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A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

Orban, Coletes Amarelos ou de como se tanto fez que agora tanto faz

Dezembro 18, 2018

O fluxo trazido pela globalização e pelo capitalismo glorificou as conquistas sociais económicas dos finais do séc. XX, em particular com a consolidação de uma classe média robusta, cada vez mais empoderada em resultado de uma estabilidade e crescimento económico que permitiu a elevação profissional através do boom educacional universitário. O número de licenciados disparou em flecha, e os primeiros dessa vaga conquistaram o mercado laboral de forma decisiva. Os empréstimos bancários à rédea solta, os cartões de crédito, a americanização do mundo através do modelo social baseado no consumo, glorificou um tempo que fez crer que viveríamos modernidades absolutas, nas quais as sucessivas gerações viveriam melhor do que as anteriores, e o espetro dos fascismos estaria, decisivamente, acometido a um canto da História. 

O problema é que como todas as glórias, também esta se baseou em saltos de fé, incapaz de prever efeitos micro que afetariam o macrossistema. Os chamados «descamisados» da globalização foram aumentando à medida em que o modelo capitalista perdeu a regulação e o mercado passou a ditar as regras, regras essas que foram teceladas sem fios de ética. Por baixo do aparente apogeu da sociedade de consumo como supressão de assimetrias, foi sendo escavado um fosso social em silêncio. Os efeitos europeus da moeda única rapidamente se fizeram sentir, num continente que só na cabeça dos economistas sem um olhar sociológico poderia parecer uniforme. O monstro capitalista, alimentado pela especulação e pelo crédito, não ficou saciado, e mesmo com o estourar da crise de 2008 jamais perdeu o seu apetite. A austeridade como caminho gerou uma profunda tensão social, porque aos descamisados da globalização, franjas sociais historicamente silenciosas, se juntou a classe média violentada pelos efeitos colaterais dos paradigmas político-financeiros. O "aguenta, aguenta" como modelo de governação, baseado no saque à classe média para financiar diretamente os bancos, num processo evidente de transferência de ativos, foi a gota de água para o ressurgimento dos populismos de extrema-direta. Ao mesmo tempo, o fluxo migratório contínuo, com populações dispostas a receber salários bem mais baixos, e a crise civilizacional gerada pelo avanço do sharia nas sociedades ocidentais, contribuíram, determinantemente, para um caldo sociológico perigoso, o qual permanece ignorado pela oligarquia política sediada em Bruxelas, que continua a olhar para a Europa pela lente da dívida pública e muito pouco pela lente da saúde da Democracia. Neste caldo a vapor, os discursos populistas anti-europeístas, protecionistas e nacionalistas, ganharam e ganham margem de manobra brutal, sem que Bruxelas se disponha a intervir. A receita da troika permanece prescrita, e assim irá ficar no obituário do projeto Europeu. 

Em segundo lugar, contribuindo para o agudizar do problema, está a descrença generalizada face à classe política. O distanciamento entre eleitorado e partidos clássicos é gritante, gerando um esvaziamento do centro moderado e comprometido com o projeto comum e com um modelo de sociedade liberal e progressista. A perceção de que os partidos estão comprometidos com interesses económicos, os escândalos de corrupção, e a própria perceção de que os políticos não representam os vários setores e clusters das sociedades, mas antes são selecionados por favorecimento, compadrio e corrupção interna, gera um clima de descrença e suspeição que ajuda a eleger políticos populistas. Com efeito, discursos inflamados, capazes de pegar nos mais banais silogismos para compor uma narrativa aparente, são sonantes aos ouvidos de um eleitorado descrente. 

Chegámos a um ponto em que as pessoas sacrificam a Democracia em nome de uma coisa nova, que na verdade nada mais é que uma ideia velha ressignificada. A classe política precisa compreender que tanto fez que para a população agora tanto faz. E tanto faz que arrisca eleger fascistas de forma triunfante. E o futuro não é nada risonho. 

“Não sou nem ateniense, nem grego, mas sim um cidadão do mundo", ou repensar a Europa, para além dos muros de Berlim.

Julho 07, 2015

 We hope to see a Europe where men of every country will think of being a European as of belonging to their native land, and...wherever they go in this wide domain...will truly feel, ‘Here I am at home.” Winston Churchill


As crises financeiras são oportunidades para repensar modelos ideológicos e rumos coletivos. A uma boa dose de esperança é preciso aliar uma forte dose de coragem e perseverança para romper com o status quo e apontar a um horizonte mais risonho. Para que tal seja possível requerem-se homens e mulheres que não estejam presos ao poder, amarrados a acordos silenciosos ou a ideologias fixas e casmurras. São precisas pessoas como Varoufakis, que preferem o quebrar a torcer, que é como quem diz, preferem sair a ver o que crêem fortemente ser distorcido. 

