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Dias Assim

11
Abr21

Micropost [76]

Suzana Garcia, na sua entrevista ao expresso, fala na distribuição indevida do RSI e na consequente necessidade de mecanismos de controlo. Não obstante a veracidade desse facto, o RSI tornou-se tema político porque as pessoas estão mais preocupadas com a distribuição das migalhas entre si, do que com as imoralidades com cobertura legal. Na Amadora, onde ela irá concorrer, Suzana Garcia sabe que o discurso Venturista do "eles" e "nós" apela a um eleitorado concreto e alargado, num município que é um laboratório de convivência e tensão étnica. Com uma estratégia próxima à do Chega, mas livre da conotação negativa daquele partido, Suzana Garcia tentará conquistar a Câmara ao PS, no que seria uma vitória de Rui Rio, mas uma derrota para a contenção do apelo populista.

31
Mar21

Suzana Garcia e a atividade política

A escolha de Suzana Garcia, advogada e ex-comentadora televisiva, como cabeça-de-lista à Câmara da Amadora pelo PSD está nas mãos de Rui Rio. É, pois, o líder do partido quem irá dar o aval ou rejeitar a proposta do nome. Mas quer seja aceite ou não, esta escolha, mesmo que provisória, permite um debate sobre o perfil e a atividade política. Enquanto reflexo do primado da representação social, tendo presente que o Estado de Direito democrático republicano que nos rege é representativo por via parlamentar, e que deve refletir, da melhor forma possível, a sociedade sem pretender ser um reflexo proporcional desta, o perfil de um ator político deve ser plural, i.e., devemos falar em perfis e não em perfil. Mas a isto não obsta que se defenda a posse de um conjunto de características-base para o desempenho de cargos de natureza política, como o respeito pela dignidade humana e pelos direitos fundamentais, o respeito pelo texto constitucional, o respeito pelo Estado de Direito, o respeito pelo contraditório, o respeito pelo adversário político, o respeito pela coisa pública. O problema é que vamos notando que tais traços elementares de convivência social e participação política nunca foram totalmente reais e cada vez são menos validados e inquestionavelmente aceites. Percebemos que o "ar do tempo" é populista, é o do espetáculo, onde o politicamente incorreto opera como valor superior, travestido de «voz do povo» e de «verdade». Ora, isto não significa que uma pessoa com atividade pública na televisão, nas artes, no desporto ou outras, não possa, por princípio, participar da vida política ou concorrer a cargos públicos. Isso seria, obviamente, uma violação do princípio constitucional do acesso à vida política (art.º 48.º/1, CRP). O que está aqui em causa é que Suzana Garcia construiu uma imagem pública sensacionalista, populista, marcada por conflitos e pronunciamentos pouco corretos, imagem essa que parece pouco condicente com o que o PSD deveria desejar para encabeçar uma lista. O momento é, também, particularmente importante, uma vez que caso se confirme esta escolha, o PSD acabará por assumir que entrou numa deriva populista como estratégia para firmar as suas fronteiras com o Chega. Ora, se Rui Rio defendia que o PSD era um partido de esquerda moderada, não se percebe esta preocupação com a direita nacionalista e securitária. Por outro lado, mostra que a Amadora é um tubo de ensaio político. Não é por acaso que José Eduardo Martins fala no dia das mentiras para se referir a esta possível escolha. 

25
Jan21

A manhã depois das eleições

Estas eleições tornaram evidente a recomposição do mapa político nacional, ainda que de modo parcial, tendo em conta que a eleição presidencial é sempre um fenómeno indissociável do carisma dos candidatos. Em todo o caso, é percetível que Portugal vive, hoje, um fenómeno de fragmentação social, por força da importação do modelo reciclado da “guerra fria”, decorrente da incapacidade da globalização – por razões inerentes à ideologia liberal – chegar a todas as franjas da sociedade. Os chamados “descamisados da globalização”, aqui, como um pouco por todos os países onde a baixa escolaridade e a baixa renda andam associadas (a que se juntam sentimentos patrióticos), procuraram vozes com aura antissistémica que ampliassem as suas visões do mundo, dizendo pós-verdades que formam uma narrativa política poderosa. Os “verdadeiros americanos”, os “cidadãos do bem” do Brasil, ou os “portugueses de bem”, alinham-se contra um “perigo vermelho” que é preciso derrotar. Em consequência dessa polarização muito bem orquestrada, o pacto social tem dado lugar à tensão social.

