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Dias Assim

25
Nov13

A Unipessoalidade do Livre.

Gosto de ouvir o "Bloco Central" com Pedro Adão e Silva e Pedro Marques Lopes. Quer concorde em parte, no todo, ou nada, é essencial auscultar outras opiniões, sob pena de nos sentirmos orgulhosamente sós na nossa ilusão. Entre os temas de domingo eis a inevitabilidade da reflexão em torno do partido LIVRE, fundado por Rui Tavares. Entre as críticas destaca-se a unipessoalidade do projeto. Entendo as críticas, uma vez que o partido não parece nascer de uma concertação de vontades, mas há muito de ilusório nessa ideia. Primeiro porque há nomes com algum significado no espaço político português que acompanham e acompanharão Rui Tavares, segundo porque convém lembrar que nos últimos anos o BE e o CDS foram e são partidos unipessoais, os "bloquistas" em torno de Francisco Louçã e os conversadores-católicos em torno de Paulo Portas. Ademais, a menor dimensão de Rui Tavares na cena política portuguesa é um fator positivo, não negativo. Em última análise significa que o LIVRE nasce livre de muitos vícios de substância. 

22
Nov13

Ainda o Livre.

O ruído de fundo gerado em torno do partido criado por Rui Tavares, é incompreensível. Essencialmente da margem «direita», com elevado teor de hipocrisia, vieram a terreiro os rumores de que Rui Tavares fazia do LIVRE um golpe para se perpetuar por Bruxelas. A falta de ponderação à «direita» e o elevado silêncio da «esquerda» revelam também o incómodo que começa logo por ser a iniciativa de Rui Tavares. Não se compreende, desde logo, tamanha aflição. Há sempre espaço para mais um partido no espetro político português. Não me recordo, na verdade, de ter havido tanta barulho pelo Partido Humanista, pelo Partido pelos Animais e pela Natureza, e outros que tais, tão legítimos quanto o LIVRE. Há, claro, uma razão em todo este barulho que revela algum medo. Rui Tavares não fará caminho sozinho, com ele estão e estarão nomes fortes da «esquerda» lusófona, dissidentes do Bloco de Esquerda, na sua maioria, pessoas que se vêem melhor no rio que corre entre o Bloco e o PS. O que assustará, creio, em particular os "bloquistas", é a franja social que o LIVRE representa(rá): o eleitorado urbano de «esquerda» que considera o BE demasiado radical. Aquela massa de cidadãos que é contra a troika mas que gosta e quer fazer parte da Europa, que não se vê longe dessa geografia das emoções que é a União Europeia. E a julgar pela carreira política e pelas iniciativas tomadas por Rui Tavares, há que lhe dar o benefício da dúvida, pois que à esquerda há sempre ideias, e na política há sempre espaço para mais um. 

18
Nov13

Na Esquerda, há sempre Esquerda.

A emergência do Partido de Rui Tavares, ou oficialmente o Partido Livre, corresponde ao velho problema da identidade genética da «esquerda»: a transformação. Enquanto os partidos de «direita» edificam a sua identidade política pela revisão dos valores tradicionais, assumindo uma postura conservadora na leitura social, os partidos de «esquerda» operam inevitavelmente na lógica da transformação, da rutura e da ressignificação. As múltiplas potencialidades das ideologias de «esquerda» permitem um amplo espetro partidário. Enquanto o PCP, a velha «esquerda» se regula por um paradigma não distante da «direita» mais conservadora, isto é, assume uma lógica de contenção face à mudança e à recodificação ideológica-discursiva, empurrando-o assim para um segmento social cada vez menos existente, o PS sempre assumiu as rédeas da «esquerda democrática». No entanto, muitas das suas coligações à direita, formando um centrão que se revigora e se confunde, levaram a um desgaste político que tem permitido a sobreviência do PCP e a permitiu o crescimento do BE. Não obstante, o BE, com a sua lógica contestatária mas não necessariamente democrática e acima de tudo não-europeia e de clichés sociais, tem gerado uma repercussão social infinitamente menor ao desejado, reforçado pelas dicidências dos mais históricos do partido. É precisamente daí que emerge Rui Tavares, dos «esquerdistas» anti-troika mas pró-europeus, que não se sentem mais confortáveis no BE mas que não se satisfazem com o PS disposto ao centro e com menos punho do que o desejado. À esquerda do PS e à direita do BE, exatamente onde está hoje a maioria do eleitorado português. Resta saber se o projeto terá viabilidade social, ou se antes melhor seria voltar a fazem da rosa um punho forte à esquerda, é que como diz John Wolf "Rui Tavares corre o risco de ser o António José Seguro desse território enigmático - o meio da esquerda, no meio de nada".

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