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Dias Assim

Racismo, segundo João Miguel Tavares

Março 02, 2021

Para João Miguel Tavares só há ciência a sério se ela for concordante com a sua opinião. Não me surpreende sendo ele uma versão fluffy do populismo, um tipo "às direitas" que diz umas "verdades". Não obstante, o seu texto consegue ir um pouco mais longe do que o costumeiro "achismo", e isso já é um mérito. Compreendo a sua posição, que reflete o pensamento de autores vários, como o meu colega Riccardo Marchi, que entendem que a definição de racismo a partir do passado histórico, biológico e científico do termo "raça" não serve para pensar as relações multiversas nas sociedades hodiernas, e que consideram que o conceito deve englobar uma gama maior de atitudes de desconsideração entre pessoas com identificações distintas, sem uma inflexão para um lado. Qual é o problema? O problema é que essa abordagem desconsidera toda a história de escravidão, perseguição, genocídio, exclusão, marginalização, dominação de brancos para negros. Quando se pega num conceito com um histórico são pesado, tão concreto, para o usar para todas as relações, é dizer que um negro que chama "branco de merda" a um branco tem o mesmo significado, o mesmo efeito coletivo (pessoal tem certamente) que as leis que durante séculos afastaram os negros da cidadania, da dignidade, da autodeterminação, da escolaridade, da justiça. Porque o fenómeno ao contrário não teve nem tem lugar. É equivaler um pisar de calcanhar ao esmagamento por derrocada.

A normalização do populismo

Fevereiro 24, 2021

Chega-me este texto no Sol e fica cada vez mais claro que o ar dos dias é fétido, normalizando os jogos de palavras do populismo da "nova" (na verdade bem velha) direita nacionalista ocidental. A Bastonária da Ordem dos Enfermeiros é uma pessoa corajosa, Ventura faz umas piadas que não se deve levar a mal, e Mamadou Ba é um perigoso racista que faz parte de uma estratégia da esquerda para destruir a "raça" branca e a portugalidade. Nada disto é novo e quem não percebe o padrão recomendo a leitura do artigo de Di Carlo e Kamradt, "Bolsonaro e a cultura do politicamente incorreto na política brasileira", o livro de Taggart, "Populism" ou de Levitsky e Ziblatt, "How democracies die: What History Tells Us About Our Future".

Racismo Estrutural, um fenómeno multiverso

Fevereiro 23, 2021

Quando se afirma o racismo estrutural em Portugal é erróneo supor que este tenha a mesma natureza do racismo estrutural brasileiro ou estadunidense. Não poderia ter, pelas histórias e composições sociais próprias. A presença africana em Portugal foi intensa durante os séculos XIV a XVIII, com um progressivo desaparecimento (por inúmeros fatores, como degredo, tráfico e doença). A herança tornou-se uma memória incómoda e foi sujeita a amnésia nacionalista. Nesse sentido, o racismo estrutural português é de feição colonial e pós-colonial, sendo sobretudo um sentimento ameno de superioridade presente no desconforto e na invisibilização do "outro" por via do insucesso da mobilidade social ascendente. O caso do Brasil é outro, ligado à história do sistema escravocrata e às políticas de exclusão, racialização ativa, perseguição, resultantes do pós-abolição, com forte dimensão penal e científica. O lusotropicalismo e o racismo cordial/democracia racial foi um jogo comum, é um facto, mas sujeito a leituras ideológicas diferentes. Enquanto no Brasil a presença negra foi permanente, resultando em políticas quitodianas de exclusão e marginalização, mescladas com o nacionalismo moreno de Getúlio Vargas, por exemplo, o caso português foi o das colónias como propriedade de um Portugal maior que as fronteiras europeias, cujo apogeu nacionalista foi o de trazer o exótico selvagem à exposição do Mundo Português. São, pois, racismos estruturais diferentes. Um centrado em políticas ativas de segregação e perseguição, outro marcado pelas tramas de exclusão social serena, invisível, aparentando, sobretudo, ser um fenómeno de falha do mercado liberal e de divisão económica e de classe.

Racismo, Teoria Crítica e o "porque não"

Fevereiro 22, 2021

Por conta do meu artigo na Visão, cheguei até um outro artigo no Observador, em sentido contrário. Porque não gosto de ficar acantonado ao meu pensamento fui ler com atenção este texto, já que se apresenta como uma crítica a uma ideologia que ele vê como dominante na academia, que propagaria o sectarismo com base na intersecionalidade entre raça, género e condição económica e social. Segundo este autor, o racismo sistémico não existiria porque seria um erro teórico derivado do marxismo. O problema é que o autor não apresenta nenhuma concreta interpretação alternativa dos fenómenos sociais, a não ser apresentar lá pelo meio um valor do liberalismo do século XIX: a iniciativa individual transformada em mérito. Ora, depreendo que não havendo uma circunstância de marginalidade recorrente com base em questões de género e raça, o que há é uma falha dos agentes económicos em promover o seu próprio bem-estar pelos seus próprios meios. Isto não é o mito da meritocracia, de que as condições de partida são todas iguais? Estando eu disposto a questionar o quadro de interpretação onde me posiciono, fiquei defraudado com este texto. Além de inscrever a leitura do problema no marxismo (uma espécie de fetiche em torno da esquerda?) é incapaz de providenciar um quadro teórico alternativo para o fenómeno do racismo e do machismo. Pareceu-me uma versão bem articulada de um "porque não".

