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A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

O problema de fundo no caso do LIVRE e Joacine

Novembro 29, 2019

A reboque dos péssimos tempos que vivemos, o escrutínio a Joacine Katar Moreira tem o problema de soar sempre a racismo. E por isso mesmo, os mais fiéis eleitores e apoiantes da deputada do LIVRE arreigam-se em seu redor, porque avaliar as decisões políticas de Joacine é fazer purgas de caráter, é reproduzir o racismo estrutural e reavivar o determinismo racial. O excesso de atenção mediática, que resulta de uma combinação entre a pessoalização da agenda partidária e a exotização do pioneirismo da deputada enquanto mulher negra e única representante de um partido estreante, contém a tensão entre a descolonização como necessidade intelectual, a descolonização como ato político de combate à invisibilidade racial e a descolonização como um ataque à heróica história de Portugal.

Ora, esta radicalização dos «lugares de fala» putrifica a política portuguesa, porque não permite olhar objetivamente os acontecimentos sem os inscrever num contexto social de combate cultural e descolonização do pensamento. O problema é que a situação política objetiva do braço-de-ferro entre o LIVRE e JKM não deve ser inscrita num contexto racializado. Quem quiser atacar a deputada por ser negra, feminista ou gaga deve retirar-se da ágora. E o mesmo é dito para quem quiser elevá-la a mártir e messias. 

Objetivamente, o escrutínio a JKM está num nível superior ao de André Ventura. Mas as razões residirão em matéria racial ou em protetorado mediático do líder da extrema-direita? Nenhum dado aponta nesse sentido, mesmo quando parece formar-se um eixo de apoio camuflado a André Ventura no quadro do grupo Cofina. Pelo contrário, a responsabilidade por esse peso excessivo de atenção negativa deve-se, sobremaneira, ao desencontro do partido liderado por Rui Tavares e a sua deputada única na Assembleia da República. E o desencontro não é, somente, ao nível da comunicação, como tem sido mencionado. Longe disso. O desencontro reside, sobretudo, na agenda política e no modo de fazer política. JKM acredita na pessoalização da atividade política, que a ação do LIVRE é por si, em si e sobre si. Não é por acaso que afirma que se elegeu sozinha e que o partido não tem de lhe ensinar a fazer política. É soberba? Bom, imprudência é certamente. Embora haja que reconhecer que tal "arrogância" seria tolerada em André Ventura e, aqui, não poderemos escapar às malhas da racialização e do imaginário salazarista dos negros humildes enquanto metáfora para subserviência. Nada obsta, todavia, que lhe possamos fazer a crítica do deslumbramento e da má assessoria que lhe é prestada, que tem contribuído para um clima de guerra e não de serenamento. A estratégia de silêncio do BE em relação à saída de Mamadou Ba do partido revelou-se uma lição. Ao não se manifestar, o partido impediu que o assunto se tornasse num debate sobre racismo, anticolonialismo, necessidade de descolonização, e tudo o mais que não abonaria a favor de nenhuma das partes. O que o LIVRE não entendeu, o BE aprendeu. 

O próximo congresso do partido irá determinar os rumos do partido, se de facto o LIVRE vai permanecer como uma reciclagem do BE dos primeiros tempos – radical, ultrapessoalizado e delimitado na sua agenda identitária –, ou se vai encontrar forma de fazer caber a agenda identitária num programa alargado de reivindicações políticas. O que não pode, sob prejuízo de esgotar de vez a imagem quer do partido quer da deputada, é permanecer em disputa pública e desencontrado.

O Cheiro do VOX

Novembro 27, 2019

Em Espanha era consensual, da esquerda à direita, a necessidade de combate à violência sobre as mulheres. Era matéria sobre a qual todos os partidos estavam de acordo, havendo uma expressão de unanimidade. Havia. Porque este ano o VOX colocou-se à margem do tema. Quem simpatiza com o VOX -- como Nuno Melo, e de onde o Chega retira inspiração -- deve ter isto em conta e fazer a devida reflexão se o medo do multiculturalismo é mais forte do que os valores da democracia. Desengane-se quem acredita que o VOX, tal como o Chega, veio para acrescentar valor à democracia. O ar que traz é bafiento. Cheira a ditadura, cheira a patriarcado e machismo, cheira a homofobia, cheira a racismo, cheira a antiparlamentarismo, cheira a antipluralismo.

