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Enquanto eleitor de esquerda, do centro-esquerda mais canhoto, digamos assim, não me vanglorio, em tempos que correm, com a situação decrépita que parece devotado o maior partido do centro-direita/direita português. A história da democracia portuguesa é feita também e muito, graças ao PSD. Nenhuma democracia sobrevive quando centro se esvazia. Ora, em tempos de crise ideológica e social, em que discursos sedutores de demonização de um «outro» com o qual não se consegue articular uma alteridade positiva, e de hipermoralidade religiosa que se julgava perdida com o avanço das sociedades, é fundamental que os partidos ditos «moderados» sejam capazes de se manter fiéis aos seus edifícios ideológicos, agarrados à democracia e livres de suspeição e da mácula da corrupção. Quando isso não acontece crescem coisas como o Vox, a Frente Nacional, atual Reunião Nacional, elegem-se pessoas como Órban e Bolsonaro. Com o perigo do fascismo ali ao lado, cada vez mais normalizado, Portugal não está assim tão imune a adesões populistas, faltando, apenas, o líder certo, num país que sabemos ser profundamente racista e de forte pendor messiânico. Será o espaço deixado em vazio por um PSD enfraquecido que esse movimento ocupará. Por isso sim, precisamos salvar o PSD. A bem de todos. 

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Existe um país que só Pedro Passos Coelho conhece, todo ele vivente no seu imaginário. É feito de cortes permanentes, de um proletariado pobre e feliz, tecido numa nostalgia do Estado Novo. Bebe da grande marcha troikista, e vai triunfante no seu sorriso de bobo messiânico. Só ele ainda não percebeu que se mantém como líder do PSD porque o partido não goza de grande popularidade, e por isso mesmo ninguém com um mínimo de coerência e amor-próprio vai querer o lugar de PPC. Não que ele seja um homem só no poder, longe disso. O ex-primeiro-ministro é o homem certo no momento certo, alguém para ir desgastando a imagem, para oferecer os ombros nas derrotas autárquicas e nas legislativas. Depois de esgotada a imagem política de Passos Coelho surgirá quem possa oferecer uma "nova página na história do partido". 

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Não se pode negar que José Sócrates contribuiu para o desgaste do PS e, com isso, para a consolidação de um "benefício da dúvida" perante a coligação PSD-CDS. A mnemónica da herança socialista, da herança dos tempos do despesismo, para o qual as orientações europeias muito contribuíram, num período em que se acreditou que contrair mais despesa seria o ideal para ultrapassar a crise, serviu durante quatro anos como narrativa de legitimação governativa. Durante uma legislatura inteira a coligação encabeçada por Passos Coelho e Paulo Portas, jamais foi responsável pelas suas decisões. A mentira compulsiva surtiu os seus efeitos. 

Tudo isso é quase de somenos importância se levarmos em conta os efeitos sociológicos da coligação de esquerda liderada por António Costa. "Coligação negativa", "bota-abaixismo", "ilegítima", são inúmeros os adjetivos. Por todo o lado, da imprensa às ruas, se sentem as críticas a uma coligação em que o rosa se mistura aos vermelhos numa espécie de magenta. As pessoas habituaram-se a uma rotatividade entre PS, PSD e CDS, num eterno bailado dos mesmos, a qual passaram a ver como porto seguro. O "todos iguais" figurou como uma espécie de lamento costumeiro, algo que é mau mas que é bom porque que sempre tem sido assim. Quer isto dizer que os cravos empunhados, as "abriladas", foram gestos espontâneos de saudosismo, um reviver do espírito de Abril mas cujo horizonte de solução não era objetivado. Era desejar algo novo, uma solução mais social, mais humana, mais "de esquerda" mas sem a esquerda existente. É a sociedade dos mitos sebastianistas.