Arrastados por um programa político-ideológico edificado em favor dos bancos e outras instituições financeiras, os países europeus, em particular os intervencionados, recuperam velhos estigmas regionais e das sombras voltam a emergir as desconfianças que conduziram a Europa a duas guerras no séc. XX. Essa desconfiança que se deita no areal europeu fixa um "nós e eles" tão inoportuno quanto perigoso. Corre de boca em boca, cada vez mais sem rodeios, a proclamação de um IV Reich. O imperialismo alemão, agora pela via do capital, tem sob o seu jugo uma Europa do sul como espaço vital, entre as praias quentes e a mão-de-obra qualificada a preços de saldo, exportada por governos subservientes como o português que faz "heil" convicto a Berlim. "Orgulhosamente militantes" poderia ser o lema de Passos Coelho e Paulo Portas. 

É urgente dar um passo atrás para podermos dar dois em frente. É preciso rever os ideais que nos moveram após a segunda guerra mundial. É fundamental recriar o sentimento de pertença em cada cidadão, afastar a desconfiança, impedir uma guerra fria, evitar a edificação de muros ideológicos em torno de Berlim, e voltar a ver nos termos "cooperação", "desenvolvimento", "integração", "paz", "convivência", "rumo coletivo", palavras de ordem. A velha Europa precisa tomar a nostalgia de assalto e refazer-se, reinventar-se buscando o seus ideais mais antigos. Precisamos de um novo amanhã, nem que para isso voltemos a um maio de '68. 

Gregos e Troikanos

Junho 30, 2015

 1. O governo português está entusiasmado com a austeridade, dela fazendo bandeira e lema. A pertença à família ideológica de onde ela emerge tolda a visão, e na mistura com slogans vai parecendo que o programa de intervenção está a funcionar. Sabemos que não é bem assim. O grande programa do governo PSD-CDS era: controlo do défice e redução da dívida pública. Resultado: défice pseudo-controlado e uma dívida pública nos píncaros. Redução do desemprego? Sim, exportando a mão-de-obra ativa. 

2. Mas o que tem isto a ver com a Grécia? Bom, não teria nada não fosse lema de campanha da coligação o "não somos a Grécia". O que há, de facto, de diferente entre Portugal e a Grécia, é que a) não estivemos envolvidos numa mentira com a Goldman & Sachs envolvendo uma falsificação das contas públicas, b) o governo grego está nos antípodas do mainstream ideológico europeu. Ora, se o primeiro ponto diz respeito às dificuldades na recuperação económica, o segundo diz diretamente à aplicação de uma receita que vem provando toda a sua ineficácia. O problema da troika com os gregos é que o Syriza é o monstro debaixo da cama do liberalismo bancário que nos governa - há que o matar e colocar no seu lugar um fantoche, de preferência um clone do primeiro-ministro português, alguém que entenda que não há vida para além da troika, que não há amor maior do que o dos bancos, alguém que queira uma cadeira confortável num escritório escolhido a dedo, depois de ter cumprido o papel que lhe foi dado a desempenhar, e o qual levou a bom porto com tanto esmero. 

3. É claro que o Grexit será um problema para a Europa. É claro que a Grécia deverá passar um mau bocado, a menos que se vire para oriente e se torne um protetorado chino-russo. Mas não é isso que vai acontecer. Não é isso que a troika quer. O que a dita deseja, isso sim, é fazer vergar Tsipras, fazendo da Grécia um exemplo do que acontece a quem afronta o status quo, a quem não se verga perante o poder imperial da nova Roma. 

4. No entanto, devemos olhar outros horizontes. Qual foi o país que resolveu a sua falência em tempo recorde? A Islândia. E como? Recusando a troika e desenvolvendo um projeto alternativo que passava pelo reforço das relações em eixo com a Noruega, Dinamarca e Suécia. Trata-se, claro, de uma realidade geográfica, política, económica e cultural diferente, mas não deixa de servir de estudo-de-caso para um novo amanhã, mais humano, de preferência. 