Quanto à noite eleitoral, o discurso de vitória de Marcelo Rebelo de Sousa serviu para mostrar ao Partido Social Democrata que a social-democracia contida na sua designação não é meramente operatória, mas antes um rumo num país onde a extrema-direita é, na verdade, mais perigosa do que qualquer partido de esquerda radical. O chamado presidencial à pacificação e unificação nacionais, em linha, de resto, com o discurso de posse de Joe Biden, dificilmente sortirá o efeito desejado. A locomotiva do autoritarismo está em marcha, e cabe aos partidos democráticos atuarem na esteira da integridade, da ética e do compromisso com a sociedade, em defesa do Estado de Direito democrático, se querem impedir que o Chega chegue ao governo.

Apesar dos bons discursos de João Ferreira e Catarina Martins (Marisa Matias mostrou, uma vez mais, que não possui o perfil para as funções que desempenhou), a esquerda vermelha em Portugal enfrenta uma brutal crise perante a hecatombe dos resultados. Muito provavelmente, terão dificuldade em tirar elações políticas dos resultados que não de natureza exógena. Se assim for, nas próximas eleições legislativas correm o risco de se juntarem ao CDS e alugar uma pequena carrinha de 10 lugar para deslocações ao Parlamento. Nos termos que a situação política em Portugal aparenta, a refundação da esquerda tornar-se-á um imperativo, seja através de uma aliança (difícil) entre o BE e a CDU, seja com o surgimento de um partido capaz de apresentar uma mensagem de esquerda moderna, tarefa que o Livre foi incapaz de cumprir. Talvez ainda vá a tempo.

À direita, o CDS tentou colar-se à vitória de Marcelo Rebelo de Sousa de tal forma megalómana que saiu a perder com o discurso de Francisco Rodrigues dos Santos. A bolha de oxigénio que “Chicão” procurava era manifestamente ilusória. Exigia-se uma mensagem positiva, mas mais comedida. Rui Rio aproveitou bem a oportunidade para se demarcar do Chega, entendendo as mensagens de Marcelo Rebelo de Sousa ao longo da campanha, mas terá errado ao atacar o PS naquele momento, procurando, também ele, empolar os resultados eleitorais em favor do PSD. Quando à IL, apesar dos satisfatórios resultados de Tiago Mayan Gonçalves, o candidato liberal mostrou-se particularmente impreparado para o discurso, tendo uma atuação sofrível.

Os dados da política nacional estão lançados. O futuro será de batalha política, muitos confrontos ideológicos, pós-verdades, acusações, numa tentativa de instrumentalizar a crise sanitária, crise económica e a crise social que se avizinham.

© Foto Mário Cruz - Lusa 

04
Nov20

A Caranguejola Açoreana

A caranguejola açoreana é bastante legítima, e o precedente foi aberto com a geringonça. A questão não é essa. A questão é que para governar o PSD tem de fazer concessões ao Chega. Isto é válido nos Açores e pode vir a ser válido nas legislativas. Ora, André Ventura sabe que não pode dar um salto fora dos compromissos com o seu eleitorado, pelo se vai manter fiel ao homem-elástico que encarnou. Ao contrário de João Miguel Tavares, eu não acho nada boa ideia o PSD se dar a estas danças para chegar ao poder. E não, o BE não é a mesma coisa que o Chega. É por isso que é tão urgente revitalizar o CDS, tirando de lá o Chiquinho e colocando alguém capaz. Atendendo à idade de Adriano Moreira, diria Manuel Monteiro, Adolfo Mesquita Nunes ou mesmo Paulo Portas.

adenda: agradeço à equipa de blogs do Sapo pelo destaque deste post.

14
Out20

A Carta de Amor de André a Rui

André Ventura escreveu uma carta a Rui Rio, defendendo que a queda do governo socialista, que ele entende que virá, trará a oportunidade de governo a uma coligação "inevitável" entre o PSD e o Chega. Ventura é um tipo da área política do PSD que tinha pressa de chegar ao Parlamento e muita sede de protagonismo. Criou o Chega para atrair os votos das franjas sociais mais descontentes, com teorias da conspiração, com voz nas caixas de comentários. Mas ele não quer estar preso a estas amarras eternamente, a menos que tenha de ser. Por isso, tanto joga no campo da extrema-direita europeia, quanto tenta aproximações ao centro. Aquilo que ele mais quer é aquilo que ele mais acusa os outros de quererem: poleiro.

