Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A eleição de Bolsonaro é, nesse sentido, a vitória de um modelo civilizacional cristão, conservador, racializado, de fronteiras sociais bem demarcadas, onde o lugar da mulher permanece subalternizado, o homossexual (a menos que membro das elites) é representante do demónio na terra, e por isso deve ser erradicado.

O BRASIL ELEGEU COMO PRESIDENTE sob uma áurea de candidato antissistema, alguém que passou quase 30 anos dentro do congresso, fazendo uso-fruto máximo do erário público. Debaixo da capa de herói nacional, vive um político comprometido com os interesses económicos dos madeireiros, da indústria do armamento, dos grandes produtores agrícolas e de gado. Um político que na sua carreira favoreceu familiares e recebeu subornos indiretos, por via partidária. Nem o discurso claramente homofóbico, racista e misógino chegou para acautelar a onda bolsonarista que varreu o país. Em nome do rigor, foi, precisamente, esse discurso que lhe valeu a eleição.

 

O Brasil jamais foi capaz de acertar contas com a história, e a Democracia Racial prevaleceu, somente, como mito. O forte incentivo à imigração europeia, com o intuito de embranquecer a população, foi bem alavancado num ideal civilizacional que não combinava com o caráter multiétnico e plurirreligioso do país. O Brasil das elites políticas, económicas e socialmente favorecidas era o Brasil deles, onde caberia ao pobre e ao negro, geralmente e idealmente associados, o papel de vozes subalternas ad eternum. Quando o PT, à margem da corrupção gritante, foi capaz de produzir medidas sociais que possibilitaram estreitar as fronteiras sociais e permitiram verdadeiros saltos sociais a negros e pobres – como as quotas raciais e a ProUni, só para citar dois exemplos na área da educação –, as elites sociais torceram o nariz. Como se costuma dizer, o antipetismo nasceu quando a família da doméstica se encontrou com a família da patroa no aeroporto. E isto não é metáfora, é um facto.

 

Em segundo lugar, no doce embalo do elitismo social, cresceu, desde a década de 1960, a corrente neopentecostal, um agregado de igrejas evangélicas, que reconhecendo as caraterísticas do campo religioso brasileiro popular, com os processos de cura e de consultas de entidades religiosas, que vai do espiritismo de influência europeia, à muito brasileira Umbanda e ao mais africano Candomblé, foi capaz de produzir uma teologia da prosperidade e uma guerra santa, oferecendo outras curas para os mesmos males. Nesse quadro, vigorou uma moralidade cristã, historicamente presente, mas agora extremada, com um controlo absoluto sobre a vida dos fiéis, demonizando tudo o quanto signifique lazer e maior compreensão do mundo. As potencialidades económicas e eleitorais de tais igrejas rapidamente chamaram à atenção das elites políticas conservadoras, formando alianças poderosas que levaram à constituição de uma musculada bancada evangélica no Senado e a um controlo da informação por via da detenção dos órgãos de comunicação social.

 

Para que o Brasil fosse definitivamente controlado era preciso exorcizar o PT. Demonizar a sua existência, marcada pela abertura religiosa, pela defesa das minorias étnicas e sexuais, pelas medidas de empoderamento feminino e das classes mais pobres. A corrupção deu a oportunidade única para o golpe muito pouco misericordioso, em que o malabarismo da informação permitiu branquear a história e fazer crer que fora o PT que criara a corrupção sistémica, ao mesmo tempo que a ditadura militar começava a ser suavizada, na esteira psicológica da nostalgia e na oportunidade política da tomada de poder.

