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O Estado dos Dias

«O dia precedente é o mestre do dia seguinte.» - Píncaro

Fardas e Fardados

21
Nov22
A questão do ódio racial nas forças de autoridade não é de somenos importância, nem deve ser tratada de ânimo leve. Precisamos ter presente, em primeiro lugar, que se trata de agentes armados e com o monopólio da violência no espaço público, em nome do Estado. Nesse sentido, é preciso ter absoluta confiança no cumprimento do dever e no respeito pelos cidadãos e os seus direitos. Isto significa, quer queiramos ou não, formar bons agentes, e isso passa por um investimento que começa nas escolas e academias e acaba na qualidade das instalações, segurança laboral e condições salariais.

Portanto, o número de agentes ligados a discursos e crenças racistas, misóginas e outros preconceitos é um problema estrutural, não pela quantidade, mas antes pela questão do monopólio da violência e porque reflete um problema de fundo nas sociedades ocidentais: o ressentimento e o estigma são ferramentas de autosatisfação e pertença, porque se baseiam num ódio a um outro que se encontra abaixo na escala social.

É, pois, necessário consciencializar os agentes da situação de pobreza e semelhança por parte de muitas pessoas dos bairros carenciados. Isto não significa que os agentes não devam atuar. Devem. Devem deter quem não cumpre a lei. Mas devem agir, também, de modo proporcional e com sensibilidade, não com base em preconceitos e ódios prévios.

Assim, tão urgente quando purgar as forças de autoridade destas pessoas é garantir condições dignas para o exercício da profissão, formando bons agentes. Porque a ideia de um Estado sem forças de segurança pública é uma utopia.

O bom senso e o racial

22
Set22

Escreve n'Observador Alberto Gonçalves o seguinte "É óbvia a tendência para empregar actores negros em papéis consensual ou evidentemente “brancos”. A chatice é que o mundo ameaçaria explodir à mera sugestão de um actor branco “ser” Martin Luther King"
Há elementos woke aos quais não adiro, porque o propósito woke não é, na sua maioria, mudar a sociedade, mas antes policiar e purificar o espaço público. Mas há mudanças que resultam do bom senso, do reconhecimento de novas dinâmicas socioeconómicas, demográficas, de identidade e identificação.
Ora, a propósito do que diz Alberto Gonçalves, podemos afirmar, com bom senso, que o Super Homem não precisa ser branco e heterossexual, desde que mantenha o núcleo de identidade visual da personagem. Pode até ser vegan. Diferente é o caso de pessoas reais ou até personagens demarcadas culturalmente. Uma pequena sereia negra não deixa de ser a pequena sereia. Está dentro de um patamar de elasticidade da personagem. Uma pequena sereia que voasse seria bastante mais problemático. Diferentemente, um Thor, enquanto divindade da mitologia nórdica, tem forçosamente de ser branco. Tal como Jesus não deveria ser loiro. É por isso que Martin Luther King não poderia ser representado por um ator branco, como Churchill não poderia ser representado por um ator negro. A menos que falemos de um exercício perfomativo de rutura de personagens. Tudo o mais é bom senso, coisa que falta e muito.
 
→ sobre este assunto ver também post sereias, apropriação cultural, racismo e simbologia inclusiva
 
[adenda: obrigado à equipa de Blogs do Sapo pelo destaque deste post]

Woke Racism

19
Set22

O livro não é sobre a existência ou não de racismo. O autor é perentório, para que não restem dúvidas, de que o racismo existe, é um problema sério na sociedade norte-americana (estadunidense), que afeta a vida das pessoas negras e racializadas de modo evidente e brutal. Dito isto, o livro é sobre a ascensão de uma agenda ideológica woke antirracista que não permite que se faça humor ou critique uma pessoa não-branca sem se ser cancelado, sobre uma manifestação de natureza absolutista e, segundo o autor, religiosa, de ativismo que ao abrigo da ideia de "desmantelar estruturas" sociais racistas visa converter toda a população a uma leitura única do fenómeno racial americano baseada numa grelha rígida de "opressor vs oprimido". [recensão completa]