Todo este momento tem posto a nu a realidade ideológica nacional: um país de Direita marinada pela religião, pelas heranças dos brandos costumes, pelos medos dos "vermelhos" que trarão o comunismo. Nessa lógica, os velhos que vêm a política nacional como uma eterna luta de classes estão perdidos no tempo. Acima de tudo porque a "classe" tornou-se numa categoria sem operatividade. A noção de operariado foi dissolvida pela mobilidade social, mesmo que aparente, colocada em jogo pela sociedade de consumo. Entre o ter e o haver, ainda bem. Mas isto traduz-se numa sociedade em que cada qual se considera parte de um cluster economicamente distinto. A classe média vive o mito de classe alta. Ninguém lê o "Avante!" em público, ninguém votou no BE ou no PCP. É um eleitorado mais do que volátil - é temeroso. Usa o cravo como imagem, vota à esquerda para reforçar a oposição, mas quando tal produz um governo retrai-se e teme, como se dos pesadelos da infância voltasse o "papão". 

Esse mito de não-pertencimento a uma determinada "classe" está patente no estereótipo do eleitor de esquerda como pobre. Ninguém que vá de férias, trabalhe em serviços, vista fato e tenha um bom telemóvel pode ser de esquerda. O problema é que entre as camadas mais baixas da sociedade a esquerda foi desaparecendo, dando lutar a uma direita difusa. É a direita paternalista e referencial que Passos Coelho soube encerrar sobre si no tom calmo, humildade e paternal. Calhou bem em contraste com o anterior primeiro-ministro seguro de si, com roupas caras e um ar de "bon vivant". E a esquerda foi ficando nos velhos comunistas anti-PS e nos jovens abaixo dos 40 anos, numa lógica americana de que quem é republicano antes dos 30 anos não tem coração, acima dos 30 não tem cérebro. 

O PS passou a figurar, então, na cosmovisão portuguesa, como uma versão mais suave do PSD, mas jamais com tendências esquerdistas que o aproximem do BE e, "graças a deus!" longe do PCP. E isto faz-me regressar aos reflexos sociais. Não há dúvida de que o conservadorismo provinciano ainda produz os seus efeitos, particularmente quando mesclado ao capitalismo e à sociedade de consumo. Almejar ter a vida do patrão, fazer as suas férias, ter o que este tem, passa pela socialização terciária, pela modelagem comportamental em que os sujeitos copiam os gostos e tendências daqueles. Querer "ser como" é "agir como", e isso produz efeitos na intenção de voto, no voto real e na disposição ideológica. 

Portugal é, sim, uma sociedade de direita, moderada, marinada, e que teme a esquerda como a antítese da sociedade atual, jamais concebendo que a esquerda também se transforma. Felizmente na soma dos que acreditam na esquerda foi possível construir um amanhã novo, porque António Costa soube ousar. Mesmo que falhe ao menos tentou. Seja como for, os últimos quatro anos foram um mar de fingidos sucessos. 

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Os ataques em política, como de resto noutros lugares comunitários, servem muitas vezes para camuflar realidades próprias. O ataque cerrado à coligação de esquerda, encabeçada pelo PS, levado a cabo pelos partidos então no governo, partia de dois pressupostos erróneos: 1. que uma coligação a posteriori não era legal, 2. que não há Democracia se esta não contiver pelo menos um dos partidos de direita no poder. Quanto ao primeiro pressuposto basta dizer que a coligação PSD-CDS foi, na primeira legislatura, firmada após os resultados eleitorais. Quanto à segunda basta dizer que se António Costa tivesse aceite coligar-se à direita era hoje Vice-Primeiro-Ministro porque Paulo Portas estava disposto a abrir mão do seu lugar. No que concerne à sede de poder que apontaram a Costa estamos conversados. No que se refere, enfim, à concepção limitativa de democracia, não resta muito a dizer. Vícios de forma de outros tempos. 

Ora, depois de anos a fazerem do governo de José Sócrates bode expiatório e almofada para a necessidade de austeridade -- a qual sempre disseram, assim de fugida, que era parte do seu programa ideológico --, e de meses de campanha a anunciar o sucesso do programa troikista, eis que as notícias nos revelam que não há dinheiro para cumprir os compromissos com os credores. O golpe de teatro final surgiu em dois atos: proposta de restituição de 4 feriados e a nomeação à última da hora de 100 postos nos gabinetes do governo cessante. A 2 de junho de 2011, Passos Coelho escrevia no Twitter que não queria ser eleito para dar empregos a amigos. Entende-se, portanto, que os 100 funcionários metidos à pressão são meros conhecidos. As consequências herdam-nas o atual governo. 

