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A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

07
Out20

Micropost [60] Eleições Americanas

Segundo as sondagens Biden leva 16 pontos de vantagem sobre Trump. As notícias são boas, mas o facto de Trump ter informado que não reconhecerá as eleições caso perca, deixa tudo nas mãos do Supremo Tribunal, controlado pelos republicanos e onde ele irá colocar uma peça determinante. Poderemos estar prestes a ver os EUA perderem a Democracia. Eleger um egocêntrico patológico foi um péssimo serviço prestado ao mundo.

27
Set20

Micropost [58] Amy Coney Barrett

este é o nome escolhido por Donald Trump para o Supremo Tribunal, para substituir Antonin Scalia, falecido. Barrett é uma defensora da interpretação literal da Constituição norte-americana, opositora ao aborto, conservadora católica. Segundo Trump, vem garantir a liberdade religiosa no país, metáfora para dizer que vem defender uma visão religiosa da sociedade. O ST fica, definitivamente, desequilibrado em favor dos Republicanos, um partido tomado pela Oligarquia Trump, como se pode ver no último congresso do partido.

06
Ago20

Em desalinho com Ana Sá Lopes

No editorial do Público, escreve Ana Sá Lopes que "O improvável Joe Biden será, ao que tudo indica, o próximo Presidente dos Estados Unidos da América". Tenho pouca simpatia pelos wishful thinkings na análise política. Por vezes demais este tipo de raciocínio descambou em prognósticos desligados da realidade. Um deles foi, precisamente, o das eleições norte-americanas, quando ninguém dava a vitória de Trump como possível. É o problema de se pensar o mundo a partir do «lugar de fala» elitista - ele só existe na sua bolha e não tem aderência à realidade, muito mais multivocal. Recomenda-se prudência. Em primeiro lugar porque, como a jornalista pontua, Trump pretende adiar as eleições. Esta é uma estratégia, obviamente, que visa a perpetuação no poder pelo tempo que lhe for "democraticamente" impossível. Além disso, apesar dos efeitos económicos da covid-19, a verdade é que a América não pode ser pensada a partir dos Estados urbanos, mas antes precisa ser vista a partir da sua dimensão multipolarizada, uma vez que os Estados do midwest e do eleitorado "redneck" tende a reagir de forma agressiva em tempos de crise económica, voltando-se ainda mais para os seus valores ultraconservadores. Ora, Trump continua a ser a pessoa que melhor representa esse manual de valores que vão do racismo, ao ultranacionalismo, passando pelo machismo e pelo conservadorismo religioso. 

Quanto à possibilidade de Michelle Obama surgir como número 2 de Biden, compreendo os argumentos de Ana Sá Lopes, mas também aqui estou em desacordo, uma vez que a administração Obama foi, ainda, em tempo recente, e isso pode ser aproveitado por Trump. Além do mais, Michelle tem capital político e intelectual para surgir, numa futura eleição, como candidata presidencial, pelo que nesta fase estaria a esgotar tais recursos. Melhor seria um endorsement without commitment

11
Jun20

Um desserviço à Democracia

O Observador traz um fact check relativo a imagens em que Trump aparece a segurar a Bíblia da mesma forma que Hitler, como se o ponto fosse esse. Que triste mundo de infantilismo e fanatismos. De que serve à Democracia que radicais de Esquerda associem Trump a Hitler? O efeito é, sempre, o contrário, descredibilizando as condenações legítimas a Trump e reforçando a paranóia de vítima de perseguição. O ato de mandar dispersar uma manifestação pacífica para realizar uma caminhada triunfal e exibir uma Bíblia é, já de si, um momento horripilante e uma vilania para com a Democracia. Se isso por si só não chega para da Esquerda à Direita gerar indignação democrática então a Democracia está em coma induzido.

19
Mar20

Micropost [38] | E depois do vírus?

O tempo é, ainda, de modo periclitante, de combate, mas podemos começar a levantar dúvidas sobre o pós-crise. O tempo que daí advirá terá similitudes com um tempo de pós-guerra, demandando por um novo Plano Marshall global, exigindo líderes fortes, capazes, audaciosos e humanistas. Sabendo do lugar que os EUA ocupam na geopolítica, o sucesso da recuperação económica mundial poderá estar em causa com uma liderança como a de Trump.

15
Mar20

Micropost [36] | Trump-19

Como um mal não vem só e tudo está interligado, preocupa-me os efeitos do covid-19 nos EUA e, por arrasto, no planeta. Um país cujo presidente primeiro nega, depois desvaloriza para depois declarar emergência nacional, onde não existe sistema nacional de saúde, poderá cair numa espiral de descontrolo. Pior, Trump poderá aproveitar o momento para suspender as eleições e fazer uma campanha de demonização da China com teorias da conspiração num país cheio de fanáticos pelo imaginário do Apocalipse.

