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— A Morada dos Dias —

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

— A Morada dos Dias —

17
Dez17

O Paradoxo da Caridade

Desde a Encíclica Rerum Novarum de Leão XIII, de 1891, que a Igreja Católica se dedicou à solicitude social, tendo atingido o seu marco com a Encíclica Populorum Progressio, de Paulo VI, em 1967. Tratam-se de predisposições teológico-sociais em que se defende o dever moral da caritas, a caridade. Seria esta uma obrigação imposta aos detentores do capital pela ética católica do "amor ao próximo". Na constituição Gaudium et Spes, resultante do Concílio Vaticano II, afirma-se: «As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens do nosso tempo, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos do Cristo; e nada existe de verdadeiramente humano que não encontre eco em seu coração». Neste sentido, estamos diante de um quadro teológico de preocupação social que reconhece a máxima de «felizes vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus» (Lc 6, 20). Evidentemente que esta missão social se haveria de tornar numa obra missionária que a dois tempos procura suprimir os males do corpo oferecendo a redenção da alma. Uma mão sempre lava a outra. É o corpo de Cristo em todas as suas formas. 

 

No entanto, se esta missão social da Igreja se tornou numa ação de grande envergadura e importância, que não pode nem deve ser minorada, ela própria detém um paradoxo que não pode ser ignorado, e que esta muito evidente na Encíclica fundacional, e que se resume a uma simples mas ideologicamente poderosa assunção: para que a caridade opere é preciso que os ricos se mantenham ricos e os pobres se mantenham pobres. Ou seja, é necessário que as fronteiras sociais se mantenham estáveis, traçadas a linhas grossas, onde a mobilidade seja reduzida e o capital circule, mas se retenha nas mãos dos de sempre. Somente pela manutenção do status quo social é possível que a caridade se exerça. Para que os ricos encontrem a redenção no ato de dar, na dádiva da caridade, é preciso que o capital esteja na sua maioria nas suas mãos. E como o catolicismo mais fervoroso, o popular -- que paradoxalmente é o que mais foge da agência eclésica --, precisa de camadas populares, é naturalmente conservador e se apoia na ação do capital, pois também foi sempre, historicamente, o grande financiador da Igreja. Mais uma vez uma mão lava a outra. 

20
Set17

A mudança de sexo aos 16 anos

 © TheFoxAndTheRaven

Ao contrário do que afirma Pedro Afonso, médico psiquiatra que, muito provavelmente, segue uma escola próxima àquela que considerou, durante décadas, as religiões não-cristãs uma patologia social, e os fenómenos de transe religioso casos de histeria ou esquizofrenia, a diversidade de género não remete para um ideologia. Mesmo que o psiquiatra não queira, o género é um dado natural, respeitante à natureza psico-emocional dos sujeitos. Em rigor, aquilo que a Antropologia nos tem dado a compreender, felizmente, é que o género tem sido condicionado, ao longo da história, por atavismos culturais. Ao contrário do que querem fazer crer os mais conversadores -- para quem a sociedade é concebida como estanque --, a apologia da liberdade sexual e da diversidade de género, não resulta de uma predisposição política eufórica da «esquerda» com fins eleitorais, muito menos com o propósito de "acabar com os rapazes e as raparigas", para citar Pedro Afonso. As palpitações deste batem ao ritmo da ala política evangélica brasileira, que por este dias conseguiu que a homossexualidade fosse considerada doença, coisa que, aliás, o psiquiatra português subscreve. Graças às ciências sociais, sabemos que as sociedades são mutáveis, reciclam-se, ressignificam-se, que as tradições são invenções com fins de instituir uma dada memória coletiva, uma determinada ideologia ou narrativa mítica. É, pois, graças a séculos de um modelo político-ideológico judaico-cristão que o género tem sido condicionado, bem como, nota-se, o pensamento de Pedro Afonso. A vitória do binómio masculino-feminino expressa em homem e mulher, da monogamia e do monoteísmo, correm lado-a-lado com a consolidação de uma sociedade judaico-cristã, e não reproduzem as formas multiversas pelas quais as sociedades se expressam. 

