Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

Portugal: Uma Sociedade de Direita?

Novembro 30, 2015

Não se pode negar que José Sócrates contribuiu para o desgaste do PS e, com isso, para a consolidação de um "benefício da dúvida" perante a coligação PSD-CDS. A mnemónica da herança socialista, da herança dos tempos do despesismo, para o qual as orientações europeias muito contribuíram, num período em que se acreditou que contrair mais despesa seria o ideal para ultrapassar a crise, serviu durante quatro anos como narrativa de legitimação governativa. Durante uma legislatura inteira a coligação encabeçada por Passos Coelho e Paulo Portas, jamais foi responsável pelas suas decisões. A mentira compulsiva surtiu os seus efeitos. 

Tudo isso é quase de somenos importância se levarmos em conta os efeitos sociológicos da coligação de esquerda liderada por António Costa. "Coligação negativa", "bota-abaixismo", "ilegítima", são inúmeros os adjetivos. Por todo o lado, da imprensa às ruas, se sentem as críticas a uma coligação em que o rosa se mistura aos vermelhos numa espécie de magenta. As pessoas habituaram-se a uma rotatividade entre PS, PSD e CDS, num eterno bailado dos mesmos, a qual passaram a ver como porto seguro. O "todos iguais" figurou como uma espécie de lamento costumeiro, algo que é mau mas que é bom porque que sempre tem sido assim. Quer isto dizer que os cravos empunhados, as "abriladas", foram gestos espontâneos de saudosismo, um reviver do espírito de Abril mas cujo horizonte de solução não era objetivado. Era desejar algo novo, uma solução mais social, mais humana, mais "de esquerda" mas sem a esquerda existente. É a sociedade dos mitos sebastianistas.

Todo este momento tem posto a nu a realidade ideológica nacional: um país de Direita marinada pela religião, pelas heranças dos brandos costumes, pelos medos dos "vermelhos" que trarão o comunismo. Nessa lógica, os velhos que vêm a política nacional como uma eterna luta de classes estão perdidos no tempo. Acima de tudo porque a "classe" tornou-se numa categoria sem operatividade. A noção de operariado foi dissolvida pela mobilidade social, mesmo que aparente, colocada em jogo pela sociedade de consumo. Entre o ter e o haver, ainda bem. Mas isto traduz-se numa sociedade em que cada qual se considera parte de um cluster economicamente distinto. A classe média vive o mito de classe alta. Ninguém lê o "Avante!" em público, ninguém votou no BE ou no PCP. É um eleitorado mais do que volátil - é temeroso. Usa o cravo como imagem, vota à esquerda para reforçar a oposição, mas quando tal produz um governo retrai-se e teme, como se dos pesadelos da infância voltasse o "papão". 

Esse mito de não-pertencimento a uma determinada "classe" está patente no estereótipo do eleitor de esquerda como pobre. Ninguém que vá de férias, trabalhe em serviços, vista fato e tenha um bom telemóvel pode ser de esquerda. O problema é que entre as camadas mais baixas da sociedade a esquerda foi desaparecendo, dando lutar a uma direita difusa. É a direita paternalista e referencial que Passos Coelho soube encerrar sobre si no tom calmo, humildade e paternal. Calhou bem em contraste com o anterior primeiro-ministro seguro de si, com roupas caras e um ar de "bon vivant". E a esquerda foi ficando nos velhos comunistas anti-PS e nos jovens abaixo dos 40 anos, numa lógica americana de que quem é republicano antes dos 30 anos não tem coração, acima dos 30 não tem cérebro. 

O PS passou a figurar, então, na cosmovisão portuguesa, como uma versão mais suave do PSD, mas jamais com tendências esquerdistas que o aproximem do BE e, "graças a deus!" longe do PCP. E isto faz-me regressar aos reflexos sociais. Não há dúvida de que o conservadorismo provinciano ainda produz os seus efeitos, particularmente quando mesclado ao capitalismo e à sociedade de consumo. Almejar ter a vida do patrão, fazer as suas férias, ter o que este tem, passa pela socialização terciária, pela modelagem comportamental em que os sujeitos copiam os gostos e tendências daqueles. Querer "ser como" é "agir como", e isso produz efeitos na intenção de voto, no voto real e na disposição ideológica. 

Portugal é, sim, uma sociedade de direita, moderada, marinada, e que teme a esquerda como a antítese da sociedade atual, jamais concebendo que a esquerda também se transforma. Felizmente na soma dos que acreditam na esquerda foi possível construir um amanhã novo, porque António Costa soube ousar. Mesmo que falhe ao menos tentou. Seja como for, os últimos quatro anos foram um mar de fingidos sucessos. 