 

Por tudo isto, não é possível menosprezar o impacto decisivo da religião. Quem não entender que esta eleição foi veiculada pela histeria de fé não entende, efetivamente, o que se passou. O discurso de vitória de Bolsonaro, em que mais se veiculou Deus do que política, é reflexo desse clima teocrático que governa já o país. É no quadro da religião que se que fabrica o messianismo – com o herói que salvará o país –, o nacionalismo enquanto devoção à pátria (terra dos pais fundadores), a moralidade conservadora onde não cabe o empoderamento feminino, a comunidade LGBT ou o negro enquanto representação da baixa moralidade, com as suas macumbas, o seu sexo sem laços afetivos e matrimoniais, a promiscuidade que atenta contra o quadro cristão. Não basta a Jair Bolsonaro se fazer acompanhar de um negro para todo o lado para parecer que não é racista. As elites históricas sempre o fizeram como sinal diacrítico de poder económico. O negro amestrado é símbolo da sua posição social. A eleição de Bolsonaro é, nesse sentido, a vitória de um modelo civilizacional cristão, conservador, racializado, de fronteiras sociais bem demarcadas, onde o lugar da mulher permanece subalternizado, o homossexual (a menos que membro das elites) é representante do demónio na terra, e por isso deve ser erradicado. Por fim, o desapego à Democracia e o amor à tomada de poder estão revigorados, bem evidente nas batidas policiais às universidades nos últimos dias. Esses ataques não surgem por acaso. A universidade sempre representou o espaço da consciência cívica e da resistência à ditadura. Os próximos alvos serão os sindicatos, as sedes do PT, os movimentos negros e LGBT, os templos (terreiros) afro-brasileiros. O seu eleitorado bem alertou: é melhor jair se acostumando.

 

A culpa não morre solteira, no país que já foi do PT

 

            O PT foi, com efeito, o segundo grande derrotado da noite. O primeiro, claro está, foi a democracia. É, pois, tempo do Partido dos Trabalhadores se reconciliar com o seu histórico, ao mesmo tempo que precisa reconhecer que o seu eleitorado, sendo de largo espetro, não se compadece com falhas de tamanha envergadura. A arrogância governativa que foi veiculada pelo desprezo pelas instâncias judiciais foi paga caro, com uma fatura pesadíssima para o país. Ter insistido em Lula da Silva – mesmo que eventualmente inocente – foi um erro atroz. Fruto dessa arrogância de quem se toma por garantido no poder. O PT não aprendeu nada com as eleições americanas. Trump não se elegeu, apenas, à custa do eleitorado redneck, mas muito à custa do eleitorado volátil que, em circunstância normal, teria votado no Partido Democrata, mas que castigou a arrogância do aparelho partidário, que insistiu em não ouvir a preferência geral por Bernie Sanders. O que o PT, portanto, deveria ter feito, era ter apresentado, ab initio, Fernando Haddad como candidato, aproveitando a oportunidade para romper com o modelo vigente do partido e, descolando o seu candidato – alguém longe da corrupção, vencedor do prémio ONU de empreendedorismo em 2016, enquanto prefeito de São Paulo, e que enquanto Ministro da Educação foi responsável por projeto como ProUni, a reforma do vestibular, a criação de dezenas de universidades públicas, entre outras medidas – de Lula e Dilma. Não tendo tido a audácia, a clarividência e a coragem políticas de o fazer, o PT é, agora, obrigado a uma profunda reforma, se quiser voltar a posicionar-se como alternativa a Bolsonaro, recuperando credibilidade. Para tanto, precisa limpar as suas trincheiras, fazer mea culpa junto dos eleitores, valorizar as suas conquistas, e entregar a Haddad a reorganização estratégica do partido. Sem isso, será melhor jair se acostumando a ficar para trás, hipotecando a democracia brasileira, num contexto em que Ciro Gomes mais do que comprometido com a democracia fez desta segunda volta palco para o seu objetivo de tomar o lugar do PT como alternativa à esquerda. Esperemos que o eleitorado brasileiro se lembre de tamanho ato de egoísmo. Tão grave quanto a elevada abstenção. Como disse Martim Luther King, “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”.