sereias, apropriação cultural, racismo e simbologia inclusiva

15
Set22

A nova versão da Pequena Sereia trouxe mais lenha à fogueira das guerras culturais entre o antirracismo e o enraizamento identitário ocidental. Quem cresceu a ver os desenhos animados da Disney lembra-se de uma Arielle coincidente com os padrões de beleza inerentemente ocidentais. À primeira vista isto não seria um problema numa sociedade alemã, escandinava ou de leste europeu de 1990, mas para países como a Inglaterra, os Estados Unidos, Portugal ou França, com uma longa presença não-branca no interior das suas fronteiras, em resultado de um passado colonial, o tecido social há muito que era, foi cada vez mais sendo, multicultural e multirracial, situação que se estendeu a todo o Ocidente, com maior ou menor intensidade.
Convém ter presente que qualquer personagem de banda desenha ou de televisão e cinema, não se encontra independente de um conjunto de estereótipos. Evidentemente que não faz sentido Thor, enquanto divindade da mitologia nórdica (o seu uso como personagem Marvel é uma verdadeira apropriação cultural que não se pode desconsiderar) aparecer que não com características morfológicas nórdicas. Diferentemente é o caso, por exemplo, do Super-Homem, figura que ajudou a construir um ideal de masculinidade, ou um Capitão América, que veicula um ideal fenótipo norte-americano. Em ambos os casos, seria perfeitamente legítimo e inclusivo que pudessem surgir com etnicidade não-branca e até outras características, como acontece com o Homem-Aranha que não corresponde ao ideal do “capitão da equipa do liceu”.
Este facto abre, desde já, um debate para o que significa “inclusivo”. Numa visão mais radical woke, inclusivo seria substituir grande parte das personagens do universo televisivo, cinematográfico e de BD por figuras não-binárias e não-brancas com um uso de uma linguagem neutra em matéria de género, numa espécie de redefinição e reprogramação da cultura ao contrário. Numa visão mais moderada, visando uma abertura da sociedade à sua pluralidade, “inclusivo” significa dotar o universo das artes (e não só) de uma maior representatividade, espelhando a sociedade de forma mais sólida e atualizada. É aqui que entra uma Arielle negra e entra, também, em consequência, a defesa da identidade biocultural ocidental, que não tolera desvios da norma. É um imaginário que aceita sereias, anões, hobbits, duendes, anjos e santos, mas não aceita que não sejam brancos. E isto, ladies and gentlemen, é racismo.
Em segundo lugar, falemos da “apropriação cultural”. Uma vez mais, na esteira woke, o conceito tem sido empregue como referente a qualquer utilização vista como indevida de elementos culturais não-brancos por pessoas brancas, enquanto se exige uma aceitação do multiculturalismo. Nessa ótica, o multiculturalismo está para ser visto e respeitado, mas não para ser aderido. A lógica das interdições culturais, da edificação de espaços (“seguros”) livres da “branquitude” não deixa de ser purista. Além disso, é também essencialista, uma vez que desconsidera o mais elementar dos princípios das culturas: a sua natureza híbrida e inautêntica. No entanto, a “apropriação cultural” existe e é importante aqui no quadro das sereias. Quando os africanos yorùbá foram escravizados, levados ao Novo Mundo, levaram os seus cultos religiosos. Entre as várias divindades ia Yèmọjá, deusa da família, símbolo do matriarcado, das águas doces e salgadas. Na Bahia, devido às características da costa e ao facto do seu nome significar “Mãezinha cujos filhos são peixes”, o seu culto passou a estar associada ao mar de onde os pescadores tiram o seu sustento. Em virtude do crescimento e popularização do seu culto, Yèmọjá foi sendo transformada em Iemanjá, a santa branca dos mares do Brasil. O seu culto sofreu evidente “apropriação cultural”, e a deusa foi sendo ressignificada estética e cosmologicamente, perdendo a sua dimensão sexual e aproximando-se das santas do catolicismo popular. Esse fenómeno, que comporta, ainda, uma dimensão de racismo religioso, não parece preocupar tanto como uma Arielle negra, que é, no fundo, uma “vingança” poética por acaso.