 

Dito isto, tenho as minhas reticências a propósito da proposta do BE de que os filhos possam processar os pais que se recusem a autorizar a mudança de sexo aos 16 anos de idade. Entenda-se, não me oponho à mudança de sexo, princípio que se coaduna com a liberdade e a autodeterminação. O sujeito é livre de fazer o que quiser com o seu corpo, desde que em estado psicológico que revele compreensão do ato. Ou seja, uma pessoa que se deseje mutilar deve ser livre de o fazer, desde que esteja consciente dos efeitos. Ora, o que está em causa, penso, é a limitação da autoridade parental e a gestão dos deveres e direitos familiares. De que forma é possível garantir o direito à identidade sexual (ou outra) do adolescente sem, com isso, obrigar o núcleo parental a aceitar algo com que não concorda? Eventualmente pela emancipação do menor. Todavia, reconhecendo que muitas pessoas, desde crianças, se consideram aprisionadas num corpo que não é seu, é necessário que uma mudança de sexo num contexto adolescente seja acompanhada de profunda revisão psicológica, pois que a adolescência corresponde a um período de turbilhão emocional e busca de identidade, sendo a mesma permanentemente objeto de revisão, negação, negociação por parte do sujeito adolescente. Entre os 16 e os 18 anos, altura em que se atinge a maioridade, vai um período adequado para a reflexão. Afinal há inúmeros fatores em equação, que passam pela irreversibilidade do processo e, a título de exemplo, a mudança escolar, a fim de evitar o bullying decorrente. 

 

O nosso património cultural mainstream deve ser cautelosamente invocado, sem que para tanto haja um aprisionamento das liberdades individuais, pois que podemos ser todos iguais em ditadura, mas somente em democracia somos livres.

05
Jun17

O Combate ao Terrorismo

"Conhecido das autoridades", assim são descritos, invariavelmente, os autores dos ataques terroristas. Na base estão denúncias à linha de combate ao terrorismo da polícia britânica. O dedo é sempre apontado: as autoridades, avisadas, de dentro da comunidade islâmica, nada fizeram. Esta situação coloca-nos num cenário delicado, em que as autoridades não têm competência para atuar com base em comportamentos tendenciais, apenas podendo agir perante atos, ou seja, depois do atentado ou tentativa de atentado. Como combater, então, este problema? A solução mais óbvia, apresentada pela extrema-direita europeia é a expulsão dos muçulmanos da Europa. A Esquerda contesta, e bem, que esta medida se baseia na violação dos direitos humanos, da salvaguarda do direito à mobilidade, do dever da integração e das mais-valias do multiculturalismo. Ficamos, portanto, num impasse. Ou não. Correndo o risco de ofender as "religiões do Livro", baseadas num princípio de detenção da verdade e de intenções prosélitas, seja a "boa nova", seja a "verdadeira doutrina", parece possível atuar preventiva se o proselitismo fosse proibido. Naturalmente que o primeiro pensamento que ocorre é que tal medida condiciona a liberdade religiosa. Mas não o faz. Visto de outro prisma, a proibição do proselitismo é, em primeiro lugar, o garante do direito de consciência e o fim da legitimação de discursos de «autenticidade religiosa», assegurando o direito aos cidadãos de não serem abordados com a tentativa de conversão religiosa. Que impacto isto tem no radicalismo islâmico no Ocidente? Não resolvendo o problema, permite que tentativas de sedução para a causa sejam alvo de punição legal, particularmente se a proibição do proselitismo for associada a correntes fundamentalistas. Ora, sabendo que o Islão não é uma religião de abordagem direta de conversão, será mais fácil mapear atividades proto-terroristas pela via do proselitismo. 