 

(texto também ali)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Disputam-se, por estes dias, à margem das campanhas presidências, as campanhas para eleger os deputados federais e estaduais no Brasil. Embora as mesmas pareçam de menor importância diante das vitais eleições presidenciais, em que os cidadãos irão eleger o sucessor de Michel Temer – numa corrida onde Lula da Silva lidera as intenções de voto, seguido do ultraconservador e defensor da ditadura militar, Jair Bolsonaro –, a verdade é que na composição do tecido político brasileiro, na importância estratégica política, ideológica, social e cultural dos estados e dos municípios, essas eleições são determinantes para aferir os caminhos da democracia brasileira.

Ora, é precisamente aí, talvez de forma mais veemente que uma eventual eleição de Bolsonaro, que serão jogadas as mais decisivas cartadas na estruturação da teia política do país. Um olhar cauteloso ao panorama social brasileiro destaca a forte presença da religião na estruturação político-social, dos municípios ao Senado. Num país onde a liberdade religiosa sempre deu pequenos passos e enormes saltos de retrocesso, o crescimento exponencial das igrejas neopentecostais e a sua penetração na política constituem um dos maiores entraves atuais à democracia plural no Brasil. Com taxas de crescimento acima dos 70 por cento, tais igrejas conquistam, de uma assentada, devotos e eleitores, engolindo as possibilidades de uma democracia plural e integrativa, para cerrar fileiras ideológicas em torno da família heterossexual, da moralidade cristã-evangélica, do desprezo pelas minorias étnicas, religiosas e sexuais, num movimento dramaticamente incomparável no Ocidente. A promiscuidade entre poder político e intenções missionárias-ideológicas evangélicas está patente no elevado número de candidatos que se anunciam pelo título de “pastor”, “bispo”, “irmão”, “missionário”, e outras designações. O Partido Republicano Brasileiro (PRB), ligado à IURD (Igreja Universal do Reino de Deus), é um dos mais fortes partidos políticos em São Paulo e no Rio de Janeiro, onde tem por prefeito Marcelo Crivella.

A religião no Brasil deixou de dizer respeito à consciência dos cidadãos para participar ativa e determinantemente na política brasileira, funcionando como fator eleitoral. Reconhecendo que é entre as camadas mais pobres da sociedade brasileira que tais igrejas vêm conquistando maior expressão, é fácil compreender que a palavra do pastor funcione como sanção, incontestável e autoritária, ungida por Deus. Reconhecendo o caráter expansionista e violento dessas igrejas, que vêm levando a cabo uma guerra santa contra as religiões de matrizes africanas e ameríndias, e inclusive à Igreja Católica, cada deputado eleito é um golpe profundo na Democracia. Das leituras da Bíblia em plenários à alteração do nome das ruas para figuras bíblicas, assim vai o Brasil, entre o å“amém, candidato” e o ataque ao demónio representado nas minorias.

 

{texto originalmente publicado no blog do CEI-IUL}

Autoria e outros dados (tags, etc)

A posição do PCP em relação à eutanásia apanhou muita gente de surpresa, gerando uma onda de revolta inclusive em parte significativa do seu eleitorado liberal. Todavia, é preciso inscrever a tomada de posição num quadro de aparelho ideológico do partido. Apesar de representar o eixo clássico de esquerda, o PCP distancia-se, ideologicamente, do BE e da ala mais esquerdista do PS, efetivando-se como um partido conservador no seu sentido estrito de arreigado a um património ideológico e social. O reduto ideológico do PCP como partido da causa operária opera num sentido de instituição de memória coletiva, reforçando lugares-chave das suas fileiras programáticas. Imbuído desse manual operário, veiculado num Portugal fabril e agrário que já mal existe, e arreigado a uma estrutura interna devedora de uma organização operária assente na antiguidade, o PCP postula-se num quadro utópico que somente amiúde vai correspondendo à realidade. A todo este cenário cristalizador de uma narrativa idílica, junta-se a sombra da ação do operariado e do sindicalismo católicos. Não é possível esquecer o lugar ocupado pela «questão operária» -- i.e., descanso e direito à missa, condições de trabalho e caridade -- na formação da Doutrina Social da Igreja, desde a Encíclica Rerum Novarum, do Papa Leão XIII. A criação da Liga Operária Católica (LOC) e da Juventude Operária Católica (JOC) , iniciadas em Portugal em 1935, marca a ação doutrinária católica no seio das classes operárias, por natureza mais conservadoras do que as elites intelectuais de Esquerda. A conciliação da luta operária com a ação social católica permanece viva e, apesar de menos expressivas, tanto a LOC quanto a JOC continuam em funções no Portugal de hoje. Nesse sentido, a convergência entre o ideal católico e do PCP de santificação da vida não deve surpreender, mas permite ao seu eleitorado mais jovem e progressista repensar que PCP querem para o futuro.  