A Parcial Democracia do Velho Continente

Novembro 06, 2015

Parcialidades. É exatamente assim que vai Portugal e a Europa, depreende-se dos comentários de determinados analistas políticos, do Presidente da República ou do líder do Partido Popular Europeu. A toda esta onda de histeria coletiva que varre o Velho Continente, junta-se a corrente humana em torno da Assembleia da República pedindo um compromisso alargado entre PSD, CDS e PS, pedindo, em fim, que o Partido Socialista dê a mão ao governo, que se mantenha dentro do status quo, que faça o contrário do que os outros fizeram para que a troika entrasse em Portugal. Percebe-se, claramente, que há na Europa ainda muitas fantasmas. Resquícios de um outro tempo. Sebastianismo e messianismos barrocos. Exaltações amnésicas. São os mercados temerosos, o capitalismo sem rosto que segue esbaforido, é a Democracia de cristal construída após a Guerra a vacilar. A caça às bruxas nunca desapareceu. O eminente acordo entre o PS, BE e CDU reaviva os estereótipos do "perigo vermelho". É um mal que vem ao mundo, é o fim dos tempos, é o Apocalipse bíblico. É como se não tivesse sido um acordo entre tais partidos a permitir, décadas atrás, por exemplo, a criação do Serviço Nacional de Saúde. Pior. É como se a Democracia só fosse possível, na Velha Europa, através dos partidos engravatados. Partidos, aliás, que vão em na linha do que escreveu Alexandre O'Neill, «País engravatado todo o ano, e a assoar-se na gravata por engano». Não há Democracia, portanto, em Portugal, que não passe pelo PSD e/ou CDS no poder. Somente eles assumem o papel de estabelecer a ordem e a moral. Tudo o mais são vozes da oposição, vozes que deveriam ter ficado silenciadas no tempo. Porque a Democracia é para pessoas "às direitas". 

António Costa e o financiamento de campanha

Julho 30, 2015

 António Costa pede aos eleitores do PS que façam doações de campanha. Uma fatia significativa das pessoas revolta-se por desconhecimento ou ignorância. Vale referir que a alternativa de António Costa seria vender a sua independência política às forças obscuras que governam o mercado e embalam a coligação, amarrando a autonomia decisória através de chorudos financiamentos anónimos que se traduzirão em PPPs, concursos públicos manipulados e legislação laboral pró-empresarial.

Demagogia Laranja

Junho 15, 2015

De repente, até à legislatura presente, o PSD nunca esteve no governo. Foi o PS, sob a liderança de José Sócrates, que afundou o país. Única e exclusivamente. E se mal veio ao país foi sob a tutela socialista. Se calhar valeria a pena lembrar que José Sócrates foi eleito categoricamente porque o país não aguentava mais a governação social-democrata de Durão Barroso e Santana Lopes. Ora, isto não é apenas apagamento da história é uma limpeza de memória com fins eleitorais. Não só é imoral como é perigoso.

Artimanhas da coligação.

Maio 24, 2015

Catroga já falou na necessidade de novos cortes. O governo já deixou escapar o imperativo de cortes de 600 milhões. Percebe-se que a narrativa dos sacrifícios temporários em nome da recuperação é uma mentira. A austeridade será perpétua. Mas a coligação tem a coisa bem ensaiada, desviando a atenção para o PS, apontando-lhe o dedo como potenciais despesistas e cujo programa e promessas importam observar. Ora, existe um PM em funções que mentiu descaradamente aos portugueses, prometendo o contrário do seu programa, e que depois de eleito afirmou que com ou sem troika aquele era o caminho. O PS precisa abandonar os sentimentos de culpa do passado recente e inverter o horizonte, relembrando aos portugueses as promessas não cumpridas do governo e uma política que mais pensa nas empresas. Há que não deixar o bullying ganhar.

Amena Cavaqueira.

Julho 11, 2013

CAVACO SILVA tomou, finalmente, uma atitude. É claro que a proposta de Cavaco Silva jamais traria desordem política, pelo contrário, levando a sério o seu papel de pacificador do espectro político nacional, o PR procurou por um lado garantir a sobrevivência do PSD na governação e por outro amarrar o PS, silenciando a oposição-candidata, deixando à esquerda vermelha o exercício de oposição, um barulho que tende a afetar pouco o PSD ou o PR, himself. A verdade é que procurando um bloco central, um governo de consenso entre os "três grandes" Cavaco Silva arrisca o caos político absoluto. O PS dificilmente dará a mão a um governo em queda - hipotecando assim as aspirações futuras - e o acordo entre Passos Coelho e Paulo Portas fica em banho-maria. Cavaco é, concordo, o pior político português da história da Democracia portuguesa.

PS: um partido híbrido

Junho 03, 2013

ANTÓNIO José Seguro está já a preparar governo. O que sendo uma atitude natural é também pouco ética. Ao mesmo tempo, a procura de consensos indiscriminadamente, revela o caráter democrático do Partido Socialista, é um facto, mas transparece também a sua elasticidade, plasticidade e hibridismo ideológicos. Não podemos, pois, olvidar que esta característica do PS é na verdade perigosa, porquanto nos revela a facilidade com que a esquerda governativa transita entre pólos e margens. Uma coisa é a abertura à negociação à esquerda, outra coisa é a edificação de pontes com a direita. 

Em nome da verdade importaria saber com que partido fará o PS coligação caso tal se revele necessário. E importa sabê-lo a priori, não a posteriori, porque votamos antes e somos estrangulados depois. A meu ver, diante do cenário político nacional, arrisco avançar com um futuro governo socialistas nos termos PS, ou seja: Portas + Seguro. O que seria calamitoso, vergonhoso e ultrajante. 

 

---

Adenda: ler John Wolf.

ASegurado

Abril 14, 2013

António José Seguro foi reconduzido à liderança do PS unanimemente, com quase 97 por cento dos votos. Bem, é certo que o Partido Socialista necessita passar para o seu eleitorado e potencial eleitorado uma imagem de estabilidade, em contraste com um governo desnorteado e a centrar tudo nas mãos de um ministro das Finanças desajustado face à realidade e conivente com lóbis que embalam a troika; todavia, se há facto também inegável é que AJS não consegue mobilizar os portugueses e jamais surgirá como figura arrebatadora do eleitorado. Se há culpados pela preservação do atual governo Seguro é um deles, precisamente por não ser capaz de parecer alternativa. Já diziam os romanos: "à mulher de César não basta sê-lo, é preciso parecê-lo".