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A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

18
Nov20

"O preto de casa"

Soube que na entrevista de Ventura a Miguel Sousa Tavares, o primeiro disse que tinha um amigo "preto de casa". Esta afirmação é prova irrefutável de que o racismo tem uma dimensão estrutural invisível, muito difícil de desmontar. Para André Ventura essa circunstância prova que não há racismo em Portugal. Mas a mim mostra o contrário. Mostra que a ideologia esclavagista e racial permanecem, porque ter um "preto de casa" sempre significou dominação. O "preto de casa" é aquele que se opõe ao "de senzala". É aquele mais limpo que serve para tarefas domésticas e para mostrar um espírito humanista e civilizador.

02
Nov20

Micropost [65] Murais do Racismo

Sobre os murais racistas, nas escolas e universidades, importa lembrar que ao sabor do lusotropicalismo Portugal construiu um imaginário de país sem racismo, ou, nos termos mais negativos, de um país onde o racismo era moeda de troca. Uma falácia que esconde a dominação e o silenciamento. As políticas públicas que visam reverter esse histórico são interpretadas como favorecimento e proteção, reforçando ímpetos raciais. Enfim, não podemos deixar o racismo vencer, mas para tal é preciso desconstrui-lo de forma pedagógica.

05
Set20

Micropost [55] | a mulher branca que se fazia de negra

As culturas e comunidades negras e afrodescendentes são abertas ao estudo por qualquer pessoa, independentemente da classificação étnica, sexual, de género, social ou económica. A ciência é um olhar de todos e a ideia puritana de exclusive insider perspective é pobre e de natureza política. Mas depois há isto, um aproveitamento e instrumentalização que reforçam a lógica da dominação racial. Terrível.

13
Ago20

Micropost [52] | O KKK dos mascarilhas

Retorno às imagens dos manifestantes. Noto que alguns dos seus membros são negros. Esta inconsciência de si recorda-me os judeus e negros colaboracionistas, pessoas que desconstroem o seu "eu" cultural e étnico para se "engalegarem" no "outro", num processo que não é mais do que uma estratégia de subversão do estigma social para fins de ascensão psicológica. Com isto não evito desviar o pensamento até à Umbanda, religião nascida no Rio de Janeiro no século XX, marcada pelo cruzamento cultural brasileiro, e onde os espíritos dos bons e dóceis escravos são exaltados, "negros de alma branca".

12
Ago20

Mas alguém aqui é o preto?

Ao que parece, uma das formas mais eficazes de provar que Portugal não é um país estruturalmente racista é fazer uma manifestação ao estilo do Ku Klux Klan à porta do SOS Racismo. In meanwhile, as deputadas Joacine Katar Moreira, Beatriz Dias e Mariana Mortágua, receberam ameaças por email, onde lhes foi dado 48h para abandonar o país. Caso contrário, “medidas serão tomadas contra estes dirigentes e os seus familiares, de forma a garantir a segurança do povo português”. Ora, na qualidade de cidadão português não me sinto minimamente ameaçado pelas três deputadas referidas, pelo contrário, mas temo muito este movimento de supremacia branca e nacionalista. É o espelho de um país que tem por ideologia o mito do bom colonizador, e com ele o paradoxo bem resolvido de não ser misógino mas pagar pior às mulheres, de não ser racista mas segregar por razões raciais, não ser homofóbico mas achar a homossexualidade uma doença, não ser preceituoso mas requerer pedigree social.

24
Jul20

A Montra do Império

A presença africana na cidade de Lisboa e outros lugares do país (segue de exemplo o Paço dos Negros da Ribeira de Muge) é marca inegável da História nacional, meticulosa e ideologicamente negada sob o compasso da memória coletiva racializada. Escravidão, irmandades negras, autos da Inquisição, profissões como vendedeiras, limpa-chaminés e tantas outras, são elementos que provam a marca africana na História portuguesa no seu próprio solo, pese todo o esforço de apagamento intencional dessa memória. A novidade da presença africana que a reportagem da SIC mencionou tem um viés temporal adstrito ao Estado Novo. Na cidade do Porto de então a presença de negros era uma raridade. Memórias familiares contam que se considerava sinal de bom presságio o avistamento de um negro na Invicta dos anos de 1950.
 