5. Por fim, recordemos que um grande defensor da aplicação da austeridade, Jean-Claude Juncker, foi, enquanto primeiro-ministro luxemburguês, um ativo agente do capital, desenvolvendo estratégicas que permitiram às grandes empresas brutais fugas aos impostos. Ora, o que temos aqui é, sem dúvida, uma batalha ideológica entre um programa designado por austeridade que vai favorecendo as grandes empresas e em particular os bancos e penalizando os cidadãos como elos frágeis amarrados à impossibilidade de fugas limpas aos impostos, e um governo grego que anseia por um programa alternativo, que penalize menos os cidadãos e que traga as empresas ao cumprimento do seu dever, mesmo que se governe por ideias, em aspetos certos, radicais.

Ler Blogues #4.

Dezembro 27, 2013

Excelente exercício de justaposição entre "Música no Coração" e o estado do país em que nos encontramos, por João Gonçalves. Acrescentaria eu, na esteira do seu labor, que o ano que termina tem efetivamente sido feito de imagens extraídas deste clássico: a bandeira da troika hasteada por aí, uns que a recusam e a rasgam e em fuga pela noite fazem o caminho para o exílio pelas montanhas da Suíça e outras paisagens.

O que é a Austeridade?

Dezembro 12, 2013

Provavelmente a palavra mais utilizada ao longo do ano, seguida bem de perto por "troika", entrou nas nossas vidas como um velho conhecido que nos fazia de vítima nos tempos de escola ou como uma capa pastosa que se nos cola à pele e que não somos capazes de tirar com um prolongado duche. Mas o que vem a ser a austeridade? Programa político-económico levado a cabo pela troika nos países intervencionados, é fruto de um modelo ideológico de longue durée alicerçado numa conceção de sociedade hermética e bem definida, que no período da Idade Média se definia em Clero, Nobreza e Povo, e que ao longo da história foi sendo articulada em Nobreza, Burguesia e Operariado, e em Detentores do Capital e Proletariado. A burguesia, em rigor, representa uma variação do modelo, ao expressar as possibilidades da ascensão e mobilidade social simbolizadas no selfmade-man


Com o advento da industrialização, com a globalização, com a produção em massa, o crescimento económico e a emergência das possibilidades de consumo, as sociedades ocidentais viram o seu paradigma social alterado, com o surgimento de uma classe média que permitiu aos filhos, através dos estudos e de bens de consumo, a ascensão social. Ora, quando o capitalismo se tornou selvagem e as famílias se tornaram "chão que já deu uvas" -- endividadas até ao tutano graças a um programa bancário que as seduziu ao super-endividamento -- resurgiu a possibilidade de novo reajustamento social, em que o fosso económico se re-acentua e os remediados deixam o estado provisório de classe média. 


Fazer da pobreza realidade.

Outubro 21, 2013

O mundo está em mudança. Não necessariamente para melhor, entenda-se. A inexorabilidade do programa da troika é claro. O projeto do atual governo é claro. O empobrecimento generalizado é um programa bem definido, bem pensado. Nada do que está a acontecer o está por acaso. O ir além da troika tem apenas um objetivo: fazer da classe média um retrato do passado. Não há nada que insulte mais este governo do que a classe média, do que os filhos dos remediados que foram para a universidade, que estudaram e promoveram a sua própria mobilidade social. Esqueceram-se, contudo, de um dado fundamental e que levou Vítor Gaspar a fazer as malas e sair pela porta pequena: nenhuma economia sobrevive sem o consumo da classe média. Vão perceber tarde.

M'espanto às vezes, outras m'avergonho.

Outubro 19, 2013

Apetece-me dizer "M'espanto às vezes, outras m'avergonho" dos órgãos de soberania nacional. Já fiz questão de dizer que há um projeto de empobrecimento generalizado bem traçado. A destruição da classe média e a revitalização do modelo de sociedade do Estado Novo, em que um grupo privilegiado detém o capital e uma grande massa operária é fator de produção sobre o qual se edificam os anteriores; uma massa mal paga, precária, mas humilde e conformada. Pedro Passos Coelho já fez questão de afirmar que mesmo sem as grilhetas da troika esta seria a estratégia deste governo. Portugal, a reboque de um modelo europeu revivalista do pior lado da industrialização, tem no seu governo um fiel defensor do desmantelamento do Estado Social, da mobilidade social e das possibilidades de uma sociedade democrática. O governo não negoceia com a troika porque esta lhe serve bem os propósitos. As conquistas dos últimos anos estão propositadamente a ser depositadas numa incineradora. E quando Durão Barroso, altamente conivente com esta política europeia e portuguesa, se candidatar a Presidente da República convém que as pessoas se lembrem de que ele foi um dos que nos empurrou para o abismo quando estávamos a olhar o precipício. 

O nosso tempo ao raio-x.