Racismo.pt

19
Mai22
Quando se conclui que Portugal é um país racista não significa (i) que o racismo seja uma política do Estado, (ii) que todas as pessoas que compõem a sociedade sejam racistas. O que se passa é que uma sociedade que foi colonial até muito tarde e que à custa do desejo de manutenção desse colonialismo durante o Estado Novo inventou para si um carácter benigno do seu colonialismo, naturalmente preserva traços de hierarquização racial e cultural, bem como processos de racialização dos sujeitos, que estando nas estruturas sociais e estaduais produzem efeitos na esfera dos sujeitos racializados. São os efeitos do racismo cordial, um tipo de racismo que aparenta não o ser.

Isto não significa, também, que tudo o que de menos bom acontece na vida dos sujeitos racializados seja justificado pelo racismo (porque a falta de sorte, de competência, talento, etc., está em todo o lado), mas implica que sejam pessoas que via de regra não partem das mesmas condições de partida, quer porque a raça tende a andar de braço-dado com a condição social e económica, seja por causa de um preconceito que imagina preguiça e inferioridade intelectual como determinadas pela raça (a contrario verifica-se a associação entre branquitude e mérito), afetando o sucesso escolar e profissional.

O racismo como luta

09
Jun21

Os direitos das mulheres já dividiram o Ocidente. Felizmente já o ultrapassámos, na sua dimensão civil e política. Graças ao colonialismo e à herança "científica", o racismo continua a ser um divisor de águas, agora revitalizado nas lutas identitárias à esquerda e à direita, encontrando as seguintes correntes: (i) racismo estrutural como produto histórico ainda reciclado nas dinâmicas sociais, (ii) o racismo existe, mas é só prática de alguns, (iii) o racismo não existe e é um argumento político dos movimentos negros e da esquerda woke, sendo um perigo para as sociedades (iv) o racismo não só é estrutural, como é um programa político ativo, planeado e consciente de genocídio negro e de destruição das culturas africanas.

 

Craig Cobb e a supremacia branca 

29
Abr21

A «supremacia branca» é uma ideologia baseada em postulados "científicos" do séc. XIX, como o evolucionismo e o determinismo racial, que estabeleciam uma hierarquia entre "raças" humanas, supondo uma associando direta entre cultura ocidental/racionalidade branca e superioridade. Aspetos "científicos" ligados a conceções biológicas e croniométricas, e matéria religiosa ligada ao monoteísmo, foram essenciais na construção de uma ideologia de superioridade racial branca, a qual deu origem ao projeto político de supremacia branca, cuja expressão máxima seria o genocídio negro, e a manifestação histórica contemporânea mais evidente foi o apartheid. É aqui que entra Craig Cobb, um homem branco de 62 anos, que é o rosto de uma iniciativa que visa transformar a cidade de Dakota do Norte, nos EUA, em um reduto para neonazis e supremacistas brancos. Ora, como a história da humanidade é muito mais fluída, híbrida, miscigenada que as narrativas ideológicas e os projetos políticos, deu uma lição ao supremacista Cobb, o qual aceitou submeter-se a um exame genético para provar a sua herança cem por cento branca, e para sua surpresa o teste revelou catorze por cento de herança genética africana subsaariana. 

 

Solidário, mas racista?

20
Mar21

Como um país tão solidário e que acolhe tão bem pode ser racista? É uma interessante e legítima pergunta, cuja resposta reside no passado, no paradoxo das relações coloniais, entre a Casa Grande e a Senzala, onde se mistura racismo violento, racismo cordial e miscigenação. São contradições nos termos que coabitam nas práticas, e para o qual o Estado Novo deu determinante contributo, ao construir a ideia de "Nação" à volta dos Descobrimentos. O processo foi tão bem desenhado, porque objeto de políticas públicas através do sistema de ensino, propaganda e outros recursos de um país colonial, que nunca mais o largámos, tendo sacralizado a epopeia marítima à exaustão. Não se trata de desconsiderar o feito, nem de o ler a partir do presente - politização tão negativa quanto a nacionalista -, mas antes de reconhecer o seu lado nefasto. É por isso que um país pobre e profundamente católico foi e é tão fortemente solidário, porque sempre percebeu a importância da vizinhança, desde os primórdios do regime foraleiro. Mas é, também, racista, de um modo sereno e cordial, porque foi essa a sua realidade colonial, foi isso que o Estado Novo lhe ensinou a ser, através da narrativa do selvagem que Portugal foi salvar e oferecer o reino de Deus.

