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Dias Assim

Craig Cobb e a supremacia branca 

Abril 29, 2021

João Ferreira Dias

— Craig Cobb e a supremacia branca — A «supremacia branca» é uma ideologia baseada em postulados "científicos" do séc. XIX, como o evolucionismo e o determinismo racial, que estabeleciam uma hierarquia entre "raças" humanas, supondo uma associando direta entre cultura ocidental/racionalidade branca e superioridade. Aspetos "científicos" ligados a conceções biológicas e croniométricas, e matéria religiosa ligada ao monoteísmo, foram essenciais na construção de uma ideologia de superioridade racial branca, a qual deu origem ao projeto político de supremacia branca, cuja expressão máxima seria o genocídio negro, e a manifestação histórica contemporânea mais evidente foi o apartheid. É aqui que entra Craig Cobb, um homem branco de 62 anos, que é o rosto de uma iniciativa que visa transformar a cidade de Dakota do Norte, nos EUA, em um reduto para neonazis e supremacistas brancos. Ora, como a história da humanidade é muito mais fluída, híbrida, miscigenada que as narrativas ideológicas e os projetos políticos, deu uma lição ao supremacista Cobb, o qual aceitou submeter-se a um exame genético para provar a sua herança cem por cento branca, e para sua surpresa o teste revelou catorze por cento de herança genética africana subsaariana. 

 

Solidário, mas racista?

Março 20, 2021

João Ferreira Dias

Como um país tão solidário e que acolhe tão bem pode ser racista? É uma interessante e legítima pergunta, cuja resposta reside no passado, no paradoxo das relações coloniais, entre a Casa Grande e a Senzala, onde se mistura racismo violento, racismo cordial e miscigenação. São contradições nos termos que coabitam nas práticas, e para o qual o Estado Novo deu determinante contributo, ao construir a ideia de "Nação" à volta dos Descobrimentos. O processo foi tão bem desenhado, porque objeto de políticas públicas através do sistema de ensino, propaganda e outros recursos de um país colonial, que nunca mais o largámos, tendo sacralizado a epopeia marítima à exaustão. Não se trata de desconsiderar o feito, nem de o ler a partir do presente - politização tão negativa quanto a nacionalista -, mas antes de reconhecer o seu lado nefasto. É por isso que um país pobre e profundamente católico foi e é tão fortemente solidário, porque sempre percebeu a importância da vizinhança, desde os primórdios do regime foraleiro. Mas é, também, racista, de um modo sereno e cordial, porque foi essa a sua realidade colonial, foi isso que o Estado Novo lhe ensinou a ser, através da narrativa do selvagem que Portugal foi salvar e oferecer o reino de Deus.

A poesia traduzida tem "raça"?

Março 05, 2021

João Ferreira Dias

O poema recitado por Amanda Gorman na cerimónia da tomada de posse do presidente estadunidense Joe Biden estava previsto ser traduzido, para holandês, pela escritora Marieke Lucas Rijneveld, com o aval da primeira. No entanto, um artigo de Janice Deul, jornalista e ativista negra, no jornal Volkskrant, fez com que Marieke desistisse, face à onda de críticas. Janice Deul argumenta que a tradução do poema deveria caber a "um artista local, jovem, uma mulher assumidamente Negra”. Eventualmente ela mesma, Janice Deul. 

É importante ter presente, claro, que tal como Doris Sommer e outros autores mostram, há sentimentos e experiências que estão racialmente circunscritas. Mas mesmo Sommer, autora branca, é capaz de traduzir e inscrever as circunstâncias negras na literatura. É por isso que queiramos ou não, a reação de Deul e afins é populismo de esquerda. Ao radicalizar as questões raciais esvazia-as de conteúdo e impede a simpatia de fora. Ironicamente, o que os movimentos de militância racial radical fazem é apropriar-se de um elemento cultural judaico, a "pureza", para construir o seu discurso e imaginário populista racial. Não é por acaso que a sua narrativa sobre "apropriação cultural" é a versão inversa da autenticidade do nacionalismo. Tanto uma quanto a outra desconsideram o mais elementar aspeto das culturas: o hibridismo. Acresce ainda que uma parte significativa das culturas africanas sempre observaram os elementos culturais exógenos pela ótica da mais-valia, da eficácia simbólica e efetiva, estando livres da "pureza", da autenticidade, categorias próprias do pensamento judaico-cristão.