29
Nov19

Micropost [23] | Pós-Democracia

O processo de impeachment de Donald Trump revela de forma clara e evidente a extensão e a gravidade das ações de um homem que acredita ter comprado o país como quem compra uma empresa cotada na bolsa. Aquilo que outrora seria matéria mais do que suficiente para a destituição e a vergonha de uma nação, não conduzirá a nada. Os seus apoiantes tomam por normais as suas violações democráticas. Na era do cansaço da ética tudo é lícito a um certo tipo de pessoas. Teremos Trump por mais um mandato e a consolidação da era pós-democrática como paradigma vigente.

11
Nov19

O novo velho eleitorado

De Bolsonaro ao Chega, de Trump ao Vox, o que procuram as pessoas que neles votam? Considerando as diferenças próprias de contexto, a verdade é que há elementos comuns entre tais eleitores que formam um continuum, um conjunto agregado de motivações partilhadas. Tratam-se de pessoas ressentidas com a marcha dos tempos, descamisados da globalização e do multiculturalismo. São pessoas arreigadas a valores morais que reclamam ser socialmente inquestionáveis. Pessoas que procuram uma materialização política dos seus próprios preconceitos, galvanizados por discursos feitos de chavões que não precisam refletir factos, basta, apenas, que se colem ao que pensam para serem elevados a proclamadores de "verdades incómodas", não se importando que para ver os seus preconceitos ampliados na esfera pública legitimem revisionismos e atropelos à Democracia.

16
Nov17

A limpeza da governação Trump

Com efeito, Maria Teixeira Alves está certa em relação ao modelo político-económico e diplomático adotado por Donald Trump. O presidente norte-americano não apenas mantém um modelo já anteriormente privilegiado como não tem sido um cowboy nas relações internacionais. No entanto, olhar este ano de governo de Donald Trump apenas pela via económica é perigoso e, acima de tudo, preocupante, porque revela um pensamento acantonado (ou assim parece) à supremacia dos fatores económicos sobre os sociais. A agenda de Trump para o multiculturalismo, para a diversidade sexual, étnica e religiosa ficou bem clara com a supressão dessas pastas do site oficial da Casa Branca. A saída dos Estados-Unidos do acordo de Paris e a recusa de Trump em assumir uma agenda ecológica, rejeitando as alterações climáticas e defendendo a necessidade de aquecimento global -- o que aliás serve para garantir a estabilidade das indústrias poluentes que são a base económica da sua presidência -- são sintomáticas do perigo histórico do seu período à frente dos EUA. Por fim, as suas ligações à extrema-direita e ao KKK completam um quadro nada simpático, que só por teimosia se pode negar. 

01
Fev17

Entender a emergência de Trump

Não é por acaso que Donald Trump vem sendo comparado a Adolf Hitler. As trajetórias são, evidentemente diferentes, mas os traços de personalidade e a emergência da figura mais hedionda do século XX e do atual presidente dos EUA. Em primeiro lugar ambos são filhos de mães com historial determinante na configuração de personalidade dos seus filhos, num jogo articulado de complexo de Édipo. No caso de Hitler, a saúde débil de sua mãe foi fundamental na configuração de uma noção de impureza geneticamente instituída nos judeus. Ao mesmo tempo, situações de instabilidade política e económica foram essenciais para que emergissem nas sociedadesalemãe e norte-americana um sentimento de suspeição diante do "outro", haja visto que a alteridade requer uma maturidade psicológica e cultural maior que o preconceito, instinto primário. Na Alemanha da virada do pós-I Guerra Mundial, um sentimento de orgulho ferido e a emergência dos ideias antissemitas oriundos de Viena, foram essenciais para que Hitler emergisse como o líder que iria tornar a Alemanha grande, outra vez. Nos EUA pós-Obama, o primeiro presidente negro e mais à esquerda, onde o midwest mantém os seus valores conservadores e em que 20% da sua população considera que a escravatura nunca deveria ter terminado, onde a escolaridade é mais baixa e o conservadorismo religioso mais elevado, e com o agudizar do fenómeno do terrorismo islâmico, a emergência de um homem branco, rico, conservador e mediático, colou com as aspirações e receios dos americanos, em particular a franja descrita como redneck (trabalhadores rurais ou de baixo rendimento). No meio disto, tanto Hitler quanto Trump cavalgaram a onda, revelando-se oradores poderosos com distúrbios de personalidade, marcados pelo exacerbamento de personalidade. De um modo claro, Hitler e Trump apresentaram-se aos seus concidadãos como: líder eleito para guiar o povo eleito e tornar os seus países grandes novamente. Trata-se de uma narrativa poderosa, herdeira do messianismo bíblico, e que encontra eco nas crenças e aspirações mais profundas de pessoas com baixa capacidade crítica, com valores ultranacionalistas e extremamente religiosas. Não é, pois, de estranhar Donald Trump ter recebido o apoio do Ku Klux Klan. 

Em jeito de término, deixem-me dizer-vos algo assustador: o problema não é Trump. De uma forma ou de outra ele acabará por sair. O problema são estes milhões de pessoas que o colocaram lá, que permanecerão presas aos seus valores e que mais tarde ou mais cedo, no momento certo, colocarão no poder outro. O que é válido para Trump é válido para Le Pen e outros iguais. A ignorância tem muita força. Education is the key against oppression.