Micropost [72]

O Mundo e Portugal

Fevereiro 19, 2021

O negacionismo e o revisionismo históricos são amplos, tocando todos os quadrantes políticos. Vai da euforia com os Descobrimentos, sacralizando a epopeia marítima e as figuras do nacionalismo lusitano, até ao ataque de caráter aos mesmos, à luz dos padrões coevos, como se os valores humanistas que nos regem não fossem tanto uma construção social e intelectual, quanto um produto cultural etnocêntrico. Portanto, tanto demos "novos mundos ao mundo" (que é como quem diz abrimos rotas comerciais para proveito europeu), quanto pilhámos, destruímos, escravizámos, demonizámos e convertemos. Tudo com base nas crenças e valores da época. São duas mãos distintas de um mesmo corpo. O resto é combate ideológico.

Marcelino da Mata e o colonialismo

Fevereiro 18, 2021

Marcelino da Mata tem sido instrumentalizado pela nova direita portuguesa como exemplo ilustrativo do país sem racismo. Com efeito, como um país que se miscigenou pelo mundo poderia ter um problema de racismo? Sucede, todavia, que o mesmo tipo de reflexão teve e continua a ter lugar no Brasil, a partir do nacionalismo "moreno" e da "democracia racial". O lusotropicalismo, o eixo luso-brasileiro da pós-racialidade baseia-se, sobretudo, naquilo que se designa por "racismo cordial", uma tipologia de relações de reciprocidade assimétrica e integração subordinada. Ou seja, não há racismo se cada grupo "racial" conhecer os espaços que lhes são lícitos. 

No caso de Marcelino da Mata o não-racismo português é expresso numa linguagem não-dita de que "até tínhamos um preto a matar pretos". Este tipo de argumento além de elementar é desonesto, uma vez que desconsidera o alinhamento colonial como um elemento do racismo. Parés (2006) e Guridy e Hooker (2018) mostraram a existência de negros alinhados com a sociedade dominante, negros com agendas de inclusão assimilacionistas, os quais foram determinantes, por exemplo, no combate às agendas da "negritude" e das religiões de matrizes africanas. Essa situação de alinhamento é, forçosamente, produto do "racismo cordial". 

Jorge Jesus e o Racismo no olhar hegemónico

Dezembro 09, 2020

Cá temos o "agora tudo é racismo". JJ figura, aqui, como paradigma de um modo de pensar generalizado que tem impedido uma reflexão e debate honestos sobre o racismo em Portugal. O lusotropicalismo e o "bom colonizador" permanecem como argamassa cultural que não se admite contestar. A situação piora quando se acredita ter legitimidade para definir o que é racismo a partir de um lugar de fala hegemónico. Ora, é tempo de perceber que a racialização social é um fenómeno estrutural silencioso e invisível e que foi, historicamente, um fenómeno exclusivo de dominação branca. Enquanto não se aceitar o legado nefasto dos 12% da população mundial para a a definição de "raças" e hierarquias, nenhum debate será honesto.

"O preto de casa"

Novembro 18, 2020

Soube que na entrevista de Ventura a Miguel Sousa Tavares, o primeiro disse que tinha um amigo "preto de casa". Esta afirmação é prova irrefutável de que o racismo tem uma dimensão estrutural invisível, muito difícil de desmontar. Para André Ventura essa circunstância prova que não há racismo em Portugal. Mas a mim mostra o contrário. Mostra que a ideologia esclavagista e racial permanecem, porque ter um "preto de casa" sempre significou dominação. O "preto de casa" é aquele que se opõe ao "de senzala". É aquele mais limpo que serve para tarefas domésticas e para mostrar um espírito humanista e civilizador.

Micropost [65] Murais do Racismo

Novembro 02, 2020

Sobre os murais racistas, nas escolas e universidades, importa lembrar que ao sabor do lusotropicalismo Portugal construiu um imaginário de país sem racismo, ou, nos termos mais negativos, de um país onde o racismo era moeda de troca. Uma falácia que esconde a dominação e o silenciamento. As políticas públicas que visam reverter esse histórico são interpretadas como favorecimento e proteção, reforçando ímpetos raciais. Enfim, não podemos deixar o racismo vencer, mas para tal é preciso desconstrui-lo de forma pedagógica.

Micropost [55] | a mulher branca que se fazia de negra

Setembro 05, 2020

As culturas e comunidades negras e afrodescendentes são abertas ao estudo por qualquer pessoa, independentemente da classificação étnica, sexual, de género, social ou económica. A ciência é um olhar de todos e a ideia puritana de exclusive insider perspective é pobre e de natureza política. Mas depois há isto, um aproveitamento e instrumentalização que reforçam a lógica da dominação racial. Terrível.

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