Autoria e outros dados (tags, etc)

A eutanásia faz parte de um conjunto de temas estruturantes que tende, ainda, a produzir cisões sociais, ao imbricar-se em patrimónios ideológicos e horizontes progressistas. Uma posição sobre a eutanásia, de um modo abrangente, é devedora da forma como cada sujeito lê a sociedade. Leitura essa, naturalmente, dependente da forma como o mesmo foi socializado e inserido em determinado quadro ideológico. É por isso que não se aplica, em sentido estrito, uma distinção entre «direita» e «esquerda» nesta matéria, mesmo que de modo amplo a dicotomia seja operatória. Para tal, basta ver a posição de Jerónimo de Sousa e do PCP contra a despenalização. O PCP é um partido extremamente conservador nas suas crenças-chave, sendo um lugar onde ainda ecoam as vozes do operariado católico. 

A religião, ao contrário do que possa parecer, é determinante na forma como se elaboram os posicionamentos nesta matéria. A assunção de que só Deus dá e tira a vida, esvazia a liberdade e a autodeterminação do sujeito, porque nesta dimensão não opera a teologia do «livre arbítrio». Enquanto produto divino, a vida é pertença do Ser. É, por essa razão, que o suicídio é considerado pecado, porque permite ao ser humano a autodeterminação. A liberdade de poder escolher viver ou morrer, em situações que permitem a escolha, esvazia significativamente a Jurisprudência Divina. 

Por essa razão, a eutanásia é um ato de liberdade, de escolha do sujeito que não pode, pelos seus meios, colocar término à sua própria vida. Em contraponto à eutanásia são apresentados os cuidados paliativos, que visam minimizar o desconforto do sujeito em condições de impossibilidade de optar e executar o suicídio, caso seja essa a sua vontade. Nesse sentido, a eutanásia é um prolongamento da vida de forma coerciva, porque resulta de uma imposição perante a vontade do sujeito. Privado da sua liberdade motora, o sujeito vê-se privado da sua autodeterminação, sendo entregue a um conjunto de cuidados médicos -- cuja qualidade não é questionável -- que o obrigam a permanecer vivo. Tais cuidados paliativos são, igualmente, um negócio extremamente lucrativo. Nesse sentido, encontramos uma coincidência entre economia da saúde e ideologia, razão pela qual os médicos que defendem os cuidados paliativos em detrimento da eutanásia são, na sua maioria, militantes do CDS, o mais radical partido contra a eutanásia, onde interesses financeiros e património ideológico-teológico convivem e se reproduzem. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Desde a Encíclica Rerum Novarum de Leão XIII, de 1891, que a Igreja Católica se dedicou à solicitude social, tendo atingido o seu marco com a Encíclica Populorum Progressio, de Paulo VI, em 1967. Tratam-se de predisposições teológico-sociais em que se defende o dever moral da caritas, a caridade. Seria esta uma obrigação imposta aos detentores do capital pela ética católica do "amor ao próximo". Na constituição Gaudium et Spes, resultante do Concílio Vaticano II, afirma-se: «As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens do nosso tempo, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos do Cristo; e nada existe de verdadeiramente humano que não encontre eco em seu coração». Neste sentido, estamos diante de um quadro teológico de preocupação social que reconhece a máxima de «felizes vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus» (Lc 6, 20). Evidentemente que esta missão social se haveria de tornar numa obra missionária que a dois tempos procura suprimir os males do corpo oferecendo a redenção da alma. Uma mão sempre lava a outra. É o corpo de Cristo em todas as suas formas. 