Micropost [22] | Mamadou Ba sai do BE

Novembro 25, 2019

O combate ao racismo e às várias formas de invisibilidade social é determinante na construção de uma sociedade justa e equitativa. Nesses termos, pessoas que vestem a camisola fazem muita falta. No entanto, há uma barreira de linguagem a partir da qual a luta se torna contraproducente. Quando se abandona a luta racional, a explicação, a desconstrução e a descolonização do pensamento e se cai, apenas, no ataque em todas as direções, o resultado é a rejeição social. Combater o racismo não é fazer de todxs xs que não são minorias implicitamente maus.

O escrutínio a Joacine Katar Moreira

Novembro 25, 2019

Joacine Katar Moreira é hoje a deputada mais escrutinada do país, uma sobre-dosagem que reflete muitos outros aspetos sobre a sociedade portuguesa. Seria, obviamente, um erro considerar que a deputada do Livre, por motivos da luta contra o racismo e a invisibilidade, é intocável e inscrutinável. O seu lugar de fala é importante na democratização da Assembleia da República, ainda incapaz de refletir a pluralidade da sociedade portuguesa. Basta ver, por exemplo, o número excessivo de advogados na AR. Ora, se JKM deve ser objeto de escrutínio e deve aguentar as críticas sem tomar tudo por discursos de ódio, também não deve ser transformada em alvo fácil, em causa de todos os males, em símbolo do pior da política nacional. Uma inflexão dessa natureza só pode espelhar o papel que o racismo ainda ocupa na forma como a nossa sociedade ainda se estrutura e reproduz. Só isso justifica o excesso de atenção a tudo o quanto a deputada faz, o que reflete, igualmente, um olhar exotizado sobre os negros. Quanto à abstenção nas matérias recentes, as justificações, embora plausíveis, até pelo atraso na sua exposição, parecem fabricadas a posteriori, não convencendo totalmente.

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adenda: grato à equipa dos Blogs.sapo e do portal Sapo.pt pelo destaque deste post. 

Joacine e a Bandeira

Outubro 10, 2019

Esta montagem explica muito bem porque o CHEGA chegou lá. Quem a fez, pretende bipolarizar o cenário político nacional, catapultando a ideia do "nós" contra "eles", fazendo uso da ideia de que existe uma agenda africana de destruição da Portugalidade. Esta narrativa não é desconhecida e tem enorme força em França, por exemplo, em relação às comunidades islâmicas. Todas as demais ideias do CHEGA são esquecidas. O que conta, aqui, é a imagem do homem da Pátria. Mal acabam de ser eleitas três deputadas negras e o racismo que não há vem à tona. Será que haveria problema se ao invés de uma negra e uma bandeira da Guiné fosse uma loira e a bandeira inglesa? Evidentemente que não, afinal o nosso espírito Zezé Camarinha tem os seus padrões.

 

Bernardo e o Conguito

Outubro 02, 2019

Bernardo Silva meteu-se numa alhada, mesmo que Mendy tenha achado graça. Efetivamente, o facto de Mendy não ter ficado ofendido é um aspeto que não deve ignorado, questionando o ato como racista. O problema, todavia, é que os conguitos personificam estereótipos racistas. Ao mesmo tempo, vivemos uma luta pela visibilidade dos comportamentos dessa natureza e pelo empoderamento das pessoas, de várias formas, segregadas, o que leva a um alerta constante, que pode cair nos exageros. Perante os factos, Bernardo Silva deve ser alertado para o seu comportamento, tendo direito ao contraditório, e Mendy deve ser chamado a depor. Se o próprio não considerar racismo (ele já disse que não, pois são grandes amigos), o caso deve ser arquivado com um dever de depoimento público dos intervenientes contra o racismo. Bem assim, abrir um processo à fabricante La Casa, pela estereotipização racista que a embalagem do chocolate invoca. O próprio termo conguito adquiriu uma dimensão simbólica racializada que importa combater.