04
Jun17

Cultura, Religião e Globalização


A DIMENSÃO CULTURAL da globalização é um factor fundamental na análise dos localismos globalizados e das globalizações localizadas. Apesar disso, importa referir que cultura, na maioria dos lugares, é pelo menos parente de religião, o que significa que a cultura identitária tem um carácter profundamente religioso. Importa referir que a globalização é um processo impulsionado por forças económicas e tecnológicas, ao mesmo tempo que significa um aumento exponencial das possibilidades de comunicação entre um número crescente de pessoas em todo o mundo, dos mais altos cargos políticos ao cidadão comum, passando claro pelas organizações religiosas, ideológicas e criminosas.
TORNOU-SE, neste processo, consensual que a globalização tem um pendor cultural expresso. Assume-se que existe uma cultura global emergente e dominante, um localismo globalizado, cujo foco de emissão é os Estados Unidos da América, razão pela qual é frequente se falar numa americanização do mundo. Para muitos, esse localismo globalizado significa uma exportação de padrões de vida elevados e que culminará na criação de uma sociedade civil internacional assente na democracia como sistema político. Para outros, essa exportação significa uma expansão de um modelo de vida superfícial, trivial e até mesmo como uma conspiração neo-imperialista ao serviço de um capitalismo predatório. Esta última leitura é a fonte alimentadora dos movimentos anti-americanos como sinónimos de resposta anti-globalização. Seja como for é factual que a globalização tem uma feição norte-americana notória, marcada inclusive pela padronização das comunicações no inglês americano.
APESAR DE imensamente explorada, a reflexão em torno de uma cultura global é recente, embora se relacione com um assunto mais arcaico: modernização. Um dos principais aspectos desta modernização é a afirmação de um valor formulado com o Renascimento - individualização - que se configura na subtração do indivíduo da sua condição de parte integrante de uma identidade tradicional expressa pela identidade de grupo ou nação. Esta individualização abandona o ser humano à sua própria condição de liberdade do uso dos seus meios e recursos.
IMPORTA REFERIR que essa cultura globalizada não é inexorável, isto é, não se trata de um rolo compressor ao qual é impossível resistir nem tão-pouco é linear. Ela comporta contrariedades que se lhe tornaram características, como a comida fast-food e a comida tradicional dos diversos pontos do globo, o ateísmo e a procura das religiões tradicionais, a sexualidade desmoralizada e a virtude evangélica. Apesar dessas contrariedades que lhe são típicas, a globalização significa uma uniformização de modos de vestir (mesmo os diferentes estilos são padronizados), de linguagens corporais e de quadros referenciais.
NESSA GLOBALIZAÇÃO RESISTENTE cabe tudo o que a padronização e a resistência simbolizam. Os valores religiosos são em larga medida os mais significativos elementos das fragilidades do rolo compressor, ou pelo menos, das nuances que este contém. A Índia é um exemplo desses contrastes da globalização. A sua população adere às tendências das novas tecnologias, às tendências ocidentais de comportamentos sociais como as despedidas de solteiras com strippers, ao mesmo tempo que as castas e a fé hindu continuam a ter papel intocável nos códigos e sistemas de organização.


{image copyright} | (texto redigido em 2011)

12
Mai17

Fado, Futebol e Fátima

O galego Carlos Taibo, no seu livro Compreender Portugal, publicado em 2015, afirma que a sociedade portuguesa, no seu mais amplo sentido, deslocou-se da “trilogia dos três F” – fado, futebol e Fátima, para uma nova trilogia, composta por futebol, FMI e Facebook. Sem negar a importância recente do FMI e o lugar central do Facebook na vida quotidiana dos portugueses (num continuum universal que não produz dimensões particulares portuguesas), considero que os clássicos três F, das guitarras portuguesas, da bola sobre a relva e do culto mariano permanecem profundamente operatórios, enraizados na identidade nacional. Tratam-se de atavismos culturais impressos na memória histórica coletiva. Recordando Júlio Pimentel Pinto, “a memória é esse lugar de refúgio, meio história, meio ficção, universo marginal que permite a manifestação continuamente atualizada do passado”. Nesse sentido, a memória coletiva permite a revivência de determinados eventos, a instituição de determinados acontecimentos como marcos que solidificam a identidade de um grupo. A memória, efetivamente, une os sujeitos, os atores sociais, porque ela interliga-se, beneficia-se das memórias alheias, porque a memória individual só se emaranha na memória coletiva se, como escreveu Halbwachs, concordar com a memória dos outros. Para León e Receba Grinberg a identidade emerge da interseção do tempo, do espaço e do grupo, mecanismos que conjugados produzem um manual de valores que se solidificam no grupo. São tradições inventadas, como teorizou Hobsbawm, que necessitam, na ideia de José Mattoso, do Estado para se criarem, porque a portugalidade é devedora, sem dúvida, do intenso movimento do Estado Novo de estabelecer uma “identidade nacional”, de que os “três F” são o expoente máximo. 

As romarias com a sua religiosidade assente nos ex-votos, na devoção mariana e nas práticas de cura, o futebol com as suas outras romarias de domingo, em que as famílias iam ao estádio e sempre alguém pedia “vizinho, deixe-me entrar consigo”, na época dos bilhetes com direito a acompanhante, e no fado, a “canção nacional” que transporta o ideal de um povo vivente de tristeza, amargura, devoto e honroso. O português de Jorge Dias é “um misto de sonhador e de homem de acção [...] o Português é, sobretudo, profundamente humano, sensível, amoroso e bondoso, sem ser fraco”. 

