades...

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