 

No entanto, se esta missão social da Igreja se tornou numa ação de grande envergadura e importância, que não pode nem deve ser minorada, ela própria detém um paradoxo que não pode ser ignorado, e que esta muito evidente na Encíclica fundacional, e que se resume a uma simples mas ideologicamente poderosa assunção: para que a caridade opere é preciso que os ricos se mantenham ricos e os pobres se mantenham pobres. Ou seja, é necessário que as fronteiras sociais se mantenham estáveis, traçadas a linhas grossas, onde a mobilidade seja reduzida e o capital circule, mas se retenha nas mãos dos de sempre. Somente pela manutenção do status quo social é possível que a caridade se exerça. Para que os ricos encontrem a redenção no ato de dar, na dádiva da caridade, é preciso que o capital esteja na sua maioria nas suas mãos. E como o catolicismo mais fervoroso, o popular -- que paradoxalmente é o que mais foge da agência eclésica --, precisa de camadas populares, é naturalmente conservador e se apoia na ação do capital, pois também foi sempre, historicamente, o grande financiador da Igreja. Mais uma vez uma mão lava a outra. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

 © TheFoxAndTheRaven

Ao contrário do que afirma Pedro Afonso, médico psiquiatra que, muito provavelmente, segue uma escola próxima àquela que considerou, durante décadas, as religiões não-cristãs uma patologia social, e os fenómenos de transe religioso casos de histeria ou esquizofrenia, a diversidade de género não remete para um ideologia. Mesmo que o psiquiatra não queira, o género é um dado natural, respeitante à natureza psico-emocional dos sujeitos. Em rigor, aquilo que a Antropologia nos tem dado a compreender, felizmente, é que o género tem sido condicionado, ao longo da história, por atavismos culturais. Ao contrário do que querem fazer crer os mais conversadores -- para quem a sociedade é concebida como estanque --, a apologia da liberdade sexual e da diversidade de género, não resulta de uma predisposição política eufórica da «esquerda» com fins eleitorais, muito menos com o propósito de "acabar com os rapazes e as raparigas", para citar Pedro Afonso. As palpitações deste batem ao ritmo da ala política evangélica brasileira, que por este dias conseguiu que a homossexualidade fosse considerada doença, coisa que, aliás, o psiquiatra português subscreve. Graças às ciências sociais, sabemos que as sociedades são mutáveis, reciclam-se, ressignificam-se, que as tradições são invenções com fins de instituir uma dada memória coletiva, uma determinada ideologia ou narrativa mítica. É, pois, graças a séculos de um modelo político-ideológico judaico-cristão que o género tem sido condicionado, bem como, nota-se, o pensamento de Pedro Afonso. A vitória do binómio masculino-feminino expressa em homem e mulher, da monogamia e do monoteísmo, correm lado-a-lado com a consolidação de uma sociedade judaico-cristã, e não reproduzem as formas multiversas pelas quais as sociedades se expressam. 

 

Dito isto, tenho as minhas reticências a propósito da proposta do BE de que os filhos possam processar os pais que se recusem a autorizar a mudança de sexo aos 16 anos de idade. Entenda-se, não me oponho à mudança de sexo, princípio que se coaduna com a liberdade e a autodeterminação. O sujeito é livre de fazer o que quiser com o seu corpo, desde que em estado psicológico que revele compreensão do ato. Ou seja, uma pessoa que se deseje mutilar deve ser livre de o fazer, desde que esteja consciente dos efeitos. Ora, o que está em causa, penso, é a limitação da autoridade parental e a gestão dos deveres e direitos familiares. De que forma é possível garantir o direito à identidade sexual (ou outra) do adolescente sem, com isso, obrigar o núcleo parental a aceitar algo com que não concorda? Eventualmente pela emancipação do menor. Todavia, reconhecendo que muitas pessoas, desde crianças, se consideram aprisionadas num corpo que não é seu, é necessário que uma mudança de sexo num contexto adolescente seja acompanhada de profunda revisão psicológica, pois que a adolescência corresponde a um período de turbilhão emocional e busca de identidade, sendo a mesma permanentemente objeto de revisão, negação, negociação por parte do sujeito adolescente. Entre os 16 e os 18 anos, altura em que se atinge a maioridade, vai um período adequado para a reflexão. Afinal há inúmeros fatores em equação, que passam pela irreversibilidade do processo e, a título de exemplo, a mudança escolar, a fim de evitar o bullying decorrente. 