Mas se o português é uma série de lugares-comuns instituídos na memória coletiva, ele também é muitas outras coisas, porque o quotidiano não se compadece com chavões ideológicos. No entanto, porque a memória se reaviva em acontecimento determinantes, contribuindo para a fabricação de um sentimento comunitário, o 13 de maio de 2017 oferece as condições essenciais para o reavivar da memória nacional, agora amplificada nos meios de comunicação social, com transmissões diárias de notícias e reportagens em torno da vinda do Papa Francisco, publicação de artigos de opinião e livros sobre a vida e a mensagem de Bergoglio. A mediatização da visita papal e a cobertura das peregrinações tem oferecido terreno para um reavivamento católico, para um ressurgimento do catolicismo como idioma cultural nacional, ao qual se junta o facto de no próximo dia 13, o Benfica provavelmente se sagrar campeão, o clube português com o maior número de adeptos, e que opera, assim, como um símbolo instituído de Portugal, conjugando-se a Fátima, reatualizando o mito do país católico e benfiquista, relegando para segundo plano o multiculturalismo, a diversidade religiosa, a diversidade clubística, para renovar, pelo gesto nostálgico, o Portugal do Estado Novo, agora, no dia 13, sem o fado, mas com Salvador Sobral e o Festival Eurovisão.

 

post também no blog Changing World do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE (link).

16
Abr17

Porque salvaram Barrabás?

Nesta época os cristãos revivem os epósidos marcantes da vida, morte e ressurreição de Jesus de Nazaré. Um desses episódios relata a escolha popular por Barrabás, o "criminoso", em detrimento daquele que muitos aclamavam por Messias. Tal episódio é responsável por sentimentos de ansiedade e mágoa entre os mais devotos, uma espécie de culpa retrospetiva, uma condenação em jeito de "porquê?". No entanto, para se entender a escolha há que compreender o contexto histórico-cultural judaico de então. Entre os judeus, a figura do Rei David operava, e em boa medida ainda opera, como referencial tipológico de "messias". Num contexto em que os judeus se encontravam sob o jugo do Império Romano, opressor, cobrador de altos impostos e religiosamente distante, a figura do Rei David permitia estabelecer um horizonte de revolução, de quebra de correntes, de restauração de uma Jerusalém livre e prometida. Jesus, enquanto messias, não correspondia às caraterísticas do משיח (Mashíach) de Israel, o descendente de David, o líder guerreiro. Jesus trazia uma outra roupagem, uma mensagem baseada no reino dos céus, da paz, do amor. Nesse contexto, Barrabás reunia, de uma forma torta e imperfeita, predicados do herdeiro de David. Embora não reconhecido como messias, Barrabás dispunha-se a enfrentar o Império Romano, lançando uma série de ataques contra as forças do império, sendo provavelmente integrante do partido judaico de libertação. Não há dúvidas de que em contexto de opressão Jesus não representava o Messias ideal, pois não se dispunha a enfrentar diretamente o Império romano, mas antes oferecia uma mensagem de redenção, de vida eterna. A passagem em que afirma "dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus", contrapõe-se à disposição violenta e guerrilheira de Barrabás. Foi, então, mais fácil reconhecerem-se num homem cheio de imperfeições, mas disposto a lutar pela liberdade, do que num homem voltado ao espírito. 

12
Fev17

Fátima

Achei imensa graça ao post de Guida, no blogue Aspirina B, a propósito da visita papal a Fátima. Não replico a questão mercadológica do santuário, mas chamo à atenção da importância sociológica dos fenómenos marginais católicos na configuração da identidade católica portuguesa. É impossível pensar o catolicismo popular sem as oferendas, os votos, as trocas simbólicas dos ex-votos, sem os cultos dos santos e santas que se renovam nos ciclos anuais e nas suas romarias. São aspetos que alimentam o catolicismo e sem os quais o catolicismo não se reconhecer em contexto ibérico. 