Lendo Blogs

/ o racismo estrutural /

Setembro 20, 2019

Quase compreendo o argumento de Helena F. Matos a propósito das máscaras étnicas. E digo quase porque à primeira vista não ocorre nenhum mal em nos mascararmos de outras identidades étnicas. Até porque a máscara opera no sentido de permitir experimentar uma personagem, uma identidade que é diferenciada daquela que assumimos no quotidiano. Ela pode ser, inclusive, uma exaltação (uma personagem histórica), uma tara (no caso das performances BDSM) ou reflexo heróico (um super-herói). Então qual é o problema das máscaras étnico-raciais? Coloquemos um cenário: um homem negro mascarado de homem branco representado como um nerd. A primeira reacção é a do racismo invertido que pretende estereotipar os homens brancos, explicitando uma visão distorcida da realidade. Certo. Ora, não só é o caso das máscaras étnicas de chineses, ameríndios, etc., como é importante adicionar a essas estereotipias a herança histórica do darwinismo cultural e do determinismo racial para compreender que existe ali uma carga de violência simbólica que poderíamos não notar à primeira. É verdade que não havendo dolo o cenário se dilui. Todavia, numa altura em que se regressa uma forte representatividade social dos radicalismos de extrema-direita, é importante voltar a olhar com zelo para os significados dos gestos, esperando que a humanidade regresse a um estágio de desenvolvimento e democratização tal que permita a visibilidade positiva das vozes silenciadas, tornando obsoletas preocupações sobre preconceito, racismo e xenofobia. 

O LIVRE e a encruzilhada de Joacine

Setembro 17, 2019

Joacine Katar Moreira deve ser eleita não apenas porque é negra, mas porque é, precisamente, negra, e isso representa uma esperança num parlamento que reflita a composição social portuguesa. Ao mesmo tempo paira no ar o receio de que não se olhe para ela além da racialidade, o que seria uma gaiola dourada.

O Partido LIVRE é, com efeito, aquele que fica entre o PS e o BE, o meio caminho entre o centro-esquerda e esquerda-esquerda, feito de ideias socialistas, de ideias progressistas e valores europeus, que já era ecologista antes do tema entrar na agenda política de forma determinante. Infelizmente, é também um partido esmagado pelo encosto do PS à esquerda e do BE ao centro, não conseguindo deslocar-se da imagem de um micropartido de dissidência bloquista, liderado por um coerente e claro Rui Tavares. Não obstante, é um partido que tem vindo a dar sinais de dificuldades de sobrevivência, em particular por não ser capaz de efetivar a sua presença social, muito devido à opção de não financiamento institucional, i.e., o LIVRE quis ser livre da «mão invisível». 

Ora, no jogo eleitoral onde se jogam as sobrevivências partidárias, o LIVRE pretendeu ampliar os sinais dados nas eleições europeias, e apresentou Joacine Katar Moreira como o rosto do partido para estas eleições. Mulher, democrata, ativista negra,  pessoa de bem. Atributos. Mas Joacine é, ao mesmo tempo, heroína e vítima num enredo onde está aprisionada, um enredo que joga uma importante cartada eleitoral - o da representatividade dos afrodescendentes. Se por um lado esse «lugar de fala» é determinante para o empoderamento de vozes silenciadas pelas estruturas sociais de poder, por outro impede-a de ser uma candidata além da etnicidade. A afirmação de que os portugueses decidirão se querem uma deputada negra encerra a atividade política de Joacine Katar Moreira na gaiola da representação racial. Ora, tal ideia não poderia ser mais nefasta, porque centra o debate na "racialidade" ao invés das ideias progressistas ligadas à ecologia, ao género, à democracia pluralista. Obama não foi eleito exclusivamente por ser o candidato negro. Aliás, sabendo da forma como o preconceito opera na ordenação social, se Obama tivesse sido apresentado apenas como o candidato negro, dificilmente teria sido eleito. E com razão. Porque Obama era mais do que a esperança de uma certa reparação histórica, era um conjunto de valores democráticos, de respeito pelas liberdades e pelas diversidades que não tem respaldo em Donald Trump. Do mesmo modo, é importante olhar Joacine como um todo: alguém que vem de fora da política, diretamente da universidade, com um currículo em torno dos estudos de género e violência, e feito de luta contra a invisibilidade da mulher negra. Trata-se de alguém que merece, de facto, a eleição, trazendo a esperança de uma nova composição parlamentar que seja reflexo da realidade social portuguesa, combatendo as assimetrias e invisibilidades. 