Racismo, segundo João Miguel Tavares

Março 02, 2021

João Ferreira Dias

Para João Miguel Tavares só há ciência a sério se ela for concordante com a sua opinião. Não me surpreende sendo ele uma versão fluffy do populismo, um tipo "às direitas" que diz umas "verdades". Não obstante, o seu texto consegue ir um pouco mais longe do que o costumeiro "achismo", e isso já é um mérito. Compreendo a sua posição, que reflete o pensamento de autores vários, como o meu colega Riccardo Marchi, que entendem que a definição de racismo a partir do passado histórico, biológico e científico do termo "raça" não serve para pensar as relações multiversas nas sociedades hodiernas, e que consideram que o conceito deve englobar uma gama maior de atitudes de desconsideração entre pessoas com identificações distintas, sem uma inflexão para um lado. Qual é o problema? O problema é que essa abordagem desconsidera toda a história de escravidão, perseguição, genocídio, exclusão, marginalização, dominação de brancos para negros. Quando se pega num conceito com um histórico tão pesado, tão concreto, para o usar para todas as relações, é dizer que um negro que chama "branco de merda" a um branco tem o mesmo significado, o mesmo efeito coletivo (pessoal tem certamente) que as leis que durante séculos afastaram os negros da cidadania, da dignidade, da autodeterminação, da escolaridade, da justiça. Porque o fenómeno ao contrário não teve nem tem lugar. É equivaler um pisar de calcanhar ao esmagamento por derrocada.

A normalização do populismo

Fevereiro 24, 2021

João Ferreira Dias

Chega-me este texto no Sol e fica cada vez mais claro que o ar dos dias é fétido, normalizando os jogos de palavras do populismo da "nova" (na verdade bem velha) direita nacionalista ocidental. A Bastonária da Ordem dos Enfermeiros é uma pessoa corajosa, Ventura faz umas piadas que não se deve levar a mal, e Mamadou Ba é um perigoso racista que faz parte de uma estratégia da esquerda para destruir a "raça" branca e a portugalidade. Nada disto é novo e quem não percebe o padrão recomendo a leitura do artigo de Di Carlo e Kamradt, "Bolsonaro e a cultura do politicamente incorreto na política brasileira", o livro de Taggart, "Populism" ou de Levitsky e Ziblatt, "How democracies die: What History Tells Us About Our Future".

Racismo Estrutural, um fenómeno multiverso

Fevereiro 23, 2021

João Ferreira Dias

Quando se afirma o racismo estrutural em Portugal é erróneo supor que este tenha a mesma natureza do racismo estrutural brasileiro ou estadunidense. Não poderia ter, pelas histórias e composições sociais próprias. A presença africana em Portugal foi intensa durante os séculos XIV a XVIII, com um progressivo desaparecimento (por inúmeros fatores, como degredo, tráfico e doença). A herança tornou-se uma memória incómoda e foi sujeita a amnésia nacionalista. Nesse sentido, o racismo estrutural português é de feição colonial e pós-colonial, sendo sobretudo um sentimento ameno de superioridade presente no desconforto e na invisibilização do "outro" por via do insucesso da mobilidade social ascendente. O caso do Brasil é outro, ligado à história do sistema escravocrata e às políticas de exclusão, racialização ativa, perseguição, resultantes do pós-abolição, com forte dimensão penal e científica. O lusotropicalismo e o racismo cordial/democracia racial foi um jogo comum, é um facto, mas sujeito a leituras ideológicas diferentes. Enquanto no Brasil a presença negra foi permanente, resultando em políticas quitodianas de exclusão e marginalização, mescladas com o nacionalismo moreno de Getúlio Vargas, por exemplo, o caso português foi o das colónias como propriedade de um Portugal maior que as fronteiras europeias, cujo apogeu nacionalista foi o de trazer o exótico selvagem à exposição do Mundo Português. São, pois, racismos estruturais diferentes. Um centrado em políticas ativas de segregação e perseguição, outro marcado pelas tramas de exclusão social serena, invisível, aparentando, sobretudo, ser um fenómeno de falha do mercado liberal e de divisão económica e de classe.