 

O nosso património cultural mainstream deve ser cautelosamente invocado, sem que para tanto haja um aprisionamento das liberdades individuais, pois que podemos ser todos iguais em ditadura, mas somente em democracia somos livres.

Autoria e outros dados (tags, etc)

"Conhecido das autoridades", assim são descritos, invariavelmente, os autores dos ataques terroristas. Na base estão denúncias à linha de combate ao terrorismo da polícia britânica. O dedo é sempre apontado: as autoridades, avisadas, de dentro da comunidade islâmica, nada fizeram. Esta situação coloca-nos num cenário delicado, em que as autoridades não têm competência para atuar com base em comportamentos tendenciais, apenas podendo agir perante atos, ou seja, depois do atentado ou tentativa de atentado. Como combater, então, este problema? A solução mais óbvia, apresentada pela extrema-direita europeia é a expulsão dos muçulmanos da Europa. A Esquerda contesta, e bem, que esta medida se baseia na violação dos direitos humanos, da salvaguarda do direito à mobilidade, do dever da integração e das mais-valias do multiculturalismo. Ficamos, portanto, num impasse. Ou não. Correndo o risco de ofender as "religiões do Livro", baseadas num princípio de detenção da verdade e de intenções prosélitas, seja a "boa nova", seja a "verdadeira doutrina", parece possível atuar preventiva se o proselitismo fosse proibido. Naturalmente que o primeiro pensamento que ocorre é que tal medida condiciona a liberdade religiosa. Mas não o faz. Visto de outro prisma, a proibição do proselitismo é, em primeiro lugar, o garante do direito de consciência e o fim da legitimação de discursos de «autenticidade religiosa», assegurando o direito aos cidadãos de não serem abordados com a tentativa de conversão religiosa. Que impacto isto tem no radicalismo islâmico no Ocidente? Não resolvendo o problema, permite que tentativas de sedução para a causa sejam alvo de punição legal, particularmente se a proibição do proselitismo for associada a correntes fundamentalistas. Ora, sabendo que o Islão não é uma religião de abordagem direta de conversão, será mais fácil mapear atividades proto-terroristas pela via do proselitismo. 

Autoria e outros dados (tags, etc)