Outubro 17, 2013

O período de incerteza que vivemos, em que o horizonte está bacento e imperceptível não é, contudo, difícil de explicar. As crises, todos sabemos, são cíclicas. Ao longo do séc. XX as mesmas foram resolvidas com guerras e consequentes planos de recuperação, dinamizando a economia e reerguendo a Europa a partir das cinzas. Hoje, diante do perigo do armamento nuclear, químico e de uma política de cooperação multilateral as guerras fazem-se na banca, na especulação e no mercado liberal. A emergência de novas potências, os acordos alemães, franceses e norte-americanos de exportação de tecnologia e da indústria automóvel obrigaram o Ocidente a abrir as portas aos produtos chineses a custos baixíssimos em função de uma mão-de-obra neo-escrava. As indústrias europeias foram, assim, assassinadas em favor de uma política temporária de um grupo de países.

A formação da União Europeia trouxe uma política agrícola e das pescas que, fabricada em Bruxelas, estrangulou as economias dos países do sul da Europa, com Portugal em particular enfoque. Os fundos europeus destinados ao desenvolvimento técnico foram distribuídos em compadrios e gastos levianamente, em automóveis, casas, estradas mil, equipamentos desportivos e culturais sem públicos, e tantos outros projetos loucos. Os bancos fomentaram o despesismo das famílias e empresas, à sombra de um paradigma de que o crescimento impõe a existência de dívida. Veio depois uma moeda única, que tratou a Europa como unidimensional e empurrou a esmagadora maioria dos países europeus para o sobreendividamento com um custo de vida insuportável - entre o escudo e o euro passámos a pagar o dobro e a ganhar o mesmo de sempre. 

Vinte anos volvidos de um capitalismo louco, de uma globalização desregulada, de projetos e ideologias tontas, estamos enterrados até ao pescoço. A austeridade que começou por ser a mãe de todas as virtudes - uma mãe com alzheimer que não sabe que a austeridade requer desvalorização monetária - rapidamente foi compreendida como a mãe de toda a miséria pelo FMI. A troika dos bancos e dos interesses alemães, contudo, mantém-se. O empobrecimento generalizado como projeto é cada vez mais claro, oferecendo aos países nobres da Europa mão-de-obra qualificada a preços de saldo. Enquanto isso os governos como o português caminham triunfantes para o suicídio. Ao menos afundam-se com orgulho. Os culpados da loucura dos anos 90 mantém-se nos governos e falam como se não tivessem estado lá. O povo esquece-se de tudo, a bem da euforia das campanhas, e volta a elegê-los. 

Sem dúvida que dentro de vinte anos - ou assim espero - os tempos que vivemos serão estudados como de loucura, em que os Estados condenaram as populações para salvar a banca, os bancos e determinados setores previligados e patrocinadores das campanhas. 

Alemães deixam Europa na Merkel.

Setembro 23, 2013

Os alemães votaram no que é melhor para eles, e neste momento o melhor para a Alemanha é a continuação de Angela Merkel. Infelizmente para o resto da Europa a continuidade da Chanceler, ainda para mais tão perto da maioria absoluta, é o pior dos resultados. O cenário fica mais negro com a iminente saída do FMI da troika, deixando esta entregue ao Banco Central Europeu e à Comissão Europeia, ambas estranguladas pelo projeto germânico. O capitalismo selvagem edificado sobre o umbigo do sistema bancário mantém-se, até ao extermínio final das sociedades em redor do espaço vital alemão. Uma repetição contínua a da história. 

Os eternos resgatados.

Setembro 17, 2013

A necessidade de um segundo resgate a Portugal é cada vez mais evidente. O velho plano gaspariano de "enorme aumento de impostos", a austeridade pela austeridade, o "ir além da troika", o estrangulamento da situação financeira das famílias, a subtração do poder de compra e do mercado, tudo em nome de um país livre da assistência financeira, foi afinal o já esperado grande embuste. O projeto ideológico do capitalismo selvagem marcado pelo sistema bancário é por demais evidente. Há uma moeda única mantida à força, fazendo de uma Europa assimétrica um espaço de tutela alemã, há uma Goldman Sachs a embalar os governos e as instituições internacionais, e uma loucura que assassina o Estado Social, que manda fazer as malas e emigrar, que devota a estabilidade social à precariedade em nome de um bem maior: o sistema financeiro. Há um problema maior que continua a ser varrido para debaixo do tapete, entregando uma geração ao desespero e à insustentabilidade. O capitalismo sem ética, o comércio sem regras, a globalização dos mercados, as agências de rating. Um mundo de loucos.

 

[quadro: "Jack the Ripper's bedroom", de Walter Sickert]