Racismo, Teoria Crítica e o "porque não"

Fevereiro 22, 2021

João Ferreira Dias

Por conta do meu artigo na Visão, cheguei até um outro artigo no Observador, em sentido contrário. Porque não gosto de ficar acantonado ao meu pensamento fui ler com atenção este texto, já que se apresenta como uma crítica a uma ideologia que ele vê como dominante na academia, que propagaria o sectarismo com base na intersecionalidade entre raça, género e condição económica e social. Segundo este autor, o racismo sistémico não existiria porque seria um erro teórico derivado do marxismo. O problema é que o autor não apresenta nenhuma concreta interpretação alternativa dos fenómenos sociais, a não ser apresentar lá pelo meio um valor do liberalismo do século XIX: a iniciativa individual transformada em mérito. Ora, depreendo que não havendo uma circunstância de marginalidade recorrente com base em questões de género e raça, o que há é uma falha dos agentes económicos em promover o seu próprio bem-estar pelos seus próprios meios. Isto não é o mito da meritocracia, de que as condições de partida são todas iguais? Estando eu disposto a questionar o quadro de interpretação onde me posiciono, fiquei defraudado com este texto. Além de inscrever a leitura do problema no marxismo (uma espécie de fetiche em torno da esquerda?) é incapaz de providenciar um quadro teórico alternativo para o fenómeno do racismo e do machismo. Pareceu-me uma versão bem articulada de um "porque não".

Micropost [72]

O Mundo e Portugal

Fevereiro 19, 2021

João Ferreira Dias

O negacionismo e o revisionismo históricos são amplos, tocando todos os quadrantes políticos. Vai da euforia com os Descobrimentos, sacralizando a epopeia marítima e as figuras do nacionalismo lusitano, até ao ataque de caráter aos mesmos, à luz dos padrões coevos, como se os valores humanistas que nos regem não fossem tanto uma construção social e intelectual, quanto um produto cultural etnocêntrico. Portanto, tanto demos "novos mundos ao mundo" (que é como quem diz abrimos rotas comerciais para proveito europeu), quanto pilhámos, destruímos, escravizámos, demonizámos e convertemos. Tudo com base nas crenças e valores da época. São duas mãos distintas de um mesmo corpo. O resto é combate ideológico.

Marcelino da Mata e o colonialismo

Fevereiro 18, 2021

João Ferreira Dias

Marcelino da Mata tem sido instrumentalizado pela nova direita portuguesa como exemplo ilustrativo do país sem racismo. Com efeito, como um país que se miscigenou pelo mundo poderia ter um problema de racismo? Sucede, todavia, que o mesmo tipo de reflexão teve e continua a ter lugar no Brasil, a partir do nacionalismo "moreno" e da "democracia racial". O lusotropicalismo, o eixo luso-brasileiro da pós-racialidade baseia-se, sobretudo, naquilo que se designa por "racismo cordial", uma tipologia de relações de reciprocidade assimétrica e integração subordinada. Ou seja, não há racismo se cada grupo "racial" conhecer os espaços que lhes são lícitos. 

No caso de Marcelino da Mata o não-racismo português é expresso numa linguagem não-dita de que "até tínhamos um preto a matar pretos". Este tipo de argumento além de elementar é desonesto, uma vez que desconsidera o alinhamento colonial como um elemento do racismo. Parés (2006) e Guridy e Hooker (2018) mostraram a existência de negros alinhados com a sociedade dominante, negros com agendas de inclusão assimilacionistas, os quais foram determinantes, por exemplo, no combate às agendas da "negritude" e das religiões de matrizes africanas. Essa situação de alinhamento é, forçosamente, produto do "racismo cordial". 

Jorge Jesus e o Racismo no olhar hegemónico

Dezembro 09, 2020

João Ferreira Dias

Cá temos o "agora tudo é racismo". JJ figura, aqui, como paradigma de um modo de pensar generalizado que tem impedido uma reflexão e debate honestos sobre o racismo em Portugal. O lusotropicalismo e o "bom colonizador" permanecem como argamassa cultural que não se admite contestar. A situação piora quando se acredita ter legitimidade para definir o que é racismo a partir de um lugar de fala hegemónico. Ora, é tempo de perceber que a racialização social é um fenómeno estrutural silencioso e invisível e que foi, historicamente, um fenómeno exclusivo de dominação branca. Enquanto não se aceitar o legado nefasto dos 12% da população mundial para a a definição de "raças" e hierarquias, nenhum debate será honesto.

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