A DIMENSÃO CULTURAL da globalização é um factor fundamental na análise dos localismos globalizados e das globalizações localizadas. Apesar disso, importa referir que cultura, na maioria dos lugares, é pelo menos parente de religião, o que significa que a cultura identitária tem um carácter profundamente religioso. Importa referir que a globalização é um processo impulsionado por forças económicas e tecnológicas, ao mesmo tempo que significa um aumento exponencial das possibilidades de comunicação entre um número crescente de pessoas em todo o mundo, dos mais altos cargos políticos ao cidadão comum, passando claro pelas organizações religiosas, ideológicas e criminosas.
TORNOU-SE, neste processo, consensual que a globalização tem um pendor cultural expresso. Assume-se que existe uma cultura global emergente e dominante, um localismo globalizado, cujo foco de emissão é os Estados Unidos da América, razão pela qual é frequente se falar numa americanização do mundo. Para muitos, esse localismo globalizado significa uma exportação de padrões de vida elevados e que culminará na criação de uma sociedade civil internacional assente na democracia como sistema político. Para outros, essa exportação significa uma expansão de um modelo de vida superfícial, trivial e até mesmo como uma conspiração neo-imperialista ao serviço de um capitalismo predatório. Esta última leitura é a fonte alimentadora dos movimentos anti-americanos como sinónimos de resposta anti-globalização. Seja como for é factual que a globalização tem uma feição norte-americana notória, marcada inclusive pela padronização das comunicações no inglês americano.
APESAR DE imensamente explorada, a reflexão em torno de uma cultura global é recente, embora se relacione com um assunto mais arcaico: modernização. Um dos principais aspectos desta modernização é a afirmação de um valor formulado com o Renascimento - individualização - que se configura na subtração do indivíduo da sua condição de parte integrante de uma identidade tradicional expressa pela identidade de grupo ou nação. Esta individualização abandona o ser humano à sua própria condição de liberdade do uso dos seus meios e recursos.
IMPORTA REFERIR que essa cultura globalizada não é inexorável, isto é, não se trata de um rolo compressor ao qual é impossível resistir nem tão-pouco é linear. Ela comporta contrariedades que se lhe tornaram características, como a comida fast-food e a comida tradicional dos diversos pontos do globo, o ateísmo e a procura das religiões tradicionais, a sexualidade desmoralizada e a virtude evangélica. Apesar dessas contrariedades que lhe são típicas, a globalização significa uma uniformização de modos de vestir (mesmo os diferentes estilos são padronizados), de linguagens corporais e de quadros referenciais.
NESSA GLOBALIZAÇÃO RESISTENTE cabe tudo o que a padronização e a resistência simbolizam. Os valores religiosos são em larga medida os mais significativos elementos das fragilidades do rolo compressor, ou pelo menos, das nuances que este contém. A Índia é um exemplo desses contrastes da globalização. A sua população adere às tendências das novas tecnologias, às tendências ocidentais de comportamentos sociais como as despedidas de solteiras com strippers, ao mesmo tempo que as castas e a fé hindu continuam a ter papel intocável nos códigos e sistemas de organização.


{image copyright} | (texto redigido em 2011)

Autoria e outros dados (tags, etc)

O galego Carlos Taibo, no seu livro Compreender Portugal, publicado em 2015, afirma que a sociedade portuguesa, no seu mais amplo sentido, deslocou-se da “trilogia dos três F” – fado, futebol e Fátima, para uma nova trilogia, composta por futebol, FMI e Facebook. Sem negar a importância recente do FMI e o lugar central do Facebook na vida quotidiana dos portugueses (num continuum universal que não produz dimensões particulares portuguesas), considero que os clássicos três F, das guitarras portuguesas, da bola sobre a relva e do culto mariano permanecem profundamente operatórios, enraizados na identidade nacional. Tratam-se de atavismos culturais impressos na memória histórica coletiva. Recordando Júlio Pimentel Pinto, “a memória é esse lugar de refúgio, meio história, meio ficção, universo marginal que permite a manifestação continuamente atualizada do passado”. Nesse sentido, a memória coletiva permite a revivência de determinados eventos, a instituição de determinados acontecimentos como marcos que solidificam a identidade de um grupo. A memória, efetivamente, une os sujeitos, os atores sociais, porque ela interliga-se, beneficia-se das memórias alheias, porque a memória individual só se emaranha na memória coletiva se, como escreveu Halbwachs, concordar com a memória dos outros. Para León e Receba Grinberg a identidade emerge da interseção do tempo, do espaço e do grupo, mecanismos que conjugados produzem um manual de valores que se solidificam no grupo. São tradições inventadas, como teorizou Hobsbawm, que necessitam, na ideia de José Mattoso, do Estado para se criarem, porque a portugalidade é devedora, sem dúvida, do intenso movimento do Estado Novo de estabelecer uma “identidade nacional”, de que os “três F” são o expoente máximo. 