La Manada de Bilbao

Agosto 07, 2019

O caso de la Manada de Bilbao arrisca ser transformado num circo político se não forem tomadas as devidas medidas, atuando de forma séria e lesta judicialmente sobre o sucedido. Para já, apenas 3 dos 6 violadores da jovem de 18 anos se encontram em prisão preventiva, ficando os demais coagidos à apresentação diária em esquadra. As esquinas podem servir de rastilho se não forem devidamente acauteladas. Em primeiro lugar, num quadro geral de uma sociedade machista e patriarcal, a impunidade produzirá uma sensação de que o combate aos desníveis entre homens e mulheres e em favor de uma sociedade mais equitativa e justa tem, ainda, um longo caminho para ser percorrido, havendo, inclusive, um retrocesso civilizacional face aos avanços que foram feitos nas décadas anteriores. Em segundo lugar, o facto de todos os envolvidos serem de origem norte-africana e, provavelmente, muçulmanos, tem um efeito de arrasto tremendo, entre o tratamento com pinças para que o caso não pareça racismo e o aproveitamente agressivo da extrema-direita, fazendo do caso exemplo e justificativa para uma narrativa de ódio racial e anti-imigração, trazendo à tona o nacionalismo e a supremacia branca. 

João Miguel Tavares, o darwinista fofinho

Julho 16, 2019

João Miguel Tavares assina, hoje, no Público um artigo profundamente racista, mesmo que ele próprio não saiba ou nem fosse essa a sua intenção. Isto porque JMT desconhece o que é um «lugar de fala», i.e., um conjunto de enunciações morais, éticas, estéticas, ideológicas e identitárias a partir do qual se observa o mundo. Ora, o «lugar de fala» de João Miguel Tavares é, sem dúvida, o do liberalismo económico, do conservadorismo moral europeu e do materialismo ocidental, não se distinguindo, pela natureza das suas declarações, dos missionários e viajantes que chegaram a África e que sobre esta elaboraram todo o tipo de narrativas racistas e demonizadoras das práticas culturais e religiosas. É preciso conhecer para evitar o manual do Darwinismo Social e do Determinismo Racial, teorias que afirmavam a existência de "raças" "superiores" e "inferiores", sendo que caberia às "superiores" o dever de encaminharem as "inferiores" no sentido da sua evolução em direção à verdadeira civilização: europeia judaico-cristã. Esta ideia racializada foi essencial para a construção de uma visão parcelar e equivocada da História da Humanidade que fez por ignorar a sofisticação social, política, judicial e económica de culturas africanas como o Reino do Gana, o Império da Mali, o reino de Kush, o Império de Songhai, o Império Axum, o Império Yorùbá ou o Reino do Danxomé (Dahomé). 

Assim, ao aludir à superioridade das instituições norueguesas por oposição às sudanesas, JMT está a confundir sofisticação tecnológica, material e institucional com culturas. Talvez JMT refugia-se melhor o seu argumento na estabilidade, segurança e conforto das instituições sociais da Europa do Norte por oposição às sociedades africanas de um modo geral. É preciso fazer um esforço de releitura da sua crónica para não lhe ver um racista. Ora, não tendo JMT nessa conta, fica a sugestão de refrear o seu ímpeto de achismo.