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Parcialidades. É exatamente assim que vai Portugal e a Europa, depreende-se dos comentários de determinados analistas políticos, do Presidente da República ou do líder do Partido Popular Europeu. A toda esta onda de histeria coletiva que varre o Velho Continente, junta-se a corrente humana em torno da Assembleia da República pedindo um compromisso alargado entre PSD, CDS e PS, pedindo, em fim, que o Partido Socialista dê a mão ao governo, que se mantenha dentro do status quo, que faça o contrário do que os outros fizeram para que a troika entrasse em Portugal. Percebe-se, claramente, que há na Europa ainda muitas fantasmas. Resquícios de um outro tempo. Sebastianismo e messianismos barrocos. Exaltações amnésicas. São os mercados temerosos, o capitalismo sem rosto que segue esbaforido, é a Democracia de cristal construída após a Guerra a vacilar. A caça às bruxas nunca desapareceu. O eminente acordo entre o PS, BE e CDU reaviva os estereótipos do "perigo vermelho". É um mal que vem ao mundo, é o fim dos tempos, é o Apocalipse bíblico. É como se não tivesse sido um acordo entre tais partidos a permitir, décadas atrás, por exemplo, a criação do Serviço Nacional de Saúde. Pior. É como se a Democracia só fosse possível, na Velha Europa, através dos partidos engravatados. Partidos, aliás, que vão em na linha do que escreveu Alexandre O'Neill, «País engravatado todo o ano, e a assoar-se na gravata por engano». Não há Democracia, portanto, em Portugal, que não passe pelo PSD e/ou CDS no poder. Somente eles assumem o papel de estabelecer a ordem e a moral. Tudo o mais são vozes da oposição, vozes que deveriam ter ficado silenciadas no tempo. Porque a Democracia é para pessoas "às direitas". 

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De repente, até à legislatura presente, o PSD nunca esteve no governo. Foi o PS, sob a liderança de José Sócrates, que afundou o país. Única e exclusivamente. E se mal veio ao país foi sob a tutela socialista. Se calhar valeria a pena lembrar que José Sócrates foi eleito categoricamente porque o país não aguentava mais a governação social-democrata de Durão Barroso e Santana Lopes. Ora, isto não é apenas apagamento da história é uma limpeza de memória com fins eleitorais. Não só é imoral como é perigoso.

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CAVACO SILVA tomou, finalmente, uma atitude. É claro que a proposta de Cavaco Silva jamais traria desordem política, pelo contrário, levando a sério o seu papel de pacificador do espectro político nacional, o PR procurou por um lado garantir a sobrevivência do PSD na governação e por outro amarrar o PS, silenciando a oposição-candidata, deixando à esquerda vermelha o exercício de oposição, um barulho que tende a afetar pouco o PSD ou o PR, himself. A verdade é que procurando um bloco central, um governo de consenso entre os "três grandes" Cavaco Silva arrisca o caos político absoluto. O PS dificilmente dará a mão a um governo em queda - hipotecando assim as aspirações futuras - e o acordo entre Passos Coelho e Paulo Portas fica em banho-maria. Cavaco é, concordo, o pior político português da história da Democracia portuguesa.

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É já senso-comum que o governo português tem por chefe em exercício real o ministro das Fianças Vitor Gaspar, cabendo a Pedro Passos Coelho, oficialmente primeiro-ministro, o papel de ventríluco. A situação é particularmente preocupante quando compreendemos que não haverá alternativas no interior do vigente governo porque a única política em uso é a de Vitor Gaspar. O governo português é um 'estudo-de-caso' de como um governo consegue ser dependente de um único modelo oriundo de um único ministro que concentra em si totalitariamente o rumo do país. Mais preocupante é pensar que PPC chegou a primeiro-ministro sem ideias próprias, produto de uma estratégia de marketing, e de um golpe interno no PSD, num jogo de empurrar alguém para a forca e lavar as mãos da responsabilidade cívica. O país está como está porque houve uma cadeia de horrores - PSD elegeu PPC para líder, o povo elegeu PPC para primeiro-ministro e PPC escolheu VG para governar por si.

 

[adenda: o texto de Tomas Vasques no "i"]

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