As romarias com a sua religiosidade assente nos ex-votos, na devoção mariana e nas práticas de cura, o futebol com as suas outras romarias de domingo, em que as famílias iam ao estádio e sempre alguém pedia “vizinho, deixe-me entrar consigo”, na época dos bilhetes com direito a acompanhante, e no fado, a “canção nacional” que transporta o ideal de um povo vivente de tristeza, amargura, devoto e honroso. O português de Jorge Dias é “um misto de sonhador e de homem de acção [...] o Português é, sobretudo, profundamente humano, sensível, amoroso e bondoso, sem ser fraco”. 

Mas se o português é uma série de lugares-comuns instituídos na memória coletiva, ele também é muitas outras coisas, porque o quotidiano não se compadece com chavões ideológicos. No entanto, porque a memória se reaviva em acontecimento determinantes, contribuindo para a fabricação de um sentimento comunitário, o 13 de maio de 2017 oferece as condições essenciais para o reavivar da memória nacional, agora amplificada nos meios de comunicação social, com transmissões diárias de notícias e reportagens em torno da vinda do Papa Francisco, publicação de artigos de opinião e livros sobre a vida e a mensagem de Bergoglio. A mediatização da visita papal e a cobertura das peregrinações tem oferecido terreno para um reavivamento católico, para um ressurgimento do catolicismo como idioma cultural nacional, ao qual se junta o facto de no próximo dia 13, o Benfica provavelmente se sagrar campeão, o clube português com o maior número de adeptos, e que opera, assim, como um símbolo instituído de Portugal, conjugando-se a Fátima, reatualizando o mito do país católico e benfiquista, relegando para segundo plano o multiculturalismo, a diversidade religiosa, a diversidade clubística, para renovar, pelo gesto nostálgico, o Portugal do Estado Novo, agora, no dia 13, sem o fado, mas com Salvador Sobral e o Festival Eurovisão.

 

post também no blog Changing World do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE (link).

Autoria e outros dados (tags, etc)

Nesta época os cristãos revivem os epósidos marcantes da vida, morte e ressurreição de Jesus de Nazaré. Um desses episódios relata a escolha popular por Barrabás, o "criminoso", em detrimento daquele que muitos aclamavam por Messias. Tal episódio é responsável por sentimentos de ansiedade e mágoa entre os mais devotos, uma espécie de culpa retrospetiva, uma condenação em jeito de "porquê?". No entanto, para se entender a escolha há que compreender o contexto histórico-cultural judaico de então. Entre os judeus, a figura do Rei David operava, e em boa medida ainda opera, como referencial tipológico de "messias". Num contexto em que os judeus se encontravam sob o jugo do Império Romano, opressor, cobrador de altos impostos e religiosamente distante, a figura do Rei David permitia estabelecer um horizonte de revolução, de quebra de correntes, de restauração de uma Jerusalém livre e prometida. Jesus, enquanto messias, não correspondia às caraterísticas do משיח (Mashíach) de Israel, o descendente de David, o líder guerreiro. Jesus trazia uma outra roupagem, uma mensagem baseada no reino dos céus, da paz, do amor. Nesse contexto, Barrabás reunia, de uma forma torta e imperfeita, predicados do herdeiro de David. Embora não reconhecido como messias, Barrabás dispunha-se a enfrentar o Império Romano, lançando uma série de ataques contra as forças do império, sendo provavelmente integrante do partido judaico de libertação. Não há dúvidas de que em contexto de opressão Jesus não representava o Messias ideal, pois não se dispunha a enfrentar diretamente o Império romano, mas antes oferecia uma mensagem de redenção, de vida eterna. A passagem em que afirma "dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus", contrapõe-se à disposição violenta e guerrilheira de Barrabás. Foi, então, mais fácil reconhecerem-se num homem cheio de imperfeições, mas disposto a lutar pela liberdade, do que num homem voltado ao espírito. 

Autoria e outros dados (tags, etc)



Dossier Presidenciais Brasileiras 2018


Os meus textos noutras Paragens



Pesquisar

  Pesquisar no Blog


__Gramas de Instantes__

@joaoferreiradiasphotography