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A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

Micropost [23] | Pós-Democracia

Novembro 29, 2019

O processo de impeachment de Donald Trump revela de forma clara e evidente a extensão e a gravidade das ações de um homem que acredita ter comprado o país como quem compra uma empresa cotada na bolsa. Aquilo que outrora seria matéria mais do que suficiente para a destituição e a vergonha de uma nação, não conduzirá a nada. Os seus apoiantes tomam por normais as suas violações democráticas. Na era do cansaço da ética tudo é lícito a um certo tipo de pessoas. Teremos Trump por mais um mandato e a consolidação da era pós-democrática como paradigma vigente.

O novo velho eleitorado

Novembro 11, 2019

De Bolsonaro ao Chega, de Trump ao Vox, o que procuram as pessoas que neles votam? Considerando as diferenças próprias de contexto, a verdade é que há elementos comuns entre tais eleitores que formam um continuum, um conjunto agregado de motivações partilhadas. Tratam-se de pessoas ressentidas com a marcha dos tempos, descamisados da globalização e do multiculturalismo. São pessoas arreigadas a valores morais que reclamam ser socialmente inquestionáveis. Pessoas que procuram uma materialização política dos seus próprios preconceitos, galvanizados por discursos feitos de chavões que não precisam refletir factos, basta, apenas, que se colem ao que pensam para serem elevados a proclamadores de "verdades incómodas", não se importando que para ver os seus preconceitos ampliados na esfera pública legitimem revisionismos e atropelos à Democracia.

A limpeza da governação Trump

Novembro 16, 2017

Com efeito, Maria Teixeira Alves está certa em relação ao modelo político-económico e diplomático adotado por Donald Trump. O presidente norte-americano não apenas mantém um modelo já anteriormente privilegiado como não tem sido um cowboy nas relações internacionais. No entanto, olhar este ano de governo de Donald Trump apenas pela via económica é perigoso e, acima de tudo, preocupante, porque revela um pensamento acantonado (ou assim parece) à supremacia dos fatores económicos sobre os sociais. A agenda de Trump para o multiculturalismo, para a diversidade sexual, étnica e religiosa ficou bem clara com a supressão dessas pastas do site oficial da Casa Branca. A saída dos Estados-Unidos do acordo de Paris e a recusa de Trump em assumir uma agenda ecológica, rejeitando as alterações climáticas e defendendo a necessidade de aquecimento global -- o que aliás serve para garantir a estabilidade das indústrias poluentes que são a base económica da sua presidência -- são sintomáticas do perigo histórico do seu período à frente dos EUA. Por fim, as suas ligações à extrema-direita e ao KKK completam um quadro nada simpático, que só por teimosia se pode negar. 

Entender a emergência de Trump

Fevereiro 01, 2017

Não é por acaso que Donald Trump vem sendo comparado a Adolf Hitler. As trajetórias são, evidentemente diferentes, mas os traços de personalidade e a emergência da figura mais hedionda do século XX e do atual presidente dos EUA. Em primeiro lugar ambos são filhos de mães com historial determinante na configuração de personalidade dos seus filhos, num jogo articulado de complexo de Édipo. No caso de Hitler, a saúde débil de sua mãe foi fundamental na configuração de uma noção de impureza geneticamente instituída nos judeus. Ao mesmo tempo, situações de instabilidade política e económica foram essenciais para que emergissem nas sociedadesalemãe e norte-americana um sentimento de suspeição diante do "outro", haja visto que a alteridade requer uma maturidade psicológica e cultural maior que o preconceito, instinto primário. Na Alemanha da virada do pós-I Guerra Mundial, um sentimento de orgulho ferido e a emergência dos ideias antissemitas oriundos de Viena, foram essenciais para que Hitler emergisse como o líder que iria tornar a Alemanha grande, outra vez. Nos EUA pós-Obama, o primeiro presidente negro e mais à esquerda, onde o midwest mantém os seus valores conservadores e em que 20% da sua população considera que a escravatura nunca deveria ter terminado, onde a escolaridade é mais baixa e o conservadorismo religioso mais elevado, e com o agudizar do fenómeno do terrorismo islâmico, a emergência de um homem branco, rico, conservador e mediático, colou com as aspirações e receios dos americanos, em particular a franja descrita como redneck (trabalhadores rurais ou de baixo rendimento). No meio disto, tanto Hitler quanto Trump cavalgaram a onda, revelando-se oradores poderosos com distúrbios de personalidade, marcados pelo exacerbamento de personalidade. De um modo claro, Hitler e Trump apresentaram-se aos seus concidadãos como: líder eleito para guiar o povo eleito e tornar os seus países grandes novamente. Trata-se de uma narrativa poderosa, herdeira do messianismo bíblico, e que encontra eco nas crenças e aspirações mais profundas de pessoas com baixa capacidade crítica, com valores ultranacionalistas e extremamente religiosas. Não é, pois, de estranhar Donald Trump ter recebido o apoio do Ku Klux Klan. 

Em jeito de término, deixem-me dizer-vos algo assustador: o problema não é Trump. De uma forma ou de outra ele acabará por sair. O problema são estes milhões de pessoas que o colocaram lá, que permanecerão presas aos seus valores e que mais tarde ou mais cedo, no momento certo, colocarão no poder outro. O que é válido para Trump é válido para Le Pen e outros iguais. A ignorância tem muita força. Education is the key against oppression.