Portanto, no caso das exposições de negros, fenómeno comum na Europa de então, o elemento exótico da "raridade" era um ativo importante e real. A profunda marca do racismo, do determinismo racial e do evolucionismo estava impressa no espírito do tempo e nas gentes. Com uma população massivamente analfabeta, Portugal era um país racista (não por alteridade contrastativa, mas antes como gesto de rejeição do outro como produto histórico de longo-termo), cujos efeitos se estendem até hoje, aspeto a que o evento traumático da descolonização deu forte impulso.
 
Avaliar os eventos no seu tempo não é desculpabilizar os mesmos, mas oferecer uma base de análise, um ponto de partida para o debate tão urgente quanto atrasado. Assim, o exercício de combate desta ideologia racial precisa ser feito pela desconstrução e pelo debate histórico, não pela violência simbólica contra a sociedade portuguesa, fulanizando colectivamente o país, sem a esteira do contexto como aspeto de avaliação. Uma avaliação necessariamente crítica e dolorosa da História, das memórias e das narrativas que o país conta a si mesmo.
02
Jul20

Estátuas, Nacionalidade e a escola que não nos formou

(inauguração da estátua do Marquês de Pombal)

No seguimento do homicídio de George Floyd, assistimos a uma cabal reivindicação global de combate ao racismo, um exercício extremamente difícil de levar a cabo em países onde este comporta uma dimensão estrutural. Como afirma Sílvio Almeida, em O que é o racismo estrutural?, o racismo “é uma forma sistemática de discriminação que tem a raça como fundamento, e que se manifesta por meio de práticas conscientes ou inconscientes que culminam em desvantagens ou privilégios, a depender ao grupo racial ao qual pertençam”. Com efeito, é nas práticas inconscientes que o racismo tem maior preservação e eficácia, porque graças à sua capacidade de preservação, penetra as estruturas sociais, reproduzindo-se de forma invisível, traduzindo-se numa perceção comunitária de inexistência, a partir do “lugar de fala” da maioria. Aproxima-se, portanto, do que Weber designa por «dominação», tendo em vista que impõe o olhar enviesado do coletivo sobre a parte marginalizada. Em termos práticos, decorre que o racismo se perceciona como manifestado em atos isolados e não como parte do sistema social. Isto acontece por duas razões: 1) o olhar coletivo é inconscientemente racializado, i.e., se o racismo não é algo que a maioria sente (precisamente porque é maioria), então ele não existe como ativo social estruturante, 2) porque imporia uma reflexão profunda que mexe com os alicerces de conforto da psicologia coletiva. 

Entramos, portanto, num terreno arenoso, ligado tanto à dominação inconsciente quanto à glorificação da memória coletiva. Como lembra Jean-Louis Triaud, no seu capítulo “Lieux de mémoire et passés composés”, a memória é um ativo político que permite reforçar o poder de determinado grupo. Este aspeto liga-se, forçosamente, à construção de uma memória identitária de um coletivo alargado a que chamamos «nação». Para se produzir um sentimento de pertença e reconhecimento, é preciso que se fabriquem tradições que permitem dar um sentido de continuidade com o passado, como falavam Ranger e Hobsbawn em The Invention of Tradition. A nacionalidade é, assim, uma seleção de elementos culturais, práticas herdadas, símbolos e eventos históricos que em conjunto formam uma ideologia que é exaltada a partir do “ius solis”, i.e., de uma nacionalidade elaborada em função do solo – a geografia da identidade.

Ora, a nacionalidade para ser exaltada demanda por elementos culturais, desde a poesia, ao romance, passando pela arte em toda a sua expressividade, com pinturas, estátuas e monumentos [1]. Configuram-se elementos de exaltação da memória nacional, símbolos dos feitos, façanhas e atos heroicos que glorificam a «nação». Trata-se, portanto, do património material ao qual se junta o património imaterial, com a literatura, a música, o cancioneiro e as práticas culturais, desde as romarias às festividades dos santos da devoção popular. 

Mais do que em qualquer outro momento da nossa história, o Estado Novo veiculou uma ideologia de nacionalidade, assente no catolicismo popular, em particular em torno de Fátima, na valorização das “raízes”, i.e., da memória coletiva construída nas tradições rurais, no fado e no futebol. A socialização das várias gerações que o regime atravessou, fez-se na exaltação da heroica façanha portuguesa dos Descobrimentos, ato fundador da lusofonia, cuja euforia ideológica foi fundante do lusotropicalismo. A ideologia da ação civilizadora portuguesa, empreitada que levou aos selvagens a “salvação” católica e a “civilização”, expressa-se paradigmaticamente no Portugal dos Pequenitos. Com efeito, tanto nesse parque temático quanto no ensino escolar, o 25 de Abril não sedeou qualquer rutura. Não experienciámos, enfim, qualquer ímpeto descolonialista. Ainda hoje, o Portugal dos Pequenitos permanece um espaço de exaltação desse Portugal dos monumentos arquitetónicos e do “bom colonizador”. Não se verifica qualquer esforço de contextualização da narrativa e de desconstrução ideológica. Ali, 1940 permaneceu. E o mesmo aconteceu com o ensino escolar. A epopeia dos Descobrimentos é ensinada às crianças num mesmo tom civilizador, sem qualquer margem para pensar os eventos do lugar do «outro». Não é oferecida uma descolonização do mais exaltado período da história portuguesa, uma vez que este permanece como um recurso ideológico na reprodução da memória instituída da “portugalidade”. Com a perpetuação da narrativa ideológica herdada do Estado Novo, os portugueses continuam a pensar os Descobrimentos e a colonização a partir do mito do “bom colonizador”, aquele que levou aos africanos e aos índios do Brasil a salvação e a civilização, resgatando-os da selvajaria dos seus costumes. 

Ao perpetuar a narrativa eurocêntrica da produção da História, observa-se a cristalização de lugares de conforto e dominação ocidentais. Não obstante, é importante refrear os ímpetos revisionistas que procuram ajustes de contas com a História. Esse tipo de atitude não faz mais do que procurar alterar o eixo de dominação, ao invés de tentar oferecer “voz”, i.e., visibilizar, as culturas vítimas e invisibilizadas pela narrativa eurocêntrica. É imperioso reconhecer que todos os países têm direito ao seu património cultural e identitário e a uma memória histórica, e que a visibilização das vozes silenciadas – de que podemos destacar p. ex. a presença africana na cidade de Lisboa [2] –, não pode implicar a destruição material e/ou simbólica dos elementos da cultura dominante, sob pena de abrir um brecha irreparável de fortes efeitos políticos e civis

Assim, descolonizar o pensamento e a sociedade civil é imperioso, não como um ato de destruição da História, nem mesmo de reparação, mas antes como gesto de visibilização das vozes silenciadas e, sobretudo, em nome da memória histórica da humanidade como um todo. Em Portugal, é cada vez mais necessário abandonar o lusotropicalismo e a exaltação dos Descobrimentos per se, processo que tem produzido uma secundarização da escravatura, inscrita como parte do processo histórico, evocação que traz, nesses termos, uma redenção simbólica e psicológica, não às culturas vítimas, mas à dominante. A Escravatura só poderá ser tratada como um evento “lá atrás” quando for trazida à sociedade civil, através do Ensino básico e secundário e espaços de fomento cultural, como um evento de destruição de vidas humanas e de culturas. Somente quando for normativo o olhar sobre os Descobrimentos e a colonização como uma ocorrência de duas faces, poderemos falar em fim de uma dominação cultural e de uma ideologia de portugalidade. O Quinto Império não é uma promessa, mas uma ameaça. Por outro lado, o combate por essa integração de um olhar criterioso e consciente não pode ser feito por meio da destruição da memória histórica e do património, sem com isso estar a violar o direito à dignidade identitária. Precisamos focar as múltiplas vozes da História e da identidade portuguesa, não apagar o denominador comum para substituir por outro. 

[1] ver Giumbelli, Emerson. "Brasileiro e europeu: a construção da nacionalidade em torno do monumento ao Cristo Redentor do Corcovado." Cadernos de Antropologia e Imagem 24.1 (2011): 35-63.  Oriá, Ricardo. "Construindo o Panteão dos Heróis Nacionais: monumentos à República, rituais cívicos e o ensino de História." Revista História Hoje 3.6 (2014): 43-66.

[2] Leite, Pedro Pereira, Isabel de Castro Henriques, e Ana Fantasia, Lisboa Cidade Africana: Percursos e Lugares de Memória da Presença Africana, Marca d’ Água: Publicações e Projetos (2013).

30
Jun20

Da Questão Cigana

Chamar à atenção do racismo estrutural não significa tornar as minorias agentes passivos da história, significa, isso sim, salientar que as suas circunstâncias sociais e económicas são condicionadas por forças invisíveis que agem ab initio, desde o seu nascimento. Quando alguém, numa empresa, coloca um CV para o lado a partir da classificação étnica de um candidato está a) a ser racista, b) a contribuir silenciosamente para o racismo estrutural.

No caso dos indivíduos de etnia cigana, chamar à atenção da necessidade de políticas públicas de inserção social e fomento escolar, cujos efeitos são lentos em virtude de um histórico de perseguição e segregação, não significa negar os problemas correntes derivados das falhas de inserção. Os casos de violência, como o mais recente registado em Benavente, provam a urgência tanto de políticas públicas quanto da ação judicial. Nada fazer é abrir terreno para o Chega e outros movimentos radicais, e com eles para as soluções de segregação e genocídio utilizadas no passado. Este problema em particular (a questão cigana) não se resolve nem pela via da justiça popular ou da justiça populista, nem pela negação da necessidade de ação judicial e desresponsabilização total dos agressores. É de tal natureza minuciosa que precisa de reforço democrático, não do contrário.

09
Jun20

"Não há racismo em Portugal"

Ora, diz Rui Rio do seu lugar de fala racial. E diz ele e diz muita gente, porque o racismo estrutural (ou sistémico) é invisível, e assim, de tão profundamente enraizado na história e memória portuguesa, ganha a aura de inexistente. Agora vejamos, quantos deputados, docentes universitários, gestores de empresas, etc, são negros ou de outra classificação étnico-racial? Se perante esta questão responder que são praticamente inexistentes por serem inerentemente intelectualmente inferiores, então parabéns, é um racista e pode ir votar em consonância com isso. Se disser que tal decorre da falta de mérito, então vive na ilusão de que as circunstâncias de partida não influem na construção de oportunidades. É aí que reside o racismo estrutural, na reprodução de uma situação de marginalidade que impede a igual mobilidade social.

07
Jun20

E as manifs, têm vírus?

Há muita gente revoltada com as manifestações antirracistas ocorridas ontem em Portugal. Uns porque julgam que o combate ao racismo é só um golpe político anti-trump (prováveis eleitores, portanto, de Ventura, que vivem na paranoia da espuma dos dias), outros por motivos de saúde pública. Estes últimos compreendo. Em parte. Em parte porque não vejo revolta contra os aglomerados nas praias, contra aqueles que desrespeitam as regras de distância social em período de desconfinamento. Há quem invoque as críticas endereçadas ao 1º de Maio para criticar estas manifestações, na lógica do "olha, agora já pode!?". Sim, agora já pode e não é pelo racismo, mas pelo desconfinamento. Com efeito, foram cometidos erros de cautela pública segundo as normas da DGS, não muito diferente das filas de supermercados em que não se respeita a distância, daquelas pessoas que usam máscara mas deixam o nariz destapado, ou das que não respeitam quaisquer medidas de segurança porque é uma "mariquice" de "alfacinhas", porque macho que é macho agarra o vírus pelos cornos. E, por favor, não digam que o que se passou nos EUA não teve nada que com Portugal. O racismo estrutural é uma realidade da maioria das sociedades ocidentais, porque é invisível e silencioso. Sim, poderíamos ter levado a cabo tais manifestações noutras ocasiões, mas vivemos o tempo das redes sociais, das trends, dos hashtags e das correntes. Porque só neste assunto haveríamos de não importar tendências?