A poesia traduzida tem "raça"?

05
Mar21

O poema recitado por Amanda Gorman na cerimónia da tomada de posse do presidente estadunidense Joe Biden estava previsto ser traduzido, para holandês, pela escritora Marieke Lucas Rijneveld, com o aval da primeira. No entanto, um artigo de Janice Deul, jornalista e ativista negra, no jornal Volkskrant, fez com que Marieke desistisse, face à onda de críticas. Janice Deul argumenta que a tradução do poema deveria caber a "um artista local, jovem, uma mulher assumidamente Negra”. Eventualmente ela mesma, Janice Deul. 

É importante ter presente, claro, que tal como Doris Sommer e outros autores mostram, há sentimentos e experiências que estão racialmente circunscritas. Mas mesmo Sommer, autora branca, é capaz de traduzir e inscrever as circunstâncias negras na literatura. É por isso que queiramos ou não, a reação de Deul e afins é populismo de esquerda. Ao radicalizar as questões raciais esvazia-as de conteúdo e impede a simpatia de fora. Ironicamente, o que os movimentos de militância racial radical fazem é apropriar-se de um elemento cultural judaico, a "pureza", para construir o seu discurso e imaginário populista racial. Não é por acaso que a sua narrativa sobre "apropriação cultural" é a versão inversa da autenticidade do nacionalismo. Tanto uma quanto a outra desconsideram o mais elementar aspeto das culturas: o hibridismo. Acresce ainda que uma parte significativa das culturas africanas sempre observaram os elementos culturais exógenos pela ótica da mais-valia, da eficácia simbólica e efetiva, estando livres da "pureza", da autenticidade, categorias próprias do pensamento judaico-cristão.

Racismo Estrutural, um fenómeno multiverso

23
Fev21

Quando se afirma o racismo estrutural em Portugal é erróneo supor que este tenha a mesma natureza do racismo estrutural brasileiro ou estadunidense. Não poderia ter, pelas histórias e composições sociais próprias. A presença africana em Portugal foi intensa durante os séculos XIV a XVIII, com um progressivo desaparecimento (por inúmeros fatores, como degredo, tráfico e doença). A herança tornou-se uma memória incómoda e foi sujeita a amnésia nacionalista. Nesse sentido, o racismo estrutural português é de feição colonial e pós-colonial, sendo sobretudo um sentimento ameno de superioridade presente no desconforto e na invisibilização do "outro" por via do insucesso da mobilidade social ascendente. O caso do Brasil é outro, ligado à história do sistema escravocrata e às políticas de exclusão, racialização ativa, perseguição, resultantes do pós-abolição, com forte dimensão penal e científica. O lusotropicalismo e o racismo cordial/democracia racial foi um jogo comum, é um facto, mas sujeito a leituras ideológicas diferentes. Enquanto no Brasil a presença negra foi permanente, resultando em políticas quitodianas de exclusão e marginalização, mescladas com o nacionalismo moreno de Getúlio Vargas, por exemplo, o caso português foi o das colónias como propriedade de um Portugal maior que as fronteiras europeias, cujo apogeu nacionalista foi o de trazer o exótico selvagem à exposição do Mundo Português. São, pois, racismos estruturais diferentes. Um centrado em políticas ativas de segregação e perseguição, outro marcado pelas tramas de exclusão social serena, invisível, aparentando, sobretudo, ser um fenómeno de falha do mercado liberal e de divisão económica e de classe.