08
Ago20

Micropost [50] | Poder, a quanto obrigas

A disponibilidade de Miguel Albuquerque para dialogar com o Chega, depois de Rui Rio, diz mais do Estado de espírito do PSD do que sobre uma estratégia da Direita para formar um bloco. O que se passa, verdadeiramente, é que o PSD temendo não chegar ao poder e vendo o PS mais próximo de reavivar a geringonça, sentiu o chão fugir-lhe e, assim, opta por vender a alma ao ar do tempo ao invés de ser o bastião democrata à direita. Poder, a quanto obrigas.

08
Ago19

Um Outubro quente seca o Rio

Com Outubro cada vez mais perto (afinal até chove) veremos o PSD desbaratado no rescaldo das eleições, quando chegar a longa noite de Miguel Morgado. Com isso, e por culpa de Rui Rio não ter feito o que se propôs, i.e. recentrar o partido, o PSD transformar-se-á num partido radical, esvaziando o centro-direita e arrastando o CDS no embalo do populismo. E isto não pode, de maneira alguma, ser celebrado à esquerda. Sem um centro-direita vivo, a extrema-direita ganha terreno e a Democracia põe-se em risco. No Brasil não apenas o PT perdeu para que Bolsonaro fosse eleito. O PSDB foi, também, assassinado.

20
Jan19

É preciso salvar o PSD!

Enquanto eleitor de esquerda, do centro-esquerda mais canhoto, digamos assim, não me vanglorio, em tempos que correm, com a situação decrépita que parece devotado o maior partido do centro-direita/direita português. A história da democracia portuguesa é feita também e muito, graças ao PSD. Nenhuma democracia sobrevive quando centro se esvazia. Ora, em tempos de crise ideológica e social, em que discursos sedutores de demonização de um «outro» com o qual não se consegue articular uma alteridade positiva, e de hipermoralidade religiosa que se julgava perdida com o avanço das sociedades, é fundamental que os partidos ditos «moderados» sejam capazes de se manter fiéis aos seus edifícios ideológicos, agarrados à democracia e livres de suspeição e da mácula da corrupção. Quando isso não acontece crescem coisas como o Vox, a Frente Nacional, atual Reunião Nacional, elegem-se pessoas como Órban e Bolsonaro. Com o perigo do fascismo ali ao lado, cada vez mais normalizado, Portugal não está assim tão imune a adesões populistas, faltando, apenas, o líder certo, num país que sabemos ser profundamente racista e de forte pendor messiânico. Será o espaço deixado em vazio por um PSD enfraquecido que esse movimento ocupará. Por isso sim, precisamos salvar o PSD. A bem de todos. 

20
Mar17

A Lapela de Passos Coelho: O PSD até às legislativas

Existe um país que só Pedro Passos Coelho conhece, todo ele vivente no seu imaginário. É feito de cortes permanentes, de um proletariado pobre e feliz, tecido numa nostalgia do Estado Novo. Bebe da grande marcha troikista, e vai triunfante no seu sorriso de bobo messiânico. Só ele ainda não percebeu que se mantém como líder do PSD porque o partido não goza de grande popularidade, e por isso mesmo ninguém com um mínimo de coerência e amor-próprio vai querer o lugar de PPC. Não que ele seja um homem só no poder, longe disso. O ex-primeiro-ministro é o homem certo no momento certo, alguém para ir desgastando a imagem, para oferecer os ombros nas derrotas autárquicas e nas legislativas. Depois de esgotada a imagem política de Passos Coelho surgirá quem possa oferecer uma "nova página na história do partido". 

30
Nov15

Portugal: Uma Sociedade de Direita?

Não se pode negar que José Sócrates contribuiu para o desgaste do PS e, com isso, para a consolidação de um "benefício da dúvida" perante a coligação PSD-CDS. A mnemónica da herança socialista, da herança dos tempos do despesismo, para o qual as orientações europeias muito contribuíram, num período em que se acreditou que contrair mais despesa seria o ideal para ultrapassar a crise, serviu durante quatro anos como narrativa de legitimação governativa. Durante uma legislatura inteira a coligação encabeçada por Passos Coelho e Paulo Portas, jamais foi responsável pelas suas decisões. A mentira compulsiva surtiu os seus efeitos. 

Tudo isso é quase de somenos importância se levarmos em conta os efeitos sociológicos da coligação de esquerda liderada por António Costa. "Coligação negativa", "bota-abaixismo", "ilegítima", são inúmeros os adjetivos. Por todo o lado, da imprensa às ruas, se sentem as críticas a uma coligação em que o rosa se mistura aos vermelhos numa espécie de magenta. As pessoas habituaram-se a uma rotatividade entre PS, PSD e CDS, num eterno bailado dos mesmos, a qual passaram a ver como porto seguro. O "todos iguais" figurou como uma espécie de lamento costumeiro, algo que é mau mas que é bom porque que sempre tem sido assim. Quer isto dizer que os cravos empunhados, as "abriladas", foram gestos espontâneos de saudosismo, um reviver do espírito de Abril mas cujo horizonte de solução não era objetivado. Era desejar algo novo, uma solução mais social, mais humana, mais "de esquerda" mas sem a esquerda existente. É a sociedade dos mitos sebastianistas.

Todo este momento tem posto a nu a realidade ideológica nacional: um país de Direita marinada pela religião, pelas heranças dos brandos costumes, pelos medos dos "vermelhos" que trarão o comunismo. Nessa lógica, os velhos que vêm a política nacional como uma eterna luta de classes estão perdidos no tempo. Acima de tudo porque a "classe" tornou-se numa categoria sem operatividade. A noção de operariado foi dissolvida pela mobilidade social, mesmo que aparente, colocada em jogo pela sociedade de consumo. Entre o ter e o haver, ainda bem. Mas isto traduz-se numa sociedade em que cada qual se considera parte de um cluster economicamente distinto. A classe média vive o mito de classe alta. Ninguém lê o "Avante!" em público, ninguém votou no BE ou no PCP. É um eleitorado mais do que volátil - é temeroso. Usa o cravo como imagem, vota à esquerda para reforçar a oposição, mas quando tal produz um governo retrai-se e teme, como se dos pesadelos da infância voltasse o "papão". 

Esse mito de não-pertencimento a uma determinada "classe" está patente no estereótipo do eleitor de esquerda como pobre. Ninguém que vá de férias, trabalhe em serviços, vista fato e tenha um bom telemóvel pode ser de esquerda. O problema é que entre as camadas mais baixas da sociedade a esquerda foi desaparecendo, dando lutar a uma direita difusa. É a direita paternalista e referencial que Passos Coelho soube encerrar sobre si no tom calmo, humildade e paternal. Calhou bem em contraste com o anterior primeiro-ministro seguro de si, com roupas caras e um ar de "bon vivant". E a esquerda foi ficando nos velhos comunistas anti-PS e nos jovens abaixo dos 40 anos, numa lógica americana de que quem é republicano antes dos 30 anos não tem coração, acima dos 30 não tem cérebro. 

O PS passou a figurar, então, na cosmovisão portuguesa, como uma versão mais suave do PSD, mas jamais com tendências esquerdistas que o aproximem do BE e, "graças a deus!" longe do PCP. E isto faz-me regressar aos reflexos sociais. Não há dúvida de que o conservadorismo provinciano ainda produz os seus efeitos, particularmente quando mesclado ao capitalismo e à sociedade de consumo. Almejar ter a vida do patrão, fazer as suas férias, ter o que este tem, passa pela socialização terciária, pela modelagem comportamental em que os sujeitos copiam os gostos e tendências daqueles. Querer "ser como" é "agir como", e isso produz efeitos na intenção de voto, no voto real e na disposição ideológica. 

Portugal é, sim, uma sociedade de direita, moderada, marinada, e que teme a esquerda como a antítese da sociedade atual, jamais concebendo que a esquerda também se transforma. Felizmente na soma dos que acreditam na esquerda foi possível construir um amanhã novo, porque António Costa soube ousar. Mesmo que falhe ao menos tentou. Seja como for, os últimos quatro anos foram um mar de fingidos sucessos. 

Cólofon

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