20
Set16

Do burkini à laicidade

Um dos mais problemáticos conceitos do nosso tempo, ao jogar com a busca pela separação entre religião, Estado e espaço público, preservando, simultaneamente, substrato cultural nacional e abrindo portas à pluralidade que compõe o tecido social das nossas sociedades. É um desafio tremendo para os nossos Estados. 
Como lidar com a diversidade sem violar as liberdades individuais e o direito à expressão das identidades culturais e religiosas? A proibição dos minaretes em várias cidades europeias deveria ter sido feito acompanhar da proibição do uso de sinos por parte das igrejas católicas. Os Estados ou são laicos ou não são, e se o são devem ser na igual medida para todos. Fora isso o que temos são Estados tendencialmente laicos. Não pode acontecer a proteção de uma religião por razões históricas e o controlo de outras. Da mesma forma que movimentos e partidos políticos não devem fazer uso do chavão da "minoria" sem olharem para o quadro geral. É inegável que a laicidade portuguesa, por exemplo, nas suas dimensões ideológicas à extrema-esquerda, se consubstancia na apologia do islão sob todas as formas e no ataque ao catolicismo em todas as vertentes. Defender uma religião e condenar outra não é ser laico.
Quando um pedaço de pano ameaça toda uma sociedade significa que este pedaço de pano encerra um problema maior. O burkini não é o burkini, infelizmente. Sem dúvida que tratado por si só, o burkini está ao abrigo da reserva de direito de traje e expressão cultural. O direito à diversidade só faz sentido quando garantido em todas as suas dimensões. No entanto, da outra margem encerra-se uma preocupação legítima - a do avanço político do islão no Ocidente e do recuo da diversidade cultural que seria o primeiro intento. Recordemos a frase de Yusuf al-Qaradawi, clérigo egípcio e presidente da união islâmica de académicos -- "We will colonize you with your democratic laws." Nesse cenário, como será possível proteger a diversidade? 
Disto isto, aguentamos bem o burkini, a Liberdade não será ofendida por um pedaço de pano, nem o seria com um minarete, mas não hajam dúvidas que todo o avanço extremo, seja qual for, merece ser travado. Há uns meses, no Canadá, a comunidade islâmica de uma pequena cidade, reclamou o fim da carne de porco nas cantinas escolares. Na Suíça crianças islâmicas recusaram-se cumprimentar os professores por razões religiosas. É urgente um meio-termo. A laicidade positiva necessita de empenho de todas as partes. A liberdade não é um dado adquirido.

11
Mai16

Jesus "Histórico"

Falar de Jesus enquanto personagem histórica implica um necessário salto de fé. Este cenário de coincidentia oppositorum, espelha bem a dimensão civilizacional da figura central do Cristianismo. Até que ponto Jesus existiu mesmo? Até que ponto Jesus não reúne todos os predicados de um conjunto de pregadores mais ou menos contemporâneos e alinhavados num todo-coerente teológico? Até que ponto a fé de Paulo de Tarso, o grande formatador do pensamento Cristão a partir das categorias de pensamento grego, num Profeta não fizeram deste uma personagem religiosa de maior amplitude do que a realmente vivenciada? Como bem afirma Rafael Galvão, "o fato de ele precisar da bênção de João Batista para se legitimar indica que aquele que transformaram em seu primo era a verdadeira grande liderança religiosa popular da época, naquele espaço específico". Aliás, diria eu, que não é mais destabilizador para um católico do que pensar em Jesus como judeu, e pensar no Deus bíblico como uma seleção de diferentes deuses da mesma área geográfica. Pior, lidar com o facto de que Deus do Antigo Testamento não é um mas vários.

Mas quem são, já agora, as pessoas que necessitam de falar de um Jesus-histórico por oposição a um Jesus-Messias? Em primeiro lugar, religiosos que na apologia de Jesus apelam à historicidade do personagem para justificar a sua existência para além da narrativa mítica. Em segundo lugar, sujeitos culturalmente católicos mas que por um processo de intelectualização ou escolha civilizacional, não são católicos convencionais mas reconhecem valor simbólico à narrativa mítica propagada pelo personagem. Em terceiro lugar, todos os que escrevem livros ou realizam documentários televisivos sobre o tal Jesus histórico e que alimentam e se alimentam o e do mercado. 

17
Mar16

O beija-mão presidencial.

 Nada impede que Marcelo Rebelo de Sousa seja católico, ou que fosse de outra qualquer religião, ou até, que na linha da New Age fosse mais espiritualista do que religioso. Mas já me preocupa que a agenda presidencial de Marcelo se inaugure com uma visita ao Vaticano. Este primeiro ato internacional do Presidente da República, culminado com um confessional beija-mão, aporta-nos a um tempo em que cabia ao Vaticano ratificar a figura régia de uma monarquia europeia. O mito da laicidade do Estado Português é feito evidência neste gesto. Não basta Marcelo ter convidado uma série de representantes religiosos para na Mesquita Central de Lisboa rezar pela paz. Essa plurividência presidencial esbarra com um tão grande ato político de veiculação religiosa. Não é o Marcelo cidadão, é Marcelo Presidente da República num beija-mão confessional. Espere-se